FÉNIX

 

LOGOS Nº 19

MARÇO - 2016

 

 

 

Vera Maria Cândido Sangiorgi

 

MALENA
Por Vera Maria Cândido Sangiorgi


3:00 da madrugada, gelada, o telefone berra na sala. Aparelho do meu quarto pifado há meses e toda vez que o som invade a sala, relembro- me que, ainda, não comprei o substituto. Há muito não faz tanto frio, como nos últimos três dias.
Fico mais lerda do que usualmente sou, custa-me chegar até a sala. Telefonema a essa hora ,certamente, não é para me avisar que sou a feliz ganhadora do liquidificador, rifa que comprei dez números , para ajudar , nem me lembro o que....
Alô, ouço a voz de Malena, audivelmente alcoolizada , aos prantos.
----Oi Malena tô aqui, han, han, han, é horrivel, sim..Você está agasalhada? Não se esqueça da pneumonia do mês passado...han, han, han...Não é facill , sim, sim, deixe- me falar.......
Em quarenta minutos estarei aí. Deite- se, bem aquecida. Sim , sim, você me deu a chave...é , é , imagino, me dê um tempinho que chego aí.....Vou desligar, oi, oi, estou desligando..
Esssa mania que tenho de morar, tendo a natureza como vizinha, passarinhos cantando, corujinhas, miquinhos, dá nisso. Moro afastada de todos os meus caros. Enfrentarei mini estrada, marginal e outros quetais..
Estou um espantalho, olhando- me no espelho, mas, sem batom , não saio de casa. Dou um jeito na cara que permanece péssima, calço tenis, casacão, chaves do carro e de casa, na bolsa, cachorros latindo, entro no carro e me mando..
No silêncio escuro, dou graças , graças, porque o cigarro saiu da minha vida. Não só o cigarro, mas deixa pra lá....
Malena, tão lindinha, mignon, franja , sempre bem aparada, farta cabeleira chanel, continua menina. Estamos na mesma estrada há séculos......Crianças vizinhas, juntas no colégio e facul. Todos os meninos babavam por ela e mesmo, agora, quando em bom estado, é encantadora.
Está em frangalhos, situação devastadora, adoecendo e se quebrando a toa..
É só mais uma vítima, como quase todas nós já o fomos.
Casada há trinta anos, filhos fora de casa e o ex marido se manda com uma garota trinta anos mais jovem.....
Êpa, atenção, bêbados atravessando a marginal a pé. Esqueci-me , é terça , último dia de carnaval..
Breco o carro, quase num cavalo de páu, freio na mão, cachorro atônito cego pelos farois. Saio espaventada e graças, graças, não atingi o pequenino, onde enxergo costelas sem carne,quase sem vida..Coloco-o, entre o casacão e meu corpo. Ele, ou ela tirita de frio. Volto acompanhada para o carro, meu companheiro está desnutrido, machucado, necessitando emergencialmente de um vet.
Onde encontrar, na madrugada da terça gorda de carnaval, local para ser atendido. Lembro- me do PS na República do Libano, naquela escuridão, não tarda a mão de Deus, encontro caminho para chegar lá.
Há luz acesa e saio do carro com meu novo amigo colado em mim.
A campainha não funciona e grito: dr, dr, dr, ajudem- me..
Rapaz bonito abre a porta, não sei se ele , entende a quem deve atender: ao espectro de mulher ou ao cachorro. Explico a situação ...Com muito carinho, aplica soro no Bob, já nomeado, examina-o inteiro, RX, medicamento nos machucados, facha numa das patas e Bob já é outro. Aguardamos o final da aplicação do soro, conversando. O dr está fazendo seu PHD e não lhe é sacrifício passar as noites na clinica, atendendo e estudando..
Iche....Malena me esperando, sofrendo porque assistiu na tv, o ex e a atual desfilando numa escola de samba, no Rio de Janeiro..
Agradeço a eficiência do dr, e ao pegar o talão de cheque, na minha bolsa só está a chave de casa, porque é fixa nela. Esqueci-me de pegar a chave da porta da Malena. Preciso comprar ração para Bob . Há supermercado sobrevivente 24 horas, perto da minha casa, longe, longe...
Celular para Malena..Não atende.....com certeza adormeceu babada em lágrimas...
Não estou cometendo nada que desagrade minha consciência.
Quantas não estivemos, estamos e estaremos na situação dela
Apesar de estar cercada de amigas, nenhuma apareceu na minha casa em madrugada fria para me consolar. Ajudaram-me muito, ouvindo a mesma estória , zilhões de vezes. Cuidaram-me, levaram-me a cabelereiro, esteticista, igrejas diversas, centro espírita.
Rolou de tudo no enorme suporte que recebi.
Estou ótima ,devo muito do carinho recebido, terapeuta recomendado e espiritual bem trabalhado
Amanhã irei até Malena , ouvirei a mesma estória, com novo adendo. Casal na pista, trajados de índios e aquela descarada, semi nua......
Chegando em casa, apresento Bob a seus nove irmãos.Inteirei 10!!!!!
Será uma farra brincar com todos eles, amanhã!!!!!
Ôbaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!

(No meu texto é inverno durante o carnaval)

Vera Maria Cândido Sangiorgi
S Paulo - Brasil  

 

 

Walter da Silva

 

TRADIÇÕES, CONTRADIÇÕES (290)

“Tente não ser um homem de sucesso, mas de valor”
Albert Einstein


Por Walter da Silva


Habituado a ver egos inflados, paro a fazer uma reflexão. Embora não sejam do meu convívio, tenho presenciado pessoas serem grosseiras com trabalhadores humildes. Outro dia ocorreu num posto de serviços aqui na região. Era uma dessas dondocas a se envergonharem de sair do veículo. Ensimesmada de joias às onze da manhã, madame iniciou a cena gritando com o frentista. Em seguida, se recusou a responder meu bom dia e me olhou com esse ar superior de quem evacua fragrância de roseiral. Já me cansei dessa espécie de cenário. Certo tipo de contribuinte, homem ou mulher, parece ignorar de que se origina do mesmo primata e o que o distingue do outro é tão somente um status provisório e algum dinheiro na conta corrente. O fenômeno de identificar/temer gente pelo veículo que utiliza, é praxe no país como um todo. Tenho notado o crescimento da população de novo rico invadindo a região. A cultura crescente dos que emergem na escala social vai se enraizando e dá a impressão de que estamos numa espécie de Shangri-lá, quando se trata exatamente do contrário.

Residimos numa comunidade pobre, onde convivem umas vinte mil pessoas, sendo que talvez um terço seja composto pela população flutuante hebdomadária. Como todo mito, o fato de estar numa serra de cento e trinta metros de altitude, dá a sensação de se residir em algum lugar paradisíaco da Mantiqueira. De fato, o habitat é ímpar, pois que ocupado por espécies raras de fauna e flora. Esta seria uma razão maior para que visitantes e moradores em sua grande maioria entendessem o significado de preservar uma área especial num meio ambiente cuja longevidade está ameaçada. O empenho de uns poucos para ver menos dilapidado este pequeno planeta, é anulado pela maioria insensível ao simples conceito de que o ser humano é ele mesmo o meio ambiente. Não vou desperdiçar a paciência de leitores atentos e sensíveis quanto ao faz-de-conta do poder público. Políticas públicas no país são muito pouco levadas a sério e basta ver no noticiário o que se faz com o dinheiro destinado à construção de escolas, redes de esgoto e rodovias de pequeno e médio porte.

O historiador mais isento e ocupado no aprofundamento das causas do problema, sabe e faz saber que o alheamento e a falta de compromisso da maioria com a preservação do que é seu, vem de muito longe. Daí termos inventado o jeitinho brasileiro, improvisação pouquíssimas vezes bem-sucedida. Aqueles a subirem na escala social utilizam o velho jargão “sabe com quem está falando” como forma primária de se impor perante os menos aquinhoados. Esse cenário eu próprio venho presenciando desde o tempo de garoto em calça curta. Confesso que no fundo sinto um misto de antojo e desprezo ao ver alguém aparentemente exitoso, tentar humilhar aquele por quem está sendo servido. São tempos em que a arrogância e a prepotência sugerem alcançar novo (de) grau de poder. A ostentação de que se vale certo tipo de intempestiva burguesia, para demonstrar sua primitiva dominação sobre os mais carentes é inclusive ridícula. E não seria muito difícil reconhecer, serem as tais madames “finas” no vestir e grosseiras no tratar, as primeiras a defender o retorno do governo militar. (Com o perdão da rima).

Walter da Silva
Camaragibe - PE - Brasil  

 

 

 

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