FÉNIX

 

LOGOS Nº 13

MARÇO 2015

 

 

 
 

Silvino Potêncio

 

AS MINHAS (DEZ) ILUSÕES...
Silvino Potêncio
Citação ideológica: - Nas horas de crise, o difícil não é cumprir o dever; é saber onde ele está! (De Bonald) --- na minha modesta tribuna de observador independente, e já com o "dever de casa" cumprido, eu procuro pela crise, alguém a viu por aí!!!!???- Silvino Potêncio/Natal - Brasil, Emigrante Transmontano, des iludido, des consulado, des mistificado, des terrado, des embarcado da "jangada de pedra", em terras do ultramar.


Mediante o tamanho desconsolo de nem saber onde começa e/ou aonde vai terminar esta crise, que me persegue a mim pessoalmente, já desde o tempo dos acordos do “Alvor” e ser um Retornado, todavia ela é sempre também tão apregoada e aceite por todos com imensa passividade, e eu me pego a perguntar a mim mesmo;
- crise!?,... mas que crise!?,... a minha ou a do outros?
- lá da platéia geral, do coliseu nacional, alguém logo grita:
A crise, ela é geral!!!
Quando eu me sinto em sociedade, por certo a crise será colectiva e contagiante, mesmo que mais não seja por indução ideológica e compartilhamento de boas maneiras, por ingerência de solidariedade pessoal e por última condescendência espiritual, talvez também por inércia decorrente de obediência à regra que vem de valores algures em outros pontos do intelecto racional do conjunto de inserção aonde vivemos, ainda que temporário ou menos etéreo aos comuns mortais realistas por natureza.
- Na incerteza de não poder descernir sobre preocupações alheias, sobre soluções para problemas genéricos, e muito menos para aconselhar especificamente alguém, a quem quer que seja, até porque jamais fui um qualquer conselheiro de coisíssima nenhuma, eu achei por bem iniciar aqui a minha tarefa (nada fácil) de numerar as minhas maiores decepções com o conjunto “Deus, Pátria e Família”...
- As maiores desilusões pelas quais passei, e passámos todos aqueles que tendo vivido isto tudo contemporâneamente, juntos ou separados, eles assim manifestaram as suas opiniões,... eles deram o corpo ao manifesto, e a cara ao vento do dever para com a Pátria e a Sociedade, para com o Estado e acima de tudo para com a Raça Lusitana que nos congrega, de alguma forma, alienadamente sem permissão pessoal prévia.
- Aqueles que arregimentaram bens e serviços próprios.
- Aqueles que adequaram as suas ideias e as registraram ao longo dos anos para depois as condensarem nas suas obras. Estas mais que merecidamente tituladas individualmente, usufruídas e supostamente doadas aos vindouros, que nelas acreditem como algo de perenemente ali terão sido plantados para todo o sempre. Eles os leitores conviventes destas (dez)ilusões são os verdadeiros intelectuais solidários a estas crônicas sociais.
- Numa primeira seleção de pensamentos eu entitulo-os aqui pela minha irreverente decomposição ortográfica pausada em forma de aliteração simples, e espero seja compreensível deste meu cunho temperamental unipessoal mais popular, por força das grandes massas que, porventura me leiam, me ouçam ou me escutem agora e no futuro:
Estas são senhores e senhoras --- as minhas maiores "dez ilusões" patrióticas do nosso tempo!!!


Parte I


"Dez ilusão" número um: por imposição social, para entrar no colégio, compraram-me um "bivaque" da cor escura, de um outono auspicioso de um inverno interminável, cujo destaque era um emblema de numero 1 (um) e nos ombros um "dolman" da mesma cor, ainda que um pouco mais suave, com botões em relevo das cinco quinas, que eu usava em conjunto com um "cinto muito" a propósito, e aonde tinha a letra "S" na fivela para me segurar as calças e não me deixar ver as partes mais intimas do meu ego, que era o de um ser apenas mais um lutador voluntário da pátria, um infante de apenas uns meros 11 anos de idade.
- Imaginei-me um soldadinho de chumbo e fui "chumbado" por falta de cabedais para ir além do segundo ano de matrícula... o "estado" podia ter-me ajudado em algo mais!


"Dez ilusão" número dois: por edital nacional convocaram-se famílias do interior do país - e de preferência as mais analfabetas possíveis - para se fazer uma colonização cristã, socialmente católica e ordenada, em terras de além mar, aonde se pretendia levar a civilização de forma ordeira, e controlada pelo poder central. - Por força do destino eu e a minha familia chegámos atrasados ao campo de concentração, imaginado às portas da Câmara Municipal de Alfândega da Fé, como se as nossas vontades e desejos pudéssem ser cronometrados com hora e data marcados préviamente, a "bel-prazer" de quem nunca jamais teria a presuposta responsabilidade de nos dar o pão para a boca, ou a paz às nossas atribuladas mentes de necessitados no meio da multidão de miseráveis campesinos, a arrastar arados e tremonzelas, charruas e outras farpelas, atrás de mais um grão de centeio para sublevar os meses de inverno, qual inferno de nossas existências terrenas.
- Melhor sorte tiveram os apenados, degredados pela justiça dos homens, e em seguida seriam sempre escorraçados do sistema; que após soltos dos grilhões em plena selva das colonias, dali não precisavam mais fugir porque já estavam em liberdade...o estado podia ter-me ajudado mais porque éramos pessoas de bem querer à pátria!


"Dez ilusão" número três: aos trancos e barrancos, como soe dizer-se, lá se passaram os anos da juventude baixa, e da adolescência alta.
- Aquela faixa etária onde achamos que somos deuses indestrutíveis.
- Aquela idade onde existe a falsa sensação de não se ter o amanhã garantido, mas onde tudo é certeza de um grande e enraizado futuro ideológico pela frente.
- Aquela idade onde construimos a nossa ratoeira emocional individualizada de caracter e colectivo de consciência social, aonde se ama tudo em nós e à nossa volta, porque tudo vemos com olhos de eternos apaixonados e nunca nos lembramos que todas as coisas são mensuráveis, fora das nossas massas cinzentas, e até mesmo uma música inebriante que um dia se transforma em melodia interrompida pelo pranto da realidade.
...E a realidade chegou e disse: está na hora de cumprires o teu dever!,...e assim se cumpriu...o estado podia ter-me ajudado mais porque duas cabeças pensam sempre melhor do que uma. Esperei, esperei, esperei esse algo mais da outra cabeça mas, até hoje de lá nada saiu,a do “Estado de sitio” em que se transformou o nosso torrão natal.

(texto extraído parcialmente do meu Livro “OS NÏZCAROS”)

Silvino Potêncio -
Portugal
em Natal - Brasil

 

 
 

Sinval Silveira

 

PENSANDO EM TI
Sinval Silveira


Como nunca, hoje acordei pensando em ti.Uma imensa saudade me invadiu!
Apeguei-me a todos os poemas que a ti dediquei,para acalmar os meus sentimentos.Reli-os com dificuldade, pois o pranto, sem piedade, só me permitiu chorar. Minh'alma, sequestrada e dominada, sufocou meu coração. O tempo que passou, não foi capaz de aplacar a fúria do meu padecer.Distanciei-me, fui para bem longe, tentei abandonar aqueles pensamentos, mas até o teu cheiro me acompanhou. Está em todas as flores.
Como um louco, ouvi a tua voz por mim a chamar.Pura alucinação!
Senti-me expulso da vida, e rejeitado pela morte. Conseguiste invadir e escravizar os meus desejos.
Hoje, colho saudade e sofrimento, frutos de um amor tão simples como o vento, e tão triste quanto a maldade.
Mas, se algum dia a saudade te abraçar, saibas que estarei sempre vivendo aquele sublime amor, pensando em ti ...

Sinval Silveira
Florianópolis - SC - Brasil

 

 
 

Sonia Nogueira

 

CUMPRI A MISSÃO
Sonia Nogueira


É meu habitat confabulava o peixe consigo. Nada se compara a este imenso lar espaçoso, água com temperatura a gosto do freguês, alimento farto, mesmo uns engolindo os outros, faz parte da sobrevivência, coisas da natureza, inquestionável à nossa vontade.
Não fosse por aquele pescador caduco que nos persegue. Perseguia-nos, mas graças à Divina providência, suas forças o abandonaram, e espero que suas mãos hábeis à nossa cata e, para saciar sua fome, fiquem inertes e nos deixem em paz.
Pensei, no entanto, torto, eis que vem vindo. O pecador sentou-se à beira do mar, olhar distante, pensamento indeciso, talvez adquirindo coragem para voltar ao barco, atirar aquela isca assassina e feito viciado irrecuperável, nós, os habitantes deste recinto, disputamos na dentada, o petisco traiçoeiro.
Vou ser mais esperto: abocanho o naco, jogo o velho no mar e então ele servirá para uma lauta mesa no jantar desta noite, com convidados especiais, os tubarões.
Xi estou sangrando. Solta, velho asqueroso. Ajudem-me! Um cardume de companheiros veio em meu socorro, mas num solavanco inesperado, o velho jogou-me dentro do barco. Fitamo-nos. Eu com olhar de piedade, de vítima, sem recursos, ele com olhar de glória, de vencedor sênior, visto que a força voraz da juventude fora-se no decorrer dos anos.
Senti piedade em seus olhos, como se a conquista o tornasse sensível a ponto de me amar. Aproveitei a fraqueza, sim, amor é fraqueza de sentimentos, os perversos são secos, não amam. Dei um salto tão forte que quase chego ao fundo do oceano. Respirei fundo para oxigenar as guelras, voltei à tona e lá estava o naco de carne, loucamente, avancei de um salto.
É assim, repetimos o mesmo erro várias vezes, mesmo achando que maturidade e sabedoria são lições a longo prazo. Engano.
Desta vez cai no laço, exausto e sem forças. Eu estava estirado na areia da praia, um vento acariciante sobre minha pele, olhares admirando-me saboreando no paladar, a fritura com cebola. O velho desmaiou de tanta emoção, mostrando ao povo a façanha da força dita decrépita.
Ainda ouvi vozes. – Ele mede dois metros, que pescado fabuloso e com os olhos embaçados vi a língua do locutor massagear os lábios, sentindo o paladar aguçado.
O velho cansado tocou meu corpo alisando-o como objeto de conquista, mesmo sendo a última. Alguém falou:
A mesma força de quando derrubava no braço o adversário. A juventude foi-se, porém, na mente, a vontade de não perder força, equilíbrio e lucidez.
O mundo escureceu, cumpri a missão: alimentar o humano Insaciável.

Sonia Nogueira
Historiadora, poetiza e escritora
Fortaleza - CE - Brasil
http://www.sonianogueira.prosaeverso.net/

 

 

 

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