FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

FLÁVIA, A VENDEDORA DE PERFUMES
Por Nelson Marzullo Tangerini


Eu a avistei de longe, quando dobrei a aleia do shopping. Ela estava de pé, na porta da loja, vendendo perfumes.
Abriu um sorriso para mim e me ofertou uma prova de perfume, num pequeno pedaço de papel.
Alta, magra, seios pequenos, cabelos não muito longos, elegante, gentil, educada, de bons modos, transbordava sensualidade e doçura. Tratava-me gentilmente como senhor. O que me perturbava um pouco, porque isto podia distanciar nós dois de um contato mais íntimo.
Mais nova que eu uns vinte anos, tratei-a, inicialmente como uma aluna, uma sobrinha ou uma filha.
Entorpecido por aquele perfume e pela sua beleza leve e simples, acabei adentrando na loja para experimentar outros perfumes. Gosto da essência de Madeira.
Havia outras moças na loja, mas só ela me interessava.
Percebia suas mãos nervosas e tentava imaginar o que se passava naquela cabeça e naquele coração. Pela minha cabeça passava o que se passa pela cabeça dos homens, quando uma mulher lhe chama a atenção e o atrai, enquanto meu coração disparava escondido, para que ela não ficasse cheia de si.
Nunca fui tão ousado e atrevido e perguntei-lhe se gostaria de tomar um café comigo, ali mesmo no shopping. Ela disse que sim, mas só depois do expediente, às 18 h.
Eram aproximadamente 17 h e eu lhe disse que passearia no Shopping e voltaria à loja por volta das 18 h.
Enquanto isto, pensava comigo como uma mulher bem mais nova, talvez uns 20 anos mais nova, podia me dar tanta atenção. - Foi apenas um sorriso, poeta. E talvez apenas uma amizade esteja prestes a se iniciar.
Caminhei pelas vias do shopping tentando pensar em alguma outra coisa e dei um tempo numa livraria para, curiosamente, folhear livros que já havia lido.
- Será que ela gosta de ler?, pensei ainda.
Voltei ao local e Flávia – vou chamá-la de Flávia - me esperava pontualmente na porta da perfumaria.
Caminhamos lado a lado, conversando pelos corredores do shopping e fomos a um café para, ali, finalmente, nos conhecermos melhor.
Apresentei-me novamente. E acrescentei: - Sou professor. De Língua Portuguesa e Literatura. Seu nome, Flávia, ainda permanecia inadvertidamente no crachá. Esquecimento? Ou ela queria que eu fixasse seu nome. “- Gosto de literatura”, ela me disse, e ficou ali citando nomes de autores e obras. “- Gosto de jazz e bossa nova”, continuou.
Convidei-a para jantar e ela aceitou. Jantamos num restaurante ali mesmo no shopping, não nos importando se amigos dela poderiam por ali passar.
Em alguns momentos demoro a tomar uma decisão. Noutras vezes, ajo de maneira rápida. Foi quando, à mesa, disse-lhe que a havia achado interessante, que gostara dela. Segurei sua mão e ela nada falou. E sorriu. E disse que havia gostado, também, de mim.
Alguma coisa nos incendiava por dentro. E não sabemos ainda explicar essa loucura a primeira vista.
Fui levá-la em casa. Olhei para ela. Ela olhou para mim. Toquei com carinho seus cabelos. E... nos beijamos.
Confiando em mim, ela me convida para subir e conhecer seu apartamento. Fiquei um pouco preocupado, uma vez que mal nos conhecíamos. Mas aceitei o convite.
Ficamos sentados no sofá da sala conversando e nos beijando, até que um fogo nos tomou por completo até fazermos amor loucamente, no sofá da sala, no tapete da sala, em cima da mesa, na cozinha e, enfim na sua cama de casal faltando um pedaço.
Passamos a noite juntos e, pela manhã, fui para a cozinha fazer o café para ela, enquanto Flávia tomava banho e se preparava para mais um dia de trabalho.
“- Acho que me precipitei”, disse ela. “- Não sei o que você vai pensar de mim”, prosseguiu. Disse que não, que não pensava nada, que estávamos em 2014 e lhe disse ainda que achava tudo aquilo uma coisa natural, completamente compreensível.
Estava separada do marido, que a havia trocado por uma mulher mais nova, uma amiga, que, inclusive, frequentava sua casa.
E me disse ainda que pensaria se voltaríamos a nos encontrar. Aguardo o seu telefonema ansioso, porque gostei dela, porque a respeito, porque aquele momento de carinho e entrega ainda está registrado em minha mente. E porque ainda sinto seu corpo em minhas mãos.

Nelson Marzullo Tangerini
Rio Claro - RJ - Brasil

Nelson Marzullo Tangerini, 60 anos, é escritor, jornalista, poeta, compositor e professor de Língua Portuguesa e Literatura. É membro da UBE [União Brasileira de Escritores], do Clube dos Escritores Piracicaba, onde ocupa a Cadeira 073 – Nestor Tangerini, da ALB [Academia de Letras do Brasil] e da ABI [Associação Brasileira de Imprensa].   

 

 

Nicolau Saião

 

DOIS TEXTOS SOBRE JOSÉ RÉGIO
Por Nicolau Saião


1. Régio, como proposta e exemplo

Friedrich Holderlin, o grande poeta alemão cujo fado penoso o fez mergulhar nas brumas do espírito cerca de quarenta anos, disse num dos seus poemas "Quem pensou o mais fundo ama o mais vivo". Esta frase pode aplicar-se, com inteira propriedade, a Régio e à sua obra.
Com efeito, toda a escrita do autor de "Davam grandes passeios aos domingos" é uma intensa celebração da vida ainda que por intermédio, até, de ritmos que apontariam para a nostalgia das moradas celestes. Os grandes autores, os autores nobres na completa acepção da palavra, é sempre para a vida e os seus prestígios, maiores ou menores, que norteiam o seu verbo, os seus amores e desamores, a íntima razão iluminada que os venha a salvar e permita também aos que os leiam a travessia de tempos ou lugares onde a ignomínia permanece ou tenta permanecer.
Basta ler os seus poemas, mesmo aqueles onde brilha a tristeza ou a dúvida, a sua prosa crítica, os seus romances e novelas, o seu teatro, para entender isto: em Régio, nenhuma ponta de cinismo ou de futilidade, de inflexões espúrias filhas das modas de arrabalde ou de megalópole vêm empanar o fulgor tanto do seu pensamento como do seu lirismo. Aquilo que articulou, com maior ou menor trajecto, tem sempre o selo da autenticidade, mesmo autocrítica, da fruição vital, mesmo dolorida - essa chancela vigorosa e certeira que possibilita às obras e aos homens que resistam ao decair dos anos e à erosão das épocas.
O desespero, por vezes, visitava-o e eis que lhe respondia - com o pundonor de Poeta - com a "Toada de Portalegre". Era a dor de ter perdido alguém que o pungia - e eis as páginas vibrantes de drama e de força poética de "A velha casa", onde se sente perpassar o vulto, discreto mas significativo, como nas maiores dores, de uma filha rememorada. Perturba-o o acordo/desacordo entre ele e Deus, entre ele e o símbolo do Homem encarnado e terreno cuja origem é de matriz divina? Eis os poemas que dessa luta resultam, sejam os de "Filho do Homem" como os outros onde se debateu com a grande equação metafísica.
"Quem pensou o mais fundo ama o mais vivo"... Sem dúvida e o infausto Holderlin, filho das musas e das parcas viu longe e alto. E repare-se que José Régio, mesmo tentado pela corda dos desesperados, jamais cedeu - mesmo apenas conceptualmente - ao abandono da cena. Digno, perscrutador, atento, de escrita vigiada e sem os arroubos fáceis de gente menor, sorveu até ao fim, "no gosto de mais um dia" a existência salubre dos criadores verdadeiros.

2. Relance sobre a pintura de Régio

Desenhar era, para Régio, uma naturalidade. Importa logo de início epigrafar esta naturalidade, que cultivara desde muito novo – quando ele e seu irmão Julio (como Joaquim Pacheco Neves assinala no seu livro Os desenhos de Régio) pintavam lado a lado nesse tempo de Natal colorido pelos prestígios da memória.
Independentemente de ser uma naturalidade era uma faculdade que ia bem para além do gosto inato de qualquer ser votado aos mundos onde o fulgor das coisas espirituais nos faz andar atentos à Arte. O mínimo que se poderá dizer de Régio é que era um bom desenhador – mesmo um excelente desenhador. Pintor de domingo? Bom – só se a maior atenção dada às letras e aos seus duros caminhos de concretização (para encher a célebre página branca é preciso muito esforço, muito suor, para além do talento, o que não está ao alcance dos zoilos) o remete para essa qualificação, aliás inadequada e frequentemente pacóvia. Claro que para um indivíduo como Régio não há hobbies deste cariz – são algo de demasiado fundo e grave, com a gravidade sagrada da vida e da mirada que sobre ela lança um ser de excepção como Régio foi.
Assentemos portanto que nele o interesse pela pintura e o acto de desenhar/pintar era um dos aspectos da sua rica vida de relação com os mistérios da arte entendida por extenso. Depois, se nos debruçarmos sobre o seu traço, os seus temas (a sua maneira ou, para utilizarmos a expressão do grande crítico português de artes plásticas, o arqtº Mário de Oliveira, a sua intenção) verificaremos que não andava longe do que se fazia naquele tempo: um figurativismo lírico em tons ora mansos ora adustos jogando com as cores complementares.
A visitação da figura humana é uma das constantes a que recorria, fossem essas figuras de entalhe sagrado ou profano. E, neste caso, haveria também que perguntar: onde fica traçada a linha que absolutamente separa o profano do sagrado? Pergunta que já a propósito de obras de diversos pintores autóctones ou estrangeiros – pense-se em Beckman, por exemplo, ou em Chagall ou, entre nós, em Mário Botas – se tem colocado, visto que uma figura de mulher é frequentemente a figura da Virgem (e vice-versa) e a figura de um mendigo pode ser a figura de Cristo, noutra encarnação, noutro místico enquadramento, noutra dimensão real ou onírica.
Régio revela-se inteiramente nessas silhuetas contorcidas, nesses rostos arrepanhados, nessas expressões de êxtase, de fúria, de inconcreta estupefacção – de interrogação, de medo, de alguma esperança. E, estranhamente, nalguma súbita frescura de um rosto, de um olhar, de um movimento, de uma feição secreta. Como Claude Roy, poder-se-ia perguntar: “Essa frescura será uma ilusão do nosso olhar ou a expressão da unanimidade das origens?”.
Na sua singeleza, há que ver os desenhos de Régio como os irmãos daqueles que Julio executava. Não é difícil, não é mesmo possível, não se ver nos de Régio a versão como num espelho trágico daquilo que em Julio é calma e lirismo, mas uma calma e um lirismo bafejados pelo sopro dum surrealismo metafórico, carregado de significados poéticos e de serenidade duramente conquistada. Julio (Saúl Dias), que tenho como um dos maiores poetas do século vinte português (a minha participação na homenagem que lhe foi feita em livro organizado por Valter Hugo Mãe não foi um act gratuit da minha parte, pois não escrevo textos de circunstância – e sim uma atitude de puro apreço) foi igualmente o protagonista central duma incursão da maravilha pictórica no mundo por vezes contraditório da pintura portuguesa. Régio, votado a outros mesteres mais instantes, que lhe carregavam o quotidiano de tarefas que à escrita iam desaguar, teve o seu percurso de diferente recorte. Mas o que fez brilha e distingue-se, porque pelos seus próprios meios se tinha – mais uma vez parafraseando Roy – humanizado, enriquecido, metamorfoseado.
E isto, repare-se, ante os mundos do alto e os do baixo: os da carne e os da alma, para tudo dizer

Nicolau Saião
Portalegre - Portugal

Nicolau Saião (Monforte do Alentejo - Portalegre, 1946). Pseudónimo artístico de Francisco Garção. Poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico. Participou em mostras internacionais de Arte Postal, além de ter exposto individual e colectivamente em diversos países na Europa, África, Américas e Oceania.
Tem colaboração diversa na imprensa cultural de Portugal, Espanha, França, Chile, Brasil, Argentina, México, EUA, Bolívia…
Prémio nacional Revelação/Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro “Os objectos inquietantes” (Editorial Caminho). Autor ainda de “Passagem de Nível” (1992), “Flauta de Pan” (1998),), “O armário de Midas” (Moçambique, 2008), “Os olhares perdidos” (Portugal 2001, Brasil 2007), “As vozes ausentes” (Brasil 2011)…
Fez a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (Black Sun Editores, Portugal e Nephelibata, Brasil).
Palestras e conferências no país e no estrangeiro (Espanha, França, Itália, Brasil, Canadá…). Foi um dos representantes de Portugal na Bienal de Fortaleza 2008 (Ceará, Brasil) e nas comemorações dos “500 Anos de Amato Lusitano” (Castelo Branco, 2011) e “Celebração de Miguel de Unamuno” (Salamanca, 2012).
Realizou e protagonizou o programa radiofónico semanal “Mapa de viagens” (Rádio Portalegre, 36 emissões), na qual deu a conhecer e/ou divulgou escritores, cineastas, pintores, críticos, cientistas e cantautores, nacionais e estrangeiros.
O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canções lusitanas”.
  

 

 

 

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