FÉNIX

 

LOGOS Nº 13

MARÇO 2015

 

 

 
 

Humberto Pinho da Silva

 

O DINHEIRO TRAZ FELICIDADE?
Humberto Pinho da Silva


Há muitos e muitos anos, tantos que já se perdeu a conta, nas proximidades das margens do mar Egeu, havia rei orgulhoso, senhor de riquezas sem fim, resultante da venda de pepitas de oiro do Pactolo, afluente do Hermo, rio onde se banhava o infeliz Midas.
Residia em maravilhoso palácio, belamente decorado de luxuosas alfaias de incalculável valor; e em rijas arcas de ferro encerrava fabuloso tesouro, mais rico que a caverna de Ali-Babá.
Certa ocasião recebeu a visita de Sólon – narra Plutarco na “ Vida de Sólon”.
Creso, assim se chamava o rei orgulhoso, rejubilou de contentamento e saudou a feliz oportunidade para deslumbra-lo, mostrando-lhe toda a magnífica riqueza que encerrara nos sólidos cofres reais.
Concluída a longa e pormenorizada visita, interroga-o envaidecido:
- “ Sólon: conhece homem mais afortunado que eu?!”
O filósofo entortou pensativamente a cabeça, sacudindo-a num gesto positivo: Que sim; e nomeou rol de nomes completamente desconhecidos para Creso.
Atónito com o que acabara de escutar, o rei encarou Sólon, e sorrindo com ar de dúvida, indagou quem eram as ilustres individualidades.
Sólon aprumou-se, passou a mão pelo rosto, e ergueu os olhos para o céu, como pedindo inspiração aos deuses; e de voz bem timbrada informa-o: Que eram de facto desconhecidos, mas de grande virtude e viveram despreocupados, porque não possuíam bens a guardar.
Como Creso permanecesse de olhos vagos, refletindo, por momentos, no que ouvira, Sólon acrescentou, num leve murmúrio:
- “ Agora ainda são bem mais felizes…porque já faleceram e não receiam as incertezas do futuro…”
Lançou em graça, o rei, o último e espiritoso dito, e soltou jovial e ruidosa gargalhada, que ecoou pelos largos e longos corredores do majestoso palácio.
Correram os anos pacificamente… com eles, o tempo apagou, quase por completo da memória do rei, o diálogo que tanto o divertira.
Ciro II, rei da Pérsia, tomou conhecimento da imensa fortuna de Creso e pensou invadir a Lídia.
Receoso, Creso reuniu as melhores tropas do reino e alcançando largas alianças, com monarcas amigos, esperou-o nas margens do Hális. Facilmente foi derrotado, sendo preso e severamente humilhado em Sardes.
Ciro II saqueou o palácio e levou o tesouro que Creso tanto se orgulhava.
Os generais persas, com assentimento de Ciro, pensaram matar o rei. Despojaram-no dos ricos mantos reais. Entregaram-no ao escárnio da soldadesca e condenaram-no a morrer na fogueira.
Nessa situação aflitíssima, sentindo altas e doiradas línguas de fogo a lamberem-lhe a macia pele, bradava desesperado, cheio de dor: “ Oh Sólon! …Oh Sólon! …Sólon! …Sólon! …
Narram historiadores, que Ciro apiedou-se da sorte do infeliz rei, livrando-o da morte cruel.
Diga, agora, o leitor amigo, se acredita – depois do que leu, – se o dinheiro traz felicidade.
Se ainda pensa que sim, interrogue milionários no declinar da vida ou vítimas de graves enfermidades, e ouvirá de suas bocas, que não.
A felicidade é como disse Campos Monteiro, em “ Ares da Minha Serra”: “ É contentar-se a gente com o que tem e ganhar com honra e sossego o pão de cada dia.”

Humberto Pinho da Silva
Porto - Portugal
http://solpaz.blogs.sapo.pt/

 
 

Ilda Maria Costa Brasil

 

ABRINDO CAMINHOS
Ilda Maria Costa Brasil


1º de maio, aniversário de falecimento do Ás da Fórmula 1, Ayrton Senna. Às 12h, na parada em frente ao Condomínio Terra Nova Nature, peguei um ônibus da Linha São José, precisamente, o carro 3021.
Cheia de sacolas, tão logo entrei, procurei sentar-me. O veículo não estava super lotado, mas não dispunha lugares desocupados na frente. Peguei o Tri e alcancei ao cobrador. Esse avisou que era dia de passe livre. Duas senhoras, que entraram na mesma pareda, falaram:
– Que bom, saímos com pressa e não pegamos dinheiro.
A mais velha, sorrindo, disse:
– A minha amiga está passando mal. Tem labirintite. Está a passeio na minha casa; e, hoje, ao acordar, estava super tonta. Esqueceu os remédios na sua casa. Mora no interior. Precisamos de uma farmácia aberta.
Olhavam para um e para outro e comentavam:
– Vejam como ela está trêmula. Que horror, ninguém dá lugar! Educação não existe mais.
Apoiada na roleta, a enferma sacudia as mãos à frente do cobrador.
Sentada à minha esquerda, uma garota, a quem pedi que cedesse o lugar à doente. A menina, prontamente, levantou e a senhora sentou-se. De tempo em tempo, apontava as mãos para o cobrador e dizia:
– Moço, olha como estou tremendo. Onde tem uma farmácia? Preciso comprar os meus remédios.
– Senhora, na esquina da João Pessoa com a Venâncio Aires há uma Panvel. Vamos deixá-las próximas ao local.
Após ouvir a mesma pergunta várias vezes, o cobrador, que estava completando 33 anos neste dia, com educação e humor, falou:
– Senhora, para esse mal, recomendo três Skol pela manhã; três, à tarde; e três, à noite.
Um passageiro, rindo, falou:
– Senhora, recomendo-lhe a complementar a receita com um copo de Velho Barreiro, às 22h. Assim, a senhora dormirá profundamente.
Embora a cena não tenha convencido ninguém, o cobrador, cansado de ver as sacudidelas de mãos, solicitou ao motorista que saisse do corredor e largasse as duas senhoras em frente ao Posto Ipiranga.
Carro estacionado, o cobrador pulou a roleta e as auxiliou a descerem. Enquanto caminhavam na direção da farmácia, a enferma disse:
– Oh, vejam como estou trêmula.
Motorista e passageiros caímos na risada. Cristian, o cobrador, virou-se e falou:
– Senhora, lhe aconselho, após deixar a farmácia, a ir numa terreira fazer uma abertura de caminhos.

Ilda Maria Costa Brasil
Porto Alegre - RS - Brasil

 

 
 

Izabel Eri Camargo

 

TELEFONEMA DO ALÉM
Izabel Eri Camargo


O telefone nunca esquece de tocar. Preparava um almoço para o dia de verão. Decorava um bonito prato de salada mista. A cozinha estava aconchegante. No gabinete alguém desejava minha presença. Interrompi meu trabalho muitas vezes. Quando estava concluindo a tarefa, deixei o telefone chamando, demorei-me. No último toque coloquei o fone ao ouvido.
— Alô! alô!
Soava uma voz aflita que dizia:
—É a tia Julia.
— Sim. Pronto. Escutei...
— É a tia Julia.
— É a tia Julia.
Que estranho, não dizia mais nada. Quem será? Pensei. Falei de novo.
— Sim, pode falar.
— É a tia Julia.
Sussurrou. Tive uma idéia e perguntei:
— Com quem a senhora quer falar? Outro murmúrio.
— É a tia Julia.
Repeti a pergunta. Aquela voz fraquinha, sonora respondeu:
— Com a Eliane.
— Ah! Não é aqui.
Desliguei o telefone de imediato, toda arrepiada, pensando: que estranho, não conheço nenhuma Julia. Tia! Que tia? Aquele fato ficou martelando na minha cabeça e a voz soando nos meus ouvidos.
Uma intuição me disse: a tia Julia que estava falando é a tia do meu coração com quem convivi desde criança, até um dia antes da sua viagem para o além. Faz mais de vinte anos. Perguntei-me por que Eliane e encontrei explicação. É o nome de uma das netas dela, minha prima em segundo grau. Fui advertida de que o vínculo afetivo permaneceu forte. É fantástico! Na era digital a comunicação aconteceu sem deixar sinal. Não pude dar o retorno.
A vida é virtual!

Izabel Eri Camargo
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
www.caminhosdavida.prosaeverso.net

 

 

 

Livro de Visitas