FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Bárbara Sanco

 

PERPÉTUA PRIMAVERA
Por Bárbara Sanco


Uma amiga me convidou para ir num museu com ela numa exposição de quadros de um pintor alemão, um tal de Van sei lá o que. Coitado do cara, puta falta de respeito, nem lembrar o nome dele. Mas eu só aceitei porque estava sozinho em casa sem cerveja e a guria que me fez o convite é uma tremenda gostosa.
Nunca curti muito essa história de arte, não que eu pense que é coisa de boiola, não é isso. Tem homem que curte, mas não é a minha, saca? Meu lance é futebol, corrida de kart, pizzaria, chopinho com os amigos e uma boa roda de música que pode ser samba, pagode ou jovem guarda.
Mas como disse eu não tinha nada para fazer, então fui. O lugar era maneiro, cheio de gente cheirosa, bem arrumada, tinha espumante da boa e um sonzinho meio caído, mas eu não sou nenhum ignorante eu sei que música lounge é para as pessoas poderem conversar.
O chato mesmo foi que a Bruna, a gostosa, ficou de papo com um bando de gente esquisita e disse para eu circular e olhar a exposição.
Putz, fiquei meio de cara, mas fiz o que ela disse e já tava me enchendo o saco e pensando em largar fora quando vi aquele quadro.
Caceta, não sei se dá para descrever o que aconteceu comigo. Olha eu não sou um cara de frescura, tenho até fama de grosso, o que eu também considero um exagero. Mas me deu um embrolho no estômago. Foi como se um buraco negro – é curto esse lance de ficção científica também – tivesse me sugado pra dentro do quadro sabe. Uma realidade paralela, sei lá.
O pintor, o tal de alemão morto numa guerra, o Van de alguma coisa tinha pego uma tela enorme cara, assim maior do que o meu guarda-roupa de seis portas e olha que ele tem maleiro, e sobre aquela telona ele pintou uma paisagem com um montão de flores roxas plantadas em cima duma montanha num dia de sol, sol assim tipo do meio dia.
O Sol era lindo cara, muito mais lindo que sol de verdade, porque também pros de verdade é difícil olhar direito, dói as vista e de óculos dá uma escurecida. E as flores eram perfeitinhas sabe, tudo assim igualzinha.
Me deu uma tristeza, não daquelas de morte de parente que a gente ama, nem daquelas que dá quando o time perde o campeonato, era um outro tipo de tristeza, eu sei que parece loucura mas era uma tristeza boa.
Eu fiquei com dó do Sol condenado a nunca se pôr atrás daquela montanha, da Lua que nunca apareceria, do vento congelado num só instante de movimento impintado a sombra das pétalas que se curvavam com a sua chegada.
De repente fiquei pensando em mim e em como eu tinha tentado passar a perna no tempo.
Eu enganei meus verões e me escondi nos invernos, fingi não ver meus outonos e mantive a vida numa perpétua primavera.
- E daí gostou do quadro? - era a Bruna me despertando daquele transe maluco.
- Gostei Bruna, gostei pacas, quer dizer gostei muito, mas já vou indo tá? Quer que eu te leve em casa?
- Não eu vou com a Tãnia mais tarde. Mas tá tudo bem contigo, tô te achando meio estranho.
- Tá, tá tudo bem eu só preciso ir pra casa.
Enquanto dirigia Peter Pan pensava em como seria afinal envelhecer.

Bárbara Sanco
Porto Alegre - Brasil
www.barbarasanco.com.br

Bárbara Sanco é natural de Porto Alegre,• Durante anos foi uma escritora de textos engavetados que hoje circulam pela internet e seguem publicados em algumas antologias poéticas.Adora ler, mas gosta mais de escrever, de inventar histórias que rabisca a lápis em agendas velhas. Colabora com o site http://www.minicontos.com.br/ .Colabora com o blog http://gandavos.blogspot.com.br/ . Publica no site http://www.recantodasletras.com.br/ .• Trabalhou como tutora de grupos artísticos e foi mediadora de leitura em bibliotecas.Sua formação advém da participação contínua em oficinas literárias. Participa do Clube do Livro ALUABÁ grupo de leitura e debate de literatura africana, coordenado pelo professor e escritor Celso Sisto.Participa do Clube do Livro AIAIÁ grupo de leitura e debate de literatura para crianças e jovens, coordenado pelo professor e escritor Celso Sisto.Integra a lista de Artistas Gaúchos http://www.artistasgauchos.com.br/ .Pertence a Associação Gaúcha de Escritores http://www.ages.org.br/ .Participa do Grupo CONFABULER que reúne escritores para debates e produção literária.  

 

 

Belvedere Bruno

 

A RUPTURA DOS NÓS
Por Belvedere Bruno


Quando me dispus a romper os nós que me atavam a um universo frágil e vazio, senti que a tarefa seria hercúlea. Não me acovardei. Foi como se montasse um cavalo alado e vislumbrasse paisagens que certamente reformulariam o roteiro de minha existência.
Deixei tudo para trás, não me importando se em meu ato havia ingratidão, frieza ou maldade. Dispensei autojulgamentos. Transformação era o que desejava, não o prejuízo de quem quer que fosse. Fui taxada como a desagregadora de lar. Logo eu, que sempre fui a boazinha, acalmando ânimos, aparando arestas... Cansei!
Saí do apartamento, deixei livre meu marido, pedi aos filhos que tomassem seu rumo.Queria viver a minha história, não mais a deles.
Comprei um chalé na serra e nunca senti vontade de enviar endereço a ninguém. Risquei da agenda todos os contatos. Rompi com o exterior, estafante em sua mesmice. Sinto o ar puro, o aroma desse verde sem fim. Explosão de plenitude.
Que satisfação cortar minha cabeleira e abolir tinturas. Dar um basta aos salões, academias, shoppings. Caminhar sem preocupações, exercitando livremente o direito de estar em paz comigo mesma.
Como prezo a liberdade. Ler, escrever bobagens, não pensar no amanhã. Nenhuma saudade do passado. Não me lembro de coisas nem pessoas. Sempre tive certeza de que esse negócio de amor materno era mito, daí ter sido fácil, também, desvencilhar-me de meus filhos. Marido é como objeto, que permanece ao nosso lado enquanto tem função definida. Lamento apenas o tempo que perdi. Serei, no íntimo, uma pessoa fria, sem vínculos afetivos? Não sei, nem quero analisar o fato. Estou feliz como nunca estive em minha vida. Não é a felicidade a meta do ser humano?
Se sinto falta de amor? O amor está no ar, é só questão de compreender que não é imprescindível a tão propalada simbiose.
Hum... a campainha está tocando. Que maravilha sempre saber quem é! A tal estabilidade que afaga, diferente daquela que esmaga. Hoje, celebraremos cinco anos da ruptura dos nós, que deu origem a um viver pleno de delícias.

Belvedere Bruno
Niterói-RJ- Brasil
http://www.belvederebruno.prosaeverso.net/

Belvedere Bruno nasceu em Niterói, no dia 17 de outubro. Cedo despertou para as letras, graças ao incentivo do pai, que sempre presenteou os filhos com livros. Atualmente, dedica-se às prosas, gênero onde mais se identifica. Tem várias antologias publicadas, como diVersos - Scortecci, - Com licença da palavra - Scortecci, O Conto Brasileiro hoje – participação em diversos volumes - RG Editores. Tem publicações em mídias diversas, e mesmo no exterior. Participou do livro- Cunha de Leiradella- um autor sob duas bandeiras- Editora UFPB. Vinho Branco, safra especial de contos e crônicas, seu voo solo, foi lançado em maio de 2010.
Belvedere é também roteirista, e no momento dedica-se ao projeto de seu curta-metragem. 
 

 

 

 

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