FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Benedita Silva de Azevedo

 

AEDES AEGYPTI
Por Benedita Silva de Azevedo


Faz tempo que este pequeno mosquito assombra o Rio de Janeiro e o Brasil. Em 1853, dia 6 de setembro, Irineu Evangelista de Sousa, após inaugurar o primeiro trecho da Primeira estrada de Ferro do Brasil, com seu otimismo peculiar, achava que tudo ia bem em seus empreendimentos.
No projeto da Companhia de Gás, tudo indicava um caminho certo para o sucesso, inclusive com o que julgava uma grade jogada imobiliária. Com a necessidade de instalar a usina perto do centro da cidade, para reduzir a canalização usada, por falta de terreno disponível, Irineu resolveu instalar a usina no mangue que marcava o limite do centro há séculos. Comprou ali muitas terras baratas, pensando em valorizá-las com aterros, e depois revender com lucro o que não utilizasse. Um pequeno mosquito encarregou-se de demolir seus cálculos. Quando as obras começavam aportou no Rio de Janeiro um navio de Havana com doentes a bordo. Enquanto durava a quarentena, sem que se soubesse como, uma nova doença se alastrou pelo país: a febre amarela. Só muitos anos mais tarde soube-se que a doença era transmitida pelo mosquito aedes aegypti. Não demorou muito e os operários começaram a morrer, um atrás do outro. Em menos de dois meses a equipe foi devastada. Havia onze engenheiros e técnicos ingleses nos canteiros da obra, todos em funções essenciais para a continuidade do trabalho, dez morreram de febre. O décimo primeiro apavorado queria ir embora, só após o patrão lhe oferecer um salário altíssimo, resolveu ficar. Em cartas desesperadas Irineu pedia a seus sócios novos contratados para substituírem os mortos. Como a notícia já havia ultrapassado o oceano, também esses homens lhe custaram muito caro.
Entretanto, o que lhe parecia ter sido resolvido com a chegada dos novos técnicos, durou pouco. As chuvas de verão encheram o pântano, e todo o trabalho feito desmoronou. Foi necessário recomeçar do zero, com a febre ainda dizimando os trabalhadores. O contrato assinado com o governo previa um preço fixo para o serviço de iluminação pública que não podia ser alterado, dando a Irineu poucas possibilidades de retorno do investimento no negócio. A despeito do mosquito, e também da coroa que estatizara seu banco, tirando-lhe o carro chefe de seus investimentos, a 25 de março de 1854, Irineu chamou à rua a população e mandou acender os lampiões. Pouco menos de um mês depois, dia 30 de abril de 1854, inaugurava a primeira estrada de ferro do Brasil.
Há 162 anos o mesmo mosquito continua assombrando o Brasil e a política penalizando seus verdadeiros cidadãos que trabalham e produzem.

[Fonte de consulta - Jorge Caldeira, in, Mauá, Empresário do Império, Companhia das Letras, 1ª reimpressão, p. 285 a 291, SP, 1995]

Benedita Silva de Azevedo
Praia do Anil - Magé - RJ - Brasil  

 

 

Cecília Ugalde

 

EM OFFLINE
Por Cecília Ugalde


No tempo das cartas de amor tudo era mais simples. Podia-se brigar com o namorado, terminar e reatar o namoro e até aceitar o pedido de casamento através das cartas. Elas, as cartas de amor eram o principal veículo de comunicação entre os enamorados. Muitas vezes levavam meses para chegar ao destino, mas todas, além de serem esperadas com muita ansiedade, continham o endereço do remetente e do destinatário certinhos. Não tinha como não saber quem as enviou, até porque a pessoa que mandava uma carta esperava dia após dia pela resposta.
O namorado? Todas as pessoas sabiam de quem se tratava, onde morava, de quem era filho, se trabalhava ou não e tudo o mais que era necessário para expedir um alvará de aceitação ou recusa. Além disso, tinha os simpatizantes que alcovitavam o namoro levando e trazendo recados. Também havia os que faziam intrigas, como nos contos de fadas, até conseguir separar os dois. Quem viveu a época sabe como batia o coração que recebia uma carta de amor.
Ah! Mas isso era no tempo em que as pessoas eram de verdade. E só agora compreendo a pergunta da minha filha quando falei sobre ele: Mãe, por que a senhora não arranja um namorado de carne e osso? Agora entendo o que ela queria dizer, tanto que vivo a questionar de que ele era feito. De que matéria seria feito o biótipo físico dele? Sua pele claríssima, seus cabelos ruivos, seus dentes perfeitos, seu sorriso, sua essência, sua alma...? Como gostaria de saber, mas esse pessoal que mora na internet é um verdadeiro mistério. Quando chegam, têm tanto amor pra dar que são capazes de fazer se apaixonar o mundo, e quando querem... Fazem mesmo!
Resolvi perguntar ao Doutor Google: de que ele é feito? E das dezenas de respostas que ele me apresentou, me engracei dessa: “Mugunzá é feito com variante de ingredientes, mas basicamente feijão de corda, milho para mugunzá, sangue de porco coagulado e batido, alho, cebola, gengibre, açúcar, sal, orégano e se a pessoa tem condição coloca uma linguiça, um toicinho de porco, até mocotó de porco vai bem”. Eca!
Conhecemos-nos quando ele gostou do meu perfil. Curiosa, quis saber quem era. O visitei e deixei um “olá”. No outro dia já tinha mensagem pedindo meu e-mail porque não costumava acessar o site todos os dias. Claro que dei. Então vieram as mensagens. Primeiro explicou que estava ali à procura de uma mulher que preenchesse o vazio do seu coração. Não precisava ser perfeita, nem procurava modelo. Queria uma mulher que tivesse beleza interior, que pudesse se apaixonar por ele e ele por ela. E por que não? Um homem da terra dos deuses... Minha primeira pergunta foi: Você fala minha língua? Resposta: huahuahuahua... Eu fala sim. Problema nenhum. Comecei a embarcar. Aonde ia dar essa viagem... Nem quis saber, porque o bom é viajar, não importa o destino.
Ele? Escrevia-me todos os dias. Em cada texto um poema, uma música, uma imagem, que foram enchendo meus dias e minhas noites de magia e paixão. Sempre explicava que fazia tudo aquilo porque queria me trazer para perto dele, cada dia mais. Mandou-me seu nº TIM-Brasil, assim ficava mais fácil de falar. E que voz... Meu coração vazio foi se enchendo de um sentimento antes nunca experimentado e a felicidade habitou todo meu ser.
Um dia disse que gostaria de me escrever uma carta de amor, porém não sabia como fazer isso. Três dias depois... A surpresa:
Minha carta de amor para você
Enviei meus mensageiros, mas ninguém foi capaz de expressar o quanto eu te amo, então eu escrevi uma carta de amor para você, muito antes de você nascer. Muitos tentaram impedir de chegar até você, mas o meu amor foi mais forte e embora eles tenham proibido e queimado minha carta de amor, tenho a certeza que eu mantive uma cópia para você. Especialmente para você.
Eu vou estar tão feliz quando te vê pela primeira vez, meu peito bate em antecipação e sei que seus olhos vão brilhar de alegria. Eu estou tão animado que finalmente você vai entender o quanto eu te amo...
Como o vinho, o meu amor por você vai melhorando a cada dia e eu queria que você soubesse como dói meu coração, só de pensar que você não retribui o meu amor, pois mesmo eu te amando incondicionalmente, quero que seu amor por mim cresça como o meu cresce por você. Gostaria que não jogasse no fogo ou nas águas de muitas preocupações da vida, o nosso amor. É preciso que você tenha forças para ler a totalidade do mesmo, ainda que não seja de uma só vez...
Tudo o que eu queria era que você pudesse ler um versículo todos os dias. Como eu queria que você colocasse essa carta de amor sob seu travesseiro, para lê-la através das vigílias da noite. Como eu queria que você levasse na sua bolsa, para ler durante a sua pausa para o café, ou quando você tivesse que ficar em uma fila.
Eu invejo a maneira como você ama seu telefone celular, está sempre na sua mão, mesmo durante a condução você nunca desliga. Mesmo na igreja, e você tem que correr para casa para buscá-lo, se você o esqueceu. Eu invejo a maneira como você rola quando você está entediada, às vezes eu desejo que você trate a minha carta do mesmo modo.
Domingo está muito longe para eu esperar e explicar o quanto eu te amo. Além disso, você vai estar muito preocupada com a música, o sermão, os amigos... Até mesmo com o seu telefone celular.
Assim, você poderia, por favor, fazer dela sua bíblia e colocar ao seu alcance para ler a cada momento? Poderias deixar eu te mostrar o quanto eu me importo. Este é apenas um lembrete que eu escrevi na minha carta. Vieram as próprias rédeas do meu coração.
Claro! Imprimi e coloquei na minha bolsa, essa primeira de tantas outras cartas de amor que ele me escreveu.
Alguns dias depois, viajou para a terra dele. Precisava resolver umas questões da empresa em que trabalhava, mas seriam somente umas duas semanas. No caminho para o aeroporto me escreveu: Você me espera? Quando eu retornar, podemos planejar nosso encontro. Como você gostaria que fosse? O que você gosta de fazer? Gosta de dançar? Nossa! Tudo de bom.com.br.
Enviou-me fotos: da chegada ao aeroporto de sua cidade, seu filho esperando, almoço com o filho. Tudo com data e hora. Maravilhoso! E disse que só queria que eu também pudesse amar seu filho. Que pudéssemos formar uma verdadeira família e sermos muito felizes juntos. Era tudo que eu sonhava e respondia aos e-mails com todo amor e carinho que minha alma ditava.
“Meu amor, viajei a noite inteira para te trazer junto aos meus braços. Cruzei mares, montanhas, oceanos e luas cheias de amor e brilho de luar. A distância parecia cada vez mais aumentar, mas de repente seu sorriso clareou minha madrugada e ao me aproximar de ti, senti queimar de desejo meu corpo e a minha alma, quando toquei tua pele com minha mão trêmula de querer. Se isso é um sonho não quero mais acordar. Você virou meu mundo, meu Eu, meu Tudo e já não existo sem você”.
Seus amigos e colegas de trabalho o homenagearam com uma festa de despedida. Ligou-me falando sobre essa festa e perguntou se eu gostaria de ajudá-lo a se barbear. Rimos juntos. No dia seguinte, me enviou as fotos: ele e seus amigos num ambiente muito bonito e luxuoso. Estava maravilhosamente belo. Numa das fotos segurava duas taças, na que segurava com sua mão direita estava escrito: “this cup i hold here is for me and you bebe”. Também scanneou o certificado que ganhou pelos bons serviços prestados a empresa e acompanhado de tudo isso, um vídeo com a música do Edson e Hudson – FOI DEUS. Imagens de amor e paixão. Fiquei maravilhada. E alguém não ficaria?
No dia seguinte, disse que estava um pouco triste porque desde que viajou, eu não o chamava ao telefone, nem para dizer “Oi”. Senti-me ingrata. Então mandei e-mail pedindo o nº e código do país e quando ele me mandou, a primeira coisa que fiz foi ligar. Como era bom ouvir aquela voz calma, tranquila e doce... Estava um tanto atarefado arrumando equipamentos do escritório que deveria trazer, mas a notícia boa era que quando chegasse teria uma semana para descansar, antes de abrir de fato o escritório da empresa no Brasil. E que nesta semana gostaria de aproveitar para nos conhecermos. Como eu via isso? Eu ia ou ele vinha? Acabamos por combinar que ele vinha a minha cidade. Ele preferiu assim.
Ficou combinado que ele compraria o bilhete e depois me enviaria por e-mail para que eu soubesse a data de sua chegada e reservasse o hotel. Propus-me a ir buscá-lo no aeroporto. Era o mínimo que eu podia fazer por alguém que vinha de tão longe para me ver.
Transformei-me na pessoa felicidade. Fui ao shopping, comprei vestidos e lingeries pretas, brancas e rendadas. Revisei os calçados e a maquiagem. Fui à manicure e pintei as unhas de azul. Planejei nosso encontro: a apresentação dele à minha família e o jantar a dois. Os lugares que o levaria para conhecer um pouco da minha cidade, depois minhas viagens para ir ao seu encontro quando não pudesse vir.
Mas antes de vir ele precisava ir a Suécia, resolver uns negócios. Quando voltasse me chamava ao telefone. Passou um dia e uma noite sem dar notícias. Então fiquei triste. Toda hora olhando o e-mail... O telefone que não tocava... Na Suécia não tem internet? Era uma da manhã quando me ligou e perguntou como eu estava. Desculpou-se por não ter tido tempo para me enviar um e-mail ou telefonar. Perdoei na hora. Então ele quis saber se estava tudo certo com relação à reserva de hotel e a espera no aeroporto. Claro que estava.
Precisava que eu recebesse, ou melhor: fosse pegar no aeroporto e guardasse em minha casa uns equipamentos do seu escritório, porque ...
Então lhe dei meu endereço e nome completo para que ele pudesse me enviar. Quando chegasse a companhia aérea me ligaria. Três dias depois eu guardava em minha casa cinco pesados volumes, todos muito bem embalados. Logo ele me ligou para confirmar se as encomendas tinham chegado e agradecer. Mas estava triste porque devido a um problema com sua passagem, seu voo de retorno ao Brasil havia sido cancelado e só tinha conseguido remarcar para dois dias depois. Mas que eu não ficasse preocupada, pois um dos gerentes da empresa já estava no Brasil e vinha pegar comigo as encomendas, já que ele só deveria chegar a minha cidade, sexta-feira. Ainda era terça.
Quarta-feira à noite, um carro parou em minha casa e um sujeito muito distinto e elegante apresentou documentos e levou tudo direitinho. Todos os três volumes que eu tinha ido pegar no aeroporto e guardado em minha casa. Disse que eu não precisava mais me incomodar de reservar hotel, nem de ir ao aeroporto, porque ele já tinha providenciado tudo. Sexta feira eu teria a melhor surpresa da minha vida. Fiquei feliz, pois teria mais tempo de me arrumar. Meu amor me ligou. Agradeceu dizendo que eu era um anjo que Deus tinha colocado em sua vida, que não havia mais nenhuma dúvida: tinha certeza que havia encontrado a pessoa certa. Beijos, meu amor. Sonhe comigo. Eu? Já sonhava: acordada, dormindo, de dia, à noite, no espaço entre o dia e a noite e em todas as horas do meu viver.
De quinta para sexta nem consegui dormir. Além disso, no trabalho nada rendeu, mas eu não estava nem um pouco preocupada. A única coisa que eu queria era que chagasse a noite, pois sabendo que eu trabalhava o dia todo, certamente ele só iria me procurar a noite.
E ela chegou: uma, duas, três... Dez noites. Quem não chegou mais foram os e-mails, e as minhas ligações não tinham mais quem atendesse.
Seria ele forjado com aqueles ingredientes? E você que me lê, de que você acha que ele era feito?

Cecília Ugalde
Rio Branco - Acre - Brasil

Maria Cecília Pereira Ugalde, nasceu em 10 de outubro de 1958, filha de Francisco Vitoriano Pereira e Maria das Mercês Pereira. É Graduada em Letras Português pela Universidade Federal do Acre e Especialista em Gestão de Políticas Públicas, pela Universidade Federal de Ouro Preto, MG. É servidora pública federal, lotada na Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas do Instituto Federal do Acre.
Membro efetivo da Academia dos Poetas Acreanos, desde 2010, ocupando a cadeira de nº 22, tem poema selecionado no Concurso Nacional Novos Poetas 2015, publicado pela Editora Vivara; é co-autora da Obra Nova Literatura Acreana V. II, publicada pela Fundação Garibaldi Brasil no ano de 2012; co-autora da Obra Nova Literatura Acreana, publicada pela Fundação Garibaldi Brasil no ano de 2008; tem participação na Obra As Vozes Femininas da Floresta, organizado pela Dra. Margarete Edul Prado de Souza Lopes no ano de 2008; revisão em língua portuguesa da Obra Caminho da escola Huni Kui, organizado por Ocimar Leitão Mendes e publicado pela Secretaria de Estado de Educação do Acre no ano de 2010; premiação e classificação, respectivamente, no 2º Prêmio Garibaldi Brasil de Literatura Acreana no ano de 2009, nas categorias Conto e Poema; e, poema publicado no jornal eletrônico Acreaovivo.com. 

 

 

 

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