"FÉNIX"

Colectânea Literária

POESIA

 
   
   
 

APEGO


Como um cão
farejo o teu caminho
paisagem – perfil – redemoinho
pego os dias
e o extremo de meus dedos
tocam-te
o amor – no livro nu se revela
e os lábios a sorrir
bela na tela – hálito e garra
como um cão
sigo-te:
no silêncio do elevador
chuva
suor
língua e o meu apego a ti se agarra.

Alberto Araújo

 
   
   
 

A CHAMA EXATA


É dentro de mim
que essa chama se revela
é dentro de mim
que essa chama se exalta
é dentro de mim
que essa chama vira paisagem
é dentro de mim
que essa chama vira cidade
é dentro de mim
que essa chama vira voracidade.

Alberto Araújo

 
   
   
 

O EU SUBMETIDO


Numa tarde fria................sem sobejo – e voz de pai
– somente o ósculo e desejo
que pela rua se vai– VAI – VAI
o cão ao sair de casa
farejou a coluna que ergue
a arquitetura – o santo sudário
o violino
Deuses seminus
e a túnica prende a alma,
labaredas trespassadas trespassam
e ao avesso do adeus, arpões de um
suntuoso destino
consigo uma caixa
contém os versos, a fala
e os retalhos de um coração peregrino
na medida exata
que o corpo desce do avião
– um punhado de areia – atropela
o poeta nordestino
aquilo tudo
era imensurávelmente novo –
e do novo nasce uma estrela
e na cortina preta do aeroporto
a Deusa à espreita – quanto mais
seus olhos ficavam admirados,
mais era o descabido desatino
o fulgor do relógio,
a volúpia queimando o desejo
e o taxi foi se abrindo
edifícios altos,
um rio enorme quase sumindo
e sobre este rio uma fotográfica ponte
escancaradamente sorrindo
alegria contagiante,
um som se consumindo
– foi assim que a boca vermelha
disse: tire as calças,
e os sapatos apertados,
meu grande amor

:
seja bem-vindo.

Alberto Araújo

 
   
   
 

REFLETIDO AMOR


O amor
é o reflexo alagado
de um rio – é onde
mato minha sede
maravilhoso, insistente sol
na limadura da vidraça acesa
refletido amor
bebes de si – e a mim
treliça todo o teu incêndio
pelo o impossível do arco e flecha
canção e lampejo.

Alberto Araújo

 
   
   
 

APELO (sustentáculos)


Fazer-se saber
do apelo virgem
da lua
:
reverenciando-a diante
da folha nua
e na tela da exata folha
a velar no verde
no altar – no mar
a tarde cai
eu, você no bar
o piano – o abajur a meia luz
– o desejo traduz:
o desejo tem um beijo
e
sempre na certeza que o verão virá
tudo será fotografia
a lua em perfil – pose
e de farol aceso
no silencioso dia.

Alberto Araújo

 
   
   
 

EU POESIA


A minha colcha
é de cetim, tão bela
e os bordados externos são de marfim
a minha casa
é de linho branco, tão elegante
e a calda vem da tecelã nordestina
a minha asa
é de poesia, tão larga
e de alecrim se ilumina
a minha voz
é de rio claro, é tão verdadeira
inesgotável até a beira.

Alberto Araújo

 
   
   
 
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