FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

MariaVitória Afonso

 

A VIAGEM DA FORMIGA
Por MariaVitória Afonso


São 5h e 40 m É a. hora de partir para o Sul como combinámos no dia anterior. Contrariamente aos outros dias o céu está acinzentado. Pareceu-me ouvir trovões e na verdade vejo um relâmpago a riscar o céu.
Quando abro o portão grande para o nosso carro pequeno (que está sob o telheiro) sair cai-me no rosto uma grossa gota de água.
Isto não é nada diz-me o meu companheiro E não é mesmo! Pelo caminho continuamos a ver na nossa frente, de quando em vez, relâmpagos a riscarem o céu, em linhas quebradas caprichosas, como vinha desenhado no meu livro de física do terceiro ano do liceu.
Só que na realidade, são mais belas e caprichosas. Porque ora aparecem na vertical, ora na horizontal. Os respectivos trovões soam ao longe o que significa que a trovoada está longe de nós.
Penso na Lenquinha, a nossa cadela que fica tão nervosa que tem de ficar perto de mim... O que me preocupa é que ela ficou sozinha... apenas até meu filho acordar.
Calmamente vamos seguindo o nosso caminho que é longo....
Perto de Grândola, a trovoada fica para trás, a madrugada começa a clarear e o sol desponta. Paramos para pôr gasóleo e tomar o pequeno almoço. Após o que seguimos.
Já perto de Alvalade o meu companheiro sempre muito atento ao volante diz-me:
-Tira-me esta formiga do braço que me vem incomodando desde o início.
Faço-lhe uma dobra na manga comprida da camisa, retiro a formiga com todo o cuidado. Abro o vidro da minha janela e deito a formiga de maneira que a queda até ao chão não lhe faça lesões. Esta formiga que viajou desde o nosso quintal, ficará em Alvalade. Será que ela também pressentiu a trovoada?
Como será a sua vivência na sua nova terra? Será que faz uma vida solitária de procura de mantimentos, ou se integrará numa fila de congéneres, e reiniciará uma nova vida social?
Ficará uma incógnita para mim....Só para mim porque não contei a ninguém! E será que estou a escrever um texto “non sense”que irá provocar um sorriso irónico
em alguns ,irritar outros ou ser criticada nestes termos: «Estás a querer imitar quem? O Franz Kafa no seu livro “Metamorfose” ou o José Luís Peixoto naqueles contos de sua província?!
Não sei, só sei que a ideia de morte (não a minha para a qual estou preparada) mas a de meu irmão que morreu há 37 anos na guerra me causa uma angústia indescritível....
Todas as mortes me horrorizam, de pessoas ou outros seres por mais ínfimos...
Por isso não matei a formiguinha que espero esteja vivinha em Alvalade, sozinha ou comunitariamente a refazer a sua vidinha já que voluntaria ou involuntariamente se meteu nesta aventura de cujos riscos eu quis preservá-la.

Maria Vitória Afonso
Amora - Portugal  

 

 

Mariana Loureiro

 

UMA CARTA AO TEMPO...
Por Mariana Loureiro


Senhor Tempo!
Inefável amigo!
És a complexidade natural da vida. Vestes-te de estações e percorres os dias numa corrida desenfreada. Escorres como areia em dedos ressequidos pelos momentos vividos. Pó fino que soltas na caminhada, nos sons do ocaso da madrugada onde guardo os sonhos escritos em palavras inflamadas pela incúria e os deixo exauridos, na escuridão.
Obrigaste o sorriso ágil e puro a fechar-se num silêncio que foi estrada de um corpo magoado e negado à vida.
És o senhor do Universo. O todo poderoso. Temido e amado. Escavas sulcos nas minhas faces sedentas de viver. Enrolas a saudade nas parras poeirentas que acumulas na passagem e que espremes no sulco da dor. Mas, também eu aprendi a ser impenetrável. Também eu me obriguei a ser inefável. Foste um bom mestre e eu aprendi bem a lição, por isso mesmo, fechada nesta concha, nunca te darei a minha razão. A razão da minha saudade é tão eterna como eterna será a minha solidão. E essa razão, tatuei-a num coração fechado hermeticamente onde nem tu, o senhor da vida, terá acesso. Esse caminho está vedado pois é um lugar sagrado. És o senhor da vida, mas quem a escreve sou eu e por defeito, teimosia ou ironia, sou eu quem define as árias que quero ouvir, em harpas ou violinos no intenso puzzle da polaridade da razão. E neste prelúdio de ausência, onde a minha saudade se perpetuou, canta-se poesia nos sussurros do vento, na miscigenação do meu pensamento. E o meu pensamento é um mundo impenetrável e mágico, repleto de flores iridescentes semeadas na aurora do dia.
É sensual a dança destas borboletas que concomitantemente engrandecem as árias escolhidas. Nelas perco-me num mundo de sensações tão agradavelmente agradáveis. E é neste ímpeto de sinuosidades, em arremessos de sensatez que adejo as saudades em eflúvios de humildade e não permito incursões nas minhas razões.
Sim, é verdade que irrompes à força o bulício do meu viver e bordas no meu rosto um ar compungido, mas as cascatas de águas límpidas que correm nas escarpas do meu ser, escondem as saudades que sepultei em brechas floridas que osculam a brisa da vida e tornam a senda infinitamente bela! Infinitamente grande! E um poema renasce em cada madrugada e torna a saudade a gávea da minha vida.
Vencerás um dia, eu sei. É certa esta certeza. Mas enquanto houver em mim um sopro de vida, haverá uma ave albicauda de estrídulos gorjeios a sobrevoar os céus e a tornar empíreo o meu caminhar porque este é o meu lema e isso, não me podes tirar.
Até um dia...

Mariana Loureiro
Samora Correia - Portugal  

 

 

 

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