FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Gerci Oliveira Godoy

 

A FORÇA DO DESEJO
Por Gerci Oliveira Godoy


Os dias passavam sem que nada naquela fortaleza mudasse. Apenas o tempo, ora estava quente, ora frio, ora chovia noutras fazia sol. Mas para Aline a tristeza era sempre a mesma, feia e quadrada como as muralhavas que circundavam aquela morada e a sua pobre rica vida. Havia ali, um séquito para servi-la mas seu belo olhar azul era ermo como aquele lugar. Quando a noite chegava ela se despia e antes de colocar a camisola mirava os alvos braços, os seios brancos e túrgidos e suspirava, suspirava. Sabia que era bela, e isto a entristecia ainda mais pois toda aquela beleza de nada lhe valia.
Aline não sabia que em noites de lua cheia, de volta de seu trabalho no campo, um valente pastoreador por ali passava e na claridade da noite no esplendor da lua, aquela torre parecia ainda mais feia. Talvez por isto ninguém se atrevera a mais perto chegar. Mas Cicero, o pastoreador ardia de desejo de conhecer aquele lugar, queria saber se era verdade ou lenda o que as gentes falavam.
A bela Aline definhava de solidão. Enquanto Cícero, o zagal a cada vez que passava sentia mais forte o desejo de penetrar o segredo, que diziam, estava escondido naquela torre. Seria verdade que ali morava uma bela virgem de belos seios por afagar?
Nada sabiam os dois, da vida um do outro no entanto ambos suspiravam por um amor.
Aline, a cada hora enfraquecia, já dos suspiros pouco se ouvia. No moço terno, que pastoreava, a agonia só aumentava.
E numa noite, sob o sereno da madrugada, Cícero, munido apenas de um cajado e da força
que o impelia para a torre feia, quadrangular, subiu a escarpa que ali havia para de perto melhor olhar, e viu então, atrás dos muros um pátio ermo. Parecia que aquela torre ninguém guardava.
- Guardava o que? Pensava o moço terno e valente. E eis que na pressa ao se afastar perdeu o manto que lhe cobria.
E mais um dia e mais suspiros dos peitos alvos. E mais anseio e mais vontade, tinha Cícero de ali voltar.
Quando a lua iluminou a torre, Cícero lá se encontrou. Galgou os muros e viu então uma fraca luz na única janela que ali havia.,e lá do alto pendia um pano que o vento balançava.
- Seria o que? Talvez apenas uma cortina rasgada, pensava Cícero. E escalou as pedras da torre até chegar ao pano que pendia. Ah! Era seu manto, agora via. Mas quem o colocara lá?
Mais branca ainda, naquele instante Aline ouviu uma voz que lhe dizia: - Levanta Aline, que a vida vale por um segundo de liberdade.
O moço agarrou-se ao manto, depois abriu com uma força, até então desconhecida as grades da clausura, tomou Aline em seus braços e os dois enamorados viram, no alto sentada sob a lua, uma fada que lhes apontava o caminho.
Aline agora desfalecia de puro amor. Preso ao manto, com a amada nos braços, Cícero desceu, e andaram por uma estrada iluminada por minúsculas lanternas de pirilampos até perderem de vista a velha torre quadrangular.

Gerci Oliveira Godoy
Porto Alegre - RS - Brasil  

 

 

Gleice Benedito Henrique

 

NEGRO
Por Gleice Benedito Henrique


Eu olhava-o, admirada com sua beleza, aquela cor que se destacava, aquele gingado que me hipnotizava. Nos amávamos, nos desejávamos, mas estamos sujeitos a separação, a sociedade nos recrimina, eu sou a branca e ele minha melanina. Todas as noites, é nos seus braços que me acalento, jogados nas palhas sujas do estábulo da Casa Grande. Quero fugir, quero me libertar, quero a alforria para nosso amor.
Volto a observá-lo, largando meus pensamentos de lado. Não consigo suportar, a vida foi injusta, pregou-nos uma peça. Eu sabia que ela não era flor e sim perversa.
Ouça, meus queridos, as lamentações de uma donzela apaixonada. Estava eu e meu amado, aos sussurros e aos abraços, quando suas mãos me arrancaram de seus braços. Lá encontrava-se ela, aquela negra moleca, toda risonha e sapeca. Seu riso escandaloso, acordou toda casa, e aos berros, meu senhor e minha mãe saíram para a sacada. Todos estavam lá, escravos, o capataz, mãe, a moleca e o papai, eu não sabia como reagir, nesse momento o chicote estalou-se sobre a roupa, e com um gemido agudo respondeu meu amado. Quanta dor e sofrimento, eu gritava, sendo arrastada, a moleca ria-se toda desengonçada, e meu amado, ah! Meu amado. Para o tronco era levado.
As doze baladas do relógio da catedral, a senzala estava alvoroçada, o capataz, com aquele sorriso que brilhava, e eu, sabe aonde estava? Sentada em frente a meu amado, obrigada a assistir o quanto o surravam. Meu senhor e minha mãe, me obrigaram a tal sofrimento, e com a última badala veio o lamento, senzala quieta, capataz sorridente, negra moleca era a única que ria da gente. Com um movimento, iniciou o martírio, capataz o xingava de negrinho maldito. Meu Deus, quanta tristeza e humilhação, não podia ficar ali assistindo aquela banalização, e antes que meu pai me segurasse, eu já estava correndo, e junto do meu amado, me joguei, no instante momento o terceiro açoite levei.

“Pai, afaste dele toda essa dor
Pai, que não sofras o meu amor
Pai, quero que caia sobre mim este cálice de dor
Pai, eu quero sofrer pelo meu amor. ”

Urrei, depois de minhas preces ao Pai, e esperando pelo quarto açoite, eu gritava por mais. Senti algo úmido e quente, e assim que olhei, era o sangue daquele pobre inocente. Jurei a Deus naquele momento, eu um dia hei de livrar todos desse lamento, e a liberdade em alforria cantará para todos os inocentes que dela precisa.
Meu pai me puxou, e eu gritei para meu amor: “Hoje você apanha por amar simplesmente, mas amanhã serei eu, que apanharei em seu lugar, pois a liberdade do seu povo, eu irei cantar”. Senzala, antes silenciosa, agora rugia em aplausos e gloriosa, e eu, agora estou aqui na janela, depois de ter sido trancada e ver daqui meu amado, apanhar como um condenado, termino minhas lamentações, e agora redijo para vocês, o que enviarei aos chefões:

“LIBERDADE AOS ESCRAVOS, NEGROS, BRANCOS OU MULATOS!
HOJE QUEM VOS ESCREVE, É UMA JOVEM APAIXONADA, QUE SOFRE COM AS INJURIAS DE UMAS SOCIEDADE QUE AMARGA. NÃO PEÇO, MAS VOS ORDENO, QUE AMANHÃ ESSA CARTA SEJA PROPAGADA AOS QUATRO VENTOS, LIBERDADE E RESPEITO AOS NEGROS, E ABDICAÇÃO DO PODER FERRENHO. E AOS QUE MUITOS PERGUNTAM, QUEM ORDENASTE ESSA LOUCURA, DIGA-LHES, ONTEM EU ERA UMA PRINCESA E HOJE UMA CAMPONESA.
ENCERRO AQUI A MINHA CARTA, E ASSINO COM MINHA DEIXA.
ANTES, PRINCESA ISABEL, MAS AGORA ISABELA, VOSSA EX ALTEZA!”

Gleice Benedito Henrique
Itaperuna-RJ - Brasil

Gleice Benedito Henrique, nascida na cidade de Itaperuna no Estado do Rio de Janeiro, no dia 06 de Fevereiro de 1991. Graduanda da Universidade Federal Fluminense, cursa Letras/Literatura, estando no 7º período. Professora de Produção Textual, trabalha no projeto Mais Educação do Governo do Estado do Rio de Janeiro.  

 

 

 

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