FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Humberto Pinho da Silva

 

SER DO “CONTRA”
Por Humberto Pinho da Silva


Ouvi ou li, não me recordo onde, nem quando, que Aquilino Ribeiro, certa vez asseverou: que era “ Contra tudo e contra todos”.
Desconheço se o foi; mas há episódios, na sua vida, que levam a crer que sim.
Todavia, sabemos, que nada: seja doutrina política ou filosófica; seja Arte ou Literatura, consegue reunir audiência “respeitável”, se não for: “contra”, anti, “ contra tudo, contra todos”.
Por regra, o intelectual é do “ contra”; não que haja, muitas vezes, motivos para o ser, mas porque conhece: ser do “contra”, aumenta a venda de livros, e é eficaz para arrebanhar “fans”.
Também é do “ contra” o operário oportunista; desse modo, sem esforço, em regra, alça-se na hierarquia sindical ou na hierarquia da empresa. Certo, que esta, apressasse a entregar-lhe o cargo pretendido, para emudecê-lo.
Mas ser do “contra” não basta para ter sucesso na vida: é preciso dar nas vistas; pôr-se em bicos de pés, como vulgarmente se diz, e principalmente: bradar.
Bradar, fazer barulho, é imprescindível, para ser famoso.
Com brados, os judeus, conseguiram que o procurador romano condenasse O inocente, sabendo que O era; e, bradando, xingando, berrando, a ala esquerdista e direitista do parlamento, consegue fazer-se ouvir e ganhar simpatia.
O humilde, o respeitador, o honesto, que pesa seus atos, pela razão e pela Moral, dificilmente vai longe…Porque os que labutam nas trevas são mais unidos, mais camaradas…Já Cristo o dizia.
A conversa conciliadora. A cavaqueira delicada, que fazia a delicia de muitos, quase desapareceu da nossa coletividade. Agora, discute-se… Ser do “contra”, discutir, ser polemista, dá prestigio e até: “ inteligência”.
O povo, que não consegue raciocinar - grande manada acéfala, que em democracia ordena, - acredita sempre no que ouve: aos gritos, aos berros, aos brados…; e reconhece sempre autoridade e sapiência, à voz atrevida, que se eleva.
Mas ser do “contra”, discutir, bradar, ainda não é suficiente para o medíocre alcançar o desejado Olimpo.
É - lhe necessário: o escândalo.
A mass-media – que devia viver de notícias e opiniões, – só aumenta a audiência, com o escândalo.
O ambicioso, o falho de talento, precisa, é-lhe imprescindível, recorrer ao escândalo, para ser conhecido.
Escandaliza: no modo de trajar, com gestos e atitudes, fora do vulgar, desnudando-se, e exprimindo conceitos chocantes…que chocam cada vez menos.
Já poucos se escandalizam, seja com o que for: se o artista plástico apresenta “bezerro”, a crítica - para não parecer ignorante, - admira, e o público, repete, para dar ar de entendido. - Diz Unamuno, em: “Solilóquios y Conversaciones”, que: “ A crítica, costuma ser, de ordinário, o comentário da moda”… e raros são os que não querem estar com a moda…
Em matéria Moral e bons costumes, poucos se aventuram a comentar; receiam cair no ridículo; receosos de serem taxados de retrógrados; de velhos caducos… de ignorantes…
Ser do “contra”, bradar, e escandalizar, é o meio seguro do “Zé-ninguém” parecer ser “alguém”; ter acesso aos meios de comunicação e tornar-se conhecido nas Artes, e quantas vezes, até, na ciência! …

Humberto Pinho da Silva
Porto - Portugal
http://solpaz.blogs.sapo.pt  

 

 

Ilário Iéteka

 

EM BUSCA DE UM TESOURO
Por Ilário Iéteka


Em um pequeno vilarejo chamado Campo do Tenente, no estado do Paraná. Morava seu José, dona Eva e sua filha Dirce. Os três sonhavam com a riqueza, procurando ouro enterrado. Eles pesquisavam muitos lugares como taperas, casarões antigos, aonde existissem comentários sobre ouro, lá estavam os três.
José era um homem corajoso, não tinha medo, destemido, as mulheres diziam-se corajosas mas era bater o pé, que saiam em desabalada carreira. O moço parecia um tatu, fazia buracos em qualquer lugar, bastava dizer que embaixo daquele pinheiro o povo suspeitava haver dinheiro enterrado. Lá iam os três de cortadeira e machado nas mãos, tentando achar o tesouro de seus sonhos, porque histórias sempre surgiam entre os moradores mais velhos do lugar. Falavam que os padres Jesuítas, os fazendeiros ricos, escondiam seus tesouros, ouro, prata e jóias, em potes ou panelas de ferros. Para que eles não perdessem os pertences, demarcavam com uma árvore ou fincavam um cepo de madeira resistente como a imbuia que era mais durável. Com o tempo esqueciam os lugares ou muitos deles morriam sem revelar para os parentes onde estava sua fortuna, o segredo ia para a tumba com eles.
Os boatos estavam em todos os lugares, José tinha a esperança de encontrar um desses potes. Num dia chuvoso, à tarde, ele saiu para reunir o gado leiteiro. Na volta passou com as vacas por uma tapera, seu tamanco estava cheio de barro, tinha dificuldades para andar. Ele notou um belo cepo entre duas árvores frutíferas, pensando que ali limparia seus calçados. As vacas continuaram em passos lentos, abocanhando um capim ali outro acolá, ele estava sem pressa, tirou o barro, deixando o cepo coberto de lama. Pensando que aquilo era um pilar da antiga residência, que não existia mais no lugar, saiu com os pés mais leves. Ele continuou a gritar com as vacas até que todas entrassem em suas cocheiras.
No sítio, dois amigos o esperavam para um bate papo e para saborear um bom chimarrão que era o costume do lugar, uma das bebidas prediletas dos moradores. Uma conversa vai, conversa vem, José contou aos amigos que passou com as vacas pela tapera velha, cortando caminho e um de seus amigos o interrompeu:
_ Senhor José sabe da novidade? Nesta tapera existe ouro enterrado, dizem que quem encontrar um cepo, encontrará o ouro, é o sinal da fortuna.
José emudeceu, ficou pálido. Não via a hora de dispensar os amigos, para ir buscar a fortuna. Logo que os homens sairão, ele passou a mão na cortadeira e saiu correndo até o lugar, por incrível que pareça, o cepo sumiu, desapareceu até o barro que havia tirado dos tamancos. Começou a pensar:
_ Eu tenho certeza que é aqui entre estas duas árvores!
José começou a examinar detalhadamente o chão, não localizava nada, chegou a cavar em vários lugares, ficou decepcionado, triste, a fortuna lhe escapara por um triz, dizia:
_ Não foi desta vez...
O homem apresentava-se desanimado, cansado. Voltando para casa, ele encontrou no caminho as vizinhas, a esposa Eva e sua filha Dirce, narrou o que lhe acabara de acontecer. Elas confirmaram que os boatos existiam, diziam-lhe que o cepo muda de lugar como se fosse encantado e começaram a contar uma nova história:
_ Seu José, o senhor está sabendo que embaixo daquela ameixeira, existe um tesouro? Muitas pessoas dizem ter ouvido correntes despencando da sua copa, indo direto as raízes da árvore. Isto parece um sinal de que há algo naquele lugar.
Seu José, ficou eufórico, convidou-as para irem em busca do famoso tesouro, caso encontrassem, dividiriam em partes iguais. Disse-lhes:
_ Tem que ser esta noite! Os donos da propriedade viajaram, temos que aproveitar a oportunidade.
As mulheres acabaram concordando, sabiam que na luz do dia seriam expulsos do lugar, então teria que ser noite. José era um aventureiro, não tinha medo. Vinte e uma horas, eles saíram com as ferramentas, enxadas, machado e cortadeiras, para clarear uma lanterna de querosene daquelas antigas. Uma hora depois eles chegaram e começaram a cavar, trabalharam mais ou menos uns quarenta minutos. José estava animadíssimo, porque encontrou carvão no buraco, sabia que o tesouro estava próximo, nem percebeu que suas amigas saíram de fininho do lugar. Ao pedir para chegarem mais próximo com a lanterna, notou que as mulheres estavam a mais de cem metros, gritando apavoradas:
_ Seu José, pelo amor de Deus, saia deste lugar, agora!!
Apesar de ser corajoso, sem saber qual era o pavor das mulheres, resolveu abandonar tudo, foi correndo para ajudá-las e ao perguntar o motivo de toda aquela gritaria, diziam horrorizadas:
_ O senhor não viu um homem vestido de branco que estava do seu lado observando o seu trabalho?
José respondeu:
_ Vocês estão brincando comigo? Não havia nada no lugar além de mim.
Elas o convenceram a abandonar o serviço e que voltassem em outra oportunidade. José disse-lhes:
_ Eu não vou deixar minhas ferramentas, nem o meu tamanco, só porque vocês viram um fantasma!
Como o homem era corajoso, não se intimidou, voltou e apanhou seus pertences. Depois voltaram para casa fazendo grande comentário daquela noite assombrada. No dia seguinte, uma pessoa passou cedo pelo mesmo lugar, notou que alguém tinha cavado em baixo da ameixeira, ficou curioso e foi verificar porque alguém faria uma loucura como essa. Ao examinar, uma grande surpresa e apenas os gritos se ouviam como testemunha:
_ Um grande pote!!!
O tesouro estava a sua espera, muito ouro e muita prata. O homem passou a mão no achado e levou para casa sem contar a ninguém. Em menos de mês um dos vizinhos se mudou para a capital, sem dar alardes, ninguém mais soube do homem, sumiu do lugar. Com certeza foi o felizardo. Como dizia José depois de perder a oportunidade de ficar rico:
_ A sorte é para quem tem, não é para quem quer...

Ilário Iéteka
Curitiba - PR - Brasil

Nascido em Rio Negro no Estado do Paraná, se criou na cidade de Ponta Grossa e Tibagi. Com pouco mais de 20 anos veio procurar melhores condições de vida na capital, e com muito esforço e dedicação tem um Currículo de Gerente de vendas há mais de 30 anos, na cidade de Curitiba, no estado do Paraná.

Obras Literárias:

Iéteka, Ilário. Vitória de uma Vida Simples. Editora InVerso, Curitiba, Paraná, 2014.
Iéteka, Ilário. (Des)Encontros. Editora InVerso, Curitiba, Paraná, 2013.
Iéteka, Ilário. Um filme jamais esquecido e outras crônicas. Editora Instituto Memória, 2011.
Mais de 50 publicações na Revista Eletrônica Usina de Letras (http://w
ww.usinadeletras.com.br

 

 

 

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