FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Mario Rezende

 

ESPERANDO POR ELA
Por Mario Rezende


Na organização do pensamento, tudo é distribuído de acordo com a necessidade, o que é determinado pela observação dos neurônios plantonistas nos sentidos da visão, da audição, do olfato e do paladar, além dos que ficam na fronteira do corpo e trabalham no tato.
Naquele dia, na parte da tarde, eu tinha levado os meus neurônios operários para passear. Como meu objetivo principal estava bem definido, aliado ao lazer dos operários, só os especialistas em sexualidade estavam em plena atividade. Nessas situações, a maior parte da categoria entra em ação e, naquele momento, os da seção LP (Luana Piovani) estavam cheios de energia e disposição, uma quantidade de sinapses incrível.
Enquanto caminhava pelo circuito Leblon-Ipanema, desde a Dias Ferreira até a General Ozório, seguindo a calçada da direita da Ataulfo de Paiva. Dei uma paradinha de praxe em frente ao Cine Leblon e continuei seguindo em direção à Visconde de Pirajá; senti saudade dele quando atravessei a Vinícius de Moraes.
Estava voltando pela calçada oposta, olhando as modas, pensando que poderia ter a sorte de encontrar a Luana, para ver se ela se engraçava dando de cara comigo, deixasse de ficar com esses lanchinhos e pegava logo um prato cheio de comida mineira, tipo galo com quiabo e polenta. Não, não sou mineiro, sou carioca mesmo, da gema. Mas se eu quisesse usar uma metáfora, o prato típico teria que ser feijoada acompanhada de caipirinha. Aí não iria dar, é muito grosseiro, típico camelô carioca, que vai trabalhar de bermuda, camiseta e chinelo, muita baixaria e falta de elegância. Não sei como algumas mulheres aguentam. Cada figura! Acho que se eu fosse mulher, seria homossexual, porque tem homem que dá até nojo, não tem finesse, educação, raciocina com a do pênis.
Voltando ao meu objetivo, ela, a Luana, minha deusa, poderia aproveitar, me conhecendo, para esquecer o lance com o Caetano, porque também sou poeta, pelo menos quero acreditar que sim. Adivinhe... Pois é, não deu as caras. O máximo que encontrei do metier, foi o Rodrigo Santoro, de passagem por Ipanema, já que ele, agora, é de Hollywood, com direito até a algumas sílabas depois de ”Lost”. Ele está chegando lá, eu torço por ele porque é humilde e sabe dar tempo ao tempo, feito a Alice. Estou falando da Alice Braga, que desbancou muito cachê alto por ser mulher bonita e boa atriz, também. Pelo menos a beleza do corpo teve a quem puxar (à Gabriela Cravo e Canela que enfeitou a minha telinha, à dama do lotação que provocou aumento de pulsação e à protagonista de “Eu te Amo”, espetáculo que ficou na lembrança dos marmanjos). Fico torcendo para que ele, o Rodrigo, seja percebido pela Jolie depois que o Brad passar. Eu, por enquanto, continuo na esperança pela Luana, porque não foi daquela vez.

Mario Rezende
Rio de Janeiro - Brasil
www.recantodasletras.com.br/autores/mrrezende  

 

 

Marley Silveira Poletto

 

UM SONHO REALIZADO
Por Marley Silveira Poletto


O sonhar é inerente ao ser humano, embora muitos sonhos nem sempre possam ser realizados. O sonhar não tem limite de idade. A realização do sonho torna-se possível sempre que tenhamos uma energia interior para buscá-la. A força energética é gerada por esse mesmo sonho.
Foi um sonho que me levou a realizar o Projeto “Processo Comparativo entre Culturas e Tradições Trazidas dos Açores e Tradições Absorvidas e Conservadas no Litoral do Rio Grande do Sul”.
Saber até que ponto o conhecimento e a educação trazida pelos ilhéus açorianos perduram em nossas famílias. Procurar também minhas origens açorianas. Saber o porquê dos princípios rígidos recebidos na educação tanto em casa como na escola. Certamente são características genéticas que teriam sido trazidas por nossos avós numa breve estadia de quatro dias, visitei a ilha do Faial, uma das nove ilhas do arquipélago dos Açores mos a cidade da Horta.
Na principal escola da Ilha - Escola Antònio José de Ávila, conversei com jovens entre 12 e 14 anos para saber como e onde vivem, conhecendo costumes diários, alimentação, preferências, danças, esportes e divertimentos. Assim poderia comparar a cultura e os hábitos da vida atual dos açorianos habitantes do Faial com a cultura dos descendentes de imigrantes açorianos moradores do Litoral do Rio Grande do Sul. Entrevistei jovens, pessoas mais velhas e seus hábitos. Foi o ponto mais importante que objetivou minha atenção nessa aventura sonhada.
Arquitetura, economia, alimentação, gastronomia, arte, religiosidade, artesanato e aspectos turísticos foram assuntos dos quais tive alguma notícia no breve espaço de quatro dias que lá permaneci. Levantei dados que me permitiram comparar e levar adiante uma conscientização e respeito por esses imigrantes que molharam as terras gaúchas com o suor de seu trabalho.
Pude ver, registrando em fotos, os tesouros das igrejas majestosas e seculares, muito bem conservadas. Atestam a religiosidade do povo. Nos bares e restaurantes senti o cosmopolitismo da pequena e única cidade da ilha chamada Horta. Dos vários pontos turísticos em torno da ilha, miradouros, a visão de cenários paradisíacos é de tirar o fôlego do visitante. Falésias machucadas pelas ondas; enormes gretas rasgadas pela fúria da natureza; à beira dos precipícios, aos nossos pés, as praias lá em baixo com suas areias pretas - resíduos vulcânicos -surpreendem.
As terras áridas escuras, acinzentadas, daquele monte batido pelas ondas do mar são as cinzas e as lavas acumuladas pelo vulcão dos Capelinho. Um vulcão submerso que as espeliu durante um ano. De setembro de 1957 a outubro 1958 aumentaram a superfície da ilha em mais de dois quilômetros. Os habitantes daquela região viveram um ano de sobressaltos e angústias, perdendo suas casas, plantações e animais dos quais tiravam o sustento da família.
Nessa freguesia, Capelo, encontrei um dos objetivos procurados para realizar minha pesquisa. A visita à Escola de Artesanato da ilha do Faial veio confirmar o que já mais ou menos conhecíamos em matéria de artes manuais. Mostrou-nos que a verdadeira origem do nosso artesanato litorâneo é herança dos açorianos, povoadores das terras do Rio Grande do Sul. O cruzar do tempo não apagou os hábitos e os costumes por eles trazidos. Durante a visita pude ver que os belos trabalhos que estão sendo feitos hoje lá, são uma tradição que aqui continuaram sendo feitos pelas mulheres gaúchas.
A Escola de Artesanato da Horta cuida da formação de novos artesãos e da exposição do artesanato local e regional. Destacam-se as miniaturas em miolo de figueira. Registramos também esculturas e objetos em osso de cachalote. Em vime e palha de vegetais diversos, muitos trabalhos de sestaria, chapéus, tapetes etc. Os bordados de crivo, bordados em ponto de cruz, bordados a palha de trigo sobre tule e crochês mostram habilidade e criatividade desse povo. Encontramos o inusitado artesanato com o miolo da figueira. Artesanato desenvolvido por monjas em séculos passados é ainda uma das mais raras e delicadas formas de criação artística.
O falecido Euclides Silveira da Rosa é o mestre mais conhecido desta arte. Seus trabalhos retratam cenas do dia a dia, edifícios, flores, animais e pequenos navios e suas obras estão em diversos Museus. Não é conhecido aqui no Brasil.
O interessante aproveitamento de escamas da diversidade de peixes da região nos mostra delicadas flores com que são feitos brincos, prendedores, quadros e até mesmo bordados com esse material. Temos artesãs no litoral gaúcho que conhecem e trabalham muito bem com escamas.
Sabe-se que a vinda dos casais açorianos para o povoamento da região centro-sul do Estado foi conscienciosamente selecionada para que famílias jovens e bem constituídas iniciassem a povoação da região. Muitos são os relatos de açorianos que quiseram buscar uma nova vida em nosso continente. A literatura açoriana nos proporciona muita informação sobre a emigração para o litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Narra, com assombroso realismo, dificuldades e sofrimentos dessas famílias, não somente na viagem como também nos anos que aqui viveram sem que as promessas feitas pelo Reino de Portugal tenham sido cumpridas.
“Em 1745, o rei D. João V enviava, ao Corregedor dos Açores, uma carta com propostas muito aliciantes para aqueles que decidissem optar pela aventura brasileira. Para além do transporte gratuito, aos potenciais interessados eram atribuídas ajuda de custo, alfaias agrícolas e sobre tudo, era-lhes prometida uma terra fértil aonde depressa poderiam prosperar”
Duzentos e sessenta e dois anos são passados. A essência da família açoriana- honradez, respeito aos pais, dedicação ao trabalho foi transmitida aos seus descendentes. Era numerosa e unida. O homem fazia a lida do campo junto com os filhos. A mãe, mulher geralmente prendada cuidava da alimentação, dos filhos menores, da confecção das roupas ajudada pelas filhas mulheres. O isolamento insular desenhou na personalidade feminina o conformismo e a paciência entre dotes e habilidades manuais. O aproveitamento das palhas do milho processado, dos retalhos de roupas sem serventia, das escamas dos peixes vendidos ou consumidos, das hastes do trigo colhido, enfim, todo material descartado para consumo econômico, passou a ser transformado em artesanato interessante e criativo. Também da preparação do fio da lã bovina, desde a lavagem, era transformado em abrigos e pesados cobertores com que se agasalhavam no rigoroso inverno sulino.
Muitos trabalhos foram sendo transmitidos através das gerações. Em Torres no extremo norte de nosso estado e litoral já encontrei lindos xales e leves mantas bordadas com escamas de peixe.
Em Maquiné, trabalhos semelhantes fazem o sustento de algumas famílias. A exportação de peças artesanais com tramas e tecelagem de resíduos vegetais, como bananeira, milho, e diversas outras folhas resulta numa renda bem considerável.
Mostardas, a cidade mais açoriana do Litoral Norte tem os famosos cobertores mostardenses como produto de exportação. Saem das mãos hábeis de mulheres que cultivam a tradição de suas avós. Também o aproveitamento de pequenos retalhos coloridos transforma-se em lindas colchas e até fazendo moda em roupas criativas.
Creio que consegui mostrar parte dos objetivos a que me propus. Logo a seguir estarei estabelecendo um novo elo entre o que sobrou do modelo de construção açoriano em nossa região litorânea. Continuarei sonhando com o reconhecimento que o Rio Grande do Sul deve aos ilhéus açorianos.

Marley Silveira Poletto
Capão da Canoa- Centro -Brasil

Natural de Itaqui – Rs. Professora pública estadual, aposentada. Artista Plástica com exposições no Brasil e no exterios. Ilustradora. Criou diversas capas para livros e revistas principalmente com temas regionais. Pesquisadora da açorianidade e da arte no Litoral Norte do rio Grande do Sul. Escreveu – Dos Açores ao Litoral, Rastros de Cultura, livro ilustrado com 430 fotografias dos locais percorridos na região. Faz parte do grupo “15 Renascidos” cofundadores da revista CAOSótica para a qual escreve a mais de dez anos. Participa também da revista 10 ª Ilha Açoriana - Edições Caravela. Em 2014- 2015 visitou escolas em Ponta Delgada e Horta –Açores- procurando informações sobre hábitos e costumes de jovens açorianos para trazer às escolas do Litoral Norte mais conhecimento das vivências da juventude açoriana incentivando, assim, o conhecimento e o respeito pela açorianidade nas famílias gaúchas.   

 

 

 

Livro de Visitas

 

 

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