FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Jorge Cortás Sader Filho

 

1974, MAIO
Por Jorge Cortás Sader Filho


Na madrugada do dia 20 de maio de 1974, uma segunda feira com noite amena, Oswaldo Rios, cognome de um estudante de psicologia da PUC, encontra-se sentado diante de um major.
— Melhor você falar onde estava, moleque.
Oswaldo, naquela época, fazia parte da turma de segurança de um jovem presidente de entidade estudantil. Sua situação era de profundo embaraço.
— Major, por favor, fale com o Cenimar. Com alguém muito importante de lá, não posso dizer mais nada.
— Acho que você não entendeu, moleque! Fala logo antes que entre no pau.
— Não posso falar. Tenho proibição de abrir a boca para qualquer um que não seja do serviço.
Levou um bruto tapa na cara. Afinal, que arrogância era esta, diante de um oficial de informações do Exército?
— Faz isto com todo mundo? Não tem medo de estar cometendo um engano sério?
— Quem é você para me dizer isso? — E deu outra tapona no rapaz diante dele, que embora não parecesse arrogante, poderia muito bem estar treinado para isto.
— Não falo mais nada. Falem com a Marinha. Oswaldo Rios. Digam que está preso pelo Exército, suspeito sei lá de quê.
— Suspeito? Olha a foto aqui. Vai dizer que este cara não é você? Eu te quebro na porrada, idiota.
Já havia visto a foto, era ele mesmo, com mais dois, roupas civis, cabelos longos, barbados sem exagero. Só não tinham tatuagem. Naquela época, os poucos tatuados eram marginais. Não havia conversa capaz de livrá-lo de uma surra. Depois, quando tudo ficasse esclarecido, ainda teria as marcas roxas pelo corpo.
— Liga para o Cenimar. Vocês vão me quebrar no pau e eu não tenho nada com esta coisa.
— Vai dizer que é do serviço?
— Liga, major, por favor, estamos no mesmo lado, mas não posso abrir a boca.
— Se estiver mentindo...
— Eu sei, vou entrar na porrada! Pode ligar.
O que ele não sabia era que a ligação já estava sendo feita. Um tenente falava com um colega seu, de patente igual, na Marinha.
— Oswaldo? Um grande e forte?
— Isso mesmo!
— Olha em baixo da axila esquerda dele. Tem a tatuagem do seu tipo sanguíneo, e mais nada. Letra pequena.
Despediram-se. O tenente entrou na sala de interrogatórios e falou no ouvido do seu superior.
— Mostre este sovaco esquerdo, moleque. E reze para eu encontrar o que pode mostrar que é quem está dizendo.
Ele obedeceu de pronto. Lá estava nítida, bem nítida a tatuagem em letras negras: O+. Era o próprio. Um primeiro-sargento do Corpo da Armada.
— Mas por que não me disse logo, sargento?
— Ordens são ordens. O senhor sabe disso muito bem!
— Está magoado?
— Não. Nem tive medo. Esta vida não permite essas coisas, meu major!
Tomaram juntos duas doses fartas de uísque. Quando o major, já bastante calmo e simpático perguntou ao seu ‘prisioneiro’:
— Ele nunca desconfiou de você? Que era um dos nossos?
— Nunca! Nem ele, nem a namoradinha dele! — E deu o mais debochado sorriso do mundo.

Jorge Cortás Sader Filho
Niteroi - Brasil
http://aduraregradojogo24x7.blogspot.pt  

 

 

Jorge Ferreira

 

O EREMITA DA FLORESTA NEGRA
Por Jorge Ferreira


Em 1938, quando se deu a anexação politica da Áustria pela Alemanha, criou-se uma crise politica de nível mundial e foi nesta época e inserido neste contexto que viveu Hans-Joachim, um adolescente ligado à Juventude Hitleriana, filho do empresário de renome Albert Von Ribbentrop, dono de uma das maiores fortunas da Alemanha. Era um jovem culto e respeitado, sendo convidado frequentemente para liderar comícios de propaganda Nazi.
Hans-Joachim, jovem milionário, tinha como hobby fotografar e colecionar máquinas fotográficas, tornando-se com essa sua paixão, um exímio fotógrafo. Possuía uma famosa coleção de fotografia, que guardava religiosamente em arquivos ou penduradas na parede de um salão da casa dos seus pais.
Entre as inúmeras fotografias que exibia, constava a coleção de fotos tiradas com uma máquina de eleição a “câmara -10- Contax l- Zeiss Ikon” em pleno movimento estudantil Nazi que ele apelidava de “ Ato contra o Espirito não Germânico” na qual fez parte ativa desde o início em 6 de Abril de 1933, culminando em 10 de Maio do mesmo ano, em Berlim na “Limpeza literária pelo fogo” onde se queimaram mais de 25.000 livros, desde o prémio Nobel, Thomas Mann, Jack London, ou a escritora surda muda Helen Keller, e claro o poeta Judeu Alemão mas convertido ao Cristianismo, que em 1820 havia escrito “ Onde se queimam livros, acaba-se por queimar pessoas”. Das diversas fotos que exibia, havia uma pela qual tinha um especial orgulho, fora tirada por ele nesse dia, e nela destacava-se Joseph Goebbels, num comício ideológico perante mais de 40.000 pessoas.
Numa constante procura por novidades, era visto frequentemente num estúdio de fotografia no centro de Berlim, onde os donos o recebiam sempre com pompa e circunstância.
Um dia, numa dessas inúmeras visitas, reparou na empregada da loja, facto que lhe chamou atenção, tanto pela simpatia como também pela sua beleza.
Se antes já era um cliente regular, de um momento para outro começou a ser assíduo e em pouco tempo, o seu esforço seria recompensado com o primeiro encontro entre ele e Anna Auerbacher.
Vários encontros se sucederam e o laço afetivo alastrou-se de tal maneira que palavras de amor eterno ecoavam todos dias entre os dois.
Hans-Joachim vivia de forma muito intensa essa paixão, manchada pela contrariedade da família que era totalmente contra o namoro. Anna Auerbacher era de ascendência Judaica, o que impossibilitava a sua aceitação, visto que os seus pais eram figuras de topo da sociedade Nazi. Ele próprio se debatia e se questionava constantemente sobre o que sentia pela Anna e a oposição às ideologias que durante tanto tempo defendera.
Os amigos, de um momento para outro desapareceram da sua vida e os convites para as festas deixaram de existir… Completamente isolado pela família e amigos, só lhe restava Anna, com quem decidira viver, mas o início da guerra e o ter sido recrutado para defender a Nação, separou-os.
Sempre que podia, voltava a casa para visitar a sua amada. Por se ter desligado da família, viu-se obrigado a mudar para um velho apartamento de uma pobre ruela de Berlim e para sobreviver, vendeu a sua coleção de máquinas fotográficas que tanto apreciava.
O tempo foi passando e um dia ao chegar a casa, foi confrontado com o maior receio da sua vida. O terror inundou-lhe o rosto ao verificar que a Gestapo (Gestapo Geheime Staatspolizei, "polícia secreta do Estado") tinha lá estado e levado Anna Auerbacher.
Completamente destroçado e sem soluções à vista, resolveu pedir ajuda aos pais que tinham grandes influências na Gestapo e nomeadamente ao nível do chefe de operações Reinhard Heydrich. Concordaram em o ajudar mas em troca tinha de garantir que jamais voltaria a ver Anna e voltaria para casa, para tomar conta das empresas de material de guerra que o pai geria. Este pedido tornou-se impensável pois a ideia de nunca mais voltar a ver Anna deixava-o destroçado e impossibilitou-o de aceitar tal ajuda.
Vendo que não tinha qualquer hipótese por parte da família, resolveu ir diretamente ao quartel da Gestapo, onde foi recebido pelo Departamento de seitas, agora dirigido por um seu ex-colega da juventude Nazi.
O resultado da reunião foi infrutífera visto que Anna, juntamente com seus pais já tinham sido enviados para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau.
A partir daquele momento, o seu objetivo centrava-se em conseguir de algum modo, a libertação da Anna, nem que para isso tivesse de ir a Auschwitz-Birkenau. Diversos contratempos surgiram, entre eles uma febre tifoide que o atirou para uma cama do hospital, onde esteve internado nos cuidados intensivos e em risco de vida, durante um mês. Após a saída do hospital, foi para casa dos seus pais onde fez a convalescença e recuperou fisicamente.
Dois meses se passaram e Hans-Joachim, já tendo recuperado por completo a sua saúde, recebe ordem do Ministério da Guerra, para se apresentar de imediato no quartel general da S.S. em Berlim.
Sem hipótese alguma de contornar a situação, é colocado na frente Oriental da Europa, (U.S.S.R.) para combater na chamada batalha contra o Bolchevismo. A tentativa de invasão Nazi a Moscovo foi considerada uma das batalhas mais sangrentas e mortíferas e em simultâneo, ponto de viragem para a retirada das tropas Alemãs (Wehrmacht) de território Soviético.
Para Hans-Joachim, também foi decisiva esta época pois durante essa retirada e numa atitude altruísta e heróica salvou dezenas de militares Alemães da morte.
Numa dada altura, quando estavam cercados e praticamente sem munições, dentro de um bunker e já sem esperança de sobrevivência, avistou um panzer “ Veiculo blindado de combate “ a uma considerada distância. Num impulso, como que uma tentativa de salvamento, Hans-Joachim saiu a correr e aos ziguezagues em direção ao veículo.
À sua volta, os silvos das balas propagavam-se no ar de uma forma aterradora e só por muita sorte saiu ileso. Ao conseguir chamar atenção do panzer, mudou de trajetória e voltou em direção ao bunker, conseguindo com isso, salvar as tropas Nazis ali encurraladas.
Quando todos estavam já a salvo, uma bala perdida acertou-lhe numa perna, deixando-o gravemente ferido e ensanguentado. Foi salvo "in extremis" por dois colegas que o socorreram e o transportaram no panzer.
Em Berlim, o seu feito foi comentado e falado com grande ênfase e admiração. Ainda no hospital, recebeu a medalha de Cruz de Ferro, atribuída a atos heróicos durante a guerra.
Quando saiu, já a guerra estava quase no final com a capitulação a ser negociada. O jovem Hans-Joachim, necessitava agora de uma bengala ou de um par muletas, para se poder deslocar.
Com os campos de concentração a serem esvaziados e encerrados, ele que sempre tinha acreditado na hipótese de encontrar a sua amada Anna, não hesitou e apanhou o comboio para Auschwitz.
Fez a viagem sempre com ar pesaroso, com a cabeça enconstada ao vidro da janela do compartimento do vagão.
Vinham-lhe à cabeça dezenas de memórias, de tempos idos e vividos com Anna, e sobretudo o último encontro em que ele mal teve tempo para se despedir. Recordava com uma aperto no coração, o adeus, as lágrimas a rolarem-lhe pela face, como que antevendo o que se passaria a seguir.
Toda a luta pelo seu grande amor, o epílogo poderia estar para breve, a fronteira da Polonia estava à vista...
Com o findar da guerra a viagem de comboio tornava-se extremamente perigosa e diversas paragens foram feitas ocasionadas por ataques dos aliados.
Um desses ataques destruiu por completo a linha, provocando uma paragem de emergência com imensa gente a ficar ferida e a terem de saírem à pressa do comboio.
Hans-Joachim, no meio da confusão e do pânico conseguiu orientar-se e com a ajuda da sua perícia militar, fugiu, mas a sua ferida ainda recente provocava-lhe grandes dores, e foi com grande espirito de sacrifício que conseguiu penetrar num campo de milho e aí se esconder.
Ao fim de algum tempo de fuga deparou-se com um rio, e sem possibilidade de o contornar, resolveu parar um pouco, descansar e verificar as condições do terreno e o grau de perigo a que estava exposto. Completamente esgotado sentou-se em cima de uma rocha e por breves momentos visualiza flashs do amor da sua vida, e esquece o perigo em que está e nem o barulho das bombas a explodir ao longe o assustam…, naquele momento, todo aquele cenário de guerra lhe era secundário.
O que lhe vinha à memória era a insipidez da sua vida, o ter acreditado numa ideologia e ter defendido uma causa, que lhe dera cabo de todos os planos de futuro. Questionava-se, como fora possível ter sido tão ingénuo, tão cego e tão insensível.
O barulho de explosões tornam-se mais intensas e temeu o perigo. Reparou então numa coluna de tanques aliados e de tropas que vinham na sua direção.
Arrastou-se para o rio e deixou-se levar pela força da água até conseguir agarrar-se a um tronco que quase o atravessava de uma margem à outra, chegar a terra firme, esgueirar-se por entre umas silvas e aí, mais seguro, tentar descortinar a sua posição.
Aparentemente estaria seguro, encharcado e exausto, deitou-se ao sol, para se secar. A noite aproxima-se e a escuridão de um final de tarde joga a seu favor, apesar do cansaço e a angustia do risco de ser apanhado ser uma constante.
Acordou de madrugada com os primeiros raios de sol. Pela frente tinha uma jornada intensa e árdua. Desalentado e sem saber que direção seguir, encontrou um trilho que resolveu abraçar. Descia o crepúsculo matinal quando escutou um barulho muito perto dele, o que o obrigou a parar e mudar repentinamente de rota. O inferno ainda não tinha acabado, à distância de uma centenas de metros, um batalhão de tropas soviéticas e de blindados que ele distingue bem,( ele combateu na frente soviética) vinham na sua direcção. A cambalear, por entre a vegetação, repara numa vala, e é para aí que se dirige, com muito cuidado para não ser visto. Ao chegar, satisfeito por se poder esconder, o seu rosto fica gélido e impávido. Uma visão horrível, uma valeta a céu aberto com dezenas de cadáveres salpicados de cal e o cheiro a petrificação era tão intenso que tornava o ar quase irrespirável. Sem outra alternativa, atirou-se para a vala e misturou-se com os cadáveres.
Nunca na sua vida tinha estado numa posição tão humilhante e tão desesperante, mas o perigo de ser apanhado por soldados soviéticos seria para ele fatal. Só lhe restava ficar ali completamente inerte no meio dos mortos. E da forma em que se colocara, sem visão periférica, só podia contar com os seus ouvidos.
A pouco e pouco o som foi-se distanciando e ao fim de algum tempo sem nada escutar, resolveu levantar-se e sair dali, imundo, com um sentimento de revolta, de raiva, de desespero.
Quase sem forças anímicas nem psíquicas, mas ainda com algum espirito de sobrevivência, a tropeçar no destino, conseguiu meter-se a caminho.
O terror de ser apanhado mantinha-lhe os sentidos em alerta máximo, pois tinha a noção de que se exercito soviético o detivesse, seria logo preso ou morto e se fosse apanhado pela população Polaca, também iria ter graves problemas.
À distância avista um velho pastor que com o seu cajado caminhava num trilho no meio de uma clareira. Ousa arriscar e tal como se encontrava, com fome e sujo, resolve aproximar-se do pastor.
Este ao vê-lo e numa atitude amigável acena retirando um bocado de pão da sua sacola. Hans aceita de imediato, e agradece, tendo-se esquecido por momentos que estava noutro país e que sua língua o poderia trair. Para sua grande surpresa o velho pastor respondeu-lhe em Alemão, o que deu início a uma conversa.
Após uns breves momentos e sabendo que não corria perigo perante a presença do pastor que era de ascendência Alemã, ficou a saber que estava relativamente perto de Auschwitz. O pastor acolheu-o no seu velho casario com um redil onde guardava as suas ovelhas. De uma forma hospitaleira, ofereceu-lhe comida e roupa lavada.
Hans-Joachim acordou de madrugada ao som do cantar do galo. Agradecido pela forma como foi recebido fica a saber que o velho pastor tinha saído da Alemanha por causa de atitudes anti semíticas, chegando a ter sido posta à prova a integridade física dos seus pais. Hans escuta histórias incríveis de sobrevivência daquele velho senhor que com lágrimas nos olhos conta como fugiu da Alemanha.
Os seus pais que eram ourives, tinham uma vida normal, com uma boa casa e empregados. Ele estudava num bom colégio, tudo corria bem, a família era feliz, tinham uma vida sociável que nada levaria a supor o que aconteceria depois.
Uma família poderosa entrou em conflito com a família dele, invejas e intrigas criaram na aldeia sentimentos anti semíticas. O poder daquela família rica era enorme, a casa dos pais começou a ser apedrejada, a loja ficou sem clientes, ele teve que sair do colégio, coisas básicas como comprar comida em lojas locais tornou-se um ato quase impossível, tinham que se deslocar a outro distrito (Kreis). Viver naquelas condições de grande humilhação e com as vidas em risco tornou-se impensável e ponderaram um plano arrojado para abandonarem a casa onde sempre tinham vivido. E foi disfarçados de lenhadores, numa carroça, com ele escondido no meio da lenha, que fugiram da Alemanha e chegaram à Polonia.
Hans-Joachim ao escutar esta historia de sobrevivência, sentiu cada vez mais repulsa por ter sido militante Nazi, e por toda a sua vida ter sido guiada a acreditar na ideologia Nazista.
Depois da despedida emotiva e antes de se meter ao caminho, o pastor levou-o ao celeiro e atrelando o seu único cavalo a uma carroça, ofereceu as rédeas ao Hans, fazendo questão que a levasse. Ele aceita e fica-lhe extremamente agradecido.
Auschwitz estava à vista, mas toda a zona estava cercada pelo exército soviético, o que lhe dificultava a aproximação aos campos de concentração. Reparou então que a população local festejava efusivamente os soldados soviéticos, o que o deixou muito aliviado pois assim, o plano de entrar nos campos estava mais simplificado.
O caos estava instalado na imediação do campo, viam-se milhares de prisioneiros em fila indiana a ser guiados para fora dos campos, enquanto se escutava explosões e tiros, ainda havia alemães resistentes à ocupação do exército vermelho.
A confusão é geral, está rodeado de milhares de prisioneiros, seres humanos que pareciam moribundos, corpos esqueléticos que mal tinham força para caminharem. Hans-Joachim no meio de todo aquele aparato, só pensa em descobrir Anna Auerbacher.
O cheiro nauseabundo das chaminés era inexplicável. O chão impregnado de cinzas, corpos esqueléticos que refletiam a pesarosa visão do extermínio nazi sobre este povo, deixou-o perplexo, sem reação e com raiva da humanidade ter chegado àquele ponto de crueldade humana. Toda esta visão não foi suficiente para o choque de finalmente saber o que acontecera à sua querida Anna. Nas mãos dele tinha a lista com o nome da mulher da sua vida, uma lista entregue por um sobrevivente do campo de concentração que a tinha conhecido.
O que ele mais temia, confirmava-o nessa altura. Anna tinha deixado de ter um nome para ser apenas um número. Viveu as piores privações que um ser humano pode aguentar. Vegetou naquela humilhação até ter sido colocada numa câmara de gaz e posteriormente cremada num dos muitos fornos existentes naquele campo.
Uma dor imensurável abriu-lhe o peito e tornou indecifrável a voz. As lágrimas recolheram-se e o seu rosto crispou-se… gelou o olhar… matou o sorriso.

No regresso à sua Alemanha Nazi nada para ele seria como antes.
Abominou tudo que era nazi, queimou todas as fardas e símbolos e num excesso de raiva destruiu a martelo a condecoração Cruz de Ferro.
Renunciou praticamente a todos os seus bens e saiu de vez de Berlim, vagueando sem tempo nem rumo, tendo ido parar ao interior da Floresta Negra, num local isolado mas extraordinariamente belo. Lá construiu uma cabana de madeira e nela se alojou.
Do passado só lhe restava a sua velha máquina fotográfica e algumas fotos de Anna, que ele espalha pela cabana.
Agora só precisava de tempo, de paz e de silêncio.
O tempo prosseguia e Hans-Joachim era agora conhecido como o eremita que vivia em plena Floresta Negra, perto da cidade Schiltach.
Toda a gente sabia da sua existência mas ninguém conhecia a sua história de vida.
O simples facto de viver sozinho no coração da floresta, tinha originado ao longo dos anos, mitos e histórias incríveis, sem no entanto, nenhuma ser realmente a sua história.
Tornara-se um homem de aspeto rude e austero que aparentava ser de meia-idade, embora o seu rosto coberto com a longa barba e extenso cabelo desalinhado e espesso, impedisse por completo de perceber a sua verdadeira idade.
Raramente era visto na cidade e sempre que por lá aparecia, era para trocar as peles dos animais que caçava, por mantimentos. Nunca ninguém lhe ouvira a voz.
Vinte anos passaram e Hans-Joachim, agora com uma saúde muito débil, sobrevivia num estado lastimoso, na velha cabana que outrora construíra.
Deitado na cama de madeira, com febres altíssimas, teve uma alucinação. A sua amada Anna, estava ali, bem na sua frente, linda e jovem, com um sorriso luminoso nos lábios...
Num último esforço, sorriu… aquele sorriso de felicidade que enterrara há muito anos… Levantou-se e correu para ela de braços abertos mas... sem forças, deixou-se cair… O seu corpo febril jazia no chão.
Finalmente caminhavam os dois em paz e de mão dada, em direção ao infinito.
Lisboa 1985, aqui e no resto da Europa vivia-se o fim da era industrial e estava-se entrar na era da informação.
É neste contexto social que vamos encontrar Carlos Auerbacher, associado a uma firma de advocacia de renome e famoso atleta nos anos setenta.
A viver desde os três anos de idade em Portugal, vindo de França trazido pelos seus pais adotivos, Carlos Auerbacher desde muito novo aprendeu a viver com a ideia que era órfão. Os Auerbacher nunca lhe esconderam que era órfão, embora pouca ou nenhuma informação lhe tivessem dado dos seus pais biológicos. A única coisa que sabia estava relacionado com a mãe, de que tinha morrido num campo de concentração de Auschwitz na Polonia, mas nada soube em relação ao pai.
Carlos, após um jogo de ténis no Estoril, com colegas advogados, regressou no seu Porsche Carreira, para o apartamento de Lisboa, situado na avenida da Liberdade. A casa que espelhava de forma inequívoca o seu status e o design foi todo pensado ao pormenor, de forma a poder desfrutar um imóvel de luxo.
Considerado um temível advogado, raramente perdia um caso. Tinha em carteira de clientes, políticos, empresários e gente influente no meio financeiro. Era amado por uns e odiados por outros. A sua vida social era extremamente ativa e os convites para participar em eventos surgiam na sua vida de forma natural.
Um dos muitos eventos a que não podia faltar era o da sua grande amiga Mariete Lopes Lobato, escritora de renome e grande romancista que ia apresentar o seu novo romance, no Palácio Foz. O encontro após a sessão de autógrafos foi feito entre os dois com sorrisos, abraços e beijos.
Uma breve conversa entre os flashes e a confusão que gera sempre a apresentação de um livro, e fica no ar, o convite para jantar. O reencontro entre os dois foi num conhecido restaurante situado na rua do Salitre. Palavras de carinho, de admiração entre ambos e de grande empatia selavam mais um encontro entre os dois amigos.
Solteiro e muito solicitado pelas mulheres, sentia que se houvesse alguém que o fizesse sair da sua vida boémia, seria esta amiga por quem ele nutria um carinho muito especial.
Um dia, numa das muitas partidas de ténis em que participava com colegas da firma de advogados e amigos, um velho amigo de infância e medico dele de há muitos anos quis ter uma conversa particular com ele.
Sentados na mesa do bar do clube, o médico tirou um envelope e entregou-lho. Após uns segundos a olhar para o envelope, retirou a folha com um olhar apreensivo, analisou o que tinha nas mãos, durante uns minutos em silêncio.
Um silêncio gélido que se tornou num olhar vago e interrogativo por parte de Carlos. Perguntas e respostas tinham que ser feitas, havia um resultado positivo que deixava no ar muitas perguntas. A resposta chegou de uma forma esperançosa e inquietante.
Após uns exames de rotina à sua saúde, ele que sempre se considerou saudável, nem uma constipação constava da sua ficha clinica, via que agora num simples exame médico, estava ali a verdade ou a mentira da sua sã vida.
O que de seguida escutou de seu amigo e médico era tudo menos o que ele queria ouvir. Leucemia palavra maldita que de um momento para outro fez ruir projetos, sonhos e estilo de vida.
As festas boémias deram lugar a festas de solidariedade, para dar a conhecer a sua luta, o seu objetivo de vida era aniquilar a fatalidade que lhe tinha batido à porta, e a única forma de a combater, era encontrar compatibilidade da medula óssea.
Testes repetiram-se até exaustão, um pedido a nível nacional mobilizou milhares de pessoas que em solidariedade, ofereciam a sua medula. Haveria grande hipótese de encontrar medula compatível no seu próprio seio familiar. O seu sangue era de um tipo muito raro em Portugal mas da parte da família do pai seria natural encontrar alguém compatível.
Carlos perante esta hipótese caiu num grande desânimo, pela primeira vez ele temia que nunca iria encontrar compatibilidade na medula óssea. Ficara órfão, viera viver para um país que não o dele, sem contacto com outros familiares, e as poucas informações que tinha da família eram só sobre a sua mãe, sabia que tinha morrido no campo de concentração de Auschwitz, e que ele próprio lá tinha nascido, em condições sub-humanas, tendo sido retirado da mãe após o seu nascimento, e criado pela mãe adotiva Martha Sharon que de uma forma heróica tomou conta dele e que ficou na história do campo de concentração por ter conseguido de uma forma milagrosa ter fugido com um bebé ao colo. Tendo conseguido com esse seu feito algo inédito num campo de concentração, considerado o mais desumano possível, com uma guarda atenta o que tornava quase impossível qualquer fuga.
Depois da fuga, Martha Sharon e o bebé fugiram para França, acompanhada do seu marido Ben Ami que se tinha juntado a eles na Polonia.
A França, ocupada pela Alemanha Nazi, não era o país mais seguro para ficarem a viver com nomes hebraicos que denunciavam a sua origem. Mas foi em França, que através do cônsul Português Aristides de Souza Mendes (Cônsul que salvou milhares de refugiados do holocausto Nazi) conseguiram o salvo-conduto para Portugal, e aqui se instalaram os três e aqui viveram.
Carlos Auerbacher, baseado na pouca informação que tinha da família, resolveu ir às origens, à procura de algum familiar, pois poderia estar aí o seu tratamento e para isso bastava uma única pessoa.
É com esta ideia que ele tenta convencer a sua amiga Mariete Lopes Lobato a viajar com ele.
Após uma semana de preparativos para a viagem, Carlos tenta reunir o máximo de informação em relação ao seu passado. E a única forma que ele tinha era reler o velho diário de sua mãe adotiva, que guardou religiosamente desde de a sua morte.
Numa página repara num nome que lhe chama atenção, Tobias Alfons um nome que era esporadicamente falado em casa e ao mesmo tempo lembra-se das longas conversas telefónicas que os pais tinham com ele. E com base nesta recordação, procura na antiga agenda telefónica dos pais e encontra o número de Tobias Alfons. Fez diversas chamadas mas todas em vão. Não desistiu e insiste, insiste até que do outro lado da linha uma voz em Alemão lhe pergunta quem fala.
Faz uma breve apresentação e vai direto ao assunto enquanto do outro lado Tobias Alfons o escuta atentamente. Após uma longa conversa na qual Carlos explana o motivo de ter ligado, fica a saber que Tobias não só era amigo dos pais adotivos como tinha conhecido a sua mãe biológica no campo de concentração de Auschwitz.
Carlos já tinha o elo de ligação à família, agora só tinha de ir à Alemanha Oriental, (Republica Democrática Alemã) o que tornava a viagem muito mais complicada. A R.D.A. era um país fechado para o exterior, e entrar lá era sempre muito complicado, ainda para mais sendo um alemão a viver no exterior. Finalmente, ao fim de uns dias de grande ansiedade consegue o milagroso visto para ele e para sua amiga Mariete.
Durante a viagem de avião, Mariete conforta-o com palavras de esperança e de estabilidade emocional. À chegada ao aeroporto de Berlin-Schonefeld, Tobias Alfons, que tinha um cartaz com nome do Carlos, esperava-os impacientemente.
Uma breve apresentação entre os três e uma viagem alucinante num velho Tranbant (Marca de automóveis fabricado na Alemanha Oriental) com diversas paragens de autostop provocadas pela Stasi, (Policia Secreta) onde foram revistados, marcava de forma negativa este encontro. Tobias Alfons morava na rua Friedrich, bem perto do Chekpoint Charlie e fronteiriço com o celebre muro de Berlim.
Após a viagem atribulada, a chegada a casa foi motivo de regozijo e de alívio.
À espera deles estava a esposa de Tobias Alfons, Mariana Riebbentrop, antropóloga e para grande surpresa de Carlos Auerbacher, uma expert das raízes familiares Riebbentrop e por conseguinte da família Auerbacher, deixando Carlos verdadeiramente emocionado pois desconhecia tudo sobre a família biológica. Pela primeira vez, vê a possibilidade de ficar a saber quem tinha sido o seu pai e toda a sua verdadeira história. Se inicialmente ficou chocado por saber que o seu pai tinha estado ligado à juventude hitleriana, o seu rosto mudou consideravelmente quando percebeu que grande parte da vida de Hans-Joachim tinha sido vivida como um eremita, renegando todas as suas origens nazis.
Mas a maior surpresa viria depois com a revelação da Mariana Riebbentrop, ela própria ligada a família de Carlos por parte do pai, possuía com ela um diário de Hans-Joachim e algumas fotos da Anna Auerbacher.
A emoção fora forte demais o que o deixou lavado em lágrimas com o diário do pai e as fotografias da mãe, nas mãos.
Todo o mistério da origem paterna estava ali na frente dos seus olhos. O seu pai tinha morrido completamente desligado da civilização e do mundo. A sua forma de vida provocou mitos e curiosidades, atraindo imensa gente à sua cabana após a sua morte. Os únicos bens materiais de Hans-Joachim estavam ali à sua frente, o diário, as fotos da sua Mãe e a velha máquina fotográfica.
Sentado no sofá da sala de Tobias e abraçado a Mariete, ouviu com toda a atenção como a Mariana tinha ficado na posse daqueles bens, ficando a saber que após a morte de Hans_Joachim, a cabana tinha-se tornado num lugar turístico e todos os bens mais tarde vendidos em hasta pública, e ela tinha sido a única compradora.
Mas a maior revelação de todas viria a seguir. Mariana sabendo do motivo da vinda do Carlos a Berlim e ciente de que tinham o mesmo tipo de sangue, tinha um envelope do hospital estatal, para fazerem os primeiros testes médicos.
Perante tal notícia e de tantas agradáveis surpresas que lhe iluminaram o espirito e aqueceram a alma, Carlos levantou-se do sofá e estarrecido agradeceu a Mariana, com palavras de profundo agradecimento.
Uma semana se passou desde que Carlos tinha chegado a Berlim, agora já recuperava do transplante da médula óssea que tinha sido feito com grande sucesso e dando maior qualidade e esperança de vida ao advogado.
O regresso a Lisboa foi feito com uma dívida de eterna gratidão a Mariana, e com a promessa de regressar um dia mais tarde.
Carlos agora tinha deixado de ser filho de pai incógnito, para ser filho de um senhor que ele tomou como herói e um ser humano maravilhoso que soube rasgar com um passado negro e que se entregou de alma e coração ao amor de sua vida Anna Auerbacher.
Nos anos noventa Carlos casa com Mariete Lopes Lobato, um casamento muito badalado no panorama social e contou com a presença de Tobias Alfons e da sua esposa Mariana Ribbentrop (algo só possível após a queda do muro de Berlim).
Em 2014 Carlos Auerbacher, agora com 73 anos de idade é o presidente honorário da fundação Auerbacher, que finda promover direitos humanos e de luta antirracista.

Jorge Ferreira
Massamá - Queluz - Portugal

Biografia: Romance Amores & separações Chiado Editora , As Crónicas do Capitão Galo; tenho entrado em diversas colectâneas de poesia e de contos

 

 

 

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