FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Dulce Rodrigues

 

UMA ENGUIA NO AQUÁRIO
(Conto Infanto-Juvenil)
Por Dulce Rodrigues


Esta é mais uma estória verdadeira dos meus tempos de menina e moça e de um estranho animal de estimação que tive: uma enguia! Leram bem, tratava-se de uma enguia. Como talvez saibam, o ensopado de enguias é uma especialidade culinária muito apreciada em Portugal. Acontece que os meus pais sempre foram doidos por este petisco e, assim, um dia, a minha mãe e uma das suas amigas foram ao mercado e compraram enguias.
A minha amiga Graciete e eu tínhamos acompanhado as nossas mães e reparámos que das enguias compradas duas ainda estavam vivas. Chegadas a casa, apressámo-nos, pois, a ver o que era feito das duas bichezas. Elas continuavam vivas!
Pedimos então para ficarmos com elas, e cada uma das nossas caras enguias tomou lugar num aquário, esses pequenos aquários redondos usados muitas vezes para peixes encarnados. As enguias afinal também são peixes, não nos podemos esquecer disso.
Apesar de tudo, mesmo tratando-se de uma só enguia, não é coisa muito fácil de ter num aquário pequeno – o tamanho da nossa amiga enguia em breve tinha ultrapassado o de um peixinho encarnado!
Mudei-a então para um grande recipiente de vidro, que a minha mãe tinha entretanto comprado para o efeito, e a minha amiga seguiu em breve o meu exemplo. Dávamos-lhe comida para peixes, e as duas enguias estavam cada vez maiores, e bonitas que era um regalo!
Mas, o mais surpreendente de tudo, era a maneira como a minha amiga enguia reagia quando ouvia a minha voz. É difícil de imaginar que um peixe - seja ele uma enguia ou outro peixe qualquer próprio para aquário - possa reconhecer uma voz familiar e tirar a cabeça de fora de água como se nos quisesse cumprimentar.
Pois bem, era exactamente o que fazia essa malandra de enguia que eu tinha adoptado! Mal eu chegava a casa e falava, eis que ela andava à roda dentro do aquário, com a cabeça fora da água, até que eu a viesse saudar. Ela não tinha este comportamento com mais ninguém. Era como se soubesse que eu lhe tinha salvo a vida!
Um dia, a minha amiga teve de se ausentar durante algum tempo, e pediu-me para me ocupar da sua enguia, que imediatamente tomou lugar no aquário, ao lado da minha.
Contudo, a recém-chegada não foi bem recebida! A minha amiga enguia, como uma filha única e mimada, teve ciúmes desta invasão de domicílio e quis mostrar quem era a dona da casa, mordendo a intrusa.
A pobre bicheza conservou para o resto da vida a marca desta mordidela, mas para grande felicidade de todos, elas acabaram mesmo assim por se entender e viver as duas em paz. O que foi óptimo, visto que a minha amiga já não podia tomar conta da sua enguia e tinha-ma deixado.
Os anos passaram e as duas enguias tinham-se tornado enormes, o que provocava alguns problemas quando da mudança de água do aquário – o corpo alongado e escorregadio impedia-me de lhes pegar com a rede, como teria feito se se tratasse de um peixinho.
Mudava, pois, a água com elas lá dentro. Fazia com muito cuidado esta operação delicada, mas um dia, uma das enguias escapou-se para os esgotos.
Ao ver a minha tristeza, o meu pai tentou consolar-me dizendo-me que era a melhor coisa que lhe poderia ter sucedido, pois assim ela iria dar ao rio, que era o seu meio natural. O meu pai tinha razão, e compreendi que devia igualmente dar a liberdade à outra.
E assim o fiz. Alguns dias depois, lancei-a ao rio que corria a alguns quilómetros da nossa casa.
Mas recordar-me-ei sempre com ternura das minhas belas enguias! E espero que tu te recordarás também desta estória.

In: "CONTOS E TEATRO" - http://www.carmovasconcelos-fenix.org/Escritores/Dulce-Rodrigues/Dulce_Rodrigues-1.htm

Dulce Rodrigues
Lisboa - Portugal

Autora premiada no 2013 Hollywood Book Festival nos Estados Unidos e em concursos literários na Europa, incluindo o 2013 London Book Festival, Dulce Rodrigues é uma escritora portuguesa que vive um pouco por toda a Europa. Gosta de jardinagem, fotografia, arte, música, animais e livros – tanto os dos outros como os que ela própria escreve, especialmente os que escreve para crianças e jovens… de todas as idades. É uma apaixonada por História e por viagens. Dulce Rodrigues foi distinguida com duas bolsas de estudo e nove prémios literários, e algumas das suas peças foram representadas no estrangeiro.

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Ed Mulato

 

SEIOS DE MAR
Por Ed Mulato


Dizem, os índios, que entre suas tradições, uma lenda se destaca: é aquela que conta que, um dia, há muitos séculos atrás, no tempo que se perde nas brumas do passado, seus mais velhos, como de costume, estavam nos montes, admirando o sol se pôr do outro lado do oceano.
Porém, no meio de tanta beleza, ouviu-se, repentinamente, um estrondo. Ou melhor: um som tão inusitado quanto um tiro; um baque surdo que surgiu repentino; também repentino, desfez-se no ar.
Foi quando, na praia, apareceu aquela mulher desesperada, que se levantou e começou a correr em direção à aldeia, quase com a velocidade do vento. Ali, não parou. Continuou correndo como que às cegas, cada vez mais rápido, até que se desfez no vento, desmanchada no ar.
Olhos tremendamente arregalados, esbugalhados, queixos totalmente caídos, caras empalidecidas, corações disparados, os índios, transidos e assustados, voltaram a olhar para a praia, onde tudo havia começado, posto que era ali que o inusitado havia ocorrido.
Então, viram que o mar, lentamente, como não é de seu costume, como que reverenciava um buraco que havia aparecido na praia, com o formato de um sino. Ou melhor: de um seio. Por isto, deram àquele buraco o nome de Guanabara.
Guanabara: o seio do mar.
É lenda. Mas a baía de Guanabara ainda está lá.
- Portanto, é apenas lenda? Será?
- Éeeeh; talvez, valha pena investigar.
- Começando por onde?
- É claro: pelo outro lado do mar.
Lá, os griots sacerdotes costumam contar que filha de Olokun, o senhor do mar, na véspera de seu casamento, pediu ao futuro marido que jurasse nunca sequer tocar na diferença de tamanho que havia entre seus seios: ela tinha medo de sua reação, caso ele falasse no assunto, porque se sentiria enraivecida, posto que se envergonhava do fato.
Ele, apaixonado, jurou. Mas, ela não lhe pediu que fizesse outra jura: a de que deixaria o vinho de palma, no qual ele costumava, destemida, diária e rotineiramente, mergulhar.
Assim foi; casaram-se. Mas ele, dependente do álcool, todos os dias chegava em casa embebedado, o cheiro do vinho impregnando tudo por onde passava.
De início, ela lhe acolhia com algum carinho, e lhe trazia água, e lhe punha na cama, e lhe pedia, com todo cuidado, que parasse com a bebida, que aquilo lhe fazia mal, que ele, assim, estava acabando com a própria vida.
Ele, entorpecido, dormia. Depois, acordava meio que arrependido pela noite passada, jurando que aquilo nunca mais aconteceria.
De fato, cumpria a promessa. Durante o dia. À noite, outras garrafas de vinho; e tudo voltava a ser repetido.
Voltava a ser repetido, não: a paciência da moça ia acabando; e o carinho, os conselhos, a água, foram se transformando, primeiro, em incômodo e impaciência; depois, desesperança; depois, em ódio, que começava logo que se aproximava o horário em que ele, constantemente bêbado, costumava chegar em casa.
Começaram as brigas. Primeiro, rápidas. Depois, mais agressivas. As vozes, paulatina e imperceptivelmente, se ergueram. As brigas, às vezes, atravessavam a noite, e não era mais juntos que eles dormiam.
Ele parecia que preferia largar dela do que da bebida.
Até que um dia ele, já que o que a promessa põe o álcool depõe, lhe disse, no calor de incontrolável discussão:
- Você deveria é dar graças por ter-se casado com um homem como eu! Quem mais teria se casado com uma aleijada, que tem um seio maior que o outro?! Eu bebo por causa disto! Casei contigo por pena; mas tenho é muita vergonha de você!
Ela, ouvindo aquilo, sentiu a voz enrolar-se em sua garganta; o nó que assim se formou parecia que lhe oprimia o peito, forçando o tum-tum – tum-tum do desesperado coração.
Foi então que, tomada pela bonança que vem depois da tempestade, ou dominada pela calma que acoberta o pico intransponível do ódio, começou a juntar suas coisas, totalmente decidida a voltar para a casa de seu pai.
Ele, tão raivoso e descontrolado quanto o excesso de álcool pode colocar naqueles que domina, apenas gritou:
- Onde a senhora pensa que vai?!
Ela, aparentando toda a calma do mundo:
- Voltar para a casa de meu pai!
- Alguém deixou a senhora sair? – perguntou ele, com o vermelho do sangue, bombado pelo ódio, já se sobrepondo ao vermelho que o álcool havia deixado em seus olhos.
Foi com violência que arrancou, das mãos dela, o que ela ainda estava colocando em seus guardados. Estava tentando agarrá-la pelos cabelos quando ela escapou, e fugiu. Ele, gritando agressões que não podem ser repetidas aqui, foi atrás.
Ela, quase em desespero, correu em direção ao mar, buscando a casa de seu pai.
Este, ao ver a filha em tamanho desespero, até por conhecer a violência que caracterizava o genro quando bêbado, gritou:
- Continue correndo, minha filha: entre no mar; comece a nadar. Eu paro este bêbado por aqui! Nem que seja à força!
Ela, em desespero, atirou-se às ondas. Começou a nadar o mais rápido que conseguia, distanciando-se da praia, mais e mais para o meio do mar.
Em sua cabeça somente passava o desejo de ir mais longe, mais longe, mais longe, de forma que a velocidade de seu nado aumentava, aumentava, aumentava, cada vez mais.
Foi com o pensamento travado no desejo de distanciar-se, que ela nem percebeu que se aproximava tanto da terra: por isto, chocou-se violentamente na areia, abrindo um buraco na praia.
Talvez tenha sido isto o que os velhos índios viram; e que todos pensam que não passa de lenda.
Talvez tudo não passe, mesmo, de lendas; do lado de cá, do lado de lá.
Será? Será a baía de Guanabara a marca do seio de Iemanjá, chegando da praia e tornada a rainha do mar? Será?
Odô, yá!

Ed Mulato
Sorocaba - SP - Brasil  

 

 

 

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