FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Jandyra Adami

 

A ÚLTIMA CARTA
Por Jandyra Adami


Querido Sérgio,

Esta é a última carta que lhe escrevo e não sei se devo dizer o que até hoje guardei em segredo, no peito. Só eu sei o quanto me custou calar este amor tão grande, aquela vontade de tomá -lo nos braços e dizer que, sem seu amor, não me interessa a vida.
Quantas vezes, juntos, conversando, você, alheio ao meu sentimento, contava em palavras singelas suas novas conquistas, seus novos amores...
E eu sofria intensamente e me calava..
Seria covardia não dizer que o amava??? Não. É que eu percebia que você em mim só via a imagem da irmã, da amiga, confidente...
E para que estragar seu sentimento, deixá-lo sem jeito, por tudo que já tinha falado comigo???
E hoje, se resolvi escrever contando tudo, é porque eu sei que meu fim está próximo. Não quero levar comigo este segredo. Não acho que deva....
Quantas vezes alisei seu cabelo, enquanto você falava de outra.E quando você ia embora, eu beijava minhas mãos, para sentir seu perfume.
Minha vontade era beijar sua boca, apertá-lo em meu peito, sentir seu coração bater junto ao meu.Você nunca percebeu nada.
Foi melhor assim. Se você me amasse, estaria agora sofrendo e sozinho, pois meu tempo está se acabando.
Daqui do meu leito vejo o campo verde, algumas árvores e o céu azul...Como é bonito o tempo, a vida, o amor!!!
Quando esta carta chegar às suas mãos, eu já serei saudade. Não se esqueça de mim, da sua amiga, irmã e confidente. Eu o perdôo por nunca ter percebido o meu amor.
Do meu leito de dor, envio-lhe o mais estranho beijo que você vai ter na vida pois só o receberá após minha partida.
Vou parar porque me faltam as forças e a vista se torna escura...

Sua, eternamente sua,
Gisela
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E, em verdade, Sérgio somente recebeu a carta de Gisela após a sua morte. E, o mais estranho aconteceu, quando ele revelou, entre soluços e lágrimas:
“ - Jamais houve grandes amores e conquistas em minha vida. Faltava-me coragem para revelar o meu amor.
Por mais impossível que possa parecer, foi Gisela a mulher que mais amei...”

(Do Livro Rosas e Espinhos)

Jandyra Adami
Belo Horizonte - MG - Brasil  

 

 

Jania Souza

 

O GUARDA-ROUPA DE DONA GUIOMAR
Por Jania Souza


Encontrava-me concentrada em uma avaliação, quando minha atenção foi repentinamente perturbada pela quebra do silêncio no recinto de trabalho pelo gargalhar do colega ao lado.
Razão de tamanho estapafúrdio, Seu Joaquim, antigo cliente dos bons, pontual nas suas obrigações, beirando joviais setenta anos, era precisamente a fonte de tão animada e hilária algazarra.
Curiosa, por tamanha euforia no ambiente sóbrio de trabalho, agucei os ouvidos, fazendo valer a famigerada fama feminina. Mesmo assim, não compreendi o diálogo ao lado.
Conclui o atendimento e fui inteirar-me pessoalmente do alarido improcedente, uma vez que havia uma pacífica calmaria na clientela da unidade.
Seu Joaquim, faceiro falador comedido, reclamava com seu jeito peculiar e bonachão da exorbitância de juros pagas por causa da obstinação de Dona Guiomar, sua esposa. A citada senhora resolveu nos idos anos de implantação do Plano Real comprar um guarda-roupa na promoção. Considerou a proposta da loja maravilhosa com seu desconto à vista de dez por centos. Abriu largo sorriso. Seus olhinhos cintilaram. Era a providência respondendo suas orações aflitas. Necessitava com urgência de um guarda-roupa, o seu estava bichado. Animou-se com a oferta. Cá para nós, oferta fajuta. E visualizou a concretização do seu sonho através da substituição imediata da velha e desengonçada peça. Chegou-se junto ao esposo homem comedido e unha de fome, e soltou de supetão.
- Joaquim, pegue as jóias na caixinha de sapato lá no quarto e vá à Caixa. O dinheiro do prego vai pagar essa maravilha de guarda-roupa. – com enorme sorriso, acrescentou - Vai sair de graça!
O ponderado marido avaliou taciturno à proposta e retrucou com a sabedoria da vida reforçada na voz arrastada do potiguar da gema.
- Dona Guiomar... não vamos fazer tal estrupício. Não nos precipitemos. Esse guarda-roupa ainda agüenta uns tempos. Não há necessidade de nos endividarmos nesse momento.
Mas Dona Guiomar queria o guarda-roupa a qualquer preço e não abriu mão da sua idéia, já fazendo planos com o novo apetrecho a substituir o antigo traste velho a desarrumar e desvalorizar o precioso aconchego do seu quarto.
- Homem, deixa de conversa fiada e faça o que mando. Vai dar tudo certo e ainda vamos ganhar dinheiro com o desconto.
Narra Seu Joaquim, que vencido dirigiu-se ao Penhor da Caixa com um aperto no coração cansado. Efetuou o empréstimo para sanar o apetite de supérfluo de D. Teimosia.
Em casa, nesse dia, foi uma festa. Dona Guiomar convidou a vizinhança para ver no quarto o reluzente guarda-roupa. Parecia uma jóia de tão lustroso.
Dias passaram-se...
Anos...
O plano econômico de FHC arrochou o bolso do brasileiro.
Seu Joaquim na sua pontualidade característica comparecia todo santo mês a agência para protelar a dívida. Haja juros todos esses anos e o pior da história, o novo tornou-se velho, tendo o mesmo destino do outro. Bichou!
Foi o guarda-roupa mais caro das vidas de Seu Joaquim e de Dona Guiomar. Acabou-se! Só restou a famigerada dívida que ele não sabe como e quando saldar. Mesmo de posse da informação de que pode dar pequenos valores para reduzir o débito.
Entre tristonho e risonho, conclui:
- Já paguei muito mais do valor do guarda-roupa que bichou. Tudo porque Dona Guiomar só queria um novo.

Jania Souza
Natal - RN - Brasil
www.janiasouzaspvarncultural.blogspot.com  

 

 

 

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