FÉNIX

 

LOGOS Nº 13

MARÇO 2015

 

 

 
 

Adélia Einsfeldt

 

BORDADO
Adélia Einsfeldt


Desenhos
canteiros em flor
entre rosas e jasmins

caminhos noturnos
escura solidão

caracóis bordam
em lençóis
de terra e pedra

poesia assinada
com viscosidade

pétalas
despertam a manhã.

Adélia Einsfeldt
Porto Alegre - RS - Brasil

 

 
 

Adilvo Mazzini

 

PARALELAS
Adilvo Mazzini


Andei por vales e montes,
Busquei-te incessantemente.
Escrevi pra lua,
Gritei ao sol
Acenei às estrelas...
Nenhum deles me deu notícias tuas.
Apelei para as aves;
Adormeci em jardins...
Nem mesmo as flores –
Imagina! Nem mesmo as flores,
Ornadas de todas as cores,
Disseram-me algo de ti!
As manhãs, em seu arrebol,
As tardes vermelhas em crepúsculo
Iluminaram encruzilhadas.
Mas, onde estarias tu?
Nem a nota doída do violino
- Dio, comme ti amo!-
E as espumas revoltas do rio,
Nem os domingos à tarde
De estádio vazio
Puderam indicar teu caminho.
Senti-me pássaro fora do ninho,
Um barco andando à deriva.
Procurei-te na fonte
Que construí só para te ver
Refletida em cada canto,
Como lépido peixinho...
Ah! Essa tua ausência
Machucou-me!
Feriu-me os pés...
Senti-me uma pobre gota
Caída do telhado
A se perder no rijo solo...
Em minha introspecção
Perdi tua diretriz, teu norte.
Partiste. Como eu parti...Sem consolo.
Estar longe de ti
Foi a dor mais atroz...
Meus passos tornaram-se inconstantes
E tornei-me andarilho
Nos meus próprios caminhos
Inconsequentes.
No fundo, porém,
Não se calou minha voz.

Mesmo trilhando caminhos opostos,
Mesmo buscando outros amores,
Mesmo traçando tantos andares
Mesmo no amparo de outros encostos...
-Volta! Volta! Gritava bem alto!
- Voltarei um dia...ouvi-te dizer...
Passaram-se os dias...
Passaram-se os anos...
Nossas vidas tomaram seus rumos;
Em paralelas trilharam suas sinas.
De repente, assim tão de repente,
Surges na mesma esquina...
Surpresa, ânsia, alegria?
Não saberia dizer.
Apenas quero crer
E saber que os caminhos,
Por mais incoerentes e obscuros,
Tornam-se os mesmos caminhos,
Num reencontro de amores.
Agora, já bem mais maduros,
Ainda que impossíveis,
Velhos desejos amantes
Ressurgem inteiros, afáveis.
Querer-te assim, por inteiro,
Foi minha busca primeira.
Ver-te assim toda, inteira,
É dádiva de Deus.
Meus olhos nos olhos teus,
Teu coração de encontro ao meu
É como ver-te em sonho.
Estamos, porém, em paralelas...
Mesmo o amor que por ti tenho
E que tu me tenhas no teu céu,
Jamais as tornará ele uma só reta...
Serão sempre duas paralelas...
O nosso amor - o teu e o meu,
Por mais bonito e correto,
Será sempre, mesmo que em sonho,
Um amor incompleto...
E continuarei a não tê-la...

Adilvo Mazzini
Dourados - MS - Brasil

 

 
 

Alba Pires Ferreira

 

ABRAÇO A SOMBRA...
Alba Pires Ferreira


Adeus te deixo
sombrio reflexo
refletido somente
quando algum doído gemido
me oprimia o peito,
e os olhos suspirando,
ao coração fingido
a suplicar amor!
Ah! Vai-te embora
como não tem sentido,
nenhum sentido mesmo
continuares
refletido em minha vida
me desligo!

Alba Pires Ferreira
Porto Alegre - RS - Brasil

 

 
 

Alberto Araújo

 

CAMINHAR
Alberto Araújo


Caminho eu
caminhas tu
no ar livre e sólido
das manhãs da paixão

precisa-se ter o sol
nos seus octógonos lados
nunca desfazer-se do belo
pois o belo é essencial aos
olhos do coração
sobretudo
levar em consideração
o ar do amor do vento
que sopra nas nossas próprias mãos

caminho eu
caminhas tu
precisamos ver
todas as coisas – o Cristo Redentor
o céu, o algodão
precisamos ver
todas as coisas do impossível chão
antes que a fúria cega para o amor
diga não.

Alberto Araújo
Niterói - RJ - Brasil
www.albertaraujo.recantodasletras.com.br
www.poetalbertoaraujo.blogspot.com
www.focusportalcultural.blogspot.com.br

 

 
 

Alberto Cohen

 

CANÇÃO DE ACORDAR O DIA
Alberto Cohen


Se ao menos eu tivesse vinte anos,
ou menos vinte desses desenganos,
poderia amanhecer em tua porta
tendo nas mãos buquês de flores mortas
após agonizarem pela noite,
cruzando a imensidão da travessia
da escuridão para o raiar do dia.
E se viesses feita de alvorada,
quem sabe, de repente, namorada,
em teu olhar eu me transformaria
de poeta em somente poesia.
Quando tuas mãos tocassem meus cabelos,
com mil cuidados por me veres triste,
farias retornar nosso começo
para que fosses como se existisses
em cada verso ainda não escrito
por mim, aquele moço mais bonito
que o príncipe encantado que sonhavas.
E pelas flores que nem cultivavas,
perdoarias todos os pecados
de quem te despe e nunca te viu nua,
de quem somente atravessando a rua,
estaria contido nos teus olhos
e, de novo, menino e tão aflito,
estenderia as mãos e o velho grito:
Sou assim como vês, porém te amo.
Ah, se eu pudesse ter meus vinte anos,
mesmo com todos esses desenganos...

Alberto Cohen
Belém do Pará - Brasil

 

 

 

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