COLECTÂNEA LITERÁRIA

NOVELAS

 

 

Ary Franco

 

ÍNDICE

MEU AMOR ETERNO

 

DE VOLTA AO ÉDEN

Pág. 4
 

Richard S Johnson

 

MEU AMOR ETERNO

 

MEU AMOR ETERNO
Ary Franco (O Poeta Descalço)

PRIMEIRA PARTE


Sábado à noite de um janeiro distante, engraxo meus sapatos pretos, capricho no nó triangular da gravata e no penteado, visto meu terno azul marinho e lá vou eu devidamente perfumado, feliz da vida, coração desprevenido, rumo a mais um baile no Clube do bairro, do qual era associado. Chego pontualmente às 20:00h e encontro vários amigos e colegas a conversar. O baile ainda não começara...
Distraidamente meu olhar atravessa o salão e vejo Kátia e Magda, freqüentadoras assíduas do Clube, conversando com uma linda estranha. Atraído como um imã, vou ao encontro delas. Após meu boa noite, sou apresentado àquela moça que atraiu minha total atenção no primeiro olhar.
Disse-me chamar-se Margarida e eu respondi com um galanteio achando o nome adequado para ela, uma flor perfeita. Notei um certo rubor em sua face. Nesse instante a vitrola começa a tocar em disco compacto Unforgettable cantado pelo Nat King Cole. (Exatamente a música que faz o fundo musical desta minha reminiscência). Convido-a para dançar e ela aceita de imediato.
Aquele contato com seu corpo fez meu coração bater acelerado, o perfume exalado de seus sedosos cabelos encantou-me de vez. Cautelosamente encostei meu rosto ao dela, perdendo a visão de seus lindos olhos azuis. Pareceu-me que dançava com uma pluma, tamanha era nossa cumplicidade na desenvoltura de nossos passos dançantes. Perguntei-lhe num sussurro por onde estava ela todo esse tempo, que somente agora me aparecia. Respondeu-me que morava em Paraíba do Sul e que estava passando as férias da faculdade na casa da Magda, entregue aos cuidados de Da. Rosária, mãe da sua amiga. Também falou que me viu, um dia antes saltando do bonde e que me achou muito bonito.
Quando ia agradecer o elogio, inopinadamente, tocam-me no ombro pedindo licença para dançar com o meu par. Imediatamente avisei que éramos “par constante”. Isso se repetiu por três vezes e eu expliquei pra minha querida e já amada que ela agora não poderia dançar com mais ninguém, a não ser eu. Ela sorriu, manifestando um espontâneo agrado.
Daí em diante já não dançávamos mais. Ficamos enlevados num abraço, parados no mesmo local do salão e embalando nossos corpos ao compasso da melodia das músicas românticas tocadas em discos trocados pelo encarregado “Seu Elias” (naquele tempo, 55 anos atrás, não existia o tal do “disk jockey). Sem conter-me, beijei-lhe o rosto e ela nada disse.
Segurei-a pela mão e, o mais delicado possível, conduzi-a, entre os pares dançantes aos jardins do Clube. Silentes e de mãos dadas, sentimos a brisa fresca, o perfume das flores, contemplamos o céu estrelado, e o luar a nos banhar acabou por levar-nos a trocar um inevitável beijo. Ainda aconchegada em meus braços, disse-me a coisa mais surpreendente que poderia ouvir naquele sublime momento: “Estou com 20 anos de idade, nunca tive um namorado e este é o primeiro beijo de amor que recebo”. Pasmo fiquei e ela foi além, contando-me que tinha cinco irmãos, todos homens, e que era muito vigiada na cidade em que morava. O pai é um fazendeiro muito severo e rígido na educação dos filhos. Até na faculdade (ela fazia veterinária, por escolha dele) era observada por dois irmãos que lá estudavam.
Beijei-a outra vez com mais ardor, bocas entreabertas, lábios sequiosos e línguas entrelaçadas. Pareceu-me que, já de há muito, ela aguardava por este momento. A música do salão chegava até nós, completando um clima quente de ávida e mútua paixão. Nossa respiração ofegava, pedindo muito mais do que aqueles beijos trocados. A voz de Magda se fez ouvir, dizendo que estava na hora de irem. O mundo parou de girar. Disse que iria acompanhá-las até em casa; ledo engano: o pai de Magda já estava esperando na porta do Clube para levá-las. Peguei às pressas o endereço dela e combinei um cinema para a tarde do dia seguinte (domingo).
Devidamente escoltada por Kátia e Magda, não assisti o filme, afogado nas profundezas do azul daqueles olhos e da maciez dos lindos cabelos de Margarida. Pareceu-me que ela também não se interessou muito pelo filme e nos perdemos em duas horas de puro romance. De volta à casa, marcamos para a noite do dia seguinte, encontro no portão e assim foi feito. Eu estava nas nuvens e por elas fui levado levitando ao seu encontro.
Da. Rosária ficava na varanda, atenta a todos os nossos movimentos e o máximo que fazíamos era conversarmos de mãos dadas. Às 22:00h “nossa vigia” dizia que estava cansada e que era melhor eu ir embora. Assim, foi nas noites seguintes, até que numa santa quinta-feira choveu e fui convidado por Da. Rosária a ficar na varanda. Sentamos, eu e Margarida, num balanço para dois com duas enormes lâmpadas acesas iluminando-nos inconvenientemente. Assim mesmo, de 10 em 10 minutos, Da. Rosária vinha oferecer-nos cafezinho, biscoitos, refrescos, sucos, etc... Estratrategicamente beijavamo-nos a cada vez que ela acabava de afastar-se. Tudo era um convite ao romance, até a chuva inclemente que caía e da qual nos abrigávamos. Sem misericórdia, às 22:00h, fui convidado a retirar-me pela Da. Rosária, vil tirana desalmada.
No sábado seguinte, previamente combinados, voltamos ao baile. Cheguei mais cedo e pedi ao “Seu Elias” que colocasse o Unforgettable para tocar, logo no início. Assim foi feito e revivemos momentos felizes e juras de amor eterno foram novamente trocadas.
Na quarta-feira, Da. Rosária pregou-nos uma peça... Ela fingiu se afastar e voltou de imediato e nos flagrou beijando-nos. Margarida, já pra dentro! Amanhã você volta para Paraíba do Sul, pois não quero arranjar encrenca com seu pai. Jurei em falso que não mais iria fazer aquilo outra vez, mas de nada adiantou. No dia seguinte não fui trabalhar e de manhã cedo dirigi-me à casa de Magda para saber a que horas iriam pegar o ônibus. Magda, em pânico, disse-me: corre Ary, elas já foram para a rodoviária mas tenho um bilhete aqui para você, tome. Peguei um táxi e cheguei primeiro que ambas. Antes, no trajeto, li o bilhete que nada dizia; tinha apenas um endereço.
Mais tarde elas chegaram e dirigi-me à Margarida sob o olhar mortífero de Da. Rosária. Passagens compradas, fomos de mãos dadas à plataforma de embarque. Margarida disse-me aos sussurros que tinha deixado com a Magda o endereço de uma amiga, pra que eu pudesse escrever-lhe todos os dias. Já estou com ele aqui no meu bolso, respondi. Nisso, o ônibus encostou e “minha algoz” entrou e sentou-se na poltrona reservada à ela e ficou olhando-nos pela janela. Beijei Margarida, ambos com lágrimas de emoção descendo pelos nossos rostos. Debruçada na janela acenamos nossos adeuses até sumirmos no horizonte de nossa dorida separação.

 

SEGUNDA PARTE



Voltei para casa, faltando-me o chão para pisar. Coração vazio, despedaçado, querendo continuar a chorar mas contive-me.
Lembrei-me do endereço no meu bolso, tranquei-me no quarto e escrevi minha primeira carta, dando início a um longo romance epistolar com Margarida. Algumas vezes escrevia-me ela, desenhando dois corações atravessados por uma flecha, simbolizando a união de nosso querer apaixonado.
Passados dois meses, disse-lhe que iria à Paraíba do Sul para vê-la pois já não conseguia armazenar tanta saudade dentro de meu peito. Sentia meu coração sem mais espaço para continuar a bater. Iria sucumbir a permanecer nossa separação. Ela assustada, disse-me que não fizesse isso, não podia! Então avisei-a que iria no próximo domingo e que me encontrasse na pracinha principal às 16:00h.
Naquela época ainda trabalhava aos sábados até o meio dia mas já, com a passagem comprada para voltar na segunda-feira no primeiro ônibus, parti rumo ao encontro da minha amada ao sair do trabalho. Cheguei ao destino com uma pequena maleta contendo o essencial para troca de roupa e higiene pessoal. Pertinho da rodoviária havia uma pousada.
Depois de instalado, já ao chegar da noite, fui procurar um lugar para comer alguma coisa, antes de dormir e conhecer um pouco da cidade. Na volta tomei um banho (o banheiro ficava no fundo do corredor) e procurei conciliar o sono.
De manhã cedinho perguntei ao porteiro onde ficava a praça principal e ele disse-me que “não tinha errada”. Era só seguir a calçada da direita e “quebrar” a primeira à esquerda. Fui até lá fazer um prévio reconhecimento do terreno. Almocei, descansei, troquei de roupa e fui para a praça. Cheguei por volta das 15:30h, sentei num banco e esperei, com o coração palpitando em descompasso cada vez maior, a cada minuto passado.
Um pouquinho depois das 16:00h vejo Margarida chegar acompanhada de uma amiga. Domino meu ímpeto de correr ao seu encontro e abraçando-a, cobri-la de beijos. Ao me aproximar ela me estende a mão protocolarmente e vejo em seu semblante uma certa apreensão. Cumprimento a sua amiga (era uma acompanhante, empregada da fazenda) e convido-as a andar um pouco em torno da praça, muito freqüentada por toda sorte de pessoas.
Pouco tínhamos de novidades a contar já que nossas cartas trocadas tudo já haviam dito. Procuro agarrar sua mão e ela disse que não, pois alguns irmãos dela estavam na praça. Inconformado, forcei e ela acabou cedendo-me a mão gelada e tremendo. Apertei-a com força e demos várias voltas conversando amenidades. Ela disse-me com voz nervosa que já tínhamos passado várias vezes pelos seus irmãos e que eu deveria tomar cuidado. Sorri, tentando acalmá-la.
Sentamos, nós três num banco desocupado e continuamos a conversar até as l8:00h, quando ela disse-me que tinha que voltar pra casa e desejou-me boa viagem de volta. Decepcionado fiquei, sem um único beijo trocado, e voltei à pousada. Já estava no quarto, quando o porteiro foi me chamar, avisando que tinha visitas pra mim, esperando-me lá na portaria. Intrigado desci e fui ver do que se tratava. Eram dois homens trajados como vaqueiros e foram diretos ao assunto: “Moço da cidade, se você voltar aqui, terá que conversar com nosso pai”. Viraram as costas e foram embora.
Perguntei ao porteiro se ele conhecia as “figuras” e ele disse-me que eram filhos do “Coronel Benjamim”, praticamente dono da cidade. Ele é quem escolhia o Chefe de Polícia, mandava e desmandava. Aí perguntei se ele só tinha aqueles dois filhos e ele respondeu-me o que já imaginava e temia. Tinha mais três filhos e uma filha. Mesmo com medo da resposta, indaguei o nome da filha e ele respondeu à queima-roupa: Da. Margarida!
Pedi a ele que me acordasse às 5:30h pois ia viajar no primeiro ônibus do dia seguinte. Mas não consegui dormir e já estava pronto e de maleta feita quando ele bateu na porta do meu quarto. Cochilei na viagem, mesmo com o sacudir do ônibus e do desalento que me assomava a alma.
Fui direto pro trabalho e no final do dia voltei pra casa. Passaram-se quatro dias e recebi uma carta, dizendo-me que cometi uma temeridade indo naquela praça e escrevi-lhe contando das “visitas” recebidas e que estava determinado a falar com o pai dela. Pânico total! Disse que preferia fugir comigo! Expliquei que por amá-la demais, não cometeria tal desatino pois só tinha para dar-lhe uma cabana e um amor. Falando com o pai dela, talvez o convencesse a esperar até formar-me em Letras e depois casarmos.
Pedi que ela informasse da minha determinação ao irmão “grandão” que esteve na pousada e que ele providenciasse o encontro com o Coronel. Estaria lá em Paraíba do Sul no segundo domingo próximo vindouro e que não leria suas cartas chegadas, até aquele dia marcado.
Chegaram duas cartas e coloquei-as fechadas no meio de uns livros que tinha no meu quarto. E lá cheguei eu, de novo, na pousada, no sábado anterior ao domingo do encontro. Comentei com o porteiro sobre o que iria fazer no dia seguinte e ele, meio espantado, disse-me: “não leve a mal moço, mas deixe sua estadia paga antes de fazer esta loucura”. Dei um sorriso meio amarelo, quase de pânico, mas a força de meu amor falou mais alto e abasteci-me de coragem suficiente para o suposto desatino.
Quando desci na manhã seguinte, por volta das 7:30h, indaguei do porteiro como ia fazer para chegar na tal fazenda do coronel Benjamim. Ele apontou uma charrete parada na porta da pousada e disse-me: “a condução já está à sua espera; boa sorte!”.