FÉNIX

 

LOGOS Nº 18

JANEIRO - 2016

 

 

 
 

Rozelene Furtado de Lima 

 
 

A MÃO PELADA
Por Rozelene Furtado de Lima


Há pessoas que se tornam escritores
porque gostam de ler e outras se tornam
cozinheiras porque gostam de comer.
A vovó Silvina foi uma excelente cozinheira,
que teria sido ótima escritora.


Pessegada, goiabada e outros doces eram algumas das especialidades dela. Na época da goiaba ela pegava umas bolsas, e chamava:- "aqueles que gostam de goiaba, de goiabada e estão dispostos a passear, venham comigo". Saíam cedo e regressavam à tardinha com as bolsas cheias de goiabas, chegavam cansados e felizes. E a Nona fazia a cheirosa goiabada. Ela era descendente de negra com italiano.
Meu irmão, dois anos a mais do que eu, insistiu para que eu fosse com eles. - "Vamos passear, vamos ao paraíso das goiabas, é no Quebra Frascos, lá é muito bonito... Vamos!? Vamos"!?... Fui. Carregava uma sacola grande na mão e na cabecinha um monte de ilusões.
Os pés começaram a doer, as perninhas finas não queriam mais obedecer. A vovó num ritmo acelerado parecia que voava. Meu irmão percebeu que eu não estava aguentando mais caminhar, usou o argumento tentando insuflar coragem para eu seguir em frente: - "Vamos tomar café na casa de Maria de Claudionor, ela faz um bolo gostoso"!
Levei um susto enorme quando ele falou que iríamos passar na casa dessa senhora. Um dia ouvi a amiga da minha mãe, a Maria de Claudionor, falar que não podia ir muito tarde para casa, porque ela tinha muito medo da Mão Pelada. Contei para o meu irmão a conversa que tinha ouvido. Esqueci o cansaço e comecei a correr. E, se a tal da Mão Pelada aparecesse? De que tamanho deveria ser aquela mão? Eram duas mãos ou uma só? Por que era pelada? Pensava numa mão agigantada, solta, saindo do meio da mata aguardando eu passar para agarrar-me... Corri, corri muito. Não conseguia parar de pensar. E imagens cada vez mais assustadoras tomavam conta da minha mente.
Cansei, nos meus dez anos, eu não tinha mais condição de suportar tantos desafios... Que a Mão Pelada me pegasse... O mano, muito inteligentemente, empenhado que seguíssemos até ao goiabal, sugeriu: - "Vamos correr, passar a frente da vovó, sentar e descansar, quando ela estiver chegando perto, corremos de novo e descansamos". Fizemos isso, mas a vovó era uma atleta! Andava rápido demais... Com passos de avestruz, mal sentávamos e a vovó já estava chegando. Corríamos de novo e assim sucessivamente.
Numa certa altura do caminho, ela passou a frente. Vovó sumiu na curva, eu sentei vencida pela fadiga!... Meu irmão fazendo tudo para eu continuar andando. - "Olha a Mão Pelada, é a hora que ela passa por aqui, vai pegar você... Venha rápido... Está pertinho". Comecei a chorar, não aguentava mais, quase duas horas de caminhada, e a maior parte do caminho era subida, não tinha uma casa, só mata e capim. E ele, joga a última cartada para que eu liberasse um pouco mais de energia:
- "É logo ali, depois da curva".
-Não vou, não posso, não tenho forças, vou morrer aqui. Naquele instante, escutamos o assobio da vovó chamando. Foi então que o Rogério usou de toda sua sabedoria: "Você vai desistir na hora de colher as goiabas"?!
Aquelas palavras atingiram-me como flechas energéticas. As forças voltaram num passe de mágica. Levantei cambaleante e avancei em direção a meta almejada. Fiquei maravilhada com tudo que vi: muitos pés da fruta, muitas qualidades e goiabas em abundância e sem dono! Não sei como a vovó descobriu aquela dádiva.
Enchemos as bolsas, comemos goiabas, na volta tomamos café na casa de Maria de Claudionor. E aproveitei para perguntar para ela como era a Mão Pelada. - "É uma onça!" - explicou ela apavorada.
Não lembro de como foi à volta. Sei que à noite sonhei com a onça correndo atrás de mim, com mãos grandes sem pelos e não me pegou porque eu corri mais do que a "Mão Pelada". No dia seguinte fiquei acamada com febre e muita dor no corpo.
Algum tempo depois li que "Mão-Pelada" não é uma onça. É um animal carnívoro chamado guaxinim, com rabo grande igual de um macaco, com pelos pretos por todo corpo e marrom ao redor dos olhos como se fossem óculos, tem as patas peladas e não gosta de claridade. E pensar que a Maria de Claudionor passou a vida toda com pavor de ser devorada pela "Mão Pelada..." que só caça insetos, caranguejos, rãs, pássaros e outros animais pequenos. Em algumas regiões ataca o gado à noite.
Temos a tendência de desistir depois de grande esforço, desanimar abandonar um projeto de sucesso deixar morrer um sonho e largar a bolsa vazia na beira da estrada exatamente "na hora de colher as goiabas"...

Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis-Rio de Janeiro-Brasil
www.rozelenefurtadodelima.com.br

 
 

 
 

 Sidnei Piedade

 
 

ANO NOVO VIDA NOVA
Sidnei Piedade


Começa o ano e fico a pensar, como ele será...espero que seja repleto de muito amor, carinho e paz, pois os filhos já não falam com os pais e os casais só brigam e falam em separar...meu Deus isto tem que acabar. Devemos fazer uma auto-análise e ver se deixamos alguma aresta para trás.
Sempre ficam algumas tão bobas e insignificantes...
e a gente sempre querendo ter razão se estamos certos ou não .Vamos ceder um pouquinho e esquecer...
melhorar nossos relacionamentos,
sejam no trabalho, lar e no dia a dia...
vamos procurar ser justo com todos,
independente de classes, cargos ou posses...
pois temos que renovar nossas esperanças no dia a dia.
É hora de recomeçar...pois tem pessoas esperando um sorriso ou um gesto seu...para chegar mais perto e só depende de você...
pense nisso. Seja feliz...não se esconda da verdade,
receba e elogie, faça o melhor que puder e vá até onde a vida te levar...
pois o tempo não para...não volta mais...e não espera por mim, você e ninguém. Construa seu futuro e não perca a serenidade,
conserve sua paz interior..
pois a vida se renova para você.
Enquanto a alma não disser chega...
podemos suportar tudo o que a vida diz sim.

Ano Novo vida nova

Sidnei Piedade
Assis - S Paulo - Brasil

 
 
 

 
 

Silas Correa Leite 

 
 

ALMANAQUE
DESCONCERTEZAS ABUTRES EM MOEDAS PODRES
(Pinturas Rupestres/Criação da Escrita/Hierógligos/Escudos e Brasões/Invenção da Prensa/Emoticons/Emojis)
Por Silas Correa Leite


... A arte não serve para fazer você se esquecer da vida, pelo contrário, ela
te joga de cara com a vida. Não é feita para você sofrer, mas para que você
repense coisas e saia desse lugar medíocre que é a existência – Caco Ciocler
.........
01-As partes chegaram a um acordo, e se apartaram. Até a separação tem que fazer bem pras partes, senão, não é conciliação de acerto de contas de rompimento, mas arrebentação unilateral, o que configura crime de existencialização recíproca desrespeitada.
02)-Silêncio e solidão só combinam, se tem poesia no contexto. Senão, somando capa e espada, mal viram depressão como sequelas de orbitação irregular em torno de traumas e neuras saturados.
03)-A velhice é o auge do paradoxal. É quando tudo podemos e nada nos é permitido. É quando tudo sabemos e isso não se aproveita nada em causa própria. É quando estamos no tal píncaro da glória, e, ao mesmo tempo, a exausta (de lutações gloriosas) massa corpórea desgringola pro arredio estágio de saturação, comedimento e até vísceras expostas.
04)-As crianças deveriam ser eternas se Deus existisse.
05)-A logística precípua da POESIA é ser GPS de neuras, recalques, arrebentações e sonhos impossíveis com aquecimentos estimativos de foro íntimo.
06)-O verdadeiro artista se esconde na arte, se revela na sensibilidade e regurgita na expiação do que cria em labiríntico orquestramento de parafusos soltos em salutares acomodações interiores.
07)-Os ratos são felizes nos escombros. Os seres humanos são infelizes nos escombros. Hosana aos ratos ou aos escombros?
08)-Se as mulheres realmente soubessem a força que têm, nosotros falsos machos alfas estaríamos acomodados e românticos cordeirinhos donos de casa, menstruando, engravidando, areando panelas de barro e oferecendo as tetas tríplices aos trigêmeos ranhentos jegues juniores
09)-Penso antes de pensar. Penso antes de falar e antes mesmo de escrever, claro e obtuso. E quando me calo sou-me um perigo em legitima defesa de me se. Esse é o defeito de fabricação do disjuntor do meu DNA, adulterado pela adultização infeliz no sequencial ilógico de extermínio eliminatório, dentro da própria regressiva cadeia da meritocracia natural no campo da sobrevivência sofrível e decadente.
10)-Às vezes eu não sabia o que fazer do que eu era, então errava-me a escrever engenhos de dentros, legos mentais, válvulas de expressões intimas, e isso deu no que os normais rotulam de ferida poética animal.
11)-Você ficou lindo de roxo, diz-me a musa-vítima da pá virada e varrida, em noite de lua cheia. Mas eu estou vestindo um pijama de estrelinhas amarelas, respondo. Mesmo assim, retruca ele, você fica muito lindo de roxo pálido.
12)-Você ficou louco, poeta? pergunta-me um leitor indignado de não entender bulhufas o que eu queria dizer, mesmo quando eu não queria mesmo dizer nada, só ser puramente poesia e nada além disso. Olhei-a. Olhei-me. Li finalmente o que tinha escrito em parafusos, e remendei: -O mundo não merece pensar, sentir e saber sobre isso que escrevi, em estado de agonia, angústia e rebite etílico. Não merece... mesmo que isso possa ser a minha salvação...
13)-O carteiro picego que me traz cartas aos montes, o manquitola entregador de pizza que vem me trazer a ração de obesidade, o noia rapaz da biblioteca pública quando vem me multar e recolher na marra o clássico russo com prazo vencido, todos eles, todos, de um jeito ou de outro, ficam me olhando de butuca como se eu fosse um extraterrestre em campo de trigo com corvos, servos, escravos e mulas paralíticas contemporâneas.
14)-Tem dias que eu rastejo e me sinto uma mera molécula de granizo corrompida num copo de cólera. É nessas horas que eu me arrependo de não ser músico, de não tocar violão como Baden Powel, de não ler partituras em sânscrito, e de ser cego de nascença doentia e só poder ler e escrever no escuro.
15)-O vento polar, chispando fuzilos, quando bate no velho fogão à lenha aceso, parece recolher limalhas de vírgulas de transversais sóis ancestrais.
16)-Sobreviver nem sempre é legitimo. Ficamos sempre devendo uma ficção- angústia, uma taxa de trevas. Perguntem às orquídeas e tâmaras.
17)-Velhas torneiras enferrujadas que ainda vazam, já foram arco-íris em compotas de peras selvagens.
18)-As anarquias são divinas.
19)-Poetas que se matam por fama e dinheiro, são hidrantes dando curto-circuito .
20)-Escolas não podem ser campos de concentração de disparidades existenciais.
21)-As carências afetivas erguem aleijados por dentro da ostracidade social, e os sustentam em convivências turbinadas até turbulências fatais com sangue inocente
22)-Tudo cabe num poema, até mesmo o não ser num não lugar. O resto é banda de jazz em silo de percurso e contemplação.
23)-A solidão é volátil, porque na poesia há solidões como cardumes em ilhas de edição, sempre para filosofar a bruteza do simples, a inutileza da vida, o escárnio da escurez simplificada, e a máscara da iluminura da arte poética com veios indizíveis ou inomináveis feito um vagalume numa manada de búfalos cegos.
24)-Escrever, camaradas arredios e marginais, é apertar o detonador do controle remoto dessa insuportável e tediosa vida medíocre, e, no ranço do piloto automático, criar e ter seu próprio núcleo num mundo poético, e nele depositar seu canhestro sonho impossível como uma carcaça nodal, diluir a própria alienação paraexistencial muito além do limite do suportável, procurando ainda assim e por isso mesmo caber no real e no numinoso, feito uma aterradora cria-aberração, mas ainda assim, voo rasante de arte-ranço.
25)-A emoção restável, será, no devir futural, silêncio inquisitório.
26)-Nesse conturbado mundo pós-moderno, na nova desordem econômica mundial, com coisas boas e más emergentes de roldão e no bico do corvo, solidão maquiada, tristeza mundializada, miséria e fome globalizada no atacado e no varejo, nós temos medo, e temos que dar nome a isso, fluxo e requintes, descarregar a pilha contaminada disso, ou acabaremos com um rabo disso tudo, voltando às cavernas dos condomínios com brucutus, às naves espaciais comunitárias de escapismos virtuais, apodrecendo cedo com a ausência da fuga do lado b, parcerias anômalas ou infrutíferas, estéreis, sem famílias berçários, sem núcleos instintais. O medo, ao fim do curso, se ocupará de ver além de nós, acima de nós, dentro de nós, no nosso cromossomo corrompido, bem como, tentará esse mesmo medo-rabo nos livrar de nós, nos salvar de nós, no extremo da barbárie assistida das infovias efêmeras e das frivolidades estéticas e vazias, e finalmente e para sempre será a extinção do que se nos restar, homem-bactéria, homem-espuma, homem-bacilo, homem-vagido, homem-não-ser.
27)-A indústria é um crime organizado com total poder amoral de desmanche impune.
28)-Quando um idiota notável diz que não tem nada a ver com isso, num momento de apuro e de açodamento de ideias e situações de conflito, eu fico pensando no mal que o sujeito deve fazer à droga, quando a usa para propagar asneiras de raciocínio sobrevivencial primário em bancada de orangotangos.
29)-Idiotas, inúteis, frustrados e incompetentes, todos fazem bem. Pro esterco.
30)-A morte cheira vácuos, só vácuos.

Silas Corrêa Leite
Itarare - Brasil

ciberpoeta, blogueiro premiado, Itararé, São Paulo, Brasil, América do Sul - Membro da UBE-União Brasileira de Escritores - www.artistasdeitarare.blogspot.com/ - Autor de GUTE-GUTE, Barriga Experimental de Repertório, Romance, Editora Autografia, Rio de Janeiro

 
 

 

 

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