FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Prof. Vasko

 

A INVEJA
(participação das seletas de Lisboa e Canindé)
Por Prof. Vasko


Somos todos iguais?
Este intrigante e instigante questionamento, além de antigo, comporta duas respostas diametralmente contrárias: sim e não, o que tentarei explicar.
Somos todos iguais, na medida em que pertencemos à mesma espécie de animais, gerados da mesma forma, nascemos com a mesma anatomia e mesmos sentidos.
Quando a vida termina, nosso corpo, independentemente do que fomos ou tivemos, é decomposto da mesma forma, voltando ao pó de que viera.
Somos todos iguais, enquanto dotados da mesma capacidade de raciocinar, distinguir o bem do mal e o bom do mau.
Muitas Constituições, em derredor do Planeta, proclamam a igualdade entre os seus legislados; incontáveis credos e agremiações de todo gênero pregam essa mesma condição igualitária entre seus adeptos, embora tal doutrinação, no mais das vezes, não transborde o plano teórico-normativo.
Quanta semelhança, notadamente nos aspectos naturais (e legais?)!
Por outro ângulo, somos diferentes, porque o mundo nos recebe de acordo com a situação econômico-social da nossa família.
Somos inferiorizados, em virtude do odioso preconceito de que somos vítimas, apenas porque detemos modesto poder aquisitivo, revelado pelo sobrenome, pelo induto e pelo endereço.
Somos apequenados, quando, a um simples olhar, percebem que a nossa epiderme contém mais melanina do que o socialmente aceitável.
Finalmente, humilham-nos, tão somente porque nosso linguajar não obedece aos padrões da norma culta.
Quanta dissimilitude, máxime nos aspectos econômico-sócio-culturais!
Mas, onde se insere a inveja neste contexto?
Inveja (do latim “invidia”) é um dos tantos sentimentos negativos que consiste no desconforto psicológico pelo sucesso de outrem, podendo chegar à prática de violência de todas as formas e intensidades, no sentido de inviabilizar aquela felicidade.
Como explanado acima, somos muito desiguais durante o período vital: do nascimento ao exício. E esse desnível gera em alguns seres humanos o desejo de ser igual a quem ostenta maior talento, habilidade ou prestígio de qualquer natureza.
Muitas vezes, tal desejo é inóxio, não passando de simples admiração: é a inveja salutar que estimula o crescimento rumo ao sucesso.
Noutras, entretanto, o sentimento chega a ser abominável, uma vez que o invejoso, tal como o sapo, torna-se desarrazoadamente inimigo do invejado, qual o vaga-lume da fábula abaixo.
Entre o gramado do campo
Modesto, em paz se escondia
Pequeno pirilampo
que, sem o saber, luzia.

Feio sapo repelente
Sai do córrego lodoso,
Cospe a baba de repente
Sobre o inseto luminoso.

Pergunta-lhe o vaga-lume:
- "Por que me vens maltratar?"
E o sapo com azedume:
- "Porque estás sempre a brilhar!".

A literatura está repleta de provérbios que repudiam o exercício da inveja. Observamo-los, a flux, nos para-choques de caminhões.
Eis alguns.

“Aos olhos da inveja, qualquer sucesso é crime".
“Não me inveje, trabalhe”.
“Todos somos, a um só tempo, invejados e invejosos”.
“A inveja é como a ferrugem: corrói quem a tem".
“Não há glória sem inveja”.
Na minha avaliação, entretanto, o adágio mais curioso é “a inveja reina entre os conhecidos".

Com efeito, esta é uma das suas características mais evidentes: desenvolver-se entre pessoas muito próximas entre si.
Uma pessoa comum pode até odiar o Papa, mas dificilmente cobiçará a sua celebridade.

A inveja, constitui, infelizmente, algo congênito aos mortais. Basta lembrar que o primeiro homicídio conhecido dela se originou.
Todavia, se impossível erradicá-la, cabe-nos ao menos disciplinar o seu desenvolvimento nos nossos corações.

“Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris”, lembra-te, ó homem, de que és pó e ao pó voltarás.

Francisco das Chagas Vasconcelos
Pseudônimo: Prof. Vasko
Sergipe - Brasil

Aposentado do Banco do Brasil, advogado (OAB/SE – 2412), radialista (DRT/BA – 4869/2001), jornalista (DRT/SE - 956/2003), pós-graduado “lato sensu” em Administração de Empresas, Didática do Ensino Superior, Gestão Escolar e Língua Portuguesa. Sócio Militante da ASI – Associação Sergipana de Imprensa, Membro do Círculo de Escritores de España, Membro Honorário da ACB – Academia de Cultura da Bahia, Título de Escritor Destaque Sergipe 2015 e Comenda Marechal Floriano Peixoto concedidos pela Literarte - Associação Internacional de Escritores e Artistas, Título de Cidadão Gloriense concedido pela Câmara Municipal de Nossa Senhora da Glória (SE), Membro do MAC da Academia Sergipana de Letras, Membro fundador da AGL – Academia Gloriense de Letras, Idealizador e atual Presidente da ALAS – Academia Literária do Amplo Sertão Sergipano.  

 

 

Rejane Machado

 

O PODER DA DOÇURA
Por Rejane Machado


Quantos anos são passados? Vinte ou trinta? Talvez mais? Não importa, o que sei é que quando me ponho a revolver estes acontecidos dá-me a impressão de que foi ontem. Todos os muros temporais são derrubados, todas as barreiras caem. Vejo-me outra pessoa, muito jovem, outra personalidade; meu temperamento se altera- pensamentos se sucedem uns sobre os outros, quase ao mesmo tempo, o que é isto?- e me percebo entre o ontem e o agora, em busca de uma explicação razoável, mas, curiosamente eles não se confundem. Cada um é original e independente do outro, mas se encadeiam e me sinto no centro de todos. Vem chegando, aos poucos, e se adensa, uma bruma bem distante, de além do tempo. Ela me envolve e tudo muda ao meu redor. Estou cheia de energia e me sinto capaz de abraçar o mundo.
Caminho em círculos nesse presente que passou. As sensações são muito reais, muito vivas. Há um toque festivo de um misterioso sino, cujo som ecoa distante, e se propaga como num campo desértico, de dimensões fora do comum. Lembra-me uma das mais lindas melodias de Ketelby. E logo em seguida, lá está você. A pujança da sua juventude, seu olhar dominador, de cima da sua montaria. O animal não estava em calma, é um puro-sangue árabe, tornou-se indócil porque havia nele muita disposição para alcançar o final da estrada que leva ao sopé da montanha onde já não poderia correr, mas teria esgotada sua necessidade de exercício. O passeio foi curto, não o satisfez, e você lidava com a dificuldade de controlar seu ímpeto. Percebendo isto e observando seu esforço eu sugeri que você continuasse o exercício, satisfazendo a necessidade do animal, galopando até à encosta, felicitando-o na sua ânsia de liberdade. Fingi um desinteresse absoluto pelo rumo que você tomaria e voltei ao meu livro, sem enxergar nenhuma letra, sem compreender nada do que lia, as letras se embaralhando, não formando sentido algum.
Talvez um pretexto para observar disfarçadamente este galante cavaleiro? Ou para conseguir um tempo para me refazer, uma vez que ele surgiu da bruma, tão de repente? Eu estava só, mas não solitária. Ao contrário, havia um mundo de seres à minha volta com suas dúvidas e suas angústias. Devido à perícia do narrador eu me colocara fora dos acontecimentos que se desenrolavam diante dos meus olhos, fazendo apenas julgamentos de valor e prestando atenção à técnica original da escritura- algo um tanto fora de moda, cheia de heranças barrocas, portadora, entretanto, de um certo interesse na sua trama complicada.
Eis que, trinta minutos decorridos está você de volta. Mas não vem diretamente a mim, entregou o animal ao cavalariço. Abriu a torneira sobre a cabeça, deixou que a água corresse, bebeu sofregamente alguns goles, tirou do bolso um pequeno pente e passou nos cabelos molhados. Observei tudo com muita discrição. Não queria mostrar minha ansiedade, procurei respirar calmamente, controlando as batidas do meu coração. Seu aspecto, após a cavalgada, era o de um menino que acabou de realizar uma aventura um tanto ousada.
-Posso falar com você? - os sinos recomeçaram na campina, leve aragem fez mover as folhas da árvore, uma desconhecida pétala de incógnita flor caiu sobre meu colo. Você me fizera uma pergunta, cabia-me responder. Dei-lhe toda minha atenção. Marquei sem pressa e cuidadosamente, a página que não lera. Teria que voltar mais tarde e reler as quatro ou cinco anteriores que apenas haviam passado sob meus olhos. Pousei o livro delicadamente ao lado da cesta de tricô, e olhei firme para você.
- Claro- respondi finalmente, após alguns segundos.
Começou por sentar-se perto de mim, depois esticou-se a fio comprido no gramado e deixou-se ficar quieto por algum tempo. Não parecia ansioso ou preocupado. Procurei ajudá-lo: está muito cansado? Você escolheu o cavalo mais esperto de todos, essa raça é especial, agitada. Não tem andadura nenhuma, gosta só de galopar. Precisa ser treinado ainda! Por que não consultou antes, o rapaz? Para passear ele lhe teria sugerido um outro, poderia ser aquele...(como conseguira falar tanto de uma vez só, se praticamente nunca conversáramos nada até então que não fossem fórmulas de saudação e gentilezas que a boa convivência entre hóspedes exige?) Interrompeu-me, não queria exatamente falar sobre cavalos, e para encerrar o assunto, ficasse eu sabendo que ele escolhera muito bem, queria mesmo um animal fogoso, não lhe agradava outro, mais comportado. Animais e pessoas. Gostava de coisas e pessoas fortes. Levantou-se, ficou sentado de novo, inteiramente virado para mim.
-Por isso é que gosto de você.
Não esperara nunca ouvir tais palavras. Completamente surpreendida, não poderia imaginar que fizesse parte das atenções dele. Todas as moças da fazenda o disputavam. À noite, antes de dormir, conversávamos no grande quarto de quatro beliches, e cada uma pretendia ter uma história melhor para contar sobre ele: cumprimentara carinhosamente a uma, desejara saúde a outra que espirrara, apanhara gentilmente o lenço da terceira (só eu não tivera nada para contar). Mas não pedira nunca para falar com nenhuma. Eu teria que guardar este segredo. Provavelmente aquela entrevista não deveria estar sendo registrada- elas todas haviam ido á cidade, eu escolhera aquele recanto para ler, por causa da solidão e tranqüilidade do ambiente, rota inabitual de empregados e servidores.
Não respondi. Procurei abafar a comoção aguardando. Fazendo de contas ser uma coisa muito natural que um rapaz tão disputado por tão encantadoras moças, escolhesse justamente a mais tímida delas, a mais modesta, a mais desinteressante. Mas não podia negar que aquilo vinha abalar a minha fortaleza. Pensava nele em todos os momentos, desde que o conhecera numa festa no ano passado, naquela mesma fazenda do seu tio, onde passava férias, juntamente com outros membros da família e convidados do anfitrião. Tio Anselmo tinha necessidade de muita gente ao seu redor.
Não poderia, agora, recuperar todo o teor da conversação. Falamos de livros, de poesia, de música, de viagens. Ele me olhava com muito interesse mas suas palavras eram somente gentis, não comprometedoras, por isso eu estava confusa, mas feliz ao mesmo tempo. Talvez esperasse ouvir galanteios, elogios, como era comum em tis situações, mas não me deixei levar pelas impressões enganosas que o coração abriga. Cabia-me esperar. Não mostrar, jamais, minha ansiedade.
Analisava friamente. Ele dissera que queria falar, conversar comigo. Conversar e não fazer alguma declaração. Dissera também gostar de mim, da minha fortaleza (em que se baseava para encontrar fortaleza neste frágil coração?) Não tinha elementos para atribuir segunda intenção àquela simples entrevista, portanto não deveria me vangloriar.
De lá percebi o carro na estrada, ao longe. Em dez ou quinze minutos as gralhas encheriam o espaço com a sua algazarra e paz se acabaria
-Acho que vou indo- murmurei timidamente. Você não insistiu, agradeceu pela boa companhia (foi o que falou) e voltou a esticar-se no gramado, imóvel.Quando o carro entrasse no pátio eu já estaria tomando o meu banho da tarde, e ninguém poderia ler nos meus olhos a emoção vivida naquela tarde que agora recordava com todo fervor.
Foi muito tempo depois disso. Ao entrar no avião percebi que não havia como me livrar de um cavalheiro alto e cheio de pacotes que vinha correndo em direção contrária, e quase me derrubou. Você. Uma das minhas sacolas se abriu e livros se espalharam pelo chão. Quase batemos as cabeças, o que nos divertiu, quando, após as desculpas iniciais nos reconhecemos. Você errou o portão de embarque e voltava, aflito, quando ouviu o alto-falante fazer a última chamada de passageiros. Não sei porque naquele momento me lembrei do cavalo impaciente que você montava naquele dia na fazenda durante as nossas férias e da imensa frustração que senti, naquela distante manhã seguinte, quando vi da minha janela o taxi que o esperava diante do alpendre levá-lo embora sem se despedir de mim. Eu lhe parecera tão indiferente que você desistiu de me procurar outra vez, achando que não teria chance. E não ficou sabendo que eu senti tanto a sua falta!
Viajava a negócios da firma, e achei melhor desistir do curso que ia fazer. Não podia desperdiçar a chance que o destino me concedia pela segunda vez na vida. E optei por acompanhá-lo, descobrindo ao seu lado todas as doçuras da vida
Voltamos, muitas vezes à fazenda. Nossos filhos quase foram criados naquele antigo casarão, tão acolhedor, com suas varandas perfumadas em meio à garridice dos pássaros. E sempre recordávamos aquela primeira entrevista que nos deixou tão ansiosos. Passávamos lá todas as férias, fazíamos longas caminhadas e líamos, enquanto os pequenos corriam pelos campos, suas risadas chegando até nós. Nem sentimos o tempo passar, não foi mesmo? Até que um dia Marcos se formou em Medicina e foi trabalhar tão longe de nós. Mirthes, adulta, com uma bela carreira iniciada, encontrou a outra metade da sua alma e também nos deixou.
Daqui deste segundo andar eu o vi chegar, muitas vezes, cansado e faminto de suas cavalgadas. Trazia muitas histórias para mim, nunca esquecia de um ramo de flores, buscava meus olhos para tranqüilizar-se. Até que um dia você não voltou sozinho. Dois homens o traziam e seus olhos estavam fechados para a casa, para mim e para todas as doçuras da vida. Esse retrato que olho e com quem falo não é você, meu amor. É apenas uma representação muito simples do belo homem que sempre foi.
Estive fazendo umas contas, sabe? Não imaginei que resistisse tanto tempo sem você. Custei muito a sair daquela depressão, foram anos e anos em que o mundo parou inutilmente à espera dos meus sinais de vitalidade. Como sofreram aqueles pobres queridos seres, como tentaram me interessar nas coisas do mundo. Viagens? Não precisava delas Dentro de mim estavam vivas todas as paisagens que descortinamos juntos, a ressonância de todos os espetáculos que assistimos, numa quadra feliz da nossa juventude. Teatros, cinemas? Todos os dramas que vivenciamos estão atualizados dentro da minha memória. Conservei o gosto pelas melodias que amávamos, o que funcionou como um fundo musical para o nosso dia-a-dia. Há pouco quando a última nota da canção que você tanto amava- No jardim de um mosteiro, lembra?- se extinguiu, o silêncio absoluto me fez voltar aos nossos belos dias. E ouvi de novo aquele sino na campina.
Então, para que sair, ficar longe das nossas raízes? Se nada teria sentido sem a sua companhia?
Ouço um galopar nervoso. Vejo daqui um garboso cavaleiro que chega, me sorri, me envia beijos com a ponta dos dedos. Olho-o encantada, que bela figura! O mesmo porte elegante aprumado em cima do cavalo inquieto que não admite parar. Chama-me, deseja mostrar-me o pôr do Sol à beira do lago. Sim, querido, vou, deixe-me somente procurar um chapeuzinho, aquele que você tanto gostava, para ficar mais bonita para você. Porque o sol está ainda um pouco forte, embora Vesper já se faça notar neste céu tão sem nuvens...

Rejane Machado
Rio de Janeiro - Brasil  

 

 

 

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