COLECTÂNEA LITERÁRIA

POESIA

 

 

 

 

CANÇÕES PERIPATÉTICAS

 

 

 


EM CASA DE GARCIA


fui a tua casa, Federico Garcia. mas tu não estavas,
nem o Horto era o que então havia. a porta fechada
escondia lendas vendidas com sobranceria. tu não
estavas, Garcia, só o cicerone da casa que não tiveste
enquanto vagueavas em busca da tua morte, mesmo
a que não querias. a tua casa, Federico, não é a tua
casa: é uma porta por onde se entra para um vão de
escada e uma escada por onde se trepa até aos silêncios.
granada nada sabe dos sortilégios nem por onde rumam
rotos de mortes, nem por onde sonham despidos
de mágoas. a tua casa, Garcia, já é branca e os curiosos
enfilam-se à porta com senhas nas mãos: matam-te
todos os dias, salvo nos de descanso. e às cinco da tarde
respeitam-te. valem outras balas estas bulas de ironia
a cem pélas por visita, Federico Garcia. e os touros
que então havia e matavam como lhes cabia são agora
mansos ou embolados ou enojados. crescem no Horto
nem nardos, nem cardos - só flores sem fantasia.
fui a tua casa, Federico Garcia. mas tu não estavas.
os cicerones levavam-te para outra morte
em grupos de cinco. e cobravam a entrada.

Nuno Rebocho

 

 

 

COLINAS DE ARAGÃO


colinas de aragão
são tristezas plantadas são alegrias sem chão
que goya soletrava
nos gelos de ansiedade que lhe desastravam a razão

: o vento da alma
arrepia-lhes o silêncio
no sossego da tarde
mas as colinas
como donzéis
de segredos feitos
comem os olhos.

tardes de aragão
doentes de vazios
que até a memória secam
e as raivas matam.
nem as mortes pecam.

a vontade lavra
com as quilhas da paciência
o ventre da aridez
e o homem desbrava. desbrava
com sofrida paciência
a sua pequenez.

as colinas de aragão
são rastos de solidão.

Nuno Rebocho

 

 


EM NOME DE GOYA


pintava o Surdo o silêncio do sangue
(ah, charneca de amarelos touros)
e crestava a romaria em san isidro
mais uma chusma de arrolados mouros.
pintava o Surdo a tristeza do vidro.

- de zaragoza que cores alvorotaram para as searas?
de onde roçaram os aromas infantis em bregas de pele
e morderam o pó das apressadas feiras? que bandarilhas
desfraldaram as extremas para o vício dos combates?

pintava o Surdo o negrume das chamas
(ah, charneca de rubros touros)
e fuzilavam-se peitos sobre la moncloa
por onde se esvaíam dobras de tesouros.
pintava o Surdo o que o olhar não perdoa.

- que vim à sorte de cara lavada por lides de crestadura
que sobestava o que pimpilar se não podia. e em nome
do nome que o tempo dava, o tempo fazia a carne.
sortes de paleta nas muletas se escondiam. era em nome.

pintava o Surdo os dentes de saturno
(ah, charneca de azulíneos touros)
quando na arena se desconjuntavam muros
pelos disparates de sacrílegos louros.
pintava o Surdo os cornos do futuro.

Nuno Rebocho

 


CANÇÃO DA GUARDIA CIVIL MOTORIZADA


a guardia civil motorizada
roía a estrada com olhos de coruja:
era de nuvens a montanha
era de amarelos a estrada.
corria na alcatroada a luz da uva,
ventos que vinham de andorra
com amores de olhos leves
- fia-te na virgem não corras
como correm os almocreves.

estrada abaixo estrada acima
a guardia civil vigiava
estradas que foram de guerras
estradas que foram minadas.
alfazemas molhavam as terras
os ventos ceifavam colinas
nas estradas que vinham de andorra
ebro abaixo segre acima:
ai fia-te na virgem e não corras

como correram espingardas
com azuis de lavanda
e tiros de verdes vinhas
nas estradas que vinham de Andorra
por onde já machado não vinha.
mas vinham os ventos das lavras
que a guardia civil cirandava
nas estradas de quem lá anda
ai fia-te na virgem e não corras

de quem lá vive de quem lá corre
com pressas de não chegar
de quem se gasta e de quem percorre
caminhos de voltar ao mar:
ai amores que fazem estrada
pela guardia civil vigiada
- correm mortes na alcatroada
das histórias que ouvi contar
ai fia-te na virgem e não corras

estórias de espanha ventos de espanha
espadas de sangue e de lua
de toiros que morriam bravos
como a morte morre nua
nas estradas de qualquer lugar.
a guardia civil cirandava
dois a dois par a par
com jogos de artimanha
na montanha de nunca lá chegar

a guardia civil motorizada
não sabia de machado nem das vinhas
pelo ebro desencaminhadas:
passavam os carros de brasa
as águias descobriam caminhos.
assim se faziam as estradas
que vinham de andorra ao mar
por lavras de guerra cortadas
nas memórias que ouvi contar.

Nuno Rebocho

 


MANOLETE


Vestia de vermelho a morte
cara voltada a Liñares,
que a tarde despia o capote
e as sombras cobria o ar.
Vestia de negro o vermelho
onde Liñares começava:
capas desfaziam lenços,
cornos desfaziam cores
onde Liñares soçobrava.
Vestia-se de verde o negro
onde vermelho vermelhava.
Liñares não tinha lugar
que a morte sapateava.

De verde se vestia a vida
de verde e risos manchada.
Os toiros dançavam ancas
e patas para luta travada
- era contenda apetecida.
O corpo escarnecia a morte
as hastes rasgavam a vida.
E o verde se vestiu de negro
e o negro foi quase nada:
o vermelho vermelhava.
Um corpo moldava o negro
quando a tarde o molhava.

Em Liñares rogavam pragas
o vermelho, o negro, as chagas.

Nuno Rebocho

 
 
 

 

 

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