FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Alba Pires Ferreira

 

 EL GATON
Por Alba Pires Ferreira


Final de semana em Buenos Aires, a “Paris sul-americana”, pelo toque afrancesado da dominante arquitetura neoclássica. Cidade repleta de teatros, shows, shopping-centers, cafés e “confiterias”, bares e restaurantes abertos vinte e quatro horas. Chamam a atenção em Buenos Aires às cabines telefônicas de cor vermelha, idênticas às de Londres.
Após o almoço, regado a “Cabernet”, expresso o desejo, ir até a periferia, conhecer a rua Caminito onde, aos sábados, acontece a feira de artesanato com exposição de pinturas e esculturas. Durante o trajeto, observo a Casa Rosada, sede do Governo, o histórico Cabildo (o centro) e a Praça de Mayo, plenos exemplos da colonização espanhola. Penso, os portenhos continuam entusiastas, laboriosos, altivos. O aspecto europeu, marca registrada de Buenos Aires e orgulho de seus habitantes, contribui para isto, com certeza.
De filmadora em punho chegamos à La Boca. Nostálgica, contemplo o bairro onde, em 1874, nos bares e bordéis mal afamados, mais precisamente na Calle de Cochea, nascia o tango, apadrinhado por Suarez. Eis a Caminito, rua onde se aglomeram turistas e vendedores ambulantes; oferecem artigos variados. Percebo, um pouco afastado, o rapaz com aparência de índio: pinta um quadro, segurando o pincel entre os lábios. Original.
Subitamente, um som enche o lugar. Corro em direção ao homem que canta “Mano a Mano”, acompanhado pelo som do bandoneon. As notas espalhando-se no ar sugerem um drama forte, sensual, mesclado a traição e estórias de amores mal resolvidos. Tangos são assim: carregados de truques e malandragens. Para chegar a esta conclusão, nem é preciso prestar atenção à letra, basta ouvir a música. Ocorre-me, transformando a palavra TANGO em anagrama, surge GATON. Apelido de amante latino?
Ajeito melhor a boina (faz um frio dos diabos) e quedo-me encantada a ouvi-lo, pezinho inquieto batendo no chão, seguindo o ritmo. Final. Aplausos. Satisfeita, chego à mesa, deposito algumas moedas.
O homem acena para alguém, passa-lhe o bandoneon e executa com precisão os passos de “Caminito”. Em dado momento, dirige-se à namorada de Rodrigo:
– Vem bailar!
Séria, recusa. Respiro aliviada. Só Shakespeare poderia prever a reação de Otelo, se o convite fosse aceito. Interpela-me, então:
– Bailas comigo?
Sacudo a cabeça, recusando. Insiste:
– Vem, vem!
A meu lado, Irene acha graça, enquanto Rodrigo e o pai fulminam o dançarino com o olhar. O homem agora estende a mão:
– Sei, queres bailar. Vamos.
Auxiliada pelo “Cabernet”, decido-me. Retiro o casaco, examino a calça de malha justa. Marcando? Indiferente, sacudo os ombros, inclino o gorro em direção à testa, caminho até ele:
– Danço tango, mas não executo esse número de passos.
Começa a rir e, surpresa minha, responde em português:
– Observei. Sentes a música, possuis ritmo. É soltar-se, o resto acontece...
Hesitante, pergunto:
– Se cair?
– Nem pensar. Confia.
Detenho-me um instante em seus músculos. Com certeza, abraçam em segurança meus cinquenta e sete quilos. Num relâmpago, lembro o ballet perdido em algum lugar.
– Sapatilhas... Necessito sapatilhas!
Sorri, esperto:
– Bailarina enrustida?
Faz sinal para alguém. Momentos após; de sapatilhas nos pés, iniciamos a evolução de “La Cumparsita”. Penso:
– Enrustida, eu?
Enrustida. Termo estranho. A música invade-me. Rua Caminito; receio de passos incertos, queda... se distanciam. No mundo, eu e um estranho rodando sincronizados ao som nostálgico do tango. Sobressaltada, volto à realidade pelo som da voz a meus ouvidos:
– Está perfeito. Os turistas estão apreciando. Ousas mais?
– Por exemplo?
– Ergo-te pela cintura até o alto. Só terás o trabalho de retesar os músculos. No instante seguinte desço-te, deslizas as pernas por debaixo de mim...
– Estatelo-me no chão?...
– Permanecerei firme a segurar-te.
Embora apreensiva, aceito o desafio: encanta-me viver perigosamente! Conjeturo: perderei a boina no caminho. Rápido, prendo-a entre os dentes.
– Por que isso agora?
Retiro-a da boca, e, zombeteira:
– Para evitar grito de dor na queda...
Ri gostoso. Arrisco um olhar inseguro em direção à família. Rostos sérios encaram-me, reprovadores. Lado rebelde, leva-me a acenar com a boina. O pessoal gosta, aplaude. Meu par exulta:
– Tu és demais.
Retribuo a gentileza:
– Com parceiro assim é fácil.
Torno a prender o gorro entre os dentes.
– Lembra, quando eu falar “já”, solte-se. Não precisas dar impulso, deixa tudo comigo.
Repentinamente, estou no alto, o vento bate forte no rosto. Escuto a voz, bradando:
– Músculos retesados. Rápido...
Céus. Esqueci... Vontade de rir! Não posso, a maldita boina cairá. Impulsionados pelo medo, os músculos retesam-se qual cordas de violino. Estou tensa, retorna, nervosa, a vontade de rir. Mas urge ter calma agora, soltar o corpo... Eis que deslizo devagar – milagre – segura, incólume. Aplaudem. Entusiasmada, feliz, apanho o gorro, aceno com ele para o público. O imprevisto acontece. Pessoas correm a depositar moedas. Meu parceiro leva a mão ao boné. Dou-lhe um piscar de olhos cúmplice, envio quase imperceptível um sinal negativo. Mafioso, mais que depressa apanha a minha boina, curva-se, aponta-me. Moedas continuam a cair.
Ao cabo de algum tempo entorno as moedas na mesa dele, apanho o gorro de volta. Grato, presenteia-me com o CD “La Cumparsita”. Aproximando-se para a despedida com um “selinho”, murmuro, rápido:
– Carimba o lado do rosto, ou surgirão problemas com aqueles dois senhores ao lado...
– Eles são...
– Marido e filho!
Malandro contempla – os, curva um joelho à minha frente, galante, beija-me as mãos.
Suspiro:
– Caminito, adios...

Alba Pires Ferreira
Porto Alegre - RS - Brasil

 

 

Alberto Cohen

 

CONVERSA COM DEUS
Por AlbertoCohen


Hoje eu falei com Deus. Pedi perdão pelos meus muitos anos de queixas e lamentações e agradeci pela escolha. Qual? Essa de ser uma das canetas que a poesia usa para contar causos. Imagino que ela seja um dos anjos mais travessos que o Pai possui no seu reino infinito e que Ele morre de rir de suas molecagens, como quando me acorda de madrugada e me induz a um verso sem ritmo ou a uma rima que não rima, só para me ver arrancar o resto dos cabelos. Logo em seguida passa a mão em minha cabeça e segreda em meu ouvido o mais belo poema que jamais escrevi. Fazemos as pazes, óbvio.
Deus calado e sério, só ouvindo. Falei do privilégio de viver milhares de vidas, enquanto a maioria das pessoas vive apenas uma. Disse das viagens, dos milhões de quilômetros que andei e ando ainda nos múltiplos universos que Ele colocou dentro de mim. Comentei sobre meus olhos que enxergam sonhos, mesmo que hermeticamente fechados nas caixas-fortes do pudor e do medo de sonhar. Ele quieto, quase enfadado com a conversa interminável.
Tantas eram as coisas que resultavam daquela escolha, que não tinha fim a ladainha de agradecimentos e pedidos de desculpa, como se antecipadamente Ele não os conhecesse todos.
Por fim, levantou-se, dando a entender que o encontro estava terminado, e já ia partir quando criei coragem e fiz a pergunta que me persegue a vida inteira: Por que sou daltônico? Deus, para surpresa minha, sorriu carinhosamente, como fazem os pais diante de perguntas bobas dos filhos pequenos, e respondeu: Ora, rapazinho, se te fiz poeta não ia deixar que enxergasses cores e perdesses o meu tempo e o teu tentando ser o mau pintor que, no máximo, serias.
Ainda sorrindo, elevou-se ao Céu, deixando-me perplexo ante Sua Sabedoria. Por isso é Deus!

Alberto Lisboa Cohen
Belém do Pará - Brasil

A
lgumas de suas obras podem ler-se em:
http://www.carmovasconcelos-fenix.org/Escritores/CV-Escritores.htm
Poeta reconhecido e admirado por suas obras, Alberto Lisboa Cohen, é autor de vários livros premiados, entre eles:
“Poemas Sem Dono”: Vencedor do II Prêmio Literário Livraria Asabeça – Publicado pela Editora Scortecci - SP – 2003.
“Poemas de Amor, Desamor e Saudade”: Selecionado e editado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores - CBJE – Rio de Janeiro – RJ – 2004 (esgotado).
“Daltônicos”: Selecionado e editado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores - CBJE - Rio de Janeiro – RJ – 2004. (esgotado).
“Recados para Wendy”: Selecionado e editado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores - CBJE - Rio de Janeiro – RJ – 2005 (esgotado).
“Caminhos de Não Chegar”: Vencedor do Prêmio de Literatura Instituto de Artes do Pará- IAP – Editado pelo Governo do Estado - PA - 2005.
Vencedor da Láurea Cidade Poesia (Moderna) - Associação de Escritores de Bragança Paulista - ASES - SP - 2006.
“Juntando Pegadas”: Vencedor do Prêmio Vespasiano Ramos - Academia Paraense de Letras - PA - 2006. Publicado pela Editora Paka-Tatu – Belém - PA
“Cantigas que a Rua Canta”: Selecionado e publicado pela Editora Alcance - Porto Alegre- RS – 2009.
“Álbum de Recordações”: Selecionado e publicado pela Editora Alcance - Porto Alegre-RS – 2009.
“Menino das Samaúmas”: Selecionado e publicado pela Editora Alcance – Porto Alegre -RS - 2010
“Catador de Momentos”: Selecionado e publicado pela Editora Alcance – Porto Alegre - RS – 2011
“Sobrevivente de Mim”: Selecionado e publicado pela Editora Alcance – Porto Alegre - RS – 2012
“Canto de um só”: Selecionado e publicado pela Editora Paka-Tatu – Belém – PA – 2013 
 

 

 

 

Livro de Visitas

 

 

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