FÉNIX

 

LOGOS Nº 13

MARÇO 2015

 

 

 
 

Margarida Piloto Garcia

 

O MUNDO DA LUA
Margarida Piloto Garcia


Há muitos anos, era parte de mim a lua pendurada no teu corpo. Tu ias e vinhas na noite, num tropel que nem os cavalos do sonho conseguiam acompanhar. Nada era realidade a vestir-me o corpo e apenas o medo penteava os meus cabelos.
Tu seguias imune aos meus apelos, orgulhoso e falsamente convencido de que a estrada do luar era só tua. Agarrada a ténues esperanças, abri-te os braços vezes sem conta, na vã tentativa de que eles fossem abrigo e casulo, fossem caminho e cama de amores lunares. Mas a teia dos segredos a palpitar nos olhos, sempre nos enredou e os lobos a morderem a pele numa luciferina sedução, foram sempre vencedores.
Hoje os dedos doem-me quando toco o luar e me tento demorar na pele do teu corpo.
É em quarto minguante que a lua te recorta, suspirando maresias insensatas e insuspeitas. Nada consigo ouvir, os sons enclausurados num outro universo, nada consigo ver, cega pelas mentiras embrulhadas em papel colorido. E as palavras que poderia dizer ou gritar, calo-as porque perdi as asas de gaivota ao cruzar o último céu.
Com o teu lado escuro tentas agarrar-me num abraço luarento, os olhos postos, não em mim, mas na feiticeira iluminada numa gritante noite azul.
Mas algo se recolhe em segredo, refugiando-se dos gestos gastos e mínimos. Não tenho mais desejos grávidos de ti porque os isentaste de mim.
Agora, só desejo guardar aquele lugar mágico , inviolado e secreto que nunca corrompeste.
Toma para ti o que com esqueléticas razões julgaste ser teu. Deixa-me apenas o mundo da lua.

Margarida Piloto Garcia
Barreiro- Portugal
http://letrasnohorizonte.blogspot.com

 

 
 

Maria Aparecida Felicori (Vó Fia)

 

ANJO NEGRO
Maria Aparecida Felicori (Vó Fia)


Josias Anselmo era uma pessoa boa e prestativa, estava sempre pronto para ajudar em qualquer coisa que um amigo precisasse; era católico praticante e seguia todas as regras do catolicismo, casado com Dulce, tinha um filho de sete anos muito esperto e bem educado, que sempre perguntava ao pai se no céu tinha “Anjos Negros” ou se todos os anjos eram brancos.
Josias pacientemente explicava ao filho que no céu não tinha racismo, que lá todos eram iguais e que ele tinha certeza que existiam lindos “Anjos “Negros; a família Anselmo vivia modestamente, mas com dignidade e todos os moradores da cidade de Águas Claras, apreciava o seu jeito de viver e a vida passava mansamente como é comum no interior.
Josias era pedreiro e sua esposa era cantineira da única escola da pequena cidade, compareciam todos os domingos a missa, levando sempre o filho Zizinho para que o menino se tornasse um bom católico e bom cidadão e o menino crescia mostrando a mesma boa índole dos pais e a mesma fé cristã, mas conservando aquela duvida sobre os anjos.
O tempo passava, mas a vida tranqüila daquele pequena família continuava imutável, ricos não eram, mas viviam bem e em completa paz, mas esse bem estar foi quebrado quando Josias começou a se sentir mal, seu estomago doía, perdeu o apetite e trabalhava com dificuldade, pensou que era coisa simples e tomava chás que sua esposa preparava.
Os dias passavam e como não estava melhorando, Josias procurou um medico que depois dos exames, lhe disse que ele tinha um tumor no estomago e que precisava de uma cirurgia, foi um susto para a família e os muitos amigos, mas a cirurgia foi marcada e realizada, parecia que estava tudo bem, mas dois dias depois uma inesperada hemorragia o matou.
O velório de Josias foi muito concorrido e pouco antes da saída do enterro, um “pássaro preto” voou sala adentro e pousou sobre o caixão onde ficou por alguns minutos, voando em seguida para fora da sala; as pessoas presentes não entenderam nada, mas o pequeno Zizinho parou de chorar e disse: O papai me dizia que no céu existem lindos anjos negros.
E é verdade, porque esse pássaro era o papai virado em anjo que veio nos consolar e por isso não vou chorar mais, porque o papai está no céu e é um Anjo Negro que de lá vai cuidar de mim e da mamãe; o povo da cidade de Águas Claras acredita que o bondoso Josias se tornou um anjo realmente e por isso ninguém caça e nem prende o lindo Pássaro Preto em gaiolas.

Maria Aparecida Felicori (Vó Fia )
Nepomuceno - Minas Gerais - Brasil
www.vofiacontosepoemas.blogspot.com.br

 

 
 

Maria da Glória Jesus de Oliveira

 

O HOMEM DOS DEZOITO
Maria da Glória Jesus de Oliveira


É verão. Gosto de cochilar na rede, depois do almoço. O vento do mar faz uma carícia em meu desgastado corpo, e o murmúrio das ondas, um pouco distantes, embalam-me. Às vezes, sou perturbada pelos gritos dos netos. É costumeiro e não me incomoda. Agora, é a vez da Lavínia.
- Vó! Te acordei?
Sorrio e respondo não. Ela sobe na rede e se aconchega em meus braços.
- Conta a história do vovô.
Conto. Ela já deve saber de cor, pois, afinal, dentre as histórias que conto é a que mais gosta e não se cansa de ouvir-me. Então.
Eu tinha quinze anos. Mamãe mandou-me levar uma costura para a fábrica. Era a mais velha das meninas e tinha de ajudar nas tarefas. Resolvi mudar o caminho. Quando passei pela Rua das Acácias, vi o homem sentado na varanda da casa, tentando fazer um bebê se calar. Parei e achei graça dos gestos desajeitados. Ele também riu. Num ato espontâneo, aproximei-me.
- Deixa, comigo. Pobrezinha. Precisa trocar as fraldas. Onde tem?
Entrei na casa que não conhecia. Começou a chegar crianças.
- Quem é ela, pai?
- Vai morar com a gente?
- Sabe fazer comida?
- Posso chamar de mãe?
Olhei para o homem e achei graça, de novo. Ele riu, de novo. Tinha olhos escuros. Pretos, talvez. No momento, não soube definir. Porém, foram os olhos que amei para sempre. Cabelos despenteados, barba por fazer, camisa molhada da baba e do choro do bebê, pés descalços e... apaixonei-me na mesma hora, no fervilhar da idade. Desviei o olhar, rapidamente, encabulada e de faces rubras.
- Toma! Tem outras fraldas no varal. As roupinhas, coloquei na gaveta. As que estão no chão estão sujas. Não consigo dar conta, sabe como é. A propósito, meu nome é Ezequiel. E o teu?
- Alice.
Falamos ao mesmo tempo e rimos. Eram tantas crianças. Fiquei séria e contei: oito.
- A do País das Maravilhas? – perguntou a maior.
Mais uma algazarra, risos, perguntas empurrões, choros. Confusão.
Olhei para o pai:
- Quem são?
- Meus filhos.
- Todos?
- Sim. Janaína, Pietro, Gabriela, Janice, Amanda, Leandro, Joice e Anelise. Oito.
- E a mãe?
- Saiam crianças. Vão brincar na rua. Janaína, leva todos. Quero falar com a moça.
Mais confusão, contrariedades, choros e falas. Finalmente, Ezequiel olhou-me e explicou:
- São meus filhos, sim. Minha esposa morreu ao dar à luz. Agora, preciso de quem me ajude. Gostei de ti. Já vi que tens jeito com crianças. Queres casar comigo?
Ri tanto que meus olhos se encheram de lágrimas. Anelise voltou a chorar. Coloquei-a no colo e fiquei embalando-a, de cabeça baixa, sem coragem de encarar o homem. Coisas doidas passavam pela minha cabeça. Então, quando ergui o olhar para Ezequiel, como se as palavras tivessem saído de outra boca, disse:
- Sim, aceito.
Não voltei para casa. Casamo-nos quando fiz dezesseis anos e já com meu primeiro filho nos braços. Tive dificuldades. Às vezes, meu marido chegava do trabalho e me encontrava brincando com as crianças, sem ter feito almoço, limpado a casa ou lavado a roupa. Com calma, foi-me ensinando. Cada ano que passava, tínhamos mais um filho e... e...
- Vó! Acorda. Quero ouvir mais.
- Ah, querida. Você já sabe. Foram dez filhos, dez. Por isto é que nossa família é tão grande. Teu avô teve dezoito filhos. Dezoito. Agora, deixa a vovó dormir mais um pouco, deixa.

Maria da Glória Jesus de Oliveira
Porto Alegre - RS - Brasil

 

 

 

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