FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Maria Aparecida Felicori {Vó Fia}

 

PECOU E PAGOU
Por Maria Aparecida Felicori {Vó Fia}


Aquele lugar era pequeno, porem decente, ruas estreitas e poeirentas com uma praça no começo e outra no fim, digo uma começando e outra acabando, porque a Vila de Morro Alto tinha seu inicio na florida Praça Padre Tinoco e seu fim na Praça Padre Bento; das duas praças saiam as ruas que formavam o lugarejo, a cor vermelha se espalhava por todos os lados por causa do pó que subia do chão de terra sem nenhum calçamento.
Aquela terra de cor forte era terra de cultura e garantia as fartas colheitas nas propriedades rurais que circundavam a vila, naquele lugar abençoado ninguém era rico, mas de fome ninguém morria e a vida corria na mansidão da calmaria do interior sul mineiro; as pessoas nasciam, cresciam, se casavam, tinham seus filhos e geração após geração nada mudava, coisas diferentes ali não aconteciam e a vidinha era muito boa.
Na Praça Padre Tinoco ficava a única venda de secos e molhados do lugar, ali se vendia de tudo um pouco e o dono tinha fama de rico; Seu Neca Torelli era um solteirão convicto e cheio de manias, nunca saia de seu estabelecimento, vivia só com seu empregado Custodio e confiava cegamente nele; quando Custodio se casou com Antonia e foi morar em uma casinha nos fundos da venda, ele ficou só na casa da frente.
Com o passar do tempo, os negócios do velho Torelli prosperaram e dizia-se que ele guardava muito dinheiro escondido na sua casa, mas como ele continuava a viver com a modéstia de sempre, certeza ninguém tinha, tentavam saber com Custodio, mas ele não falava nada a respeito dos assuntos do patrão, dizia não serem de sua conta e o assunto morria; na vida mansa de Morro Alto as pessoas eram saudáveis e envelheciam bem.
Por isso o velho vendeiro tinha ótima saúde, os anos passavam e ele continuava firme e forte, seu fiel empregado Custodio sempre lá cuidando de tudo, de seus negócios e de sua alimentação que trazia de sua casa preparada com capricho por sua esposa Antonia, mas de repente o vendeiro começou a se cansar com facilidade, a se queixar de insônia e de dores espalhadas pelo corpo, foi então consultar com seu João Boticário.
Seu João era muito entendido em doenças e substituto competente do medico que lá não tinha, examinou o comerciante e disse: olha Sô Neca o senhor não tem nada, é só se alimentar melhor e tomar bastante chá de camomila que vai dormir bem e se esquecer das dores, mas quando ele saiu o boticário disse: é a praga do padre funcionando, ofendeu o Padre Tinoco pedindo o senhor bispo para levá-lo daqui, o padre foi e a praga ficou.
O Padre Tinoco disse lá no Alto da Serrinha, que ele vai morrer só como um cão e vai ser achado com a boca cheia de formigas, as pessoas presentes acharam que aquela historia era uma tolice e trataram de esquecer o assunto, mas a verdade era que Seu Neca não estava nada bem e com praga ou sem praga, ele morreu do jeito que o padre Tinoco disse que morreria, coincidência ou não ele foi encontrado por Custodio em uma certa manhã.
O suposto fiel empregado encontrou o patrão caído no chão de terra batida da cozinha, tinha as mãos enterradas na terra e a boca cheia de formigas, até ai tudo certo cumpriu-se a profecia, o que não foi nada certo foi a atitude tomada por Custodio, que antes de avisar aos parentes do morto o acontecido, carregou todos os valores existentes na casa e escondeu em sua residência que ficava nos fundos, ai avisou o ocorrido.
Depois do enterro a ávida parentela tratou de procurar o falado dinheiro escondido, mas nada foi encontrado e mesmo as melhores mercadorias não estavam mais lá; depois de algum tempo o fiel Custodio comprou a casa com o que tinha dentro, disse que fizera economias a vida toda e que queria manter a venda de seu amado patrão funcionando, ninguém acreditou em nada do que ele disse, mas sem provas se calaram.
De uma maneira misteriosa as vazias prateleiras da casa, se encheram de mercadorias da noite para o dia: eram peças de tecidos, caixas de calçados e tudo mais que sempre se encontravam naquele estabelecimento, foi um escândalo sem tamanho, porque aquilo tudo fora visto durante a vida do antigo dono e desaparecera depois de sua morte, mas o finório Custodio cumpriu o prometido e o nome do estabelecimento continuou o mesmo: CASA DE SECOS E MOLHADOS TORELLI.

Maria Aparecida Felicori {Vó Fia}
Nepomuceno - Minas Gerais - Brasil
www.vofiacontosepoemas.blogspot.com.br  

 

 

Maria da Glória Jesus de Oliveira

 

A MÁGICA
Por Maria da Glória Jesus de Oliveira


Vim de uma geração de mágicos. Houve tempo em que me dediquei a investigar sobre isto. Uns foram famosos. Outros não. Era natural em cada família que houvesse um. No meu caso, tive um pai famoso. Admirava-o. Tudo que sei veio dele. Sem modéstia, consegui ultrapassá-lo. Andei pelo mundo. Minhas façanhas arrepiavam. Isto até aquela noite. E a maior vergonha foi não ter como esconder. Os jornais, a a mídia, o mundo todo sabendo.
Quando me apresentava, havia delírio na plateia. Ninguém me superava. Nem meu velho pai. Inventava truques inéditos. Ganhei fortunas.
Hoje, estou encerrado no sítio. Nem visita dos familiares aceito. Não quero ver compaixão em seus olhos. Fico com Terêncio. Viu-me nascer. Praticamente me criou, enquanto meus pais viravam mundo. Somente a ele permito que me olhe. Sei que em seus olhos há amor. De Serena nunca admiti sequer uma visita. Nem nos dias em que fiquei hospitalizado. É linda, saudável, merece que um homem de verdade a ame. Deixei-a livre.
Era uma noite de primavera. A superstição me dizia que em noites de primavera nenhuma mágica falha. Era a décima apresentação no mesmo espaço. Desta vez, porém, queria um estrondoso sucesso. Determinei que o palco fosse ornamentado de vermelho escarlate. Tudo deveria estar assim.
Ao fundo, onde ficava escuro, foi colocada uma fogueira. Figuras de demônio ao redor dela. Usei capa vermelha, com desenhos de fogo subindo da base. Máscara de demo, com chifres pontiagudos, de onde também saía fogo.
Quando as cortinas se abriram, nada se movia. O público num silêncio desconcertante. Um estrondo, gritos, labaredas e meus movimentos. A plateia foi ao delírio. Tudo perfeito. A cada apresentação, o aplauso ensurdecedor. Eu gargalhava, antevendo o desfecho da mágica principal.
Finalmente, chegou a hora. No centro, um demônio se contorcia. Música de suspense. O silêncio. A espera. Do alto, um pano caiu, encobrindo o demo. Gritei as palavras da magia. Silêncio. Mais estrondo e labaredas.
Quando o pano é erguido, a moça vestida de branco, faces aveludadas, cabelos longos ornados com rosas, pés descalços, sorriso enigmático, substitui a figura anterior. Um facho de luz dourada projeta-se sobre ela. Um hóóóóó retumba. Aplausos e mais aplausos. Risos e emoção.
E eu ali, paralisado, com o tridente ainda suspenso no ar, boquiaberto sob a máscara encobridora, sem saber o que acontecia. Algo falhara. A figura angelical não estava no programa. A um gesto, as cortinas desceram. Fim do espetáculo. Aplausos, muitos aplausos
Tirei rapidamente a veste demoníaca e aproximei-me da moça. Ela no mesmo sorriso, imóvel, a mesma luz incidindo sobre sua beleza. Os olhos acompanhavam meus movimentos. Gritei para os ajudantes, perguntei, mas ninguém soube dar uma explicação e dizer quem era a pessoa. Interroguei-a. Nada. À volta, todos falavam. Alguns faziam o sinal da cruz, despindo-se rapidamente da fantasia de capeta. Não sei quanto tempo durou a confusão. Ninguém queria tocar na moça, que permanecia na mesma posição, no mesmo sorriso, no mesmo movimento de olhos. A estranha luz havia desaparecido, ao acenderem as lâmpadas.
Foram-se retirando. Fiquei. Um mal-estar angustiante me dominava. Além da estranha aparição, que me fazia doer a cabeça, o fato de algo ter dado errado era-me inadmissível. Para os fãs, tudo perfeito. Mais uma admirável obra do grande mágico.
Fui utilizando truques que fizessem a moça desaparecer. Cansei-me, sem sucesso. Sentei-me no chão, coloquei a cabeça entre os joelhos e solucei até me ardem os olhos e doer a garganta. Então, senti um toque no ombro. Ergui os olhos com cuidado, esperando que alguém vivesse me tirar do pesadelo.
Apenas ela estava ali, sorrindo, sorrindo. Segurei-a pelos ombros e a sacudi freneticamente. Nem assim o sorriso se desfez. Agora, parecia-me ver ironia em seus olhos. Tomei-a pela mão e fui para casa. Não! Para a casa não. Como poderia? Que explicação dar? Melhor um hotel, num lugar distante, onde pudesse guardá-la por uns dias. Serena de viagem programada. Ninguém ficaria na casa, nem os empregados.
Dei nome à moça. Angélica. Nada original. Mas. Quando Serena viajou, coloquei a aparição em minha casa. Aos poucos, o desejo de possuí-la foi se agitando. Iniciei por carícias. Sem recusa. Fui avançando. Ela dócil. Às vezes, tinha medo que se desfizesse em nuvens ante meus olhos. Entretanto, quando a tocava, era real, macia, apetitosa.
Uma noite, avancei um pouco mais. Quando introduzi minha língua em sua boca, um estranho som fez com que a soltasse de inopino. O ruído me lembrava algo, que não chegou à minha consciência. De qualquer modo, senti como um alerta. Insisti em identificar o som. Nada. Fui avançando, com cautela. Mais uma vez, tentei o beijo ousado. O mesmo ruído que me desconcertava fez-se presente. A memória, ainda desta vez, não me ajudou.
Até que um dia, finalmente, achei ter chegado a hora. Ela doce, lasciva, silenciosa, era mais do que tentação. Que homem poderia resistir? Levei-a para a cama de Serena, nossa cama. Gastei um bom tempo em preparativos, preliminares para o ato final. Queria que fosse perfeito. Anjo ou demônio seria minha, apenas minha. Afinal, eu a havia criado. Não suportando mais, penetrei-a.
Um grito horrendo ecoou. Antes de desfalecer de dor, lembrei-me que a máquina elétrica de moer carne havia desaparecido.

Maria da Glória Jesus de Oliveira
Porto Alegre - RS - Brasil  

 

 

 

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