FÉNIX

 

LOGOS Nº 17

NOVEMBRO - 2015

 

 

 
 
 

Rozelene Furtado de Lima

 
 

SINAL DA CRUZ
Por Rozelene Furtado de Lima


Fábio e Juliana sonhavam em comprar um sítio no interior, queriam sossego longe da problemática da cidade grande. Faltava menos de um ano para aposentadoria do Fábio e ele se dedicaria a carreira de escritor e ela era artista plástica renomada. Entraram em contato com um corretor amigo e uma semana depois foram visitar um sítio. Adoraram. Tinha cachoeira, mata com uma variedade enorme de pássaros e alguns animais silvestres. Uma casinha de pau-a-pique pintadinha de branco com janelas e portas na cor verde água. Muitas árvores frutíferas, e flores. Os dois ficaram encantados com o local, era tudo ou mais do que desejavam. E o preço incrível! Voltaram para casa com o negócio fechado. Novas motivações, novos ares, novos planos. Quanta alegria!!! As preocupações mudaram. Conseguir um caseiro, fazer algumas modificações na casa. Adaptar o lugar aos novos donos. Ficaram indo e voltando no mesmo dia até chegarem as férias.
Primeiro final de semana no sítio, mesmo que não estivesse tudo arrumado. Foram cantando músicas de um CD que lembrava o começo do namoro. Pararam na padaria e o padeiro viu logo que não eram do lugar e perguntou se moravam por perto, ao que eles responderam: - compramos o sítio dos Pássaros Azuis, o padeiro fez o sinal da cruz balançando a cabeça, eles não entenderam, mas também não deram muito importância. Pararam na Igreja para saber o horário das missas e encontraram a moça que fazia limpeza. Quando disseram que iam morar no Sítio dos Pássaros Azuis, a moça arregalou os olhos e fez o sinal da cruz. Resolveram almoçar, gentilmente o dono do restaurante veio conversar com eles, mas quando falaram o nome do sítio ele fez imediatamente o sinal da cruz e deu dois passos para trás.
Juliana comentou com o marido: - você não acha engraçado quando falamos o nome do sítio eles fazem o sinal da cruz? Fábio respondeu: - eu também notei isso, deve ser um hábito do lugar, toda cidadezinha tem características próprias, jeitos e trejeitos. Eu penso que deve ser uma forma de desejarem boas vindas abençoando. Cada comunidade forma suas particularidades assim como as famílias e casais tem seus códigos com gestos, frases, ensinamentos, especialidades alimentares, e é comum você ouvir “ na minha casa era proibido... ou sempre foi uma exigência da minha mãe... minha vó não usava... e daí por diante. Riram e seguiram felizes, rumo à nova casinha ao novo lar.
É um mau hábito classificar a flor por uma semente desconhecida e que ainda não se plantou.
Casa muito antiga. Combinaram não modificar o estilo da casa. Tinha uma nascente com água fresquinha e limpinha, que originalmente foi encanada até à porta da cozinha e ali colocaram uma bica para lavagem de louças e era tão singela que resolveram manter. As louças e panelas eram deixadas de molho à noite numa bacia própria que ficava embaixo da bica e pela manhã as louças eram lavadas e colocadas numa mesa ao sol para secarem. Era tão romântico!
Na primeira noite na casa escutaram um barulho que não identificaram bem, estavam muito cansados e dormiram em paz. Quando acordaram, surpresa!!! A louça estava toda lavada e secando ao sol. Juliana soltou uma gargalhada e completou “o lugar além de lindo é mágico!” Tudo que eu queria era ver a louça lavada e fez o sinal da cruz como os moradores daquela comunidade. Fábio ficou intrigado, mas tinha muita coisa para ajeitar não perdeu tempo analisando o fato – deve ser código da comunidade e da boa vizinhança e fez também o sinal da cruz.
Com acontece com quase todos os artistas a inspiração não avisa, chega de supetão. Juliana pegou a tela branquinha e começou a pintar o cenário tendo como objeto principal a bica com as louças secando ao sol, só parou de pintar quando o marido chamou para saírem. Terminaria a pintura no dia seguinte, guardou o cavalete com a tela na sala. Saíram para fazer compras. Na loja de material de construção Fabio perguntou ao vendedor se conhecia alguém que quisesse ser caseiro no sítio deles. – O senhor assina carteira, paga salário e dá casa com contas pagas? – Sim pago tudo isso, um bom salário e uma camionete para uso do sítio. É muito boa oportunidade, comentou entusiasmado o dono da loja e indagou: - onde fica o sítio? – É o Sítio dos Pássaros Azuis respondeu Juliana. Imediatamente ele arregalou os olhos, fez o sinal da cruz e respondeu:-“ Não sei não senhor, aqui todo mundo tem seu trabalho”. Fábio agradecendo respondeu: - se souber de alguém manda ir no sítio estaremos lá de férias até o final do mês. O cara fez novamente o sinal da cruz e Fábio não resistiu fez também o sinal da cruz como se fosse um cumprimento.
Na segunda noite ouviram novamente uns barulhos estranhos, mas como resolveram manter a iluminação de lampiões e lamparinas e já estavam apagados deixaram para lá, o cansaço venceu. Dormiram. Precisamos nos acostumar com os ruídos daqui, resmungou Fábio.
Pela manhã as louças estavam lavadas secando ao sol e as panelas brilhando de tão areadas. Dessa vez Juliana não riu, expressou um ar de preocupação e fez o sinal da cruz como o povo da região. Fixou a atenção no maravilhoso canto dos pássaros e foi pegar a tela para terminar. Surpresa!!! A tela estava pronta, totalmente terminada com mais alguns detalhes ... uma mulher de costas vestida de branco, cabelos longos, lavando louça e pássaros azuis bebendo água embaixo da bica. Um arrepio percorreu o corpo de Juliana como se fosse uma corrente elétrica foi a primeira vez na vida que sentiu os cabelos ficarem em pé como arames. E Fábio apontou para uma árvore que tinha em frente a casa e que estava derrubada com uma foice fincada no tronco.
Anúncio nos classificados: VENDE-SE URGENTE: lindo sítio com mulher fantasma vestida de branco que lava louças na madrugada, pinta quadros e não se sabe mais o que ela é capaz de fazer.

Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis-Rio de Janeiro-Brasil
www.rozelenefurtadodelima.com.br

 
 

 
 

Silas Corrêa Leite

 
 

“TRÊS DIAS DE ORAÇÕES POR 11 DE SETEMBRO”

Por Silas Corrêa Leite

Poema Sócio-historial (Oração aos Mortos)

... “Flores e orações aos mortos, ou são ilusórios,
ou confortam a culpa dos vivos”. - Amauri Valim


O Presidente negro Barack Obama dos Estados Unidos da América do Norte
Decretou para seu império babilônico três dias de orações pelos mortos
De Onze de Setembro - Que vitimou totens do poderio bélico de seu país
Para que todos lamentem e chorem. Evoquem e lembrem-se do atentado terrorista...

Mas a bendita pergunta que não quer calar
(Há um eterno grito de horror parado no ar!)
É sobre os milhares de mortos do Vietnã – (em que perderam a guerra e saíram como rabo entre as pernas)
Depois de terem provocado o estertor de carnificinas; genocídio, mortes brutais, sangrentas...
Destruíram e dividiram uma nação com escusos interesses mesquinhos, sórdidos
A invasão do Iraque destruído porque tinha uma bomba que não tinha – e não foram apenados por um tribunal internacional
E depois cobraram alto preço em petróleo para reconstruir o que propositalmente detonaram
O Obama xará que antes tinha sido aliado amigo da CIA - e também amigo do alheio
O terrorismo internacional praticado pelo seu país que destruiu a Palestina e a Síria
E os presidentes democraticamente eleitos da sulamérica do sol que derrubaram por nefastos interesses mesquinhos de posses insanas e de poderes infames
Quantos séculos, milênios, chorarão esses milhões de mortos; vitimas dos norte-americanos que acham que são deuses escolhidos e xerifes do mundo deles em crise, um caos?

Louvado seja Deus, Jesus, Maomé, Alá, Moisés, Buda –Não as selvagens insanidades palaciais de potentados
Oremos, rezemos, até que todas as guerras acabem e não tenhamos mais homens-bombas e nem homens-monstros...

Quantos milhões de dias de orações dedicaremos aos velhos, mulheres grávidas, crianças, doentes, refugiados, mortos
Pela cloaca América das estrelas de sangue provocando terrorismo internacional?
Que orações, preces, rezas, mantras, flores, cruzes, faremos às almas destruídas pelas bombas e tanques do império norte-americano?
Três dias de orações na Palestina, na Síria; no Vietnã, na Coreia, o que valem?
Ou no Iraque, no Líbano, ou na América desterrada, o que significam?
Três dias enlutados na América do sol onde implantaram ditaduras sangrentas, o que significam, meu Deus?
O Presidente Barack Obama deveria era se ajoelhar no milho - se penitenciar
Pela África expropriada
Pela América pobre saqueada
Pelos negros escravizados, pelos índios dizimados, pelos crimes de conflitos montados no oriente médio
E ter vergonha, muita vergonha e denunciar tudo – a história-remorso – e semear orações em lágrimas de paz por milhões de vidas, pelas pessoas explodidas pelo poderio amoral de Washington D.C.

Três dias de orações pelos refugiados da Síria, da Turquia; dos mortos em mares minados
Pelas bombas de Nagasaki e Hiroshima
Pelos cucarachas, pelo Haiti, pelo cerceio territorial a Cuba de Guantánamo cheio de seres não honestamente julgados por um tribunal da globalização
Todas as almas, todos os mortos, todas as cruzes, todas as lágrimas
Pelos milhões de mortos do mundo: os civis americanos deveriam se ajoelhar no milho nativo da América, e rezarem, orarem pedirem perdão, perdão, perdão
Ou Obama deveria renunciar, não ser conivente, omisso, nem coadunar com isso (o horror humanicida); mas purgar... e devolver, depois das 13 colônias invasoras
Os territórios logrados da França, do Canadá, do México: em nome de um “deus-lucro”, de um “deus-posse" que é uma águia predadora
Destruindo corações e mentes em nome do lucro, do espólio, da predação, da exploração inumana e amoral do crime organizado
Chamado neoliberalismo; câncer do historial “capitalhordismo americanalhado”...
Ah se houver um Deus eternalmente santo & multipangalaxial, e não judaico-cristão,
não-religião
No céu, tampará os ouvidos às impunes orações inúteis da América rica feito uma babel orando alhures ao léu...
Até que afinal essa nova “sodomogomorra” de abutres pague seu preço num justo tribunal mundializado também
E seja julgada – e achada em falta – assim na terra como no céu...
AMÉM.

Silas Corrêa Leite
ciberpoeta, blogueiro premiado, Itararé, São Paulo, Brasil, América do Sul - Membro da UBE-União Brasileira de Escritores -  www.artistasdeitarare.blogspot.com/ - Autor de GUTE-GUTE, Barriga Experimental de Repertório, Romance, Editora Autografia, Rio de Janeiro

 
 

 
 

Tânia Diniz

 
 

CULPAS
Por Tânia Diniz


Amava-o assim mesmo, sem grandes emoções, pois que o tempo as acalmara, havia muito. Não importava a gagueira, ouvia-o com infinita paciência e até sofria pela aflição dele em querer dizer palavras inteiras, sem sucesso.
Afinal, ele ficara assim por ela, pelo grande susto que levara ao quase perdê-la um dia, para o rei de vizinho país. (Ao lembrar-se do distante episódio, ainda um pequeno travo amargou-lhe a boca, pela saudade do que poderia ter sido.)
E assim, acomodou-se na cadeira de balanço, tomou da linha e da agulha e, pacientemente, começou a alinhavar-lhe as palavras.

Tânia Diniz
Belo Horizonte-MG- Brasil
www.mulheresemergentes.com

 
 

 

 

Livro de Visitas

 

 

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