"FENIX"

Colectânea de Poesia

SONETOS

 

 

 

BILHETE DE JULIETA
© Márcia Sanchez Luz


Por que você partiu sem me contar
que o fim estava próximo e que nós
não poderíamos nos ver após
a cotovia, lúgubre, cantar?

Não foi de fato amor de acarinhar,
nem foi de fato amar de amor feroz.
Da forma como veio, assim veloz,
partiu e me deixou sem me acordar.

E agora o que fazer sem seu carinho
para acalmar a febre em sonhos meus?
Não quero mais ninguém em nosso ninho.

Eu sei – a vida é assim –, dirá quem ler,
mas não sei mais o que fazer, meu Deus!
Como é difícil deste amor morrer!

Márcia Sanchez Luz

 

 

CONTRADANÇA
© Márcia Sanchez Luz


Sou feito a bailarina que descansa,
entregue após a valsa que entristece
e que a faz, sorrateira em esperanças,
refrear o desejo que emudece.

Tão pouco sei de mim e de você!
(Do riso pulsa a veia latejante)
O espelho em que me vejo é tão clichê!
Reflete até o espaço itinerante!

Assim, quando acordar da contradança,
aguardarei o olhar que me envaidece
e que me faz corar e me enternece.

E entardecendo a dor que não fenece
meus olhos, de cansaço, vão se unir.
À espera, movimento não padece.

Márcia Sanchez Luz

 

 

DOCE ABRIGO
© Márcia Sanchez Luz


Em tudo existe uma centelha acesa,
uma palavra vã, envolta em presa.
Em noite leve, o teu luar prepara
sabor de afeto, de beleza rara!

Ai quem me dera se na noite afora
teu canto amigo me trouxesse agora
um doce abrigo nessa vida amarga
que de tristezas nem a paz se alarga!

Seria decerto uma tarefa árdua
de efeito incerto, porém valiosa
essa empreitada comumente airosa!

E ainda assim, pela incerteza farta,
Trago-te a rima que me atrai, ciosa
de tua proeza assim tão dadivosa!

Márcia Sanchez Luz

 

 

ESCREVER
© Márcia Sanchez Luz


Escrever é sorver a dor aos poucos,
é contar a si próprio o que bem sabe,
mas que aflige demais! Por ser tão louco,
faz que a alma, em torpor, logo desabe.

É cruel falar sobre o que machuca!
Mais cruel, entretanto, é não sentir
o que a vida oferece: pura luta
entre o ser complacente e o insurgir.

Se escrever é dar forma a certa ausência
na calada da noite ou mesmo dia,
vou seguir exaurindo a desavença.

Eis portanto o que faz a diferença
entre aquele que vive e contagia
e o que não sente a vida assim intensa.

Márcia Sanchez Luz

 

 

SONETO A FERNANDO PESSOA
© Márcia Sanchez Luz


Não, não digas nada! Por ti sublimo
a voz que cala e silencia a dor
e me destrata e faz da vida a cor
de uma tristeza vã que ora reprimo.

Em cada flor despetalada ao som
dos colibris em cio assim no alvor
espelho à sombra o teu formoso dom
de sentir muito além de teu sabor.

Suponho então que me dirias ser
da noite o vento que alivia o ardor
e a chuva em pranto com seu bendizer.

Não ser poeta é não sentir a dor
de estar na vida e não engrandecer
a nobre audácia que nos faz viver.

Márcia Sanchez Luz