"FENIX"

Colectânea de Poesia

SONETOS

 

 

 

ATITUDE
© Márcia Sanchez Luz


Não gosto de falar do que é banal
nem sei gostar do paladar imposto
(que altera a face do sabor composto
da vida em sua forma natural).

Não gosto de falar do que é causal
se não puder sanar o mal exposto;
nutrir a dor que transfigura o rosto
é perigoso, além de irracional.

Na vida busco sempre alternativas
que me assegurem o pulsar das veias
e me garantam sobras, se à deriva.

Assim o vento chega como brisa,
a dor imensa fica suportável
e a causa do tormento se ameniza.

Márcia Sanchez Luz

 

 

POESIA
© Márcia Sanchez Luz


Vem pra cá, minha Poesia!
Diz-me o que devo fazer
durante estas noites frias,
quando é difícil viver!

Traz de volta o som que havia
nas notas do alvorecer,
nos semitons de outros dias
que me faziam vencer

manhãs de rondas infindas
(entre emoções e razões)
dentro de meu existir.

E assim o dia que brindas
será de intensas paixões
num corpo inteiro a sorrir.

Márcia Sanchez Luz

 

 

ALZHEIMER
© Márcia Sanchez Luz


O olhar distante, a fala deprimida,
uma canção antiga na vitrola,
a busca inútil no vazio da vida
que traz no vento a dor que desconsola.

Chegando a noite veste a camisola
e nutre a espera, como se fingida
fosse em querer lembrar porque se isola
de um mundo onde a memória é já perdida.

De manhã cedo os pássaros deslizam
por sobre seu jardim para avisar
que o dia que chegou é na verdade

um tempo onde a palavra é só saudade
de um astro que não pode mais brilhar.
Recordações agora se anarquizam...

Márcia Sanchez Luz

 

 

FALAS FRIAS
© Márcia Sanchez Luz


O sol da tarde no verão dos dias
esconde a escuridão que a noite oferta
e acalma a sensação em mim desperta
de pesadelo frente a falas frias.

São só palavras, sei (de mim não rias)
mas que machucam se têm mira certa
e acabam por deixar-me sem coberta
quando te afastas e o carinho adias.

Podes até dizer que sou carente,
podes supor também que é diferente
a forma como expresso o meu sentir.

Por fim a luz da noite apaga o medo
pois que lutei demais e o sono chega
trazendo trégua até de manhã cedo.

Márcia Sanchez Luz

 

 

“EU TENHO UM SONHO...”
© Márcia Sanchez Luz


Sou vida, sou maduro e acrobata
num mundo onde a inocência não tem vez
e que perante a intriga, mesmo inata,
procura destruir a insensatez.

Do negro sou baliza que reata
dessemelhantes na feição, na tez.
Da lida autoritária autodidata,
sou eu voraz vilão de mês a mês.

Sou fonte de ideários, sou atleta
na luta contra a discriminação
que faz de nossas peles tamborim.

Racismo é fato vil, é coisa abjeta:
semeia temporais no coração.
Sou Martin, eu sou Luther, eu sou King!

Márcia Sanchez Luz