FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Silas Corrêa Leite

 

QUARTO DE DESPEJO, UM CLÁSSICO ESCRITO COM FOME, TRISTEZA E DOR
Artigo/Opinião
Por Silas Corrêa Leite


-Eu era muito guri de tudo, quando se assomou em minhas mãos de imberbe leitor voraz e precoce, o livro QUARTO DE DESPEJO de Carolina Maria de Jesus, Diário de uma Favelada, em edição acho que do Clube do livro, tipo livro de bolso, e que à época por assim dizer era meio que mal visto, algo censurado nas famílias, aqui e ali algo pecaminoso, se é que me entendem... Eu mal-e-mal era um rapaz de cabelo na testa que amava os Beatles e Tonico e Tinoco. Vão vendo. Eu romântico, virgem, algo bocó de mola, fiquei cismado com o livro que me assustou, a miséria contando, uma favela, uma negra. O que mesmo que era favela? Brasil de anos 50, 60. Eu que era inocente puro e besta, li o livro como um susto, um coice, uma apuradíssima noção de real que da narrativa a palo seco não compreendia de pleno, inteiro, nem poderia, na minha casa em Itararé, em que estávamos todos felizes e ninguém estava morto...
-Então aquilo existia, realmente, de pobre, negro, mãe solteira, favelada? A catadora de papel expunha sua vida-livro também. Doía ler. Sua cruel realidade arrebentava em nós. Ela falava pela mão da miséria, pelo punho pesado do dezelo. Literatura-verdade, literatura-documentário. As mães, filhas da pátria, num canto, no ermo, sem eira e nem beira, dando testemunho de sua vida, em páginas de sangue, suor, lágrimas. E fome, angustia, solidão, miséria, medo-ranço, dor. Será o impossível? Tem cabimento? Atinei-me com aquilo todo de um historial marrento. A dor escrevendo errado por prismas contundentes. Que despejo de vida, hein?
-O livro que depois reconhecidamente virou bestseller e ganhou edições planeta afora, trazia um mundo desconhecido pra mim, um sonhador, um pobrinho que pelo menos era rico de família, de pai, rico de mãe. Mas havia aquela realidade sendo escrita a ferro e fogo. E eu lendo aquele desmundo, um quarto de despejo. O dia-a-dia de uma favelada, sem estudos, carente, sofrida, abandonada, a própria dificuldade da autora para obter comida, para o sobrevivencial de cada manhã. A coragem de Carolina Maria de Jesus, a sua sensibilidade, a sua contação, a sua narrativa, tudo isso mexendo com os medos da gente, os brios instintais da gente, a mente atiçada de um eterno aprendiz da alma humana, já na formação da persona ali, sondando de butuca mundos e fungos, ícaros e ácaros... amor e flor, amor e dor na capital daqueles tempos que não voltam mais...
-Audálio Dantas, um jornalista hoje de renome e premiado, descobriu os diários da favelada. A história sangrava pelos cotovelos. O faro fino do repórter iniciante que depois se consagraria por uma postura ético-plural comunitária, ali vendo o corpo nu de uma vida, de uma história que merecia ser levantada dos escombros do chão, de uma sofrência, de uma dura sobrevivência a ferro e fogo. A fome, a principal personagem. O livro gerou polêmica, a fome ganhou um símbolo, a cor amarela, a tragédia foi pontilhada, o sofrimento revelado ao mundo, em mais de vinte países, e os quartos de despejos aumentando a enorme divida social nesse Brasil de tantas riquezas impunes, de muitos lucros injustos, de várias propriedades roubos, e essa enorme dívida social desde a libertação dos escravos que libertou mas não indenizou, depois a falta de uma reforma agrária, o golpe da canalha de 64, até o dezelo publico amoral de um presidente comunista, ateu e sociólogo, que deu com os burros nágua, privatarias, terceirização neoescravista, o funesto neoliberalismo câncer e o Brasil S/A criou outras tantas Marias, Carolinas, Alices, Clarices, Anas, todas numa abandonada periferia a deus-dará... feito uma Favela Ordem e Progresso...
-Carolina Maria de Jesus virou um mito. Quarto de despejo tornou-se um clássico. Certamente que daria o roteiro de um belo filme ou minissérie. A dor da gente não sai no jornal? Mas sai nos livros, rompe becos, guetos, palafitas, porões, favelas e cortiços. Favores, esmolas, caridades de percurso. “Quando pobre come comida forte, dá uma tontura”(pg 158,17 de Janeiro.). O livro virou um marcante e datado mosaico da luta dos moradores da Favela Canindé, de São Paulo de tempos idos, de décadas atrás, e na sua linguagem simplória, mas crucialmente dá testemunho de seu tempo, de sua dor, de suas amarguras. E diz ela, reproduzindo-se a linguagem dos seus originais: “Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia...”
-“O impacto de “Quarto de despejo” catapultou o sucesso de Carolina de Jesus para além das nossas fronteiras e dela mesma. Quando morreu, em 1977, morando em um sítio de sua propriedade, chegou a dizer que era melhor ter continuado a viver na favela. Em verdade, nunca lhe saíram da curtida pele os efeitos de sua pobre vida, como catadora de papel e intelectual da miséria”. *Uelinton Farias Alves.
-E vai a contação: “Tive uma infância atribulada”. “Passei 23 anos mesclada com marginais”. “É preciso gostar de livros para sentir o que senti”. “Nós os pobres somos trastes velhos”. “Não há coisa pior na vida, do que a própria vida”. “Eu escrevi a realidade”. Esses são os gomos amargos das laranjas amargas da vida de Carolina Maria de Jesus, num verdadeiro testamento doloroso de uma alma, uma mente, um coração, tudo dizendo a que veio, tudo rompendo barreiras, estrebuchando, e botando as ideias para darem testemunho, e colocando a própria dor de existir para quarar na tábua de tristices da vida.

Site com vida e obra da autora:
http://www.vidaporescrito.com/

Post-scriptum

Poema Historial
TRIBUTO HOMENAGEM
Poema Saudade Para Carolina Maria de Jesus
 

Carolina de Jesus, tu, ainda soas
Na consciência dos podres poderes
Desde muito tempo são tuas loas
E eles ainda sangram teus quereres

Ah se tu soubesses, poeta Carolina
Que as favelas aumentaram mais
Misérias já não estão nas surdinas
Mas ostentam sangue nos jornais

Teu livro, Carolina, tua triste vida
Hoje outras em periferias tantas
Divida social, uma severina ferida
Que banzos em tuas páginas cantas

Tantas Carolinas Maria de Jesus
Becos, cortiços, favelas, medos
Todos hoje lembram a tua cruz
E têm as deles; novos degredos

Escreveste a alma de um passado
Que no presente ainda é bem pior
O povo da periferia abandonado
E a riqueza impune cada vez maior

O município, quarto de despejo
Depois o estado, e no plano federal
Em cada excluído Carolina te vejo
Em teu enredo de lágrima ancestral

 


Negra, pobre, catadora, favelada, sensível, escreveste
A página de tua vida errante, em sangue, em lágrima, em pus
A bruteza do Brasil amalgamado em tua rica alma leste
Serás sempre brado retumbante, Carolina Maria de Jesus...

Silas Corrêa Leite
Itarare - Brasil
www.artistasdeitarare.blogspot.com
  

Professor, Jornalista Comunitário, diplomado Conselheiro em Direitos Humanos, Blogueiro e escritor premiado membro da UBE-União Brasileira de Escritores.

 

 

Silvino Potêncio

 

"OS NÏZCAROS! " (049) --- são estas as outras "(des) ilusões" patrióticas do nosso tempo!!!
Por Silvino Potêncio


- Há longos anos que eu lancei esta fórmula: - Portugal é um país traduzido do francês em vernáculo. (autor: Eça de Queirós), entretanto eu concluiria por mim mesmo ao longo destes últimos 40 anos ou mais: A secura, a impaciência, com que ela foi acolhida, provou-me irrecusávelmente que a minha fórmula era subtil, exacta, e se colava à realidade actual como uma pelica.
E... para lhe manter a superioridade preciosa da exactidão, eu fui bem depressa forçado a alterá-la de acordo com a observação pessoal e a minha própria experiência de vida já vivida.
E... de novo eu a lancei aqui agora assim aperfeiçoada: - Portugal é um país traduzido do "francês" em calão! (autor: Eça de Queirós).
Finalmente: ... passados mais de cem anos desta observação ideológica, eu acrescento agora em nome do finado Mestre da Lusofonia algumas das minhas observações.
- eu mesmo, sendo um simples homem de CARAVELAS de MIRANDELA, eu não sei me traduzir muito além do Marão, de Trás-Os-Montes.

Assinado:- Silvino Potêncio/Natal - Brasil, Emigrante Transmontano, des iludido, des consulado, des mistificado, des terrado, des garrado do rebanho a caminho de Murça!,... onde se prevê realizar o próximo encontro de escritores, poetas e outros trabalhadores da perenização da nossa cultura.

Eis aqui as minhas outras (dez) ilusões (parte II)

"Des ilusão" número quatro:

- perante um facto realista de uma existência que não tivémos na nossa juventude, nem na nossa adolescência, foi a nossa idade de sonho vivida ao serviço da pátria.
E, lá nos apresentámos perante a vida como um todo em sociedade não registrada nem aceita pela comunidade internacional que estava ali apenas como meros algozes do estertor final,... do esvair em sangue a herança dos "magriços" e dos "mapas cor de rosa"!
Postos em cima de panos quentes molhados, ainda frescos do mergulho em sangue jovem abertos para um retorno triunfal na condição de RETORNADOS... Já então éramos uns verdadeiros seguidores do Pretoriano Santo São Jorge (e ainda somos...) a subir as vielas da Mouraria para entrar no portão Grande do Castelo de São Jorge, depois de atravessar a Rua do Capelão e deixar para trás a Senhora da Saúde.
Lá De dentro da porta maior, alguém gritou lá do Alto da torre de "ménage à trois" - O Estado, a Pátria, e o Traidor Politico - olhem voismecês são sempre benvindos como retornados ao quadrado, Lusitano!
Agora façam-nos um favor!, voltem para donde vieram porque aqui já nada resta de vosso, só o que pertence a todos, e como diz o chavão: - cá dentro mandam os que cá estão!
- Qualquer marujo que se aproximar, deve obedecer a lei do abandono do barco estabelecida em acordos do Alvor e cer de uma nova era, a dos "ir ós do mar! ná são balentiiiiimortal, alubantai oige de nobo!,...o contra-cheque do Banco deste moribundo Portugal
... o estado podia ter-me ajudado muito mais porque, eu como muitos outros, éramos pessoas de bem querer à Pátria!, por ela tudo faríamos. - Por ela tudo fizémos, por ela tudo perdemos!

"Des ilusão" numero cinco:

- confrontados pela imensidão do deserto em que se transformou a produção de ideias dentro do Rectângulo Ibérico, que não fossem de cunho "solicial", democratizante e dos impostos que foram ali lançados brandamente ao som de "mornas" maneiras, "mornas" músicas de sons tropicais, novos costumes e baladas tristes de um não sei quê ululante povo entusiasmado, um povo lhano mas inebriado de liberdade a ponto de perder as estribeiras da carruagem celestial, puxada pelas "chaimites" e pelos dragões do fogo das "panhards" na volta aos quarteis, de Abrantes para abrir o nosso intelecto, lá fomos nós para o parlatório em que se transformou o Terreiro do Paço! e,... sobretudo a praça do Rossio.
Falámos, falámos, e pronunciámos!, muitas e muitas vezes nós pronunciámos já então os prénuncios de textos intermináveis!... os avisos do que já era inevitávelmente em forma e feitos em ritmo de P.S., um autêntico P.S., de Post Scriptum antecipado e colocado no final da página do capítulo primeiro da nossa redenção.
- Falámos com Deus e o mundo!,... falámos até com os donos dele!, naquele momento de desespero, mas... as palavras, eram só palavras, os acordos eram apenas acordos para constar, e os gestos eram apenas gestos de boa vontade, de cujas intenções está o inferno cheio.
... o estado podia ter-me ajudado muito mais porque ainda éramos crentes no "terceiro milagre"! Não o de Fátima, mas sim no do Quinto Império a surgir das cinzas como um autêntico "loygos" Phoenix Grego.

"Des ilusão" numero seis:

- ainda completamente zonzos pela traulitada de bater à porta aberta, e de lá não sair a voz de ninguém, nós entrámos no "gueto"; talvez à procura do nada,... Um simples "nada" que, por muito pouco que fosse, sempre seria algo a procurar!
Me perdoem a pressa!,.... quem sabe?, as coisas modernas na velocidade que as condições o exigem, nos levam por vezes a resumir exageradamente o tempo integral entre o ter as ideias, os ideais e os sonhos. Aquele momento sublime, entre o haver do imaginário e da realidade, e o trabalho de fazer os projectos que - estacionados no recôncavo interior de cada uma "caçarola em fermentação" - jamais entram em prática operacional.
... e de lá, do Rossio e do Terreiro do Paço, nós "Retornados" nos retirámos em transe decepcionante além de transcendental unilateral e colectivo, para as terras do sul... Ah... o Al Garbe!!!
Durante um tempo de férias forçadas e a título de meditação espiritual sem quaisquer influências budistas, ou pretensas aspirações a mártires exilados em terras de Ceuta tá tá, bom demais para ser verdade!,...Ali nós todos fomos então mais uma vez enganados pelo "estado" lastimável em que nos deixámos armadilhar; por um lado era um "dolce fare niente" o confinamento em hotel de cinco estrelas de dia, e de noite com todas as estrelas do mundo, que no momento a nossa biotecnologia visual ainda nos podia proporcionar.
Por outro lado, o humilhante desejo de querer fazer alguma coisa, o imediato sabor de nos sentirmos em algo que fosse nosso, ainda que um simples "palmo de terra" para ter onde cair mortos de saudades.
... o estado podia ter-me ajudado muito mais porque, eu como muitos outros, ainda estávamos aptos a nos colonizar internamente. - Antes de entrarmos no buraco negro da descolonização exemplar!

Assinado - Silvino Potêncio/Natal - Brasil, Emigrante Transmontano e,... Português Retornado² Lusitano.
(leia-se: RETORNADO² = Retornado ao Cu adrado... ou será Kuadrado?... quem sabe eu devo escrever em Português da minha Escola... Retornado ao Quadrado Lusitano também conhecido por Rectângulo Ibérico)

Silvino Potêncio - Portugal
em Natal - Brasil  

 

 

 

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