FÉNIX

 

LOGOS Nº 13

MARÇO 2015

 

 

 
 

João Garção

 

DA LUMINOSA ARQUITECTURA
João Garção
 

 

Gravura de João Garção


“ Num mundo que se assemelha quer a um estaleiro quer a um campo em ruínas, trata-se de erguer uma casa em que os homens, vindos de todos os quadrantes, possam viver em conjunto. E é tempo de partir à busca dos materiais. ”
Gilbert Cesbron


Não sei se a famosa frase proferida por Goethe no leito de morte, em que o escritor pediu ‘mais luz, sempre mais luz’, deve ser encarada como tendo sido feita no sentido literal ou no figurado. Desejo crer que foi neste último, devido ao que de essencial ela expressa, na sua aparente simplicidade.
Com efeito, se como salientou Pascal o Homem oscila constantemente entre o Anjo e a Besta, é fundamental (e simultaneamente reconfortante e encorajador ) que os espíritos nobres de todas as épocas reafirmem sistematicamente que devem ser criadas condições para que as opções dos seres humanos se dirijam para a ‘claridade’, em detrimento das ‘trevas’ – portanto, que se caminhe ‘de claridade em claridade’, para utilizar as sábias palavras de S. Paulo.
Esta opção é frequentemente dificultada por um quotidiano societário que muitas vezes privilegia as ‘trevas’, disfarçando-as ardilosamente. Os mecanismos de que se serve, aparentemente doces na sua imediata mas espúria atracção, são a mentira sistemática camuflada por uma inevitabilidade tida como óbvia ( visto que o duvidar – aspecto estruturante da própria Liberdade – acaba por ser rodeado de constrangimentos diversos ), o falso ‘bom-senso’ e um epicurismo distorcido que confunde ‘alegria de viver’ com simples ‘contentamento’ e que se caracteriza pela pseudo-assunção de um ‘realismo’ que, na prática, mais não produz que frutos mortos. E o Tempo, esse excelso crítico, bem o tem evidenciado ...
Em conformidade, a quem não se revê neste panorama em que tem assentado uma boa parte das decisões humanas e das próprias relações sociais, resta privilegiar a busca da Verdade que qualifica (saliento, ‘que qualifica’ e não ‘que quantifica’) a Felicidade das pessoas, enfatizando-a em todos os procedimentos. Os seus fundamentos poderão ser encontrados num quadro ético que objectiva tanto a melhoria do Indivíduo quanto da própria Humanidade, ou seja, numa Ética assente em princípios de criação que dignifiquem o Homem e valorizem as suas produções, sempre que estas originem ou desenvolvam consciências críticas – portanto, que não constranjam, mas que libertem. Daí que, por exemplo, obras como A Montanha Mágica ( incursão e interrogação no Mundo e no Tempo exteriores ) ou Em Busca do Tempo Perdido ( procura e interrogação do Mundo e do Tempo interiores), mesmo contando, por hipótese, com apenas dois mil leitores, serão sempre melhores para a espécie humana do que determinados programas televisivos com dois milhões de espectadores.
Vários autores têm evidenciado de forma exemplarmente simples, ao longo dos tempos, os fundamentos desta Ética. Por exemplo, n’ O Mercador de Veneza, Shakespeare fez o judeu Shylock proferir as seguintes elementares palavras: ‘Se nos picais, não sangramos? Se nos fazeis cócegas, não nos rimos? Se nos envenenais, não morremos?’. Mais recentemente, num interessante texto dirigido ao Cardeal Carlo Maria Martini, Umberto Eco referiu-se à existência dos chamados ‘universais semânticos’, salientando que o respeito pela ‘corporalidade dos outros, entre os quais também se contam o direito de falar e de pensar’, se impõe como elemento basilar desta estrutura procedimental.
Contudo, este princípio fundamental do reconhecimento da dignidade do ‘Outro’ deverá ser matizado visto que tem sido levado a certos extremos, a ponto de, hoje em dia, concepções que se reivindicam como estando estribadas no chamado Multiculturalismo servirem como justificação para desmandos diversos que oprimem em vez de libertarem. Com efeito, certos aspectos tidos por culturais e que aparentemente decorrem desta perspectiva ‘multicultural’ não passam de expressões de autoritarismo dos sectores que as promovem ( frequentemente, de forma brutal contra ‘outros’ ) a fim de estabelecerem identidades que ajudem a perpetuar o seu poder. A título de mero exemplo, permito-me indicar as nefastas práticas da excisão ou da lapidação, ainda promovidas por certos grupos sociais em determinados países.
Desta forma, o diálogo entre culturas, com frequência apresentado como absolutamente imprescindível, não pode passar pela efectivação de cedências em relação a aspectos fundamentais, sendo o mais importante o da defesa da dignidade humana ( na qual se encara o Indivíduo como uma entidade e não como um número), onde deverá inscrever-se, obrigatoriamente, a por vezes enfatizada mas muitas vezes deturpada trilogia Liberdade, Igualdade, Fraternidade – deturpada porque utilizada para sustentar sistemas de Cleptocracia que substituem, de maneira mais ou menos subtil, a verdadeira Democracia. De outra forma, esse diálogo será apenas um monólogo a dois que somente servirá, no máximo, para que um dos lados continue impunemente a afirmar a recusa dos valores essenciais da referida dignidade humana. Será, em suma, uma ‘solidariedade de crápulas’ que, a pretexto da prática da tolerância, deturpa esta legítima perspectiva de confronto de ideias que almeja o mais qualificado valor operativo, para acabar por ser uma condenável e cobarde condescendência perante o Mal – não mais sendo do que uma imitação do tristemente famoso estilo de Neville Chamberlain (que ajudou o mundo a mergulhar na Segunda Guerra Mundial ) ou das perorações ‘doutrinárias’ de ‘pacifistas de 5ª coluna’ que, há um par de décadas, no Ocidente, diziam de forma descaradamente alvar ‘Better red then dead! ’( Antes vermelhos que mortos! ). A este propósito – e nem sequer é preciso ser-se crente para o referir – impõe-se que recordemos o apólogo bíblico que reza ‘não devemos dialogar com os demónios – pois eles enredar-nos-ão numa conversa sem fim’. Na verdade, que tipo de diálogo será possível encetar ou manter, por exemplo, com representantes convictos do terrorismo internacional ou praticantes neo-nazis? E não se diga que estes não são mais do que o produto de uma sociedade a arruinar-se. Tal constituiria uma boa ‘desculpa’, apenas, para a ausência de responsabilidade individual nas respostas perante os desafios e as crises que a todos assoberbam. E já se sabe que a eles, infelizmente, nem todos respondem da mesma maneira – e são essas respostas que verdadeiramente constituem a medida da capacidade e da qualidade intelectiva do ser humano social.
Ora, este combate contra o ‘Mal’ (o absurdo expresso na destruição da liberdade, da dignidade e da qualidade humanas) não poderá ser um mero formalismo que se encena quotidianamente, o que o tornaria estéril, mas antes um imperativo decorrente da adesão a princípios éticos, a qual deverá sempre conduzir a uma certa mundividência e traduzir-se numa praxis bem precisa. Por outras palavras, esse combate deverá ser afirmado como um dever individual consequente com o apego do sujeito a concepções éticas de defesa da dignidade da pessoa humana ( concepções estas que, saliente-se novamente, não embarcam em falsas analogias nem são complacentes com práticas pseudo-culturais que se afirmam para melhor constranger o Indivíduo, fingindo libertá-lo).
Ao longo desta pequena intervenção, tenho referido várias vezes a palavra ‘Ética’. Chegado a este ponto, afigura-se-me conveniente esclarecer os seus contornos – embora me pareça que no contexto da temática abordada se poderá inferir o que por ela entendo. Para mim, ‘Ética’ é o conjunto de reflexões e procedimentos que afixam um ‘ir existindo’ civilizado, compreendendo por este último termo o somatório de vivências criativas que estabelece, simultaneamente, a dignidade, a felicidade e a abertura aos salutares ritmos do mundo – passados, presentes ou futuros.
Em função daquilo que atrás afirmo depreende-se, com justeza, que desconfio bastante daqueles que apresentam como recomendável e politicamente correcto o respeito reverencial por alguma diversidade de quadros ‘éticos’ existentes, significativamente dispares entre si nos seus fundamentos e, por isso, a vários títulos antagónicos nas orientações que acabam por expressar – e, portanto, também alguns deles dinamizadores de comportamentos que são frequentemente deploráveis. É minha convicção que qualquer estrutura ética não poderá reclamar-se como tal se não se fundar no respeito essencial pelos direitos humanos (evidentemente, utilizo esta expressão na perspectiva de direitos ‘conquistados’ e não de direitos ‘naturais’, mas entendo que, ainda assim, são direitos ‘positivos’, na acepção filosófica do termo ). De outra forma, não passará de um sistema moral, como tal meramente conjuntural. Mais: entendo que os distintos ‘diálogos’ a desenvolver pelas diversas instituições que compõem o chamado ‘Mundo Ocidental’ ( quer consigo mesmo, internamente, quer com elementos que lhe são exteriores ) deverão fundamentar-se na inegociável adesão a este quadro de referências essenciais pois, como oportunamente salientou Tocqueville, o respeito pelas diferenças reclama uma igualdade prévia. De outra forma, o debate que possa vir a efectuar-se estará inquinado ab ovo por inadmissíveis cedências e, como tal, poderá ser mais nefasto do que proveitoso.
A concluir, entendo deixar ainda uma última achega: quando se diz que estes tempos actuais estão ‘despidos de valores’, há que salientar a incorrecta formulação desta asserção pois, quando muito, eles estarão despidos de valores éticos suficientemente praticados e, sobretudo, capazmente divulgados (o que é diferente). É claro que a difusão daquela perspectiva pode não ser totalmente inocente, enquanto reflexo de ideias de certos sectores sociais interessados em que seja afixado o panorama da volatilização dos tradicionais valores intrínsecos à prática da cidadania e na sua recomposição sob moldes bem diferentes. Por outro lado, ela é fruto, igualmente, da resignação fundada no desespero em que por vezes as pessoas mergulham, sentindo-se pouco acompanhadas nesta obra de defesa de uma ética desejavelmente universal, a qual é, verdadeiramente, uma obra sinérgica. A estes nossos semelhantes importa reafirmar-lhes, sistematicamente, que não estão sós nessa caminhada.
Em concomitância, interessa continuar a alargar o trabalho de libertação das consciências, pois se ‘o espírito sopra onde quer e como quer’, como referiu São João, é igualmente fundamental que existam seres humanos disponíveis para o orientar, sempre que tal se imponha.
Para que sejamos, cada vez mais, ‘Filhos da Luz’ .

João Garção - Portugal
em Luanda - Angola
poeta e pintor. Licenciado em História da Arte e mestre em História Contemporânea de Portugal pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Desportista e professor, foi futebolista profissional na primidivisionária Académica coimbrã e director/docente do Instituto Superior de Ciências Educativas. Colaborou em diversas revistas culturais no país e no estrangeiro, tendo efectuado palestras e exposições e participado em sessões diversas nacional e internacionalmente. Vive actualmente em Angola, sendo vice-director do Colégio Talatona de Luanda.

 

 
 

Jorge Cortás Sader Filho

 

OLHOS VENDADOS
Jorge Cortás Sader Filho


Caminhava devagar no estreito corredor do edifício. Por incrível que pareça, o tempo estava frio no Rio de Janeiro.
Todo de cinza. Paletó, calça e camisa. Sapatos e cinto pretos. Gravata vermelha, listada com ocre escuro. Era a única peça do vestuário que aparecia, distinguindo o homem quando estava na multidão.
O Leme já foi um lugar bastante tranquilo, e hoje ainda é, relativamente. O edifício estava situado de frente para o mar. Era alto, o cidadão de cinza. Ajeitou alguma coisa na cintura, parecia uma arma. Das grandes, pois precisava ficar bem colocada para não fazer volume.
“Que diabo! Eu poderia ter evitado o atropelamento daquele gato. Não gosto de matar animais, mesmo sem ser de propósito”, pensava. Foi na estrada de volta. Vinha a pouca velocidade, mas o gato, provavelmente velho ou faminto, atravessou na frente do carro como fosse suicídio. Não, não me consta que animais se matem. Nunca ouvi falar. Nem ele, tão-pouco.
Veio pensando nisto toda a viagem. No quarto da simpática pousada, como a casa dele, diante do mar de águas limpas e azuis. Confortável, lugar calmo e aprazível. Não, não fora acompanhado, a cidade estava vazia, era dia de semana, mas poderia ter levado sua companheira, que não morava com ele. Melhor assim. Cada um com sua vida e privacidade. No mais, moravam a menos de cem metros.
A guria que almoçou com ele era realmente uma senhora mulher. Provou na mesa, usando um conjunto marrom-avermelhado, e na cama, sem nada. Foi uma longa noite, e ele pensou que poderiam ter aproveitado mais.
É sempre a mesma coisa: mais. Mais tudo, dinheiro, sexo, comida, bebida, e só isto mesmo. A lista está completa. Não entram na contagem vestuário, automóveis e outras bugigangas.
A porta estava aberta, muito pouco, mas estava. Sacou a Colt quarenta e cinco. O primeiro tiro pegou no homem menor. O acompanhante nem com arma na mão estava, mas quando foi puxar, tomou um coice no peito.
Numa poltrona, de olhos vendados, fato incomum, e amarrada, Duda sangrava. Morta.

Jorge Cortás Sader Filho
Niterói - Brasil
http://aduraregradojogo24x7.blogspot.pt

 

 
 

José Ribamar Bessa Freire

 

A MULHER NOS JORNAIS DO AMAZONAS:QUEM ERA A IA?
José Ribamar Bessa Freire

 
 

Na cidade de Manaus, em 1912, circulava de mão em mão por becos e vielas do bairro dos Tocos, hoje Aparecida, um pequeno jornal manuscrito - o Raio - escrito com letra de garrancho e linguagem chula, numa ortografia que feria a norma padrão. Suas páginas trovejavam ameaças anônimas a moças namoradoras flagradas em suas intimidades amorosas dentro de suas casas que, infelizmente, não tinham para-raios. O jornal bisbilhotava, fofocava, fazia mexericos:
"O Vicente é muito besta cachorro sem vergonha. FALA-SE PORHAI que o VC esta com um namoro cabuloso com a IA e está allegre porque ell’a vem hoje aqui em casa cuidado se vosser continuar eu publico seu nome" (Raio, Manaus, 08 dez. 1912).
Outros jornais não hesitaram em publicar nomes e, embora cheios de pecados, atiraram a primeira pedra contra as madalenas de manaus. Um deles, em nota editorial, exigia “que se proíbam essas marafonas de andarem passeando e de morarem em ruas freqüentadas por famílias" (O Martello, nº 4. Manaus, 13 ago. 1911). Outro pregava a solução final, sugerindo "como medida sanitária" que fossem "depositadas ao forno crematório as syphiliticas para a salvação da mocidade esperançosa". Identificava as prostitutas que deviam ser eliminadas:
"Noemia peruana, Rosa da pensão Tartaruga, Elvira cega, Ignês cegueta, Xandú, Chica faz tudo, Sarah do buraco, Chica vassoura, Julieta c. de saúba, Júlia pagé, Benedicta Prado, Maroca suspiro, Chica ventania, Maria do Carmo, Celeste do ex-café Carioca" (A Marreta, nº 2. Manaus, 8 abr. 1917). No caso da Julieta, o "c" não foi seguido pelo "u", mas por um ponto para que a grafia do dito cujo ou cujo dito não chocasse as famílias amazonenses.

Quem dá mais

Numa coluna intitulada "Leilões", com tratamento desrespeitoso,o mesmo jornal indica o preço delas: "Pelo agente Fanchini, foram vendidas em leilão, as ratuínas, catraias e esbrogues abaixo discriminadas: Barata descascada 1$700; Peito de aço 1$600; Rosa Tartaruga 1$550; Maria dos Prazeres 1$400; Maria Biju 1$350; Bucho quebrado 1$200; Adélia garage 1$150; Íris pescoço de ganso 1$100; Áurea 1$000" ((A Marreta, nº 2, idem)
Essa é uma pequena amostra desse tipo de "órgão crítico e recreativo", de circulação e tiragem modestas, mas exitosas, já que proliferaram dezenas deles com nomes sugestivos como A Farpa, O Coió, A Lanceta, A Marreta, Matraca, Pimenta, Tezoura, Cricri, O Chicote, O Esfola, Martello, O Pau, O Mucuim, O Perequeté, KCT, encontrados nos arquivos pela historiadora Luiza Ugarte Pinheiro, professora da Universidade Federal do Amazonas, cuja tese de doutorado sairá em breve no livro Folhas do Norte: Letramento e Periodismo no Amazonas (1880-1920).
Trata-se de uma das pesquisas mais completas já feitas sobre a história da imprensa no Amazonas, com consultas a fontes até então desconhecidas e análise fina e acurada dos dados, além de abrir largas avenidas para serem trilhadas por futuros estudos.

 

 

Seu último capítulo - A mulher no periodismo - combina de forma inovadora três questões: a imagem da mulher nos jornais do Amazonas, a mulher leitora e o nascimento da imprensa feminina. "Chega a ser inquietante" - escreve a autora - "o descaso com o tema da presença feminina, que não foi sequer mencionado pela historiografia local".
Os jornais, que apontam a emancipação feminina como um dos males dos "tempos modernos", abrem espaço para as mulheres leitoras, mas elas são vinculadas preconceituosamente a assuntos triviais e fúteis do cotidiano e consideradas incapazes de compreender política, economia, literatura e ciência.

 

Cor de rosa

 

Circunscritas ao espaço da leitura, são assediadas pela imprensa machista que busca ganhar o público feminino de leitoras, em plena expansão no início do século XX. Elas estavam excluídas do processo de produção de jornais, mas começaram a aparecer - nos conta Luíza Pinheiro - em algumas seções como "cartas das leitoras", nas páginas literárias e de variedades e com a publicação aqui e ali de poemas, crônicas e contos.

Numa sociedade sem tradição de leitura, os pequenos jornais, incluindo a imprensa feminina, recorrem à linguagem visual reproduzindo uma série de ilustrações, com charges, caricaturas, desenhos, tiras cômicas, que aparecem como reforço do texto.
A autora registra o aparecimento, em 1884, em Manaus, do primeiro jornal produzido inteiramente por mulheres - o Abolicionista do Amazonas - que não por acaso luta solidariamente pela emancipação do reduzido número de escravos na Província. Mas o fenômeno não ficou restrito à capital. Codajás, pequena vila do Solimões, com 700 habitantes, cultivou em 1897 A Rosa, cujo número 4 foi encontrado pela autora no acervo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA). Apresentava-se como "Órgão do Partido Cor de Rosa", era todo manuscrito, com caligrafia exemplar.
A mesma Codajás veria esvoaçar, anos depois, outro jornal feminino - Borboleta - cujo primeiro número data de 11 de abril de 1909. Outros títulos se acrescentam à lista como o "Amôr - mimoso jornalzinho das alumnas da nossa Escola Normal", fundado em 1909, que conseguiu se manter por mais de um ano. O mérito dessa imprensa era expressar a opinião das mulheres numa sociedade em que a palavra pública era atributo exclusivo dos homens, além de traduzir sensações proibidas acobertadas pelo anonimato garantido pelo fato de ser manuscrito - escreve Luíza.
Depois de analisar o rico material encontrado, a autora concluiu com propriedade: "A presença das mulheres nos jornais do Amazonas tendeu a refletir o desconforto com que uma sociedade que se queria moderna e atualizada com o mundo europeizado burguês, lida com os limites de sua capacidade em assimilar certas facetas dessa modernidade alardeada".
Namoros cabulosos
Na sua pesquisa, a historiadora consultou cerca de duzentos títulos de jornais, destacando os mais representativos. Trabalhou com o acervo do IGHA e da Biblioteca Pública Estadual, além dos jornais microfilmados pelo "Plano Nacional de Periódicos Brasileiros" da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Acabou produzindo o embrião de um guia de fontes para a história da imprensa no Amazonas, comprovando a relevância do jornal como fonte para a pesquisa histórica.
Muitas perguntas são respondidas pelo livro, que tive o privilégio de ler antes de publicado, mas apenas uma permanece sem resposta. Nascido e criado em Aparecida, morro de curiosidade para saber se as fontes dão pistas sobre os descendentes da IA. A autora, que morou no bairro, calou discretamente. Nossa vizinha Leonor, porém, me contou que dona Alvina Tacacazeira lhe teria revelado quem são os bisnetos do V.C. que, em 1912, deu uns amassos na IA. Que falta faz um Raio para nos contar sobre "namoros cabulosos"!

 


P.S. 1- No Dia Internacional da Mulher em que se celebra as lutas femininas, o Taquiprati pede desculpas póstumas, em nome da imprensa amazonense, à Julieta C. de saúba e suas amigas pelo tratamento sórdido e injurioso que receberam. Rende homenagem à autora, Luiza Pinheiro, pela sua condição de mulher e pela sua inteligência, extensiva às minhas nove irmãs - Glória, Regina, Helena, Ângela (que hoje completa 70 anos), Stella, Aparecida, Celeste, Elisa e Céu, pelas lições de vida que me deram, contribuindo para que eu procure incorporar o olhar feminino na minha visão de mundo.


P.S. 2 - Todas as informações e todas as ilustrações aqui apresentadas foram retiradas do livro de Luiza que não é responsável por eventuais erros de transcrição, nem pela seleção que fizemos dos documentos por ela consultados.


José Ribamar Bessa Freire
Rio de Janeiro - Brasil
http://www.taquiprati.com.br

 

 

 

Livro de Visitas