FÉNIX

 

LOGOS Nº 13

MARÇO 2015

 

 

 
 

Rejane Machado

 

METAMORFOSES
Rejane Machado


São bonitas as fábulas da Mitologia, que Ovídio nos revela. Imagine-se Pan apaixonado por uma Ninfa que lhe foge ao assédio. Como são vingativos estes deuses! A pobrezinha corre pela floresta, tenta esconder-se, ocultar-se entre a vegetação. Como se agita o seu pequeno coração, como bate, desgovernado, sentindo medo, terror, abandono cruel, entregue à sua própria sorte! E ele, cego de paixão e de desejo a procura por todos os lados. Dispõe de poderes que ela não pode imaginar e com os quais nem pensaria em competir. Resta-lhe tão somente ficar absolutamente quieta, sem respirar, que ele não a descubra, assustada, entre as folhagens espessas do bosque; mas os deuses têm poder, têm malícias, têm mil olhos a que nada escapa. E a sorte da pobre Ninfa está traçada. Julga-se salva, imagina que ele a esqueceu, não tem o direito de se descuidar da segurança, mas a noite se aproxima, ela precisa voltar ao lar, não pode, não deve ficar ao relento, sujeita aos perigos da floresta. E o carro de Apolo já se precipitou desgovernado, no mar oceano, reino de Poseidon. O mar encheu-se de cores sanguíneas; aos poucos tornar-se-ão violáceas. As trevas, em breve, cobrirão todos os espaços. E ela não pode permanecer ao relento. Sai do esconderijo com vagar, às apalpadelas, cuidadosa em não ser surpreendida. Dirige-se ao rio. Não há outro caminho. Atravessá-lo é a sua meta, é a sua salvação. Do outro lado estará livre da perseguição cruel. Louca! Temerária! Não estava preparada para aquilo. O deus é cruel, vingativo e não suporta uma rejeição.
Surpreende-a em plena fuga, quando pensava estar quase salva. Ele a quer e diante da sua recusa, ofendido, transforma-a em um bambuzal viçoso, cantante: Não queres ser minha, não serás de ninguém. Quem imaginará que o som do vento seriam os seus gritos se ela ainda tivesse voz?
Ela sobreviverá. O rio é generoso e não lhe faltará alimento. Seu verdugo, gentil, corta-lhe um galho e o oferta ao cantor sublime que dele fará uma flauta, e sua saga permanecerá. Este é Orfeu, que maravilha a todos os que ouvem o som incomparável daquele instrumento. É tão pura a música que sai daquela flauta! E tão encantadoras melodias brotam daquela haste verde, deslumbrando seres e coisas. A Natureza se dobra ao canto de Orfeu. Amansará as feras, acalmará os ventos, sossegará os ribombos da tempestade, trará calma e paz a todos os ambientes.
E cederá aquela flauta mágica a certos poetas, que cantarão lindamente o amor. Não a qualquer bardo, mas àqueles que tiverem sensibilidade para fazerem reviver no instrumento os anseios do coração de uma jovem assustada. Cuja beleza a perdeu, porque não se contraria impunemente um deus. Ele a queria e ela se negou, tentou enganá-lo, escondendo-se. Baldadas tentativas. Quando pela primeira vez ele a viu, selou seu pobre destino, porque o altruísmo não é apanágio dos deuses. Do seu código de valores não faz parte a renúncia, a sublimação.
Outra Ninfa veio banhar-se naquele mesmo rio da Antigüidade. Aretusa era o seu nome. Tão bela, que as águas a envolveram cantando de prazer. O que chamou a atenção do rio, ao acordá-lo e tirá-lo da sua contemplação, levantando-o do seu leito. Ele vê Aretusa, admira suas formas magníficas. E se apaixona perdidamente por aquela bela criatura. Um amor tão desesperado, avassalador, decisivo e forte, como são os amores das montanhas pelas nuvens, das marés pelos rochedos e penhascos. Ele, o rio poderoso, não resiste, encrespa-se e a arrebata, envolvendo-a nas suas inúmeras águas. Decide e realiza imediatamente uma cerimônia ancestral e definitiva: casa-se com ela. Liga suas vidas. Para sempre. Para a eternidade. Transforma a bela em uma fonte sempre a correr. E ela dessedentará a todos os sedentos. Poderão todos beber de suas águas, mas ela somente pertence ao rio.
Mais tarde um belo jovem caminha pela floresta. Sente-se cansado e procura um remanso para encostar a cabeça. Virá sentar-se à fresca margem deste mesmo rio, já aplacado em seu furor. O som das águas a correr entre as pedras, a frescura das plantas, o perfume e as cores da vegetação o encantam. Curva-se, coloca a mão na água, sente a sua frialdade, brinca um momento com as espirais que o agitam, perturba levemente a placidez anterior. Mas quando as águas se acalmam, o rio oferece-lhe um espelho em que as personas podem se mirar e descobrir-se. E o que ele vê o deslumbra: uma imagem de formosura sem par. Onde encontraria outro ser tão belo? Que semblante plácido! Que traços perfeitos! Apaixona-se de imediato pela figura que vê. Sem saber que pela sua própria imagem refletida no espelho d´água. E não resiste. Os amores destes seres da Mitologia são urgentes, intempestivos, não podem esperar. Atira-se ao encontro de si mesmo.
Mas os deuses sabem que um ser tão belo não poderia simplesmente desaparecer. E concedem-lhe uma compensação. Pastores e ninfas que vierem se banhar descobrirão uma estranha e bela flor. Seu aspecto encanta, seu perfume arrebata. Narciso. Para sempre.
Ali, também, nas suas margens, Níobe chora em desespero. Que lhe aconteceu? Qual a razão de tão grande desgosto? A perda de seus filhos. Não, não se ofende impunemente a nenhum deus. E se se trata de uma deusa- oh Júpiter! - muito pior, o ciúme de Latona não tem contemplação. É irracional. E o coração feminino sempre será um mistério indevassável. Por que Níobe se opunha ao culto religioso que se fazia à outra? No coração da Vestal começa a nascer um sentimento estranho, que precisa ser aplacado, e a antiga inconformação diante da desigualdade vem à tona. Pois que tendo apenas dois filhos, Diana e Apolo, - não pode aceitar a fecundidade da outra. Intolerável a felicidade da mãe de tantos guerreiros – (Homero nos dá conta de pelo menos 12, entre varões e belas jovens). E quando os moços fazem seus exercícios, próximo a Tebas, flechas invisíveis os atingem. As irmãs acorrem, assustadas, e terão o mesmo trágico destino. À Níobe, esposa de Anfion, o rei da grande cidade, só é concedido chorar, arrancar as vestes, cobrir-se de cinzas, tomar-se de um tal sofrimento que a imobiliza. Talvez algum deus, penalizado pelo seu sofrimento, ou por não suportar a manifestação da dor, porque nos reinos do Olimpo só se admite o prazer e os folguedos- a transformará num rochedo. Que arrastado pelos fortes ventos estacionará na distante Lídia, onde continuará pelos tempos, a verter suas sentidas lágrimas. E os seus lamentos não ofenderão os ouvidos delicados daqueles seres excepcionais!
Completamente trágico. Mas afinal a tragédia é a marca destes antigos contos. E herança indelével que nos deixarão estes caprichosos deuses da Mitologia, a nós, fracos seres humanos, que teremos por destino inexorável conviver com estas marcas eternas.
E poetas de todos os tempos encontrarão para sempre sua inspiração nessas histórias de amores tempestuosos, arrebatadores e sentimentos exacerbados.

Rejane Machado
Professora de Literatura, exercita critica textual,escreve contos, romances, crônicas,ensaios, lit. infantil. Tem doze livros publicados, e outros em preparo.
Rio de Janeiro - Brasil

 

 
 

Roberto Romanelli Maia

 

INVASÃO DOS “ESPECIALISTAS”
Roberto Romanelli Maia


Nunca na história humana existiram tantos técnicos, especialistas e experts, a maior parte deles desconhecedores do que alegam saber mais que a maioria dos outros mortais.
É um mito considerar que o mundo e a sociedade atual só funcionem com equipes de indivíduos especializados. Pelo contrário, os próprios vazios e as contradições nos serviços que prestam, bem como a irracionalidade geral que domina as relações pessoais entre os que se incluem em uma faceta privilegiada da sociedade e os demais obriga uma certa promiscuidade e de certo modo uma reação natural à incompetência profissional de tantos, em escala maior do que muitas vezes podemos demonstrar.
Muitos indivíduos nas últimas décadas optaram por uma especialidade, em qualquer campo, Engenharia, Medicina, Direito, Seguros, Economia, Consultoria, etc, e tendo este suporte universitário atuam em importantes empresas públicas ou privadas, ocupando, por décadas, cargos, funções e postos muito acima do seu nível de competência.
Sim, é lamentável que vejamos no dia a dia tanta gente inepta, ocupando cargos, funções e postos para os quais não estão devidamente habilitados. São meros “enganadores” e nada além disso!
Em muitos casos chegam a por em risco a vida das pessoas e por essa razão vivem o temor permanente de que os outros reconheçam sua incapacidade e incompetência.
Vivem escondidos, camuflados na sua própria especialidade, procurando torná-la ermética e ininteligível, transformando-a em matéria duplamente complicada e exigente.
Para eles, a forma de como agir perante os outros é óbvia: tentam criar a sua volta uma complexidade, que os distinguem e os torna “gênios”.
Nessa categoria encontramos alguns médicos, que não esclarecem a doença que “diagnosticaram” e advogados que preparam para o juiz “arrazoados” que seu cliente e muitas vezes o próprio juiz não conseguem entender.
Ao lado deles, encontram-se também os executivos, que fazem questão de mostrar para os outros mortais nunca terem tempo para nada, pois eles só se preocupam em planejar, criar e executar.
O que dizer então dos psicólogos e afins, que se consideram deuses pois conseguem “entender e interpretar os problemas da alma e da psique humana”. Quanto aos economistas, estes repetem e citam sempre outro economista, ou uma estatística, que já está pronta para qualquer ocasião.
Os publicitários, por sua vez, usam e abusam de expressões em inglês, em geral assumindo posturas de seres privilegiados, ao discutirem as Criações fora e dentro de suas agências.
O que se observa, nesse contexto é a intenção logo no início de qualquer conversa de mostrar para o outro que seu interlocutor é ignorante sobre seus conhecimentos técnicos especializados.
Ao contrário de simplificar e tornar claro o que deve ser, este tipo de profissional se preocupa apenas em complicar, pois se revela inseguro sobre sua real condição de especialista, naquele assunto em pauta.
Mesmo em outras áreas os chamados especialistas, ao contrário, pouco tentam resolver; nem cogitam em reduzir uma situação problemática quando esta contraria seus objetivos e seus próprios interesses.
Exemplos de posturas que incorporam a simplicidade e uma real profundidade sem ermetismos está na prática de alguns gênios, como Oscar Niemeyer que explicou a criação de Brasilia num folheto de vinte páginas. Em Faulkner, que ao ser perguntado como escrevia, esclareceu: "Da direita para a esquerda". Em Nijinsky que questionado como conseguia dar seu incrível salto em suspensão, esclareceu: "É só dar um pulo bem alto e parar lá um pouco".
Não esqueçamos também Miguel Angelo que ao ser interpelado por um aprendiz sobre teorias e métodos seguidos na elaboração de suas esculturas, ele apenas respondeu: "Eu compro um bloco de mármore e, depois, com o buril, tiro dele tudo o que não interessa."
Estes são exemplos de simplicidade, que revelam o retrato fiel dos verdadeiros detentores do conhecimento, em todos os níveis.

Roberto Romanelli Maia
Escritor, Jornalista e Poeta
Rio de Janeiro - Brasil

 

 
 

Rozelene Furtado de Lima

 

AMOR OBJETO
Rozelene Furtado de Lima


Primeiro trabalho de Lico. Que alegria! Alguém indicou para ele uma loja na capital que consignava roupas masculinas para venda. E Lico entusiasmado foi à cidade grande com o amigo. Encantou-se com a capital, com as belezas, viu o mar pela primeira vez. Extasiou-se. O mar e sua imensidão. O ruído do mar nunca saiu dos seus ouvidos junto com as gaivotas que sobrevoavam a sua mente e a dança das ondas na areia. Sentia-se como se tivesse ido a outro planeta. Tudo tão diferente, tão diferente! As pessoas na praia, a alegria, a liberdade, a areia. Meu Deus, todos teriam que vir aqui nem que fosse por uma única vez!
Lico e o amigo foram até a loja, escolheram as peças para revenda e cada um seguiu o seu caminho. Em uma semana ele tinha vendido tudo, menos uma camisa. Ela era feita de malha de seda, com listras fininhas nas cores azul escuro esmaecido, azul mais claro e cinza. Foi amor à primeira vista. Ela era a peça mais cara. Ficou com ela. Em ocasiões muito especiais vestia aquela camisa. Só ele sabia a energia que emanava da peça. Quando ela tocava seu corpo vinham todas as sensações da primeira vez diante do mar, dava a ele um poder extraordinário, ela transformava-o. Ela sabia como envolver seu corpo, tocar sua pele numa extrema maciez. Ele sentia o carinho do envolvimento dela no seu peito. Quem nunca teve um amor especial por uma peça de roupa, que às vezes nem serve mais, nem usa mais e é impossível desfazer-se dela? Assim era o amor de Lico por aquela camisa. Amor é um sentimento indescritível, seja por que for ou por quem for. Nada pode explicar o amor, nada pode apagar, nem mesmo o tempo com suas modificações. O amor não é cego como dizem, só quem ama tem olhos na alma.
Certo dia... Ele pediu à esposa que arrumasse um álbum de fotografias dos jantares, que acontecia todos os anos, em comemoração à formatura de 2ºgrau. Ele tinha uma máquina e vivia fotografando tudo. Numa época que ter uma máquina fotográfica era declaração de status. Depois do álbum pronto, Mary observou que em todos os anos de jantar comemorativo ele usava a mesma camisa. As fotos não mentem. Ela saiu, comprou uma linda camisa para Lico.
Arrumando-se para ir ao jantar ele perguntou: - Onde está aquela camisa de listras finas? Ela responde: - Use a camisa nova que eu comprei para você, já estamos atrasados. Ele não encontrou a querida camisa e foi com a camisa nova com a sensação de traição.
Tempos depois, quando estavam terminando a reforma da casa, contrataram uma firma para colocar calhas no telhado. Foi um empregado medir e fazer o orçamento do trabalho. Assim que viu o empregado Lico ficou surpreso, respiração ofegante e não conseguia falar. Lico entrou em casa meio cambaleante chamando a mulher: - Cadê minha camisa de seda fininha? – Por que isso agora? Ela perguntou – Ele reponde: - Ninguém pode ter uma camisa igualzinha a minha e o rapaz está usando minha camisa. Ele falava como alguém que encontra, há mais de trinta anos, um grande amor.
Ela, meio nervosa respondeu: - Você falou que eu podia pegar umas roupas suas para enviar para o bazar de caridade da Igreja, deve ter sido lá que ele comprou.
O rapaz entregou o orçamento, e Lico perguntou em tom decisivo?
– Quanto você quer pela camisa, rapaz?

Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil
www.rozelenefurtadodelima.com.br

 

 

 

Livro de Visitas