FÉNIX

 

LOGOS Nº 13

MARÇO 2015

 

 

 
 

Maria Nádia Alencar Lima

 

SABERES DOCENTES E O ATO DE ENSINAR
Maria Nádia Alencar Lima


A concepção do ato de ensinar como um processo que envolve a mobilização de saberes de diversas ordens trouxe à tona, nos recentes estudos sobre formação de professores, a questão do saber e de sua produção. Defende-se, nesse processo, o estudo, de forma não normativa, do conjunto dos saberes mobilizados pelos professores em suas tarefas, entendendo-se saber de acordo como o conjunto dos conhecimentos, competências, habilidades e atitudes incorporados no processo de trabalho docente. De acordo com o autor;
A educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana. Estamos na era planetária; uma aventura comum conduz os seres humanos, onde quer que se encontrem. Estes devem reconhecer-se em sua humanidade comum e ao mesmo tempo reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que é humano. (MORIN, 2007, p.47)
Considerando a bibliografia da área como saberes necessários à educação do futuro para o saber fazer do professor de um conteúdo específico, os saberes conceituais e metodológicos e os saberes integradores estão relacionados com o conhecimento da matéria objeto de ensino, e envolvem alguns requisitos, como o conhecimento dos problemas que originaram a construção de determinados saberes na área e sua articulação de forma coerente, de modo a evitar visões estáticas e dogmáticas, deformadoras da natureza do conhecimento humano.
Nesse sentido, e olhando para a educação de modo reflexivo é possível afirmar que o professor facilitador de aprendizagem precisa conhecer a evolução dos estudos pedagógicos, os quais têm modificado antigos conceitos, ocasionando mudanças nas formas de se pensar a multiplicação dos saberes, pois segundo Morin (2007, p. 52) “O homem somente se realiza plenamente como ser humano pela cultura. Não há cultura sem cérebro humano [...]”. Assim sendo, o desafio atual é socializar saberes entre professores e alunos/professores via formação inicial e ou continuada.
Nova consciência começa a surgir: o homem, confrontado de todos os lados às incertezas, é levado em nova aventura. É preciso aprender a enfrentar a incerteza, já que vivemos em uma época de mudanças em que os valores são ambivalentes, em que tudo é ligado. É por isso que a educação do futuro deve se voltar para as incertezas ligadas ao conhecimento. (MORIN, 2007, p.84)
Portanto, o ato de ensinar ainda que rodeados de incertezas assim como os saberes integradores, representa um componente fundamental na formação do professor, é relativo ao ensino dos conteúdos sistematizados e oriundos das pesquisas realizadas na área de ensino do conteúdo específico, e é preciso mais que revelar o desejo de vivenciar certas práticas pedagógicas, pois é necessário incorporar os requisitos e as características exigidas para o que é indicado na prática pedagógica.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 12ªed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2007.

Maria Nádia Alencar Lima
Belém-PA - Brasil
Licenciada Plena em Pedagogia (UNIFAP), e Pós-graduada em Docência do Ensino (FACULDADE DE MACAPÁ).

 

 
 

Mario Rezende

 

O OLHO ESQUERDO
Mario Rezende


O defunto insistia em ficar com o olho esquerdo aberto, só o esquerdo.
“Justamente aquele olho que durante toda a vida, ficou meio aberto meio fechado, quando ele estava acordado, claro. Apesar de que nem dormindo ficava totalmente fechado” – Dizia Carlota, a chorosa viúva, que não parava de piscar encarando, naquela hora, o olhar firme do persistente olho do Leôncio.
Ela achava que era defeito de nascença, sempre foi assim, como se estivesse meio dormindo meio acordado, por isso era conhecido no seu meio como mormaço.
Durante todo o velório, volta e meia Carlota ia lá junto ao corpo para espantar as moscas e as abelhas e aproveitava para puxar para baixo a pálpebra insistente, que ia, aos poucos, encolhendo. Esse processo durava mais ou menos quinze minutos, até o olho ficar totalmente aberto, deixando à mostra a íris embaçada e o globo amarelecido pela falta de vida, como um observador silencioso do comportamento daquelas pessoas que foram até lá para se despedir e relembrar as suas peripécias. A impressão que dava era que ele estava querendo saber como estavam sentindo a sua partida.
O Doutor Bráulio, médico da família, que durante muito tempo cuidou da tosse insistente do Leôncio (deve ter cuidado da tosse mesmo, pois ela nunca abandonou o homem), embasado nos seus conhecimentos acadêmicos sobre o corpo humano, enquanto tomava um cafezinho servido da garrafa térmica em copo de vidro, naquela altura, mais para morno do que quente, contou ao cunhado do falecido, que tinha tomado umas três daquela branquinha a pretexto de tirar o gosto de flor de cemitério da boca, que o movimento das pálpebras do Leôncio era no sentido contrário. Em vigília ele tinha que fazer força para o olho abrir, embora não soubesse se quando ele estava dormindo o olho fechava, porque nunca viu o falecido dormindo e, também, nunca perguntou à viúva. A estrutura cerebral que trabalha aquela região deve ter sofrido algum dano, por isso funcionava de forma inversa. Quando perdeu a vida, deixou de existir o comando e aquele olho esquerdo, ao contrário do outro, ficava aberto em lugar de fechar. Aliás, ele, depois de passadas as horas tristes da despedida, quando estivesse conversando com a viúva entre uma consulta e a despedida, a propósito de seus estudos, iria perguntar sobre o caso, que pelo comportamento do olho durante o velório, estava lhe aguçando mais a curiosidade.
Lá pelas tantas, depois de muita romaria em torno da caixa mortuária de segunda, forrada de tecido estampado em amarelo e roxo, exigência do Leôncio, reafirmando no seu leito de morte, segundo a viúva, para ela poupar o dinheirinho que ele vinha guardando na poupança, justamente para auxiliá-la na sua falta. “Nada de luxo com ele nessa hora. Caixão envernizado de madeira de primeira com crucifixo pregado na tampa era dinheiro jogado fora. Além do mais ele era adepto da preservação da natureza e não queria em hipótese alguma colaborar com esse crime” – dizia ele. Pediu, inclusive, que ela se assegurasse, mediante apresentação de certificado pela funerária, que o caixão fosse feito de madeira de reflorestamento, assim ele ia em paz com a consciência ecológica. Isso ela não fez, obviamente, porque além de comprar o mais barato, o que fatalmente já ia provocar cochichos ao pé do ouvido, principalmente das cunhadas, o dono da funerária poderia ser proprietário de uma madeireira clandestina e considerá-la suspeita de ativista.
Carlota tinha muito medo de envolver-se com essas coisas por causa de vários casos que tivera conhecimento pelo noticiário da televisão. “Só o Leôncio pra me deixar numa situação dessas nessa hora” - pensava ela. Agora queria viver em paz na sua nova condição de viúva.
Terminado o tempo do velório, já que, apesar da persistência do olho esquerdo do Leôncio, o corpo não deu outro sinal de vida, tocou-se a sineta anunciando o enterro. Na hora de fechar a tampa do caixão, os parentes não conseguiam desprender a inconsolável viúva que, aos prantos, no último adeus, fora de si, dizia ao defunto: “Não olhes tanto para mim. Eu fiz quase tudo como me pediu. Você deve agora é, lá de cima, olhar, de outra maneira, por mim e pelos seus filhos.

Mario Rezende
Rio de Janeiro - Brasil
www.recantodasletras.com.br/autores/mrrezende

 

 
 

Nice Maria Botomé Cousen

 

ERA NOITE DE NATAL
Nice Maria Botomé Cousen


Era noite de Natal. As estrelas iluminavam as ruas da cidade. A menina, junto a toda família, esperava a meia-noite com ansiedade infantil, tentando adivinhar os presentes que ganharia.
Lá fora, na rua enfeitada com lâmpadas coloridas, muitas crianças brincavam alegres, à espera, também, do grande momento, o momento de receber o que “Ele” lhes traria. Será que viria? Será que tinham se comportado bem para merecer a sua visita? Grande Expectativa!
A Menina também o esperava com ansiedade em meio aos tios, primos, pai, mãe e avó. De vez em quando olhava para a rua, perscrutava o céu, e nada: nem sinal dele.
De repente, já lutando contra o sono que lhe embaçava os olhos, ouviu a Tia dizer, “olha lá no céu!” Então ela viu, viu o trenó e as renas aproximarem-se do telhado da casa da avó paterna.
Maravilhada, enquanto a Tia, querido colo que sempre a embalava, cantava músicas natalinas para recebe-lo, a Menina enxergou, descendo do telhado, a figura tão esperada por todas as crianças: o Papai Noel.
Para ela, o tempo parou naquela hora e, em êxtase, viu papai Noel distribuir os presentes especialmente para ela, a única menina da casa. Sem que ela visse, ele foi embora, provavelmente levado pela magia daquela noite inesquecível que se repetiu ainda por alguns anos, enquanto a Menina era criança e sonhava.
Anos mais tarde, a Menina, que já não acreditava em todos os sonhos, descobriu que Papai Noel daquelas noites encantadas, o seu primeiro Papai Noel, tinha sido seu Tio, o tio mais moço, auxiliado pelo carinho da Tia, a tia mais velha, irmã de seu pai.
Hoje, passados tantos anos, a Menina ainda se lembra daqueles momentos e agradece aos Tios, que já estão junto às estrelas, pelas lindas lembranças que deixaram em seu coração. Enfim, era noite de Natal...

Nice Maria Botomé Cousen
Porto Alegre – RS - Brasil

 

 

 

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