FÉNIX

 

LOGOS Nº 13

MARÇO 2015

 

 

 
 

Donna Boris

 

O CANTO DA CHUVA
Donna Boris


Há três dias olho o tempo... precisando ir fazer uma filmagem em campo para o documentário, limito-me, a chuva me diz que ainda não é hora de ir. Não reclamo, estou no sertão e ela é reverenciada na sua chegada. Então... vou tentando pensar como o povo daqui. A seca sufoca a semente que na terra espera água para germinar. (Sou filha do concreto, nasci na cidade grande, mas é doce o cheiro de terra molhada. Não pensem que estou indiferente dos alagamentos existentes no momento. Solidarizo-me com a situação e faço minha parte. Precisamos unirmos sempre.) Aqui chuva tem jeito de vida, gosto de vida e é tocante ver mãos calejadas e faces cansadas pelo trabalho na terra e a vida dura, unir-se em oração e agradecimento por uma plantação melhor. Quantos existem na cidade, que nunca pararam para pensar o trabalho que dá todos os componentes de uma salada, até estarem prontos para o consumo? É delicioso o cheiro de uma caixa de frutas, mas será que pensam que elas não nascem em caixas? Vejo nos supermercados as reclamações quando os produtos não são encontrados ou quando sobem os preços. Parar e pensar na situação do homem do campo é coisa rara de se ver. Pensado assim... fui até a porta da casa olhar a chuva que caía mais fininha. A festa da meninada a brincar na chuva... já estava quase adormecida em mim. Absorta na alegria, nem me dei conta da mãozinha molhada a me puxar... vem poeta... disse-me a voz infantil do filho do dono da casa, Sr Gildo. O pequeno Quizinho, já totalmente encharcado de água, sorria com felicidade só contida em uma criança do sertão, que sabe que chuva é sinônimo de vida. Não recusei, seria não entender a cordialidade do convite. Pedi que me mostrasse o que ele mais gostava de ver, quando chovia. Olhou-me com ares de mestre e foi me puxando pela mão. Junto à cerca em uma grande extensão de terra Quinzinho me disse que ali o pai havia plantado feijão, e que ele ainda esperava que a chuva desse vida na plantação. Falou que a safra passada foi toda perdida pela seca. Vi a esperança falando nos olhos puros de uma criança, que já pensa com maturidade. Segui caminhando com ele e logo me mostrou a plantação de milho... falou-me que a chuva chegou em boa hora e que a espiga iria ser boa. Do outro lado, vi homens já trabalhando no preparo da terra para outro plantio, mamona. Cada hora tinha que ser muito bem aproveitada. Tentar colocar cada pedaço de chão em ordem e fazer dele brotar as vidas necessárias, as vidas... tão importantes. Vi o gado que parecia banhar-se na chuva fina. Cabras procurando capim. Quizinho falou: logo vai ter bem verdinho do jeito que você gosta Preta. E acariciou a cabeça da cabrinha levado-a ao cocho com capim seco. Pegou baldes que aparava água de chuva, e encheu as vasilhas dos animais. Ofereci-me para ajudar na tarefa. Ele me falou: a senhora pediu para mostrar o que eu mais gosto quando chove. É isso que gosto... ver meu pai trabalhando na roça, minha mãe fazendo comida alegre, meus amigos todos sorrindo, ter água perto para nós e para os bichos. É muito ruim carregar água suja porque só tem ela, e longe. É bom brincar na chuva, porque ela sabe que a gente fica feliz, com a chegada dela. Depois da aula recebida de um mestre tão pequeno em tamanho e já grande em sabedoria, voltamos para casa. A chuva esperou chegarmos e estarmos abrigados, para cair mais forte... todos sorriam. O cheiro do café estava tomando conta do ambiente. Café do interior tem cheiro e gosto diferentes do café da cidade grande. Após a janta, pedi desculpas por me recolher e deixá-los ainda na sala conversando... mas as letras pediam a minha presença e eu precisava escrever o momento vivido. Assim o fiz com grande agradecimento. Viver o simples na felicidade é premio. Estar presente em um momento que tinha muito para ser diferente e diferente essa gente sabe fazê-lo, porque são cheios de esperança e fé. Bonito é ver o amor que se expande em energia, carregando as “baterias” existenciais de uma pessoa da cidade... igual a mim. A chuva tamborila no telhado, cantando canção de ninar. E realmente canta aqui. Vou fazer minhas orações e dormir, agradecida por esse lindo dia.
Como que sapeca, um pingo da chuva tocou meu rosto... sorrindo faço aqui o ponto final.

Donna Boris “Em: Crônicas”
Salvador - Brasil
poetisadonnaboris.blogspot.com

 

 
 

Ed Mulato

 

ANCESTRAIS
Ed Mulato


Muito estranho aquele sonho em que uma cobra imensa, larga, ancha e sem fim, toda cheia de cores que se alternavam, me arrastava em seu lombo até os pés de um guerreiro que, altivo, me cingia os ombros com sua espada, me sagrando cavaleiro. Muito estranho porque eu sabia, mesmo em sonho, que eu, até então, sequer existia! Aliás, nem sei se mesmo minha essência já havia surgido!
Mas, no sonho, foi assim, já consagrado, que nasci: rosto redondo, bochechas inchadas, olhos arregalados, não sei se assustados ou pedindo piedade.
Era piedade: sem mãe, eu, aos quase dois anos de idade, nunca havia mamado; e ainda não andava. Era fraco por fome. Foi de fome que morri.
Quando renasci, estava adulto; e viajava. O porão do navio era frio, e eu me sentia muito tonto e fraco. Não sei se os calafrios vinham pela febre ou pelo insistente vômito que, talvez causado pela persistência do balanço do mar, forçava o intestino, de onde um líquido viscoso constantemente saía. À fraqueza do vômito e da diarreia, sucumbi, deitando-me naquela imundície imensa, de onde subia a fedentina mais horrenda; não sei se, antes, adormeci ou desmaiei; apenas sei que morri.
Quando ressurgi, estava velha e gorda: o sorriso constante, tatuado no rosto, disfarçava o medo que desenhava o formato e empanava o brilho dos olhos. Enquanto preparava minhas ervas, cantava, rezando, e benzia todo aquele pouco povo que, comigo, no mato se escondia. Foi num momento de reza que ouvi o estrondo. Apenas senti que meu corpo voava. Não sei se caí. Apenas, morri.
Daí em diante, em sonho acelerado, vi-me incorporado em bandido, coroinha, pastor, rainha, mineiro, carpinteiro, mal vestido, travestido, freira, prostituta, padre, pedinte, padrinho, com prole, sozinho, cozinheiro, macumbeiro, benzedeira, carpideira, polícia, ladrão. Então, senti-me meio dormindo, meio acordado, totalmente atordoado enquanto tudo isto acontecia, tornando lento e embotado o inútil raciocínio.
Mas compreendi perfeitamente o sonho quando vi minha avó, tendo ao lado seu filho, meu pai, que abraçava aquela mulher grande que foi minha mãe, e os três, sorrindo em despedida, me entregaram o único tesouro que ainda possuíam: as próprias vidas.
Isto, recomendando que eu delas cuidasse como se fossem minhas últimas e preciosas joias, e depois as transmitisse, todas misturadas e já temperadas com a minha própria vida, à minha talvez provável descendência.
Foi quando percebi que não fui eu que tantas vezes nasci e morri, mas, sim, meus ancestrais, ainda vivos porque pulsantes em minha pele, alma, sangue e coração, que vinham desenhando, rasurando, refazendo, recortando, remontando, costurando e preparando, enfim, o que seriam os pequenos pedaços de mim.

Ed Mulato
Sorocaba- SP - Brasil

 

 
 

Eloah Westphalen Naschenweng

 

LUCIDEZ
Eloah Westphalen Naschenweng


Chegastes de surpresa trazendo na alma o desvario da imaginação e o delírio febril da imperiosa insensatez.
Viestes com o desejo férreo e o sutil sopro de otimismo, feito natural este andar pela vida com urgência, diante do presente que nos cerca.
Trama frágil, incerta e hesitante, faz morada na crua realidade, incontestável dos golpes que o destino prepara.
Por conta deste rastro intempestivo de amor carregado de paixão e carente de entendimento, o mundo avança, e nós na periferia dos sentimentos, perdidos transitamos.
O tempo recompõe a ordem apesar das vontades, como quisesse se proteger do desconcerto, dos afagos, seus afetos e o calor das promessas generosas.
Restou a lucidez acuada, mas intensa, e na quietude da alma a doce passagem do sentimento que nos encantou sem reservas e o apreço que nos unirá em perene amizade.

Eloah Westphalen Naschenweng
Jaraguá do Sul – SC -Brasil
(Presidente dO Grupo de Poetas Livres, de Florianópolis)

 

 

 

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