FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Danielle da Silva Andrade Alves

 

COMO DOMAR O SEU DESEJO
Por Danielle da Silva Andrade Alves


Se existe sentimento mais egoísta e torpe que o desejo, desconheço. O desejo te leva a lugares antes nunca visitados, perpassa uma espécie de loucura ciente e consciente. Te tira do chão. Tira o seu corpo do chão, faz o coração virar uma escola de samba em plena avenida e em frente aos avaliadores. O desejo, caro amigo, não sai na ala das baianas, sai nos carros alegóricos e é destaque. Eita sentimentozinho que não se contenta com pouco. Ele quer ser tudo, ele quer aparecer. Por mais que o sujeito, portador de tão cruel sentido, queira guardá-lo para si, escondê-lo ou represá-lo dentro do corpo, o desejo faz do seu estômago um recipiente cheio de borboletas, não aquelas borboletas lindas que enfeitam tantos jardins, mas um panapaná terrível de borboletas assassinas que querem sair por sua boca, por seus olhos, por seus ouvidos. E se não encontra orifícios para sair, causa náuseas. Ahhh... o desejo. Sentimento covarde. Covarde porque luta com armas que sabe serem mais potentes que as armas de defesa. Usa, abusa, maltrata, escarnece de nós, faz-nos rastejar e procurar forças em vias desconhecidas. Acaba com as esperanças que tivemos um dia de termos o controle de nós mesmos. Sentimento rude. Sentimento desgraçado e sujo. E quando você está com os chicotes do martírio em mãos, quando pensa que tudo está chegando ao fim, e que a solução é ceder, quando você já está com sua única vidinha resumida a nada e, parece-lhe que não vai conseguir reprimi-lo, ele se vai como se nada tivesse acontecido, deixando para traz um rastro de dúvida, se tudo aquilo se passou mesmo, se você teve uma alucinação febril, ou participou, ainda que sem querer, de algum ritual maligno. Mas, o que seria de nós se não fosse esse infeliz sentimento? Somos, afinal, seres desejantes! Se pensou, amigo, que teria aqui algum método cientifico provando por A+B como domar o desejo, acredite, ainda busco para essa questão uma resolução!

Danielle da Silva Andrade Alves
Nossa Senhora da Glória - SE - Brasil

Nasceu em 03 de junho de 1988. Formou-se em Letras Português em meados de 2013 pela Universidade Federal de Sergipe (Campus Professor Alberto de Carvalho) onde participou de projetos como PIBID, PIC-VOL, Bolsa Trabalho.
Desde julho de 2012 leciona no CFP-SENAC Itabaiana, vinculo no qual permanece até hoje.
  

 

 

Dimythryus Padilha

 

A PRIMEIRA AULA
Dimythryus Padilha


Aproximadamente seis e meia do dia 3 de fevereiro de 1986, as ruas fantasiadas de pequenos enfermeiros recém chegados da pré-escola, afinal naquele tempo crianças como eu usavam aventais, semelhantes aos dos professores e que enchiam meus olhos de um estranho encantamento. Ao aproximar-me na companhia de minha irmã mais velha, do portão de acesso da escola, que durante muito tempo me acompanharia até a conclusão de meus estudos básicos, avistei algumas crianças extremamente chorosas, agarradas entre as pernas de suas mães como a indagar que não fossem. Talvez esta tenha sido a primeira vez que senti um forte vácuo no estômago, com isso desatei a chorar também, no embalo das outras crianças, mas diante da beleza de minha primeira professora “Marta”, acalmei meu ainda puro coraçãozinho. A sala de aula era grande, com aproximadamente 45 pequenos alunos, as carteiras eram verdes combinando com suas cadeiras, naquela época as cadeiras se distinguiam das carteiras. Junto a mesa da professora ainda havia um armário da mesma cor das carteiras sem qualquer fissura, desprovido de qualquer tipo de cadeado, nós ainda não conhecíamos o vandalismo que futuramente iria fazer parte do cenário cotidiano da escola moderna. Recordo-me ainda com muita volúpia na memória de minha primeira inesquecível gafe, não havia feito o prézinho {sic} que iniciava as crianças no dia a dia das salas de aula; tenho poucas recordações do jardim, ainda nos tempos em que vivíamos em Marília, lembro-me quase vagamente de algumas crianças hoje sem nomes, bem como as professoras. Às vezes nem acredito que eu tenha sido tão puro e ingênuo, mais confesso que estas reminiscências causam-me uma aconchegante emoção.
Como sempre eu encabeçava os primeiros lugares das listas de chamada, que entretanto neste momento eu desconhecia por completo. Além do mais eu não era o que se podia chamar de exímio em atenção... Contida a euforia dos petizes, seguia a professora com sua lista de chamada; enquanto eu, traquinas, fazia alguma graça no fundo da sala. De repente: Darlan Alberto... (?) desconcertado, levantei-me em direção à mesa de minha professora, cheio de uma incrível e inacreditável inocência, aproximando-me timidamente, pergunto quase sem voz:
“O quê professora?”
“Nada, é só para você responder presente!” E neste instante desatou um sincrônico e assustador coro de risos, que naquele momento, parecia ultrapassar os altos muros da escola. Vermelho e quase imóvel, desapareci no largo caminho até minha carteira.

In: "Reminiscências" -
http://www.carmovasconcelos-fenix.org/Escritores/Dimythryus/Dimythryus.htm

Dimythryus Padilha
São Paulo - Brasil  

 

 

 

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