FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Alcione Sortica

 

   A MOCINHA DA SACOLA DE PÃO
Por Alcione Sortica


O próximo a aparecer foi o papeleiro. Uma matilha de cães vadios o seguia, cabeças baixas, atrás do grande carro.
O homem olhou instintivamente para a esquina. Logo, o rapaz sem o pé esquerdo, que surge vagarosamente amparado nas muletas. A cadela brasina ao lado, pulando nas três pernas sãs, a pata traseira esquerda atrofiada, certamente apanhada por algum carro. A vida parece juntar os seres com as mesmas características, sejam elas de que natureza forem. E iam se acomodando, uns ao lado dos outros, aguardando. Era a rotina de todas as quartas-feiras.
Dentro de alguns minutos apareceria a moça com a sacola de pão, para distribuição aos pobres da Paróquia de São Nicolau. O homem era um deles. Sentado, num dos degraus da escada, esperava. Ao lado, a velha pequenina, enrugadinha, pano branco na cabeça, conversava com um dos cães, enrodilhado na laje fria, tremelicando. E dizia frases como “que bom te ver de novo. O que fizeste nessa semana que passou? Muitos passeios?” e o bicho levantava a cabeça, mirava a velha, olhos brilhantes, como se entendesse. E, um a um os maltrapilhos continuavam chegando.
O homem começa a ficar ansioso. A hora vai se arrastando e a mocinha não aparece. Ah! Eis, que surge. O coração sofre um aperto, quando vê, pela primeira vez, a menina segura pela mão da mãe. Contará uns cinco para seis anos de idade. E o tempo implacável o joga, sem piedade, quase trinta anos atrás. Naquele fatídico dia de Todos os Santos, abandonava o lar, atrás de um rabo-de-saia qualquer, nem lembrava mais quem era. A mulher aguentou o baque, criou a única filha e ele, após felicidade efêmera, abandonado, despencou. Depois de muitas quedas, acabou na sarjeta. Sujo, barbudo, magro, cabelo desgrenhado, irreconhecível.
A moça aproxima-se. Ele observa cada detalhe, roupa, sapatos, forma do penteado, aspira o doce perfume. E, na menina, tênis, sainha e boneca nos braços.
Aos poucos, o pão vai sendo distribuído. E a tensão vai aumentando. Quando chega a vez dele ela sorri e fala:
- O senhor queria conhecer a minha filha. É essa capetinha aqui.
A menina sorri. Fica olhando para ele e embalando a boneca. Ele tenta retribuir o sorriso e lágrimas despencam dos olhos.
A moça coloca a mão na cabeça do homem, num assomo de carinho. Ambas afastam-se. E o pobre, num gesto involuntário, amassa o pão, transformando-o numa massa informe.
Recolhe-se em pensamentos. Como seria a vida se, nos antanho, tivesse a cabeça no lugar? Hoje faria parte de um lar, com bom emprego, roupas novas e refeições regulares. Uma mulher carinhosa e um pequeno cão limpinho. E poderia abraçar aquela filha especial, que nem tinha conhecimento de quem era o pai, e levar a bela neta na pracinha, ao invés de apenas mendigar delas um pedaço de pão. Sim! Ele jogara e perdera, trocando a vida por migalhas, que se esfarelavam entre os dedos.

Alcione Sortica
Porto Alegre - RS - BRASIL
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alcione_Sortica
www.alcionesortica.com

Alcione Sortica, escritor gaúcho. Reside em Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul - BRASIL. Contista, cronista, ensaísta e poeta. Textos publicados em Antologias, Coletâneas, Jornais, Revistas e sites da INTERNET. Diversos prêmios literários. Livros do autor: “Cacos do tempo” “Peneirando Estrelas” “Beira de açude” De Pai para Filho” e “Um Ponto no Tempo” contendo contos, poesias, crônicas e ensaios literários - Lema: “Poesia - Grito de esperança por um mundo melhor”.

 

 

Ana Maria Dias

 

   LIVROS
Por Ana Maria Dias


Ensimesmava, de olhos bem abertos, querendo absorver todas as sensações que imergiam ao observar os meus pais lendo. Como é que os jornais, as revistas, os livros conseguiam abstrai-los da minha presença? Eles não davam retorno, não falavam, não acariciavam?!...
Um desejo de participação naquele inebriamento avolumou-se. Fui-me deslocando para mais perto deles, tentando mergulhar por simpatia, naquela aura.
Três, quatro anos resolutos, voluntariosos, impuseram a premência de me orientarem na iniciação das letras. Aprendi rápido. Quis entrar nesta suavidade harmónica depressa ? recorria, para exercitação, a jornais, que volteava e lia, em voz alta, para que propiciassem a sedução que haviam despoletado para a escrita e a leitura. Ainda não tinha cinco anos quando me induziram a ler para o círculo familiar, enquanto desenvolviam outras actividades. Geravam-se afinidades nestas interacções, que passei a amar cada vez mais ? as correcções, as explicitações, as especulações…
Como todos os pais, em dias de aniversário, tentavam colmatar algumas procrastinações: o pai, os jogos e brinquedos; a mãe, vestuário e adereços, que cria necessários.
Abria os embrulhos, sôfrega.
Capciosamente, amontoava os presentes sobre a minha cama. Desligava-me deles. Olhava para os meus pais, expectante e desconcertada.
? Não gostas das prendas?
? P’ra que é qu’eu quero tudo isto?
O meu pai sorria:
? Então? O que é que querias?
? Queria livros.
Saía a correr e trazia-me um embrulho, ou chegava com um braçado de obras infantis. Considerava um desperdício desnecessário perder tempo a envolve-los em papel onde coloriam desenhos, figuras. As capas dos livros eram do mais apelativo: ajudavam-me a desenvolver lucubrações, expectativas, anelos vorazes, que me levavam as esgotar as novidades num ápice. Queria sempre mais.
Era sempre dia de anos quando me surpreendiam com um saco de livros.
Comecei por sentar-me no chão, de pernas cruzadas, o livro aberto sobre a minha cama, e a cara enfronhada nas páginas.
Fui crescendo e acomodando-me conforme as exigências. No sofá, na mesa da sala-de- -jantar, ou na cama, antes de adormecer ou para sossegar os imperativos que a sesta reclamava.
Foram-se enchendo, gradualmente, as estantes, onde perfilavam, cuidadosamente, de forma muito criteriosa, os meus amigos ignotos espalhados pelo mundo e pela história literária dos homens.
Subsistem os livros, os lápis, os cadernos e as canetas, por todo o lado.
São os meus apêndices. As minhas “bóias de salvação”. As minhas seguranças, as minhas certezas, as minhas “zonas de conforto”.

Ana Maria Dias
Vale Vite - Vimeiro - Portugal

 

 

 

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