FÉNIX

 

LOGOS Nº 24

JANEIRO - 2017

 

 

 

Tere Tavares

 

 

 

A MANHÃ
Por Tere Tavares 

Tela de Tere Tavares

Flores Difusas - técnica mista


As doze estações, nenhum sinal de outro ser por perto, os dias, e o feriado. A indivisibilidade era tudo o que cercava aquelas montanhas, aquele espaço inclemente. Eugenia sempre gostou e admirou o menino, do fundo d’alma. Era um homem, entretanto, que ela enxergava sob o chapéu de cores cruciais: Arthur. O afastamento não é próprio do humano. “Nossos olhos convergem. Sem tergiversação. Sem evasivas nem divisas. Somos espalhados, dispersos como espelhos em nosso des-olhar. Por vezes é bom não ver – as coisas visíveis são as que mais tropeçam”, dizia-lhe Eugenia, friamente.
Eles eram como flocos de inassiduidade dispostos lado a lado à procura de maiores satisfações, como hastes que ascendiam unicamente por saberem-se na mansuetude de algo incontrolável. “Arthur, acaso imaginas os cálculos cáusticos, perdidos nas subtrações que se contorcem nas contas dos rosários? Não é preciso livrar-se do que nos livra.”
Eugenia emergia daquelas absorções e, como um arum, se fendia, feria as paisagens, sem auferir se sangrava ou não. Ela abraçava o mundo. De cima, onde é sempre bom saltar. Porque nem o céu lhe era limite Faltava-lhe algo – talvez a felicidade. Tudo parte algum dia. Ir embora. Esse destino chega para tudo e para todos. Como cores que se desgarram do zelo e pintam o desconhecimento com toda a intensidade.
“As cores falam a verdade. A verdade é colorida. A verdade é "a noite estrelada". Vou rever todo o arsenal de montanhas com que se carregam os teus objetivos. Que eu acato sem escusas. Quando a falha é sede e sanidade. Vem Arthur, que já desabrocham os mananciais, e a beleza suspira profundamente – tudo acontece e se prolifera no grassar dos gestos que nos preenchem”.
Ele a escutava e lhe dizia: “Eugenia, veio-me à mente o caule amolecido que, à passagem da ventania, apenas enverga-se e a deixa passar, com toda a mixórdia que ela traz nas entranhas; esse caule não se fere, porque escorre com sabedoria. Cá de meu invólucro sinto que o resto é a mesma parte, contexto, um inteiro desmedido. Não há restos quando ninguém sobra; o resto é um mendigo sem fome [o que fazer com o resto?] Eu te diria que a divisão é o que preocupa. Doa-te inteira meu amor. Hoje o universo nos cobre com bondade. Sublima-nos a vida com toda sua beleza. Muito ou pouco, partir ou ficar, o que preferes Eugenia?”.
“Arthur, só o que me é dado, nem demais nem de menos. O que é suportável e transportável. Das travessias que percorro há, por dentro, um derramamento, um quase apocalipse, a vulnerabilidade um tanto etérea para mim. Sou tudo o que faço e o que me faz. “Torna-te amigo da lâmina para não lamentares o corte” aconselham-me. Embora as interpretações estejam um tanto desfiguradas, e a perda da humildade, do ser humilde, se reduza numa identidade desconhecida e não tenha senão as fluências imaginativas, construtoras de um espaço multifacetado, eu divago esperando alcançar o ente verdadeiro – que conhecemos todos das legiões. Fecho os olhos e ainda assim os vejo. Ou sinto-os. Ainda não sei bem, movimento-me num surf de emblemas e mantras, sutras e salmos. Aventuro-me calada e contrita. Provo por que me agrada. Haja calor para dizer-me o que fazer desse oráculo irreparável que teima em não secar".
Eugênia reportou-se à infância que não excluía da sua carga de leveduras. “A lua mais linda que já li é ali, junto à fome que se estende num prato não degustado, porque de prata e só prata no fundo. Não, o tempo é como um rol de fatias que, mesmo assim é inteiro. Não há que esperar a hora maior para insuflar-se do que há entre pele e ossos, memória e mente. A visão, no topo, tem novo nome, o valor liberto, tátil e sonoro Arthur”.
Ela aguardou por outra incursão em sua benéfica e reiterada história, entranhada cruelmente no seu anseio por um sono ininterrupto, aveludado pela paz do que não havia vivido ainda. Eugênia sentia o estertor sem feitios que se entranhava irrecuperavelmente nas veias ébrias da noite, como se a morte não fosse morte e se instalasse na sua fronte para causar-lhe medo. “Não vejo na morte o castigo. Mas a missão cumprida”.
Na ânsia pelo decorrer dos dias, Arthur perdia-se no que havia sido e não tinha vindo dele, sequer sonhado. Nenhuma divindade o protegia da exatidão da sua retrospectiva inacabada, quase vil, diante do mundo onde qualquer movimento seria inútil. Suas histórias que, só numa semiconsciência elaborava, davam-lhe a certeza de que fora diferente do que consentia. Via-se como um arvoredo a verter seiva incessantemente, pensava, passado aquele torpor inevitável e inconcluso, a matéria revisada e impossível de restaurar – não houvera a falha senão o descuido que nenhuma metafísica de causas primeiras ou últimas poderia reverter ou resgatar do abismo do qual não há retorno, exceto noutro mundo que fosse recriado, e criado sem ele. Arthur se enterraria num pântano como um fruto raso e sem sabor, cuja claridade escurecera e sabia não estar mais em si, pois que não mais àquela dimensão pertencia.

Tere Tavares
Cascavel - Paraná - Brasil

Tere Tavares, escritora e artista plástica, radicada em Cascavel, PR, Brasil, autora de seis livros publicados "Flor Essência" (poesia 2004), "Meus Outros" (poesia e prosa 2007), "Entre as Águas" (contos 2011), “A linguagem dos Pássaros” (poesia Editora Patuá 2014), “Vozes & Recortes” (contos Editora Penalux 2015), “A licitude dos olhos” (contos Editora Penalux 2016). Participa de várias antologias no Brasil e Exterior. Tem poemas/textos publicados em diversas revistas e jornais literários. É colaborada do Blog Dardo. Integra a Academia Cascavelense de Letras. Edita o blog: meusoutros.blogspot.com.br

 
 

 

There Válio

 
 

GRATUIDADE (Prosa Poética)
There Válio 


O dom é algo divino...
Ele nasce com o ser humano
E em cada um manifesta-se
De acordo com o que foi recebido.
A gratuidade dos dons vem de Deus,
E se de graça foi recebido...
De graça será doado...
Há inúmeros dons...
E em todo ser humano,
Ele se manifesta de alguma forma.
Tem os que o usam para o bem,
Outros infelizmente...
Usam seus dons para o mal
Ou se deixam levar pelo egoísmo
Usando-o somente para si mesmo.
Na história da humanidade...
Felizmente há belos exemplos
Onde e como esses dons recebidos,
Foram transformados em ensinamentos...
Pois cada dom recebido...
Foi multiplicado diversas vezes...
Em favor da sabedoria e da ciência,
Para que o mundo usufruísse também,
Esse “dom” gratuito e verdadeiro.

 

 

 

 

PÁSSARO FERIDO
There Válio 


Como um pássaro ferido
Buscando a salvação,
Luta desesperadamente
Tentando sobreviver.
Mas, a dor que o consome,
Faz sangrar seu coração
Que aos poucos vai parando,
Esvaindo-se a vida
Desse pobre trovador!

Sofre pelo mal do amor
Que maltrata o seu ser,
Pois a paixão que o consome,
Não encontrou guarida
Naquele coração de pedra!
Renegando o seu amor,
Ela lhe feriu, e a dor,
Sufocou seu coração
Transbordante de emoção,
Que tem tanto amor pra dar.

Mas o pássaro ferido,
Tem um coração renitente
Que sucumbe ante o amor.
E aos poucos vai morrendo,
Tal qual ave abatida,
Que um predador incauto
Feriu de forma letal;
Morrendo deixou em versos,
Sua triste história de amor.

 
There Válio
Pilar do Sul/São Paulo/ Brasil


Therezinha Aparecida Válio Corrêa, (There Valio), nascida em Pilar do Sul/SP. Coautora em várias antologias e coletâneas e tcoletâneas de história infantil. Também é autora do livro “O Amuleto do Casarão Amarelo”, editado em 2016. É membro do site dos Poetas Del Mundo, e também participa do site Recanto das Letras. É membro efetivo da APOLO-Academia Poçoense de Letras e Artes, de Poções, Bahia, onde é titular da cadeira de número 26. Atualmente é membro do Clube Literário e Artístico Nascente das Águas de Pilar do Sul (CLANAmembro da Literarte-Associação Internacional de Escritores e Artistas e da PEAPAZ (Poetas e Escritores do Amor e da Paz).
 

 

 

tiagoemiliorosado

 

 

 

LUA SEM NOITE
tiagoemiliorosado 


Na noite a lua
Dançando entre noites sem lua
Bailava
Cantava
Dizendo na aussencia da noite
Onde estou no meu luar
A noite que via
Vindo a noite
Sempre me dizia
Eu estou dançando quase semi nua
E para as estrelas que olham sem nada dizer
Não falam
Não dizem
pois tímidas
As estrelas
Tem medo de erra
Querendo sempre acerta
Então lua onde poderei encontra o seu olhar
Onde apenas não irei divaga
Dizendo a lua a noite
Estou aqui
Envolta por ti
Sempre a lhe olhar
A lua e a noite
Se amaram
Em termo olhar
Envoltas nas lúdicas divagações de quem quer se tocar
E por fim o toque
De quem não tem medo de amar.

tiagoemiliorosado
São Paulo - Brasil

Tiago Emílio Rosado, 32anos artista plástico, praticante amador de artes marceais,praticante de espiritismo kardecista.

 
 

 

Tonny Cota

 
 

(IN)VERSOS (DI)VERSOS
Tonny Cota 


Não vi o espinho
só a rosa a me sorrir
quando quis tocá-la
ai foi que me feri
Almas em desalinho
corpos sem coordenação
nervos atrofiados
filhos sem razão
Nasce o primeiro desejo
fazer o primeiro cortejo
haverá tempo de sobra
para o primeiro beijo?
Uma mão lava a outra
as duas juntas se completam
assim como o namoro
caminham juntos para um teto
O arco-íris nasce
após a chuva de verão
assim como as estrelas
depois de uma explosão
A lua é prateada
o sol é amarelo
um nasce ao entardecer
o outro ao amanhecer
Menina quando deixa a boneca
é sempre sinal de problemas
ninguém saberia dizer
como funciona este sistema
Nascemos crescemos e morremos
sempre pagando tributos
o bom de tudo isso
é que ficam sempre os frutos
A cor da pele influência
em cabeças preconceituosas
tenho no corpo defeitos
mas o moral é perfeito
Tem pessoas que cultuam deuses
outros cultuam o corpo
enquanto esquecem Daquele
que deu sua vida por todos
Somos ingratos por nascença
Somos ignorantes por imprudência
somos um grão de areia
neste mundo de teia
Dos meus pais escutei:
A mão que balança o berço
é a mesma que o corrigirá!...


SP,junho/2009 de: Tonny Cota ***Catalogado***
"Estreitai os laços antes do fim dos tempos".

CONSOLIDAÇÃO
Tonny Cota 


O casco é de tartaruga
o caminhar também o é
mas leva-me a vida devagar
mas por dentro há muita fé
Carrego os pesos de ontem
em um turbilhão de sentimentos
sempre em passo tranquilo
na linha do firmamento
Abraço meus irmãos
abençoo sobrinhos filhos e neto
todos com muito carinho e afeto
Oro por mais um dia
que Deus me deu de presente
por realizar meus sonhos
de estar com ELE
e todos os entes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Tonny Cota
Itabirito-MG-Brasil

 

 

 

Urda Alice Klueger

 

 

 

ACHO QUE É MONTEZUMA
Por Urda Alice Klueger 


Ninguém sabe de onde ele veio. Um carro dirigido por uma mulher chegou em surdina até esta enseada e jogou-o fora – provavelmente jogou-o no mar para que se afogasse, pois quando começou a ser visto estava todo molhado. Ainda estava molhado quando chegou a minha vez de vê-lo: um montinho de pelos pretos contendo ossos pontiagudos, saltando da pele, assustado, com medo, tremendo de corpo inteiro.
Esta gente daqui é boa para os cachorros – há diversos cachorros de rua, todos de porte grande, vivendo por aqui. Não são surrados, não são desprezados, não vi nenhum menino, até agora, jogar-lhes pedra. Um e outro lhes dá comida, e sempre há sobras de peixe na praia, que garante o seu sustento, sobras essas que agradam sobremaneira ao meu cachorro Atahualpa, que de dondoca de apartamento que vomitava se comesse um marisco promoveu-se rapidamente a cão que traça sem nenhum pejo sobras de rede, com predileção especial pelos peixes podres.
Só que esse é um cachorro miudinho, pequeno, e estava molhado, assustado e tremendo de corpo inteiro – sabe-se lá o que lhe fizeram lá donde veio, sabe-se lá se estava molhado porque a mulher que o trouxe para cá jogou-o no mar e escapou por pura sorte – aqui é uma terra onde todos se conhecem e todos sabem de quem é cada cachorro e cada gato e quem são os cachorros de rua – e ninguém conhecia aquele. Viram a mulher, no entanto, e cobraram dela a maldade, e ela, além de tudo, foi grossa.
Eu segurei seu tremor molhado junto ao coração e no mínimo iria alimentá-lo, e já havia outro bom homem disposto a ficar com ele. Disputamos um pouquinho e o homem o deixou para mim, e o trouxe para casa.
Estava morto de fome. Antes que eu visse, descobriu umas sobras de ração e bolo, na varanda, que estavam ali fazia uns dois dias, cheias de formigas, e devorou aquilo com formigas e tudo. Fui buscar mais ração, um tanto assim para uns dois dias, para um cachorrinho daquele tamanho, e ele devorou tudo de novo. Não dei mais porque já era demais: ele ficou abaulado de tanta comida. Fiquei pensando que passaria mal do estômago quando bebesse a água que já preparara para ele; fiz logo uma caminha macia dentro de uma caixa de papelão, lá na varanda. Ele tomou a água e se ajeitou na caminha – pensei que ele deveria criar algum laço mais afetivo com aquela varanda e fui buscar um osso velho, abandonado há dias por Atahualpa nos fundos da casa. Ele cuidou do osso e dormiu num lençolzinho de borboletas.
Dentro de casa o ciúma grassava com aquele cachorrinho lá na varanda, e fui para o computador com minha gata sentada quase sobre o teclado e Atahualpa não dando a menor folga. Dei uma espiada dissimulada no cachorrinho magro, pequeno e maltratado lá na sua caminha antes de vir para a cama com os meus donos e senhores Atahualpa e Manuelita, que não estão desgrudando de mim, e eles estão há horas ressonando tranquilamente, e cadê eu dormir? Só agorinha entendi: há um cachorrinho lá na varanda, e isto muda toda a ordem das coisas, altera todo o emocional de uma pequena família. Só agora entendi que deveria escrever sobre ele, que é o meu jeito de resolver a vida. São 03:21 h da madrugada e já ouço um galo cantando, e fico pensando que poderia chamar-se Montezuma e no banho morno e carinhoso que preciso dar nele amanhã, e nas sobras que estão na geladeira e que talvez ele coma. Será que aceitará pão com manteiga de manhã?
Pronto, escrevi. Agora acho que vou poder dormir. Montezuma lá na varanda é uma grande e mágica energia que chegou tão inesperadamente que me tirou o sono. Agora que acabei lhe dando um nome, acho que ele vai ter que ficar. Que fazer com mais um cachorrinho além de amá-lo?
Obs.: Hoje, 21.12.2016, faz 13 dias que o cachorrinho faz parte da nossa pequena família. Seu nome acabou sendo Zorrilho, por se parecer muito com uma raposinha.

Enseada de Brito, 08 de dezembro de 2016.

Urda Alice Klueger - Escritora, historiadora e doutora em Geografia.
Blumenau - Brasil

 
 

 

 

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