FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Lúcio Reis

 

CASTELO EM PALAFITAS COM TAMBORIM
Por Lúcio Reis


O Brasil há décadas, se notabilizou pelo título que se lhe fora atribuído de não ser um País sério. Ninguem, pelas reações que não vieram se importou ou importunou. E assim, em compensação, essa pecha também, por longos anos foi atenuada ou esquecida com o sinete de ser a Nação do futebol ou a Pátria de chuteiras e, de copa em copa, os anos foram se somando, até que com o score de 7 x 1 a Alemanha tirou as travas das chuteiras canarinho e empanou os títulos conquistados.
Com a evolução dos casos de corrupção e até mesmo o aperfeiçoamento das ações e que, levaram alguns a merecerem destaque nacional, ainda lá atrás no século anterior, tais como os “anões do orçamento”, a trama na “SUDAM” e o episódio “BANPARA”, só para mencionar uns poucos, do extenso rol e arquivo, que frequentou o noticiário e habilitou o Brasil a merecer de fato e de direito a faixa de País da corrupção, com bordadura dourada do jeitinho brasileiro de corromper e levar vantagem em tudo.
Esses carimbos - razão do se lastimar e repudiar pelo cidadão brasileiro digno que por aqui há - em negrito sobre o curriculum de nosso Berço, ensejaram, por outro lado, o surgimento em palanque de sucessivos e vários “salvadores da pátria” os quais, tendo as mãos a receita mais eficaz para as soluções e na convincente oratória combativa contra tudo o que não servia à sociedade, ao passar de muitas campanhas eleitorais, trouxeram e traziam a esperança embutidas nas promessas de reconduzir a locomotiva verde e amarelo aos trilhos da decência, da moralidade e por consequência da prosperidade e, com as normas da ordem, como reza em nosso Pavilhão.
E nesse contexto de enganação pós enganação, mentira e traição da confiança popular, vários, aos longos desses anos, ascenderam e assumiram posto e funções nas administrações nacionais, tanto a nível federal, quanto no estadual e municipal.
Porém, até aqui nenhum, ou ressalvando quem sabe raríssima exceção, executou seu receituário de sarar o paciente e, o que se lastima, e até mesmo ser razão para chorar copiosamente, é que o doente está a caminho ou quem sabe, já estendido num leito de um CTI e com ajuda de aparelhos respirando.
E no corredor a esperar um posicionamento alentador do plantonista, vem então as perguntas da boca daqueles que ainda acreditam neste Berço e sua melhora, mais decorrentes para a causa e razão dessa brutal piora? Porquê chegamos até aqui e por que a tendência é o ficar mais complicado, o que já estava crítico e tende a chegar ao péssimo?
Elementar meu caro cidadão brasileiro! A origem é esse sentimento de uma maneira geral de atração fatal pelo mau feito, de aplaudir de pé e o olhando de baixo para cima, quando a mesma lingua em palanque lhe mente outra vez, e assim o inocente útil e voluntário, a venera como salvadora e seu dono como milagreiro, mesmo a despeito de que ele vai, novamente, pisar na sua dignidade de cidadão, não vai lhe retirar do atoleiro e mesmo que ele lhe engane de novo e o traia reiteradamente, ainda assim, ser-lhe-á dado outro voto de confiança e com esse cenário, fica bem explicito a pintura do malandro esbofeteando a cafetina e o cafageste explorando a prostituta.
E foi com o conhecimento dessa fragilidade, até mesmo que se possa adjetivar masoquista, que há treze anos o Brasil como um mosquito caiu na teia de aranha mais ardilosa, tecida desde às portas de industriais no sudeste e que, com o trombetear de sempre do exterminar com as maracutaias e que, no Congresso Nacional havia mais de 300 que não eram sérios, ou como dizia aquele outro, com o capacete de caçador, e fuzil de exterminar marajás do erário, que iriam eliminar a corrupção e os desmandos e, nesse ritmo o Brasil inaugura a sua mais negra e tétrica tela na politica brasileira.
Porém, como o paciente já estava sob tratamento intensivo e com o soro na veia, eis que a equipe “médica de plantão” resolve aplicar uma dose robusta via “scalp”, de um fortificante chamado posteriormente de mensalão, e com essa dose a medida do gráfico no leito do doente ganhou mais informes de declínio e séria piora de seu estado geral.
Todavia, é como se houvesse recaído sobre a Nação uma maldição proferida por algum mago e que, não tem nenhuma simpatia por este povo, pois saí o salvador ou faz de conta que saiu, e entra uma salvadora, por aquele indicada e, com o apelativo título e aura maternal, cognominada de mãe do PAC.
E foi então que se iniciou a colocação das estacas de sustentação para o Castelo Brasil, fincadas no lamaçal dos inúmero e diários casos de arrombamento do tesouro, transformando-o, portanto, nossa economia e nossa Pátria, numa Palafita de horrenda pintura e na qual, como outra séria maldição vinda de um ente descomunal, adjetivada de incompetência, recaíram as mais graves pragas que se pode atribuir a uma sociedade e que lá atrás biblicamente profetizada para toda a humanidade.
A praga da corrupção com mais poder de penetração e destruição do que a do mensalão, toma umas doses de hidrocarbonetos e ataca severamente a Petrobrás, sem dó e nenhuma piedade. E aquela que viria gestar o PAC nada viu ou sentiu, mesmo estando a cabeceira da mesa da relevantíssima empresa brasileira, que ficou sob as garras dos abutres que a estraçalharam com suas garras e bicos destruidores de valores morais, sociais e de seriedade com honestidade.
Mas o projeto de poder e de no futuro colocar a Nação no bolso, através do Fórum de São Paulo, tolhe voluntariamente o ver e enxergar do avanço do Aedes aegypti, e portanto, não há o ataque e o devido combate a praga desse pernilongo e eis que se chega a situação calamitosa atual que maltrata o povo mas, desmestifica o mito petista de governar.
E então com a maior empresa brasileira quebrada, com o avanço da zica prosperando, o país para o passado voltando e o futuro nascendo com microcefalia, completa-se o projeto de perpetuação no poder, pois no amanhã, nem será preciso a isca das bolsas assistênciais para manter os currais eleitorais, posto que o discernimento construtivo, o pensamento critico em prol do bem comum, praticamente não existirá.
Voltaremos quem sabe, à época da lamparina para a iluminação doméstica e para as vias públicas os lampiões, pois o que se testemunha por aqui, é uma avalanche de incompetência de mãos dadas com a corrupção e a destruir e demolir o que até aqui foi erguido.
E assim o Castelo sobre palafitas de hoje será jogado no pântano dos desvios e vícios de condutas e em seu lugar surgirá o castelo vermelho da ilusão do comum a todos e habitado por súditos teleguiados.
Porém, como somos diferentes e únicos em nossos costumes, há que se levar em conta também, que, para esse sonho seja factível, há necessariamente que haver uma mudança radical na mentalidade do brasileiro, pois mesmo que todo o acima seja verdade, não deixa de ser verdadeiro também que, se não somos mais o País do futebol, ainda somos a Nação do samba e do carnaval.

Lúcio Reis
Belém do Pará - Brasil  

 

 

Luísa Galvão Lessa Karlberg

 

JOVENS IMACULADAS
Por Luísa Galvão Lessa Karlberg, IWA


E a missa matinal chegava ao seu término. O Bispo Joseph, na sua casula branca e estola vinho, trazia à mente de nós, meninas, a representação do corpo e do sangue de Jesus. Na capela reinava a atmosfera de intensa paz, havíamos recebido o pão de trigo puro, em nome de Jesus. Nessa compenetração ouve-se a doce voz do bispo a dizer: Ite, missa est, ou seja, ide, a missa é finda. E, assim, nos perfilamos, em fila, para sair da capela e caminhar, em seguida, para o refeitório do colégio, para o café da manhã.
Do lado de fora, à porta de saída da capela, com as mãos postas, expressão indecifrável, estava a Madre Superiora Adne (a águia), com ar compenetrado, como se estivesse a rezar ou a meditar. À medida que a fila de meninas passava diante dela, vez por outra, abria os olhos e fitava algumas, com semblante de neutralidade. Nós sabíamos e significado daquele gesto. Havia uma mensagem no ar, o que deixava a turma inteira, 72 alunas do internato, em sinal de alerta. Afinal, o que havia acontecido? Ninguém sabia. Ou melhor, algumas sabiam, mas o silêncio era sepulcral, só se ouvia o barulho do vento sobre as palmeiras, logo adiante, no pátio.
Eu, na santa inocência, sabia de um segredo, mas imaginei que iria guardá-lo comigo, sob a confiança de minhas colegas mais velhas, que muitas vezes me tomavam por escudo. Mas cuidavam de mim, juntamente a Madre Adne, quando ali cheguei aos seis nos de idade. A madre tomou-me por filha de coração. Eu sentia esse amor dela por mim. Eu fui percebida, desde o início, como uma criança com sentimentos e sofrimentos de saudades dos pais. Segui andando, mas sabia que o olhar da madre logo iria pairar sobre minha pessoa, eu guardava um segredo que ela havia descoberto. E, então, o que aconteceria? Ela levantaria a cabeça e me perscrutaria com os olhos, num convite para uma confissão? Como as filas andam, logo me vi debaixo do olhar da madre. Olhei-a de frente, e vi preocupação naqueles olhos verdes transparentes, brilhantes. Ela, de mãos postas, olhou-me com firmeza e inclinou a cabeça. Eu tremi, conhecia aquele gesto. Era um convite para dirigir-me à sala secreta. Engoli a saliva, ainda com o gosto da hóstia sagrada, e caminhei para o espaço reservado por ela.
Ali o ambiente era sacrossanto, tudo muito limpo, arejado, imagens de santos por toda parede central. Na outra, à esquerda, havia imagens de religiosos que haviam partido para o Céu. Todo o espaço era como uma extensão da capela, ali se respirava os mandamentos sagrados.
Entrei na sala e fiquei de pé, parada, braços cruzados, cabeça baixa, em sinal de respeito e reverência. Ali reinava a exigência de postura do corpo, dos braços cruzados, da posição das pernas, não somente nas formaturas, na capela, nas filas, mas, também, quando se esperava alguma ordem, conselho, confissão. Elevei o pensamento a Deus e pedi coragem para olhar, novamente, a religiosa, sem que o pranto rolasse sobre o meu rosto. Ouvi passos no interior da sala próxima. Senti que o momento fulcral se aproximava. Respirei fundo, comecei a rezar a Ave-Maria. Não deu tempo concluir a oração. A porta se abriu e a madre estava ali diante de mim.
Ouvi sua voz firme a chamar meu nome. Permaneci de cabeça baixa, aproximei-me dela e beijei suas mãos. Ela segurou firme as minhas e acomodou-me numa poltrona de couro. Sentou-se, ergueu meu rosto com suas duas mãos e falou:
- Olhe para mim, criança não mente, é pecado.
Olhei-a já com os olhos marejados, mas com profundo respeito e devoção. Ela era, ali, a minha mãe, eu a amava. Também sabia que ela me guardava no coração, mas que esperava de mim uma verdade. E enquanto eu pensava nesse amor que nos unia, ela se aproxima mais, continua a erguer meu queixo com suas finas e delicadas mãos. Então solta a pergunta que eu mais temia:
- Filha, você esteve com as moças no Alto da Glória?
- Sim, Madre, eu estive com elas.
Depois dessa afirmação, veio a outra pergunta, também difícil, talvez a mais importante para ela:
- Os rapazes seguraram as mãos das duas moças?
Respondi que não. E ela insistiu:
- Não se tocaram nas mãos?
- Não, senhora Madre, não se tocaram.
E ela continuou:
- Em algum momento se abraçaram?
- Não, Madre, apenas falaram que era proibido conversar, se olharam e regressamos ao convento. Foi somente isso, nada mais.
Senti que ela soltou o ar dos pulmões, numa sensação de alívio. Seu rosto, sempre sereno, pareceu-me mais angelical. Puxou-me para perto de si, abraçou-me e disse:
- Reze três Pai-Nossos e três Ave-Marias. Sair do convento, mesmo para acompanhar alguma moça, é proibido. Deus te abençoe, filha.

Luísa Galvão Lessa Karlberg, IWA
(Presidente da Academia Acreana de Letras, Cadeira 34)
Rio Branco - Acre - Brasil  

 

 

 

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