FÉNIX

 

LOGOS Nº 20

MAIO - 2016

 

 

 

Rosa Pena

 

PRIMEIRO SELINHO
Por Rosa Pena


Foi na década de setenta. Eu com doze aninhos, o José Carlos com apenas dez. Ele era irmão de uma amiga minha. Sabia que era apaixonado por mim, e eu abusava da situação. Em mim, já começava a aparecer contornos, ele era apenas um menino franzino, de pés pequenos que dançavam no tênis, voz fina.
Naquele ano, teria a Copa do Mundo, no México, e em minha casa a TV era pequena, medíocre. A do Zé era o máximo... Grande, poderosa, top de linha na época. Ele era riquinho... Eu achava que era muito, mas muito rico mesmo, pois o pai dele tinha um Ford Galaxie e meu pai, um Aero Willys.
Comecei a dar bola para ele... Olhares e sorrisos ou, melhor, risos estridentes próprios desta idade. Descobri cedo o tal jogo da sedução... Descobri ou nascemos com ele? Bem, o fato é que me sentia a primeira dama naquela situação. Permitia que ele visse minhas pernas um pouco mais além do permitido na época. Sexto sentido feminino cantava em meus ouvidos que eu o enlouquecia e adorava isto. Aquele olhar de paixão dele era o máximo. Quem mandava nessa relação era eu.
Durante meses, alimentei com vigor o tesão do Zé. Dormia na casa de minha amiga quando papai deixava e às vezes acordava de madrugada com uma falsa sede, para passar pelo quarto do Zé e exibir-me de camisola.
Assisti à Copa do Mundo inteira lá. O Zé assistiu a mim, eu sabia disso. No dia da vitória final do Brasil, todos se beijaram e ele me deu um beijo na boca... um selinho. Meu primeiro beijo... O dele também. Depois disso, ficamos ambos sem graça, e os pretextos de ir a sua casa foram diminuindo.
E eu menstruei... Virei moça, achei que tinha virado mulher; e ele continuava mínimo, nem fios longínquos de barba tinha ainda.
Fui me afastando cada vez mais... Afinal, um mulherão de um metro e quarenta e dois, e trinta e nove quilos, como eu, merecia o mundo!!!
Estranhamente, morando na mesma cidade, fiquei sem vê-lo por mais de trinta anos. Muitas vezes imaginei a cara do Zé, se me visse naquele sumário biquíni verdinho na Praia de Ipanema. Ou no meu primeiro longo preto, na formatura! Ah!!! O Zé ia babar.
Há cerca de um mês, vi o Zé. Olhei fixo e fui andando, chorando. Veio a certeza: quem amou o Zé fui eu, e como... Pois eu o reconheci na hora e ele sequer percebeu que eu era a Rosa, sua primeira ficante.
Em tempo... O Zé está um coroa lindo. Ouvi uma voz grossa ao longe... Os tênis, apertados nos pés.

livro PreTextos/Rosa Pena

Rosa Pena
Rio de Janeiro - Brasil
www.rosapena.com

 

 

Rozelene Furtado de Lima

 

SINAL DA CRUZ
por Rozelene Furtado de Lima


Fábio e Juliana sonhavam em comprar um sítio no interior, queriam sossego longe da problemática da cidade grande. Faltava menos de um ano para aposentadoria do Fábio e ele se dedicaria a carreira de escritor e ela era artista plástica renomada. Entraram em contato com um corretor amigo e uma semana depois foram visitar um sítio. Adoraram. Tinha cachoeira, mata com uma variedade enorme de pássaros e alguns animais silvestres. Uma casinha de pau-a-pique pintadinha de branco com janelas e portas na cor verde água. Muitas árvores frutíferas, e flores. Os dois ficaram encantados com o local, era tudo ou mais do que desejavam. E o preço incrível! Voltaram para casa com o negócio fechado. Novas motivações, novos ares, novos planos. Quanta alegria!!! As preocupações mudaram. Conseguir um caseiro, fazer algumas modificações na casa. Adaptar o lugar aos novos donos. Ficaram indo e voltando no mesmo dia até chegarem as férias.
Primeiro final de semana no sítio, mesmo que não estivesse tudo arrumado. Foram cantando músicas de um CD que lembrava o começo do namoro. Pararam na padaria e o padeiro viu logo que não eram do lugar e perguntou se moravam por perto, ao que eles responderam: - compramos o sítio dos Pássaros Azuis, o padeiro fez o sinal da cruz balançando a cabeça, eles não entenderam, mas também não deram muito importância. Pararam na Igreja para saber o horário das missas e encontraram a moça que fazia limpeza. Quando disseram que iam morar no Sítio dos Pássaros Azuis, a moça arregalou os olhos e fez o sinal da cruz. Resolveram almoçar, gentilmente o dono do restaurante veio conversar com eles, mas quando falaram o nome do sítio ele fez imediatamente o sinal da cruz e deu dois passos para trás.
Juliana comentou com o marido: - você não acha engraçado quando falamos o nome do sítio eles fazem o sinal da cruz? Fábio respondeu: - eu também notei isso, deve ser um hábito do lugar, toda cidadezinha tem características próprias, jeitos e trejeitos. Eu penso que deve ser uma forma de desejarem boas vindas abençoando. Cada comunidade forma suas particularidades assim como as famílias e casais tem seus códigos com gestos, frases, ensinamentos, especialidades alimentares, e é comum você ouvir “ na minha casa era proibido... ou sempre foi uma exigência da minha mãe... minha vó não usava... e daí por diante. Riram e seguiram felizes, rumo à nova casinha ao novo lar.
É um mau hábito classificar a flor por uma semente desconhecida e que ainda não se plantou.
Casa muito antiga. Combinaram não modificar o estilo da casa. Tinha uma nascente com água fresquinha e limpinha, que originalmente foi encanada até à porta da cozinha e ali colocaram uma bica para lavagem de louças e era tão singela que resolveram manter. As louças e panelas eram deixadas de molho à noite numa bacia própria que ficava embaixo da bica e pela manhã as louças eram lavadas e colocadas numa mesa ao sol para secarem. Era tão romântico!
Na primeira noite na casa escutaram um barulho que não identificaram bem, estavam muito cansados e dormiram em paz. Quando acordaram, surpresa!!! A louça estava toda lavada e secando ao sol. Juliana soltou uma gargalhada e completou “o lugar além de lindo é mágico!” Tudo que eu queria era ver a louça lavada e fez o sinal da cruz como os moradores daquela comunidade. Fábio ficou intrigado, mas tinha muita coisa para ajeitar não perdeu tempo analisando o fato – deve ser código da comunidade e da boa vizinhança e fez também o sinal da cruz.
Com acontece com quase todos os artistas a inspiração não avisa, chega de supetão. Juliana pegou a tela branquinha e começou a pintar o cenário tendo como objeto principal a bica com as louças secando ao sol, só parou de pintar quando o marido chamou para saírem. Terminaria a pintura no dia seguinte, guardou o cavalete com a tela na sala. Saíram para fazer compras. Na loja de material de construção Fabio perguntou ao vendedor se conhecia alguém que quisesse ser caseiro no sítio deles. – O senhor assina carteira, paga salário e dá casa com contas pagas? – Sim pago tudo isso, um bom salário e uma camionete para uso do sítio. É muito boa oportunidade, comentou entusiasmado o dono da loja e indagou: - onde fica o sítio? – É o Sítio dos Pássaros Azuis respondeu Juliana. Imediatamente ele arregalou os olhos, fez o sinal da cruz e respondeu:-“ Não sei não senhor, aqui todo mundo tem seu trabalho”. Fábio agradecendo respondeu: - se souber de alguém manda no sítio estaremos lá de férias até o final do mês. O cara fez novamente o sinal da cruz e Fábio não resistiu fez também o sinal da cruz como se fosse um cumprimento.
Na segunda noite ouviram novamente uns barulhos estranhos, mas como resolveram manter a iluminação de lampiões e lamparinas e já estavam apagados deixaram para lá, o cansaço venceu. Dormiram. Precisamos nos acostumar com os ruídos daqui, resmungou Fábio.
Pela manhã as louças estavam lavadas secando ao sol e as panelas brilhando de tão areadas. Dessa vez Juliana não riu, expressou um ar de preocupação e fez o sinal da cruz como o povo da região. Fixou a atenção no maravilhoso canto dos pássaros e foi pegar a tela para terminar. Surpresa!!! A tela estava pronta, totalmente terminada com mais alguns detalhes ... uma mulher de costas vestida de branco, cabelos longos, lavando louça e pássaros azuis bebendo água embaixo da bica. Um arrepio percorreu o corpo de Juliana como se fosse uma corrente elétrica foi a primeira vez na vida que sentiu os cabelos ficarem em pé como arames. E Fábio apontou para uma árvore que tinha em frente a casa e que estava derrubada com uma foice fincada no tronco.
Anúncio nos classificados: VENDE-SE URGENTE: lindo sítio com mulher fantasma vestida de branco que lava louças na madrugada, pinta quadros e não se sabe mais o que ela é capaz de fazer.

Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis – Rio de Janeiro – Brasil
www.rozelenefurtadodelima.com.br

 

 
 

 

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