"FÉNIX"

Colectânea Literária

POESIA

 
   
   
 

O AMOR (pela a quarta vez)


O amor
é (in) compreensível?
é imediato? – de fato – no ato
desatado vento que arde na maresia
O amor
pode ser belo
e jamais perder a pose
O amor
é livre – pode caminhar
sem âncora, no vento – no vento
no dedo sem anel – no livro nu – cata-vento
Surgir da sala escura
e tomar posse
da carne dura
O amor
é um peixe ensanguentado
um ramo de alecrim
uma camisa encharcada
um contentamento.

Alberto Araújo

 
   
   
 

REINO DE DEUS


Ainda pouco
falei com Deus
ele disse:
vai Antônio
segue o desfiladeiro
leva o teu piano
a palavra exata na boca
o teu único cordeiro
acima de tudo
falas ao teu parceiro
que sou a alvenaria segura
o verso dos versos do poeta
o algodão da misericórdia
o casulo exato que te veste inteiro
a luz perfeita
a colmeia na alma entristecida
o amor que não se amarrota
o trigo e o arco certeiro
na casa desarrumada
podes aprumá-la
é lá que mora a supremacia
do meu eterno reino.

Alberto Araújo

 
   
   
 

BEIJO NA BOCA


A boca beija a língua
e na explosão contínua
da língua na boca – o poema arde
e na intensidade
acende-se um desejo
– desejo de ser fósforo
ávido desejo
(in) contido – refletido
o beijo
é o alimento
que a boca sedenta
beijo na boca
é puro incêndio – experimenta.

Alberto Araújo

 
   
   
 

CAMISA BRANCA


Amo a paisagem
que me adunca
como uma camisa
ama o paletó – e a
mãe ao filho que não deixa nunca
mas o rapto inconsumível
arrasta a boca que me beija
a língua que ecoa
o carinho que em mim sobrevoa
sim, um minuto! – apenas em um minuto
ou menos – dilatadas palavras deslaçam
os cadarços dos mapas – e o plano desabotoa
e tudo que é resina
é cortada – e a afiada e alinhavada palavra
emagrece os ossos
mas acima
do trânsito engarrafado
eu amo os braços que me ensaboam.

Alberto Araújo

 
   
   
 

LUZ DO DIA


O degrau dorme
e a boca arranha a garganta
a colmeia é uma chama
que emerge do chão lúcido
e a parede não fere a vírgula
tampouco o vestido azul
o silêncio está
por trás da persiana
– Senhor Deus!
coroa os peixes – e os pássaros
estou sentado à mesa
e nada há de faltar-me
o pão, a água
a luz do dia
e no livro sagrado proteges
a folha pura que me ama.

Alberto Araújo

 
   
   
 

SENTIMENTOS


Está aqui
na melodia – fotografia
maravilhas, paletó
e calcanhar – arte de amar
sem assombro
sentimentos, dos fios
de cabelo
ao grande punho
o POEMA.

Alberto Araújo

 
   
   
 
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