FÉNIX

 

LOGOS Nº 13

MARÇO 2015

 

 

 
 

Urda Alice Klueger

 

COMO ELES VOARAM JUNTOS
(Para Rosane Magaly e Ronaldo Martins)
Urda Alice Klueger


-Mais alto! – pedia ela, e ele retrocedia dois passos, dava mais impulso, e o balanço voava, e a sainha colorida dela voava também, e os dois riam de felicidade enquanto brincavam assim, maninho e maninha em dias de descompromisso.
- Agora eu! Agora eu! – dizia ele, e então era ela quem empurrava o balanço, enquanto a franjinha loira dele era quem voava, anjinho de pintura assim que ele era suspenso no ar.
Havia os outros dias, os outros anos enquanto cresciam e voavam seus voos. O homem chegara à lua, coisa nunca acontecida, e havia que brincar de chegar lá também.
Nos azuis dias de vento terral, quando o frio cortava e mordia, eles nada sentiam, porque estavam viajando numa nave espacial. Levavam cobertas e lençóis para o pasto do morro próximo, e aproveitavam o vento intenso para fazerem os lençóis voarem como bandos de aves migratórias, enquanto eles se protegiam sobre as cobertas.
- Estamos quase chegando à lua! – gritava ele dentro do vento, sacudindo com força a ponta do lençol que parecia ter vida própria, com a sensação de que seria carregado para o espaço no momento seguinte.
- Chegamos! Chegamos! – garantia ela, agarrada à outra ponta do lençol flutuante.
E a infância ia-se indo...
Conforme cresciam, foram tomando outros rumos. Ela embarcou na nave da poesia, liderou momentos poéticos, voou com toda a força das suas asas. Ele voou por outros caminhos, mas sempre tendo como horizonte a liberdade tão amada, aprendida desde aqueles tempos de balanços e naves espaciais. Ela foi para a universidade e ele não, mas tinha tanto orgulho dela! Naquele dia de formatura ele se vestiu como um príncipe, colarinho de príncipe, camisa de príncipe, traje completo de príncipe. Era seu jeito de dizer a ela quanto a queria, o valor que lhe dava. Não houve quem não visse e sentisse o afeto que unia aqueles dois, ainda como o maninho e a maninha que um dia tinham sido, e não se emocionasse com aquilo. Não é em qualquer formatura que aparecem príncipes de verdade!
E a vida foi indo, foi indo...
Ninguém imaginaria como seria aquele voo que aconteceu no inesperado do que a gente acha que foi antes da hora. Duas coisas simultâneas aconteciam: ela tomava um avião para procurar por mais espiritualidade na Índia, e ele, cheio das alegrias de prolongado feriado de fim de ano era, inesperadamente, agarrado pela mão do destino que lhe trouxe uma coisa que a gente costuma chamar de AVC.
Encontraram-se quando o avião estava sobre o azul Oceano Índico. Ele a viu pela janelinha e esgueirou-se para dentro do avião.
- Mana! – chamou, e ela o viu ali.
- Mano! – disse, e de novo era como na infância, e os dois podiam voar juntos. Deram-se as mãos e o fizeram. Poderia ser um voo de despedida, mas será que o era?
Sempre se pode pensar que algum dia haverá, de novo, um menino e uma menina, e um balanço, e uma nave espacial... Sempre há tempo para se voar...

Blumenau, 17 de Fevereiro de 2015.

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutora em Geografia.
Blumenau - Brasil

 

 
 

Vera Maria Sangiorgi

 

MERIAM
Vera Maria Sangiorgi


Recebo email pedindo, caso eu esteja no facebook, para repassar e assinar o abaixo assinado: Sudão, não execute Meriam Y Ibrahim, por ser cristã.
Lamento muito que tal esteja acontecendo com Meriam, assim com me indignam, burkas diversas, o não poder praticar a religião escolhida, a falta de eleições, não direito ao voto, ausência de partidos políticos, o desconhecer a democracia.
Me faz mal saber da inferioridade feminina, mulheres são açoitadas, homens e crianças, como bombons bomba são mortos na eterna disputa pelo poder.
Como posso ajudar a Meriam, se não consigo resolver desigualdades tão próximas, dentro da minha casa, do quarteirão, onde moro, da livre fé que professo e desse ameaço de democracia no meu país??

Vera Maria Sangiorgi
São Paulo - Brasil

 

 
 

Vera Passos

 

DESIGUALDADES E DESENCANTOS
Vera Passos


As desigualdades sempre existiram e existirão e é dessa diversidade que se cresce espiritualmente e socialmente sem isso, a vida seria insossa, cansativa e porque não dizer chata; é nessa troca de vivências e informações que nós humanos descobrimos os prós e os contras, de cada classe social, dependendo exclusivamente do que queremos para transitar nessa estrada. O interessante é que, nas desigualdades sociais há sempre alguém querendo trocar de posição, um abastado quer ser o pobre e o pobre querendo conquistar a riqueza. Isso pode ser raro, mas ocorre principalmente porque o rico gostaria de ter a liberdade que o pobre conquistou de ir a qualquer lugar, sem chamar a atenção dos raptores, dos ladrões e assaltantes; sem se preocupar com as perdas materiais, o que vem mudando, pois a tecnologia chegou para ambos; uma adquire comprando à vista o outro em suaves prestações com juros altíssimos. As desigualdades pessoais serão sempre e eternamente marcadas pela cor da pele, traços fisionômicos, gostos, crescimento moral e intelectual e naturalmente pelas escolhas. As desigualdades humanas dependem do clima, da alimentação, do movimento, do biotipo de cada pessoa, influenciados pelo DNA dos seus pais. O importante de tudo é que a humanidade tem que trabalhar pelo bem comum não apenas da família, mas, da COMUNIDADE GLOBAL, o PLANETA TERRA. Ninguém aqui é um eremita independente de tudo e de todos, é preciso se inter-relacionar, aprender a conviver com todos como irmãos afinal somos filhos da NATUREZA. As desigualdades nos incomodam quando a exploração comercial e profissional trazem para uns, a carência de tudo, por causa dos salários ridículos que não dão para suprir as necessidades básicas. Enquanto isso, a outra ponta da sociedade, usufrui das riquezas, da exploração da mão de obra desqualificada, sem formação e sem visão do mundo atual. Vamos aprendendo com perdas e ganhos, vencendo as barreiras socioeconômicas, até que o ser humano seja capaz de exercitar o RESPEITO AO OUTRO, já que o homem ainda não detém a arte de AMAR a todos com suas desigualdades e variedades de comportamentos e aptidões. O que é natural. Tiramos disso tudo a compreensão de que a Terra viverá em PAZ quando houver a responsabilidade de todos para todos; enquanto a ostentação e a ganância permearem a mentalidade humana os desencantos serão constantes e a miséria permanente, consequentemente a guerra.

Vera Passos
Salvador - Brasil
http://www.recantodasletras.com.br/autores/verapassos

 

 

 

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