FÉNIX

 

LOGOS Nº 13

MARÇO 2015

 

 

 
 

Luiz Carlos Rodrigues da Silva, Prof

 

RELÍQUIAS
Luiz Carlos Rodrigues da Silva, Prof


É uma quarta-feira de janeiro de 2015. O dia amanheceu chuvoso e propício para uma reflexão profunda sobre a vida nos seus diferentes âmbitos. Havia um desejo latente para enveredar sobre a escrita de uma crônica. Não sei se o medo e o receio de pensar sobre a complexidade da vida como um evento me impedia. A chuva impeliu-me a superar este receio e eis que encontro-me a escrever a minha primeira crônica. Confesso que meio titubeante na articulação entre as palavras e o ímpeto da chuva provocando uma intensa nostalgia da vida presente. Não sei se tenho a vocação para a crônica, seja ela em forma de prosa poética, ou em forma de conto, com característica fortemente narrativa, ou ainda no estilo de um Fernando Sabino, Luís Fernando Veríssimo e, que ousadia, como Drummond e Rubem Braga. A chuva provoca um sentimento estranho de ousadia. Algo inexplicável! A solidão e a beleza do momento fizeram-me pensar sobre a história da minha vida e recordar de Carlos Drummond de Andrade que percebeu que sua história era mais encantadora que a de Robson Crusoé. Acredito que a arte de escrever sobre a vida deve estar necessariamente presente em escrínios angelicais, encravada na alma que é transparente, indolor, iluminada e etérea.
Emerge lembranças da figura do meu querido pai Sebastião. Sua lida diária com dedicação e esforço para manter a família. Diante da sua coragem para enfrentar os desafios da vida em tempos difíceis posso afirmar: meu pai foi um grande rei! Não estou tergiversando com as palavras. Sendo sincero e recompondo o seu espaço na excepcionalidade da existência.
Como um artista esculpindo e contemplando a sua obra, assim também encontro-me extasiado diante da obra de arte que chama eu! Começo a perceber que sou um homem de imaginação, mesmo sem saber o real significado dela nesta narrativa. Deixar-se dominar pela sedução do silêncio proveniente da chuva nas telhas e correndo pelo chão. Este cenário momentaneamente convenceu-me que a vida não é tão complexa assim! Porém, a vida é um ato do teatro da vida bastante complexo! A chuva teima em cair mais forte no telhado e provocando arrepios na alma! Deliciando-me em escrever a minha primeira crônica. Começo a entender, veja que ousadia, o que disse certa vez o grande escritor português Eça de Queiroz a respeito da crônica: “uma voz serena, leve e clara”. A reflexão sobre a vida para que ela não fique paralisada e vire apenas um amontoado de concreto armado revestido de flores postiças. A leveza da chuva no telhado continua invadindo a minha mente e provocando a vontade de poematizar a existência, mesmo que seja por um momento! Que momento de êxtase!

Luiz Carlos Rodrigues da Silva, Prof
Barra do Corda - Brasil

 

 
 

Mara Narciso

 

DIA 8 DE MARÇO É DIA DE GRITAR: "ABAIXO A INTIMIDAÇÃO"
Mara Narciso


(Para José Geraldo Mendonça Júnior, Penninha Júnior)


Nasci com lábio leporino operado aos 30 dias de vida, canhota (meu avô era canhoto), magrela aos 14 anos e levemente acima do peso aos 16, carreguei por todos esses anos insultos e humilhações do meu irmão, que sempre me alcunhou de aleijada, trocada, garnizé, quando magra e vaca leiteira, quando gordinha. Isso vai muito além do bullying, e tem por intenção ridicularizar a pessoa, fazer com que se sinta humilhada, complexada, com o amor-próprio destruído, e não consiga levantar a cabeça para fazer nada. Mas é possível tomar uma atitude para sair do jugo de um tirano. O dia do enfrentamento precisa acontecer. E para isso é necessário coragem. Avancei para cima, derrubei a porta, o furei com uma caneta e levei um murro no olho. Esse foi o preço para nunca mais ser insultada.
Uma costureira prima da minha mãe tinha treze filhos. O marido batia nela, e atacava as empregadas que trabalhavam na casa. Um dia ela bateu nele com um pau de lenha. Nunca mais ele a machucou. Quem sofre intimidações permanentes sabe como é difícil deixar para lá, não se sentir enfraquecido, reunir forças para abater o oponente, que pode ser um irmão, o chefe ou o marido, este o intimidador mais comum. Uma criança, um cão, uma pessoa portadora de deficiência pode sofrer com olhares, gestos ou palavras. A intimidação traumatiza e a psicanálise ajuda de forma exuberante.
O intimidador inicia o seu cerco quando percebe a vulnerabilidade de quem é fraco. Quer ver medo nos olhos da vítima, e esta, pelos atos repetidos, se mostra tímida, com apreensão ou pavor. Algumas vivem apavoradas, sem apetite e sono. A intimidada muda de comportamento diante do algoz. Não é preciso que ele diga nada. A presença do criminoso faz a pessoa perseguida empalidecer ou enrubescer, emudecer e tremer. Até que um dia a libertação chega, nem sempre de forma civilizada, às vezes em furiosa explosão.
É crime e dá de um a três anos de detenção e multa para quem intimidar, constranger, ofender, castigar, submeter, ridicularizar ou expor alguém a sofrimento físico ou moral, de forma reiterada. Tal opressão, mais ligada às escolas, ocorre em todos os lugares. A denominação muda, conforme o tipo de agressão, podendo ser bullying, assédio ou constrangimento ilegal, mas a crueldade é a tônica, especialmente se a vítima é portadora de deficiência. Nesses casos, a reação poderá vir selvagem, com a lei tomando o lado do agressor inicial. É preciso que não se veja esses insultos como coisa normal e nem que se possa ignorá-los. As mulheres são os alvos mais frequentes.
O Dia Internacional da Mulher, o qual nós brasileiras do século XXI, livres e autônomas não gostamos, mas sabemos que neste instante há mulheres sendo espancadas, humilhadas, queimadas, envenenadas, estupradas, apedrejadas até a morte (punição de infieis e vítimas de estupro), outras tendo sua genitália externa amputada e costurada ainda crianças, algumas levando puxões de cabelo e pancadas em público, ou servindo de escravas sexuais em todo o mundo.
Neste um dia que nos coloca em situação de inferioridade, deixando nua a nossa condição de fêmeas, acorda nossas consciências de que há mulheres em situações que envergonham a humanidade. Muitas precisam de ajuda para sair do jugo de pais que as molestam, de maridos que as ameaçam, de chefes que causam constrangimentos de toda natureza. Que vigore a nova lei contra a intimidação, que faça par com a Lei Maria da Penha, para que o gênero feminino se realize de forma integral. Que brilhe em todos os desejos humanos, seja social, financeiro, materno, familiar, afetivo ou sexual, e que não sejam tratadas como mulheres, por serem mulheres, e sim por serem humanas, independentemente do gênero.
E não nos venham com discursos açucarados para tentar nos sensibilizar, como se todas as mulheres fossem anjos, pois não são, assim como nem todas são de cristal. Algumas têm a força de gigantes. As mulheres não são boas porque são mulheres, nem fracas por esse motivo. Há as boas e as más, as fortes e as fracas, há mães que são mães e outras que são madrastas. E a partir de hoje, as que querem sexo não sejam discriminadas por quererem sexo, e as que não o querem possam ser respeitadas por não o desejarem. Abaixo os estereótipos de insultos à mulher em seus vários calibres. E que o respeito possa ocorrer em todos os quadrantes.
07 de março de 2015

Mara Narciso
Montes Claros - Brasil

 

 
 

Mardi Elena Espindola

 

TIA BENEDITA
Mardi Elena Espindola


Meus pais iniciaram sua vida com um armazém estabelecido, a principio, em frente à Estação Férrea da localidade de Estiva, no local onde anteriormente pertenceu ao Armazém do Tio João Oliveira... Devido ao transtorno que eles tinham de enfrentar entre a distância da residência e o armazém, resolveram aumentar a casa de moradia e transferi-lo para lá.
Foi o próprio meu pai quem fez a construção. Como ajudante, contratou o Sr Jose Broll, um carpinteiro profissional de renome, que morava um pouco afastado.
Para evitar o vai e vem todo o dia, o carpinteiro construiu uma pequena casinha, tipo bangalô, no meio do arvoredo. Ali ele fazia suas refeições e pernoitava durante a semana.
Quando terminaram a tão esperada construção da “venda’, assim a chamávamos, o Sr Broll foi embora e deixou o local vazio.
O lugar onde para ele serviu morada por tanto tempo, acabou se transformando na minha casinha de brinquedos.
Certo dia apareceu a Tia Benedita.
Negra de olhar meigo, franzina, trancinhas atadas acima da cabeça e uma pequena trouxa nas costas. Trouxa pequena, alguns trapos puídos pelo correr de estradas, mas transbordadas de histórias de vida. Pediu comida e guarida por uma noite, mas talvez o que mais necessitasse mesmo, fosse um pedaço de lar, um aconchego de família, para sua existência estradeira.
Minha mãe, que nunca negava acolhida a ninguém, recebeu-a sem nem mesmo perguntar-lhe de onde vinha.
Meu pai, mesmo contrariado, acabava sempre cedendo aos arroubos emocionais de minha mãe.
Lá ficou a preta velha, e a casinha de brinquedos. De repente se transformou no novo ninho da andante.
Ficou por uma noite e muitas e muitas outras... Não importou o tempo que ela lá ficou, mas o que ela soube fazer desse tempo.
Conquistou nossa confiança, nosso afeto, deu vida à casinha abandonada, encheu-a de historias, tornando-se assim mais um marco em minhas memórias.
Seus palheiros foi o que mais me marcou.
Trazia sempre, um no canto da boca, mesmo quando falava, e outro atrás da orelha.
Eu ficava maravilhada vendo a sua agilidade na forma artesanal com que eram confeccionados por ela.
Sentadas em banquinhos, na beira do borralho, nos duas ficávamos horas e horas. Ela trabalhando em seus palheiros, e eu a observá-la ouvindo suas histórias...
Cortava o fumo, aparava as palhas e os enrolava com uma habilidade incrível. Carinhosamente, colocava-os lado a lado, rigorosamente enfileirados, dentro de uma latinha triangular.
Meu auxílio era segurar a lata, com muito cuidado, e, após completar todos os espaços, colocá-la em uma prateleira de tábuas rústicas num canto da casa.
Acendia os palheiros com um toco fumacento do borralho, parecendo até que queimaria seu nariz.
Após longas tragadas, a fumaça saía pelas grandes narinas que se dilatavam mais ainda, parecendo enormes chaminés fumegantes.
Ao seu lado, ficava eu a observá-la’ como se ela fosse uma misteriosa Deusa de Ébano. O seu negrume me deslumbrava...
Ensinou-me a fumar.
Este fumar com certeza teve um sentido bem mais profundo do que o simples ato de fumar. Simbolizava talvez encontro, troca, aconchego, cumplicidade...
Lembro-me das vezes em que me afogava com a fumaça, então ela assoprava-me no rosto e num riso solto sacudia o corpo.
Minha garganta ardia, então ela me estendia água num caneco branco todo descascado pelo longo uso, onde por seus furos pingoteava minha roupa.
Um dia minha mãe surpreendeu-me com um palheiro atrás da orelha e os dedinhos brancos amarelados pela fumaça. Perguntou-me o que significava aquilo.
Logicamente, não soube responder, pois nem sabia que fumar amarelava os dedos.
Tenho certeza, que nos duas tínhamos a mesma convicção: fumar era soma de afetividade, e não um ato que pudesse acarretar prejuízo à saúde.
A China, minha Irma de criação, como uma bruxa má, terminou com nossa alegria... Contou para meus pais que a tia Benedita estava me dando cigarros.
Fui proibida de visitá-la. Só a expiava de longe, ou pelas frestas da casinha.
Muito chorei em não poder mais estar com ela.
Sabe lá quanta tristeza ficou no seu coração, quanta falta sentiu de sua companheira querida das horas solitárias, da filha que talvez nunca tivera, pois ninguém nunca soube dizer de onde viera e nem para onde se fora.Pois, numa manhã, que ficou marcada por ausências, a casinha amanheceu vazia...
Só um borralho sem calor acordou sozinho.
Ela se fora...
A casinha passou a agasalhar só saudades.
Para lembrar sua estada , tia Benedita deixou a latinha de palheiros.
Por muito tempo ela marcou uma ausência muito doída... Depois, foi usada para guardar os preguinhos da caixa de ferramentas de meu pai. Era chamada: A Latinha da Tia Benedita.
Que assim como chegou, livre alforriada de emoções e de raízes, assim ela partiu... Com sua trouxinha nas costas estrada a fora para escrever mais uma pagina de sua historia de andarilha.

Mardi Elena Espindola
Restinga Sêca - RS - Brasil

 

 

 

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