FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

António Justo

 

EUTANÁSIA ENTRE IDEOLOGIA CONSCIÊNCIA E ÉTICA
Nascer Viver e Morrer mais que um Direito é Graça
Por António Justo


A vida é feita de luz e sombra; a morte é a sombra da vida; a matéria é a sombra do espírito. Afirmar a sombra sem a luz, defender a cultura da morte sem ter em conta a cultura da vida, corresponderia a um reducionismo da existência à sua sombra, significaria a negação da vida, porque, a que temos é polar, é um todo feito de dor e alegria. Se nos preocupamos só com a sombra perdemo-nos no abismo do ser, esquecendo que a sombra é apenas uma ilação da luz e que a paixão inclui a ressurreição!
A discussão sobre a eutanásia oferece a oportunidade de se reflectir sobre a existência nas suas componentes, vida e morte.
Hoje, a pressão de ligas e organizações internacionais (organizações da ONU, Bruxelas, certas Faculdades universitárias, etc.), sobre a opinião pública e os parlamentos, é de tal ordem que se cria, nas opiniões públicas nacionais e parlamentos, a ideia de que seguir aquelas é moderno e sinal de desenvolvimento. Fatal para o desenvolvimento qualitativo é que o povo não pensa, segue a moda.

Prática na Alemanha

A Alemanha, antes de publicar a lei sobre a Eutanásia, teve uma discussão pública alargada e sem cólicas sobre o assunto; a ela seguiu-se o debate parlamentar com muita profundidade e dignidade, deixando fora o discurso ideológico e político-partidário, cada deputado decidiu apenas à luz da sua consciência. O parlamento proibiu o suicídio assistido e criminalizou o comércio com a eutanásia.
Concretamente: nem indivíduos nem empresas podem funcionar como serviços de apoio à eutanásia. Quem fizer negócio com um medicamento mortífero que entregue a uma pessoa com cancro/doença incurável, é ameaçando com 3 anos de prisão. O suicídio em si não é penalizado. Na Alemanha a ortotanásia (abreviação da morte desligando aparelhos e renunciando ao emprego de medicamentação de prolongamento da vida) é permitida desde que o moribundo o tenha declarado em estado consciente. Neste aspecto a Alemanha pronunciou-se no sentido de uma sociedade de valores cristãos.

Prática na Holanda

Na Holanda, na Bélgica e no Luxemburgo a eutanásia é legal mas mete medo a muitos idosos que, com receio que os familiares disponham sobre eles, preferem emigrar: http://www.dw.com/pt/idosos-fogem-da-holanda-com-medo-da-eutan%C3%A1sia/a-1050812

A ética secular serve-se do relativismo como doutrina

Platão defendia a eutanásia para a pessoa inútil à economia e à sociedade. Na antiguidade era comum a prática do homicídio contra as crianças deficientes. Hitler procedia de igual modo, desde que a doença fosse atestada por três médicos.
Nalgumas sociedades ocidentais e em sociedades materialistas comunistas regista-se uma tendência para a elaboração de leis (pena de morte, aborto, eutanásia e outras) que se baseiam apenas numa filosofia utilitária e pragmatista, muitas vezes elaboradas contra os próprios ideais da Constituição. Parte-se de um princípio de liberdade como posse e de vida como produto na praça do mercado.
De uma maneira geral, os defensores da eutanásia fundamentam a sua opinião no materialismo que relativiza a vida humana, não a aceitando como valor máximo e negam-lhe qualquer sentido metafísico, reduzindo a existência a mero processo de forças biológicas naturais. Pretendem um diagnóstico e uma decisão sem a análise das suas consequências.
Na sequência de uma ética secular (laica) a “eutanásia selecionadora ou eugénica” será aplicada a recém-nascidos no sentido da selecção social. Como se fala hoje da eutanásia falar-se-á amanhã da purificação da família, do povo ou da raça.
Querem uma ética pragmática servidora do momento e da ocasião, chegando até a contestar o imperativo categórico de Kant: a fórmula sumula do desenvolvimento da ética e do conviver humano (“Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal.”).
O reducionismo relativista e materialista, de que pecam muitos defensores da eutanásia, é alérgico ao pensamento integral e complexo; refugiam-se na ilusão de querer construir uma realidade semelhante a um rio com a água mas sem o leito.

Ética religiosa

A ética cristã bem como a moral das religiões em geral (budismo, induísmo, judaísmo e islão) é contra a eutanásia e contra o matar. O valor ético e moral da integridade e dignidade humana tem prioridade sobre princípios económico-políticos subsidiários.
A ética cristã, uma ética da excelência, que se aperfeiçoou, crivando as vivências dos diferentes povos e culturas ao longo dos séculos, considera a vida como bem maior e, como tal, a promover e defender e, consequentemente, não a interromper. Na Bíblia o rei Saul (Samuel 31, 1 a 13) pediu a morte e, como o escudeiro o não matasse, Saul atirou o corpo sobre a espada para se matar mas os desígnios divinos revelaram-se mais fortes, tendo ele sido finalmente morto por um filisteu. Jesus até recusou, livremente, o hissope.
A Encíclica Evangelium Vitae indica: a eutanásia é crime contra a vida e contra a dignidade humana pois a vida, e em especial a humana, é sagrada (inviolável). Uma coisa é causar a morte (eutanásia activa) e outra coisa é deixar morrer; o cristianismo não quer a dor mas reconhece também na aceitação da dor, em estado consciente, a oportunidade para crescer espiritualmente, dado a vida ter vários estádios e continuar depois da morte. Consequentemente a compaixão comporta o prolongamento da vida e não da agonia. Os analgésicos e a ortotanásia, desde que não tenham como causa directa a morte, são meios importantes em muitas situações, também na possibilitação de uma expressão mais condigna com a pessoa no estado moribundo. Neste sentido ainda há muito a fazer!

Controvérsia

O facto de os cuidados paliativos não impedirem “por inteiro a degradação física e psicológica”, como argumentam os que querem a antecipação da morte por suicídio assistido ou por eutanásia activa (um terceiro mata), não é suficientemente fundamentado, como medida geral, contra a morte natural ou contra a eutanásia passiva (suspensão de terapias de prolongamento da vida determinada por testamento vital – distanásia – previsto na lei desde 2001).
Em Portugal a recomendação da eutanásia torna-se cínica quando mais de 50% pacientes terminais morrem sem poderem ter acesso aos Cuidados Paliativos, consignados na Lei nº 52/2012 de 5 de setembro: cf. http://cdn.impresa.pt/efe/684/8198872/Posicao_da_APCP_-sobre-manifesto-PEut-vfinal.pdf
A controvérsia é boa para o apuramento de conclusões elevadas e para o crescimento humano intelectual e espiritual. A controvérsia é perniciosa quando enquadrada em posições estanques que querem ver tudo regulado pela lei.
Um direito implica a liberdade de escolha e esta não é plausível no nascer e no morrer. Fala-se do direito à morte como se fala de um direito adquirido ou um poder outorgado a executar em plena liberdade e como se uma pessoa em estádio terminal que dá trabalhos estivesse isenta de qualquer coibição psíquica ou social sendo-lhe indiferente o peso e o encargo que a sua situação representa para os familiares e para o próximo. Não é lógico, em nome da liberdade, recomendar uma decisão que exclui definitivamente uma outra alternativa posterior. O problema da liberdade para a eutanásia vem da irreversibilidade do acto. Os actos livres implicam sempre uma alternativa possibilitadora de continuidade. A vida é um dom, a morte é problema e não solução… O medo da dor, mais que da morte, leva à conclusão falaciosa de que o morrer é que dá dignidade à vida e não a vida que dá sentido e dignidade à morte.
Muitos adeptos da eutanásia activa, contraditoriamente ao seu argumento de liberdade humana, recusam ao Homem a sua capacidade de liberdade negando a validade da sua subjectividade, ao alegar que o ser humano não pode preservar a subjetividade que o assiste.
Com o argumento de que a vida nos foi imposta e da formação que nos foi dada, consideram-nos seres condicionados que, realmente, também somos, mas não só; este condicionamento não lhes dá o direito de nos condicionar e formatar segundo os seus princípios modelares, querendo-nos, para tal, reduzidos à animalidade inicial, negando-nos uma obediência orgânica para nos outorgar uma obediência de lógica ideológica. Este reducionismo é consequência de um reducionismo maior que consta de elaborar e conceber a vida em termos só racionais, esquecendo que a pessoa é feita de Razão e Coração e a razão pode ser enganada ou confundida por diferentes lógicas tal como o coração por diferentes emoções ou sentimentos. Nem o princípio coração nem o princípio razão têm o senhorio sobre a vida ou sobre a realidade; o Homem completo consta de Razão e Coração numa relação de complementaridade. Se houve tempos em que as elites das sociedades menosprezavam as faculdades da razão hoje menosprezam as faculdades do coração.
A pessoa não pode ser reduzida à biologia, aos padrões de uma dada sociedade ou época nem tão-pouco à jurisprudência; nem sequer pode ser considerada como mero objecto, dado este conceito delimitar o cidadão a um objecto de direitos e deveres, na perspectiva da polis.
Quem se legitima nisto como juiz? O facto de a constituição reconhecer ao Homem o direito à vida não é ela que a dá ou a tira nem a lei criada por um parlamento pode ter poder de deliberar sobre existência ou não existência de uma pessoa. O apoio humano limita-se ao calor humano e à diminuição da dor. A pessoa tem “direito” a ser feliz na vida independentemente de esta ser considerada no além e no aquém; nem sempre a saúde é um pressuposto de felicidade como prova a existência de muitos deficientes.
O moribundo tem direito a uma morte digna e tranquila, o que não inclui o direito ao abuso nem ao homicídio por compaixão. É dolorosa a situação de familiares que assistem a moribundos ou pessoas em estado vegetativo. A sociedade deveria acarinha-los e assisti-los não os deixando sós na responsabilidade e na dor. Esta pode ser uma oportunidade para se optar mais qualidade de vida.
A assistência a moribundos é um assunto muito delicado e controverso que não deveria provocar posições radicais. É insuficiente ficar-se por propostas que pretendem uma ética temporal meramente pragmática sem ter em conta a experiência secular da ética religiosa e sem a deontologia médica. Este é um assunto que não se pode solucionar com uma simples “receita”. É louvável o facto de esta matéria, ao contrário de outras, estar a ser objecto de uma discussão na opinião pública antes de chegar ao parlamento.
A existência seria chata se não fosse o movimento; nela também a controvérsia é um passo no sentido da vida.

Reflectindo

O direito de morrer com dignidade deveria constituir um dado geral aceite, o que não implica desresponsabilizar a pessoa pelos actos que faz, ou tirar por lei a responsabilidade a quem mata como se estes fossem privados de consciência e não houvesse meios de evitar não matar.
Enquanto as pessoas de moral responsável discutem a defesa da vida, as pessoas tendentes ao poder agem contra ela, caindo no equívoco de que na vida se pode ter tudo na mão e de graça. A despenalização da eutanásia revela-se um mau caminho que abre espaço aos negociantes da morte e a uma vida mais leviana e irreflectida.
A defesa da cultura da morte, do aborto, da eutanásia parte de um princípio hedonista e materialista da existência. Evita a reflexão e a controvérsia séria, preferindo uma receita que embote a consciência popular. Ao falarem do direito a decidir sobre o próprio destino esquecem que o ser humano é influenciável sendo difícil poder fixar o limite entre o objectivo e o subjectivo. A vontade também está sujeita a medos… Faz-se da liberdade tabu esquecendo que esta é apenas um factor importante de vida mas a vida tem muitos outros reguladores sem os quais seria impossível a sua expressão.
A religião transmitiu valores construtivos, optimistas e positivos contrariados agora pelo niilismo que não pára perante a destruição pessoal como se a pessoa se reduzisse a uma ideia abstracta ou a uma nostalgia passageira ao serviço de interesses e ideias fortemente encaixilhadas. Em nome da terra e da “realidade”, negam a sua atmosfera ou consideram-na como algo distante e pesado como se a transcendência não tivesse sido o oxigénio que mantem e desenvolve o ser humano. Mataram Deus e na sequência querem a morte do Homem espiritual. Desiludidos de Deus e do espírito viram-se agora para a terra embrutecida – materialismo- querem a população prisioneira da “caverna platónica” sem luz, a viver da escuridão e da tanatofilia, como se a perspectiva da luz fosse algo contra a vida e iludisse a realidade da morte.
Culpabilizam a religião de se opor a soluções simplicistas ou de surgir como obstáculo ao exigir reflexão. Querem a dignidade vinculada à circunstância e não à pessoa para a porem à disposição da ideologia em favor de um poder ad hoc. Demonizam, por vezes, a religião cristã pelo facto de esta ver no Homem um absoluto. O poder ideológico secular encontra-se em rivalidade com o religioso quando, no sentido do Homem, se deveriam complementar; aquele constrói a sua força na aquisição de seguidores quando a força motivante e movente deveria ser o bem integral e integrante.
Muitos não vêem com bons olhos a renúncia que apela à metafísica, à imagem do esforço da natureza ao tentar erguer-se na procura do Sol; não basta a ilusão de que a natureza do Homem se reduz à procura de um lugar soalheiro mas sem Sol; de facto, equivaleria a exigir do Homem uma outra renúncia: a renúncia a si mesmo para, na qualidade de mero elemento, se colocar à disposição da matéria que, com o seu poder inerente, seria reduzido ao poder do mais forte, contradizendo a herança cultural e ética judaico-cristã e dos povos que levou a civilização ocidental ao nível em que se encontra nos seus aspectos positivos e negativos.
Muitos militantes da eutanásia revelam-se, na consequência, contra a consciência humana que é uma percepção dinâmica de luta pela liberdade, uma luta das forças escuras contra a luz que ilumina a “caverna” platónica.
Consequentes na sua negação de Deus e da ordem criada tornam-se tão imateriais na sua especulação chegam a defender o direito de nunca se ter nascido! Esta posição que consequentemente legitimaria a prática da selecção darwinista social que motivou Hitler a mandar matar deficientes e a mandar castrar pessoas com certas doenças hereditárias: tudo isto em nome de uma liberdade e de uma felicidade que veria em cada deficiente um infeliz a quem seria dado o direito de se antecipar à dor e assim voltar ao estado do não criado e assim, à sua custa, a sociedade tivesse mais disposição de bens materiais.
A liberdade individual é uma consequência da espiritualidade e do desenvolvimento humano; a liberdade humana revelou-se como força inclusiva e não exclusiva, possibilitando assim a arquitectura cultural e social a que chegamos. É interessante verificar-se pela arqueologia que o desenvolvimento da sociedade começou em torno da morte (lugares de culto). A vida não nega a morte nem a morte nega a vida; ambas são duas formas de estar da existência.
O desejo da morte assistida (eutanásia) surge, por vezes, da falta de assistência e solidariedade por parte da sociedade e do próximo, que não se querem responsabilizar porque consideram a existência reduzida aos seus aspectos de luta primitiva e individual pela vida. Desvinculam o ser individual do ser social (zoon politikon) para que a sociedade se possa desenvencilhar, sem dores de pensamento nem custos, do que se torna incómodo e daquilo que a poderia comprometer.
Nestas coisas não chega uma política do levantar a mão no parlamento. Também não é bom fomentar-se a má consciência, nem tão-pouco estimular a consciência leviana, mas sim possibilitar discussões públicas sérias e reflectidas para que, cada cidadão se levante da massa e possa tornar-se mais consciente para se orientar e decidir com o máximo de conhecimento e liberdade: só então pode ser responsável e tomado a sério nas decisões que toma. A discussão sobre a eutanásia – matéria muito complexa – não pode ser encurtada por uma política ou ideologia qualquer, até porque as massas abdicam da reflexão e da própria responsabilidade julgando como matéria segura o que se encontra legislado e dado a vida e o seu sentido implicarem uma reflexão das diferentes disciplinas complementares, desde a bioética, à medicina e à teologia. A pessoa e a vida não devem ser relativizadas, devem ser reconhecidas como bens absolutos que, na modelação da própria vida segundo o imperativo categórico kantiano, superam o poder dos Estados (A pena de morte, para um cristão significa a usurpação do estado que exerce o poder sobre algo que o supera).
O direito de decisão é conferido por Deus ao indivíduo (a religião apenas o formaliza); nenhuma ideologia ou lei poderá assumir-se o direito de o manipular ou de se livrar dele mesmo quando sob o pretexto de ajuda. A lei e a norma tendem a fazer de um caso todos os casos embora a consciência de cada um seja inalienável.
É fácil apregoar-se como filantrópico a oferecer às pessoas o direito de acabarem com a sua vida ou com a vida do outro em seu nome ou das circunstâncias.
O cristianismo acentua a assistência solidária e caritativa na morte, também com o emprego de paliativos, respeitando sobretudo a consciência individual e a responsabilidade da decisão reflectida de cada um. Não chega ver as ondas da superfície; é preciso criar-se espaço para se poder perscrutar e sentir o que elas encobrem das profundezas do mar. Esta é a advertência necessária mas sem coibir!
A vida é o positivo da existência, é optimista não se deixando perder em qualquer beco pessimista sem saída nem tão-pouco reduzir-se ao seu negativo. A vida chama e tem um sentido e este é infinito; a existência inclui nela o Sol que dia-a-dia convida a natureza ao esforço do levantar-se para a luz. Que seria da borboleta se no seu estádio de casulo, em nome do direito e da liberdade, fosse impedido o seu desenvolvimento!
A alma treme perante o vazio, mas entre os calafrios pressente, no extremo do túnel da existência, uma luz quente que sempre brilha e a espera!

António da Cunha Duarte Justo - de Portugal
em Kessel - Alemanha
Teólogo e Pedagogo
Pegadas do Tempo:
www.antonio-justo.eu

 

 

Antonio Paiva Rodrigues

 

A LICANTROPIA
Por Antonio Paiva Rodrigues


Licantropia é uma palavra que têm origem num vocábulo grego composto de Lykos (lobo) e tropos (forma). Significa, segundo a crença popular, a transformação de um homem num lobo ou a metamorfose, de que determinados seres humanos se transformavam em lobisomem. Esta crença popular é antiga e teve sua origem na Idade Média, e segundo estudiosos está ligada diretamente a bruxarias. Existem alguns espiritualistas, que comprovada esta materialização de espíritos, em várias partes do mundo, experiências ou experimentações, já debatidas por alguns curiosos, é o que pode se chamar de um fenômeno ainda insuficiente esclarecido. Pode-se também classificar a ideia como lendas ou rumores.
Supunha-se que esses lobos eram feiticeiras, possuídas do segredo de se transformarem em bestas, graças aos seus poderes mágicos. Milhares de pessoas, supostas de se entregarem a essas metamorfoses diabólicas, foram queimadas nesse período. Queimaram-se até mesmo alguns “espíritos mais fortes”, que se recusaram a aceitar a existência dos lobisomens como tal Guilherme de Lure em Poitiers, na França, segundo relato do escritor francês Ruffat em La Superstition a travers lês ages (1977). Em 1573 um decreto do parlamento de Dôle na França, (região do Jura, (perto da fronteira com a Suíça) determinava que fossem abatidos os lobisomens.
Claude Seignolle em Lês evangiles du Diable (1967) conta que no Perigord (perto de Burdeos) determinados homens, notadamente os filhos de padres, eram forçados, a cada lua cheia, a se transformarem em lobisomens. Era nessa noite que o mal os atingia. Eles só retornavam à forma humana depois de terem agredido ou assassinado suas vítimas. Existe alguma realidade nestes relatos? Seguramente a transformação do homem em lobo jamais existiu, mas temos fatos até recentes que nos oferecem certas explicações.
O mais famoso licântropo de que temos referências históricas é o rei armênio Tiridat III (287- 330?), que foi curado pelo patriarca Gregório, o Iluminador. Mas escutemos a medicina atual).
Licantropia, ou Zoantropia, fenômeno de materialização do corpo astral ou perispiritual de determinadas pessoas, e que surge por desejo próprio ou sem desejo algum. É o que foi denominado pelo povo de “lobisomem” (Lobisomem). Como é sabido e notório para que exista o fenômeno da materialização, se faz necessário à presença de médium doador da substância condenável a que foi dado o nome de ectoplasma.
Dizem que esse revestimento tanto pode acontecer com espíritos desencarnados, entidades que não possuem corpo físico, como também com a alma semiliberta do próprio doador da substância. Descontado o quanto houver de fantasia em alguns casos, chega-se a acreditar não ser assim tão absurda a popular crença na existência de lobisomem. Você acredita? Ou não? É certo, que existe uma doença da qual temos conhecimento de alguns relatos históricos que confirmam esta crença. No castelo de Ambras, perto de Innsbruck, no Tirol austríaco, se conservam vários quadros que representam um adulto e duas crianças com o rosto coberto de cabelos e uma expressão feroz.
Não são mitos ou imagens. Os protagonistas destes retratos viveram realmente. O adulto chamava-se Pedro González e nasceu no seio de uma família, acomodada faz 400 anos, das ilhas Canárias. Apenas alcançada a puberdade, experimentou os sintomas de um hirsutismo feroz, uma hipertricose (crescimento de pêlos anormal do grego thrichós gernitivo de thrix pelo) desmesurada que cobriu inteiramente seu corpo de pêlos. O hirsutismo é o aumento de pêlos terminais como os pêlos da barba masculinos. Pode acompanhar uma anormalidade endócrina.
A hipertricose é o aumento de pêlos locais sem causa hormonal e sem predileção especial por lugar de aparecimento. Pode ser idiopático (sem causa notável) ou decorrente de doenças ou remédios. Que fique bem claro, não estamos afirmando que seja verdadeiro o fenômeno, mas como fez corajosamente o sábio inglês, William Crookes, a respeito de materialização de espíritos, porque nunca executamos tal experiência, porém, ressalte-se: a sua possibilidade é aceitável diante dos procedentes.
Corpo, matéria e espírito (alma) são componentes do homem e corpo plástico (perispírito ou corpo astral), esse corpo espiritual plástico que pode desprender-se e apresentar-se a muitos quilômetros de distância, depois de materializado toma a forma do pensamento ou vontade do sensitivo. Esse desprendimento pode acontecer no estado inconsciente e é suscetível de receber sugestão.
Voltando ao caso de Pedro, como resultado de sua enfermidade todos se afastava dele.
O chamava feto do diabo, aborto do inferno. Aos 25 anos viajou a Paris donde diziam havia um doutor que poderia curar sua doença. Não deu certo. As pessoas fugiam atemorizadas, as crianças choravam ao vê-lo, e os cachorros o perseguiam latindo. Somente uma mulher teve compaixão dele e devido à sua doçura e carinho recuperou a autoestima e casou com ela. Mas o drama continuou porque os dois filhos nasceram com a mesma enfermidade por herdar os genes paternos. Recorreu Pedro ao professor Félix Plater de Basiléia, um dos melhores especialistas da época.
Mas tudo foi inútil. Não houve outro jeito a não ser se tornarem bobos da corte do Imperador Fernando II da Áustria que mandou imortalizá-los em respectivas pinturas a óleo. Modernamente dá-se importância à outra doença mais comum: o lupus eritematoso (lobo vermelho). Não que transformasse todo o corpo, mas em razão de que esta doença ataca o rosto, contornando-o como se fosse uma máscara de carnaval avermelhada em forma de borboleta, ou deixando as pessoas com aparência de lobos. Um outro aspecto é o das convulsões devido à desordem neurológica que acompanha a doença, causando psicoses desequilibrantes.
A doença afeta hoje a 1,4 milhão de americanos e um de cada 250 mulheres afro-americanas entre 18 e 65 anos. Além de seu aspecto, semelhante ao de um lobo, origem da designação, os doentes afetados por esta doença só saiam à noite, pois as radiações solares agravam suas lesões. Além disso, essa doença é acompanhada às vezes, pelo hirsutismo. Era suficiente vislumbrar um paciente, à noite, para acreditar no lobisomem, que na literatura oriental seriam homens-tigre. Até o século XIX era hábito entre os camponeses evitar os passeios durante as noites de lua cheia.
Acreditava-se que, além de correrem o risco de encontrarem um lobisomem, poderiam também se transformar em um deles. Com base neste mito, Stevenson (+1886) escreveu o seu romance The Strange case of Doutor Jekill and Mar Hyde. Segundo certos especialistas, como Jung, a influência do ciclo lunar sobre os impulsos sexuais agressivos pode ser explicada cientificamente. Mas no lupus trata-se das doenças chamadas porfirinas grupo de enfermidades genéticas cuja causa é o mau funcionamento da sequência enzimática do grupo HEM ou HEMO da hemoglobina, o pigmento vermelho do sangue.
Este grupo é o que transporta o oxigênio às células do organismo. Este grupo é um composto ferroso com protoporfirinas e de acordo com as leis de Mendel é dominante de modo que qualquer erro na herança produz as doenças chamadas de PORFÍRIAS.
Os resultados destas doenças são: Foto-sensibilidade, produto da acumulação das porfirinas metálicas na pele ocasionando sérias lesões. HIRSUTISMO: para se proteger da luz o organismo faz com que cresçam pelos no dorso das mãos nas bochechas, no nariz. O doente foge da luz do dia e, se sai, será à noite. As porfirinas da pele absorvem a energia luminosa e transmitem essa energia ao oxigênio que provém da circulação.
Com o excesso de porfirinas se libera oxigênio atômico ou monoatômico que é altamente reativo e produz a destruição dos tecidos à pele apresenta zonas de coloração e de descoloração e os dentes se tornam vermelhos; tudo o que o aproximava do lobo. Por outra parte, o lobo era temido na Europa pela doença da raiva. Os lobos provinham da Polônia ou da Baviera e eram capazes de percorrer grandes distâncias em poucos dias. Após atravessar a Alemanha, entravam na França pela “via dos lobos”, situada entre Wissemburg e Sarreguermine (região das Ardennes perto de Metz), antes de se espalhar por todo o território. É precisamente donde se deu a maioria dos casos de bruxaria na França e Alemanha.
Não quero com essas afirmações que sou médico por usar essas terminologias científicas, mas sim fruto de minha curiosidade e de pesquisador que sou, aliás, todo jornalismo com o passar do tempo se torna grande pesquisador, hoje a maior parte dos estudiosos são pesquisadores por excelência. André Luis, espírito de escol, que nos tem dado belíssimas e instrutivas mensagens através do saudoso Francisco de Paula Cândido Xavier, conta-nos o caso de um espírito que tomou momentaneamente a força de um lobo, por forte sugestão de outro espírito. Se uma pessoa de instinto animalesco ou animal, se materializa, provoca ou não, no seu corpo astral impressões aparentes de lobo, cão ou mula (burro).
A sugestão é capaz de provocar muitas alterações, inclusive doenças graves. Precisamente os lobos furiosos eram considerados como animais venenosos, segundo esta prece dirigida a S. Humberto: “Protegei-me dos lobos loucos, dos cachorros loucos e das víboras”. E o santo era o padroeiro da região das Ardennes. A mesma doença que é chamada de hidrofobia. Como lemos em alguns relatos sobre o acesso de raiva de Pierre Boureville (1783) ao olhar este pequeno regato ficou assustado e sentiu todo o corpo estremecer e não podia conter o movimento que o agitava. Morriam 4 ou 6 dias, contados após o início dos sintomas.
Pierre estremecia e emitia gritos que assustava a todos. Diante destas considerações vemos como o medo pode aumentar e até distorcer os fatos atribuindo a causas demoníacas coisas que hoje sabemos serem doenças biológicas. Um exemplo: o epiléptico do evangelho (Lc 9, 37-43). Por outra parte as manchas coloridas e os pelos nascidos fora dos lugares comuns davam razão aos que diziam serem marcas do diabo. Na Bíblia temos o caso de Esaú a quem sua mãe imitou cobrindo os braços e pescoço do filho mais novo Jacó com uma pele de cabrito. O fato se explica caso Esaú tivesse a doença da hipertricose ou do hirsutismo idopático.
O mito do Homem-Lobo se registra desde a Idade Média até nossos dias. Na Idade Média se cometia grande quantidade de crimes sádicos e sexuais que sempre terminavam por ser atribuído a seres sobrenaturais, devido à superstição e ao medo da gente. Alguns trabalhos curiosos comparam esses delitos sobrenaturais antigos com os crimes sexuais seriais executados por criminais contemporâneos, identificando as violações e os assassinatos atribuídos aos temidos homens-lobo com as barbaridades e sevícias levadas a cabo pelos assassinos de hoje.
Em psiquiatria, a licantropia aparece como uma enfermidade mental com tendência canibal, onde o doente se imagina estar transformado em lobo e, inclusive, imitando seus grunhidos. Em alguns casos graves esses pacientes se negam a comer outro alimento que não seja carne crua e bem sanguinolenta. Isoladamente, tanto as tendências eminentemente sociológicas, quanto às psicológicas e orgânicas fracassaram. Hoje em dia fala-se no elemento bio-psico-social. Volta a tomar força os estudos de endocrinologia, que associam a agressividade do delinquente, à testosterona (hormônio masculino), os estudos de genética ao tentar identificar no genoma humano um possível "gene da criminalidade”.
Esses transtornos, normalmente diagnosticados como severas psicoses, apresentam concomitantemente um alto grau de histerismo, cursando com ideias delirantes e mudança total da pessoalidade e, como outras psicoses, não sendo possível separar a realidade do imaginado. Voltando ao que estamos citando anteriormente antes, quando sucede o paciente assim transitoriamente transformado em animal sair ferido por haver entrado em luta com alguém, o seu corpo material recebe o mesmo ferimento, podendo sobrevir-lhe a morte. É que o corpo astral mantém-se ligado ao corpo físico por um fio invisível (cordão de prata) aos nossos olhos.
Aliás, nas sessões espíritas já se tem notado que o choque recebido por um espírito materializado repercute no médium de forma cruel ou crudelíssima. A respeito dessa transmissão de sensibilidade, vejamos o que escreveu o Dr. J. Lawrence em seu livro “Ocultismo Prático”: “Assim, Maria de Agreda sentia desagradavelmente o calor ou o clima do país ao qual se transportava”. Santa Lidwina recebia sobre o corpo material as impressões recebidas ao longe pelo seu corpo fluídico. Passou vários dias sem poder caminhar, porque seu duplo fluídico tivera uma entorse no pé. Em outra oportunidade, atravessando espinheiros, seu duplo fluídico picou-se na mão, e a santa, ao sair do êxtase, notou que um espinho achava-se metido na mão correspondente à do ferimento. Com Catarina Emmerich aconteceram fenômenos semelhantes.
Os sonâmbulos, ou passivos, sentem não só as picadas que se fazem sobre as figuras de cera previamente por eles sensibilizadas, mais ainda ficam em seu corpo material com os sinais dessas picadas. A licantropia é um fenômeno anímico, todavia não se deve pensar que todos os outros sejam. Nem tudo é animismo e as provas do que colocamos aqui, existem milhares. Nada melhor para atestar a existência de espíritos do que o fato de haver no homem uma alma que agita independentemente do corpo material. O animismo é a comprovação do Espiritismo, como muito bem acentuou e explicou o professor Ernesto Bozzano, por experiência própria e apoiada em estudos de outros cientistas.
Quando resolvi pesquisar sobre licantropia e durante a execução da mesma e as explanações aqui colocadas uma palavra me chamou a atenção, as porfirias. Antigamente, sendo as psicoses de difícil tratamento, proliferavam psicóticos esquizofrênicos e outros doentes mentais, como os sádicos, necrófilos e psicopatas em geral, os quais ocorriam a licantropia como via de saída para seus delírios ou seus instintos mórbidos. Estes doentes se valiam, como ainda hoje, dos personagens da cultura e do folclore para solidificar a crença em poder transformar-se em lobo, e que, nas noites de lua cheia, seu corpo se cobria de pelo, seus dentes se tornavam pontiagudos e suas unhas cresciam até converter-se em garras.
Possuídos por tais delírios, os doentes vagavam pelas ruas assediando suas vítimas, atacando, mordendo e, em algumas ocasiões, esquartejando e comendo partes de seu corpo. Hoje em dia a medicina conhece outros tipos de doenças que poderiam explicar parte do mito da licantropia, como por exemplo, a Porfiria Congênita. Esta doença se caracteriza por problemas cutâneos, foto-sensibilidade e depósitos de porfirina, um pigmento dos glóbulos vermelhos que escurece os dentes e a urina, dando a impressão que o paciente esteve bebendo sangue.
Outras doenças, como por exemplo, a Hipertricose ou o Hirsutismo, as quais provocam o crescimento exagerado de pelos por todo o corpo, incluindo a face, eram interpretadas, antigamente, como qualidades sobrenaturais onde os pacientes podiam converter-se em bestas. Mas, por outro lado, ao longo da historia tem surgido alguns criminosos considerados "homens-lobo" devido aos seus métodos canibais de matar a vítima. As Porfirias são um grupo de doenças genéticas cuja causa é um mau funcionamento da sequência enzimática do grupo Heme da Hemoglobina (a HEMOGLOBINA é o pigmento do sangue que faz que este seja vermelho e é composta pelo grupo Heme e varias classes de GLOBINAS, segundo circunstâncias , normais, que agora não veem ao caso).
O grupo Heme é quem transporta o oxigênio dos pulmões ao resto das células do organismo e é um complexo férrico (em estado ferroso). Qualquer erro na hereditariedade que interfere na síntese do grupo Heme é capaz de produzir as doenças chamadas Porfirias.
Os sintomas das Porfirias são: 1) Fotosensibilidade, que se apresenta em todos tipos, menos na chamada Forma Aguda Intermitente. Esta fotosensibilidade é o resultado do acúmulo de porfirinas livres de metal na pele produzindo sérias lesões: 1.a) Hirsutismo. Para o organismo proteger-se da luz, o pelo cresce exageradamente e em lugares não habituais, como no vão dos dedos e dorso das mãos, nas bochechas, no nariz, enfim, nos lugares mais expostos à luz. Evidentemente esses pacientes devem sair quase que exclusivamente à noite.
1.b) Pigmentação. A pele pode apresentar também zonas de pigmentação ou de despigmentação e os dentes podem ser vermelhos fazendo que o aspecto do doente se afaste cada vez mais do ser humano normal e se aproxime da ideia de um monstro. 2) As porfirinas acumuladas na pele, podem absorver luz do sol em qualquer longitude, tanto no espectro ultravioleta, como no espectro visível e logo transferir sua energia ao oxigênio que provêm da respiração. O oxigênio normalmente não é tóxico, mas com o excesso de energia transferido pelas porfirinas, o oxigênio se libera sob a forma de oxigênio altamente reativo.
Este oxigênio altamente reativo, produz destruição dos tecidos, predominantemente os mais distais e mais expostos, como é o caso das pontas dos dedos, o nariz, etc, oxidando essas áreas de forma violenta, com severa inflamação em forma de queimação. Assim sendo, quando esses pacientes se expõem à luz, suas mãos se convertem em garras e sua face, peluda em sua totalidade, mostra uma boca permanentemente aberta por lesões repetitivas dos lábios.
Estando os dentes descobertos, adquirem aparência maior sugerindo presas. As narinas, pelos mesmos motivos das lesões, se apresentam voltadas mais para cima e como orifícios tétricos e escuros. Dessa forma teremos o lobisomem tal qual descrito pelo mito do Homem-Lobo.
Imaginemos agora, na metade do século XIV, a possibilidade de encontrarmos em meio de una noite escura, esse tipo de paciente que sai de noite para evitar o dano que produz a luz, com a aparência descrita acima. A natureza genética das porfirias, juntamente com alguns costumes endogâmicos (casamento entre membros de uma mesma família) em alguns grupos étnicos da Europa Oriental e entre a nobreza europeia em geral, poderia ter desencadeado a doença em pessoas geneticamente ligadas. Pode vir daí a lenda da maldição familiar dos Lobisomens e/ou de ser Lobisomem o sexto ou sétimo filho do casal ou coisas assim.
Aqui encerro este trabalho de pesquisa citando que além do que escrevi consultei as obras de Dr. J. Lawrence em seu livro “Ocultismo Prático”, algumas observações do irmão e confrade Cristovam Marques Pessoa de seu livro “O Além e O Aquém”, editora e Gráfica “ABC do interior”, caixa postal nº. 8, 18.570.000-Conchas-São Paulo e muitos ensinamentos de oonlightbeasts.tripod.com, inclusive as fotos. Em ambas as gravuras, têm dois pacientes que sofriam de Porfirias.

Antônio Paiva Rodrigues
Fortaleza - Ceará - Brasil

Antonio Paiva Rodrigues-jornalista-membro da ACI- da ACE- da UBT- da Aouvirce e da Alomerce

 

 

 

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