"FENIX"

Colectânea de Poesia

SONETOS

 

 

 

ÉTICA VERSUS ESTÉTICA
© Márcia Sanchez Luz


Se tu te declarares um esteta,
provoco-te com meu delineador,
delineando as curvas mais diletas
de teu abecedário apicultor.

Se por ventura fujo da dieta,
não abro mão de meu compilador;
converto teus enganos em facetas
piores do que o mais devastador.

Proponho que façamos um contrato:
mostra em teu corpo a face mais bonita
que escondes na carcaça que te habita.

E para sermos justos neste trato,
faço de mim a lícita guarita
de teus temores, tua fé finita.

Márcia Sanchez Luz

 

 

CICATRIZES
© Márcia Sanchez Luz


O que foi dito, amor, já está guardado,
virou história que magoa em vão.
E se as palavras voam, na emoção
meu coração pranteia, amargurado.

O que ficou no meu sentir gravado
é pensamento em plena ebulição
que nem por força, nem por ablação
consegue reduzir o desagrado.

Pro que foi dito não há mais remédio,
pois que o elixir que abranda não demove
o mal que me causaste - que agonia!

E se o perdão aliviasse o tédio
que sinto (mesmo que da dor só prove)
estejas certo, é tudo o que eu faria!

Márcia Sanchez Luz

 

 

FRENESI
© Márcia Sanchez Luz


Aos pedaços me atiro em movimentos
Frenesi, momento insano, me questiono
Se o que vivo é o que espero de minha vida
Se ao teu lado vou me achar na despedida

Mesmo em sonhos, tropeçando em descaminhos
Sou quem sou, não tenho nada que me impeça
De alcançar-me mais adiante, sem ter pressa

Vou viver meus sentimentos sem ti mesmo...

E ao dizer-me assim sem traços de amargura
Sou de ti meu descaminho que não mente
E que sente a dor da perda que consente.

Márcia Sanchez Luz

 

 

SEIXOS TRANSPARENTES
© Márcia Sanchez Luz


De tanto amor e dor que a ti concedo
meu corpo de minha alma se liberta.
O amor não tem remorsos nem avessos
A dor, porém, fulmina e não me alerta.

É sôfrega a palavra que me invade
em trajes tão secretos e prementes!
Melhor seria a dor em seu contraste
vertendo a seiva em seixos transparentes.

Viver em ti não pode ser promessa
de noite entristecida alvorecer
e nem apaga a dor que em mim professa.

Assim transcendo a busca que não cessa
e a brisa flamejante vem trazer
o aroma do pulsar que me interessa.

Márcia Sanchez Luz

 

 

O OUTONO
© Márcia Sanchez Luz


O outono é como o vento em arrelia
tentando na manhã fazer alarde;
provoca um som que varre o fim da tarde
e não descansa quando acaba o dia.

O outono chega, avisa e principia
uma partida em que se vê, covarde,
a consciência da maturidade
sendo trocada pela hipocrisia

que degenera o ser em vital ciclo
e destempera a vida em plena lida
em busca de alegria desvalida.

O outono é folha morta em fim de ciclo,
é o tempo que passou em cada vida,
e tem o tom mordaz da despedida.

Márcia Sanchez Luz

 

 

PARTITURA
© Márcia Sanchez Luz


Sem mim, amor, eu sei que sentes frio.
Quando estou perto, abraço-te em meu peito
e deixo que me afagues do teu jeito
até que nos tornemos um só rio

imenso, cor violeta, luz, delírio!
Podemos contemplar de nosso leito
o brilho que irradia o som perfeito
da melodia escrita em desvario.

Por horas em silêncio nós ficamos
a recordar aquele breve instante
de amor intenso, cavalgar pulsante

de corpos que se perdem da razão.
Agora sei que é o fim da escuridão
que tanto nos tomou de desenganos.

Márcia Sanchez Luz