FÉNIX

LOGOS Nº 26

JULHO - 2017

 
 

 

Aida Viegas

 
 

REPARTIR
Por Aida Viegas


- Esta é uma história da vida real. Um episódio muito ingénuo mas, com um sabor muito especial.
Nós éramos quatro irmãos, dois rapazes e duas raparigas. Eu e o meu irmão mais próximo apenas tínhamos treze meses de diferença, e nunca nos demos bem, éramos como o cão e o gato. Fizemos a escola primária em casa dos meus avós. Os meus pais viviam um pouco retirado, não muito, uns cinco ou seis quilómetros, e ao fim do dia, tinham sempre a ternura de nos ir ver a casa dos avós, porque nós estávamos lá, dado que eles estavam muito ocupados durante todo o dia.
Os avós viviam numa grande quinta, onde tínhamos espaço para crescer em liberdade. A minha avó não tinha mais nada que fazer, senão tomar conta de nós, de modo que por lá fomos crescendo.
Como ficávamos sempre muito zangados com nossos pais, por não nos levarem de volta, eles para nos compensarem, presenteavam-nos quase sempre com um mimo qualquer.
Naquele dia o meu pai trouxe uma tablete de chocolate, grande, e disse:
- Enquanto nós ficamos a tomar o chá, com a avó, vocês podem ir brincar para o quintal; têm aqui esta tablete de chocolate, dividam-na ao meio e comam.
Saímos, eu a saltitar ao lado do meu irmão, que era mais velho, e a pensar que com certeza as coisas não iriam correr lá muito bem e de facto estava certa. Sentámo-nos numas escadas de pedra, que ali existiam. O cãozito de meus avós, o Trigueiro, que andava solto, veio logo sentar-se junto de nós e o meu irmão, disse-me:
- Olha, a tablete está aos quadradinhos; é um quadradinho para ti, um quadradinho para mim e um quadradinho para o nosso cão. Um quadradinho para ti, um para mim, e um quadradinho para o Trigueiro. Como éramos muito amigos do cão, eu ingénua, deixei-me levar na conversa do meu irmão. Acabada a tablete, como não tínhamos mais nada a fazer, voltamos a casa rapidamente.
Chegámos perto do pai e ele admirado disse:
- Vocês já cá estão? Já comeram uma tablete, tão grande, tão depressa?
- Eh! Não era assim tão grande pai, disse eu. Porque um quadradinho para mim, um quadradinho para o Afonso, um quadradinho para o Trigueiro…
- Para o Trigueiro? Vocês deram chocolate ao cão? O cão não come chocolate. O chocolate era para vós, e não para o cão.
- O cão estava a olhar para nós, a ver-nos comer, e eu tive pena e resolvi dar-lhe também, coitado. - Esclareceu o meu irmão.
- E então o cão comeu? - Perguntou o meu pai.
O meu irmão, apesar de manhoso, percebeu que o pai o apanhara, e já desarmado, e meio encabulado confessou:
- Não, ele não comeu, a parte dele, comi-a eu.
E só então, esta pobrezita inocente, perplexa ao ouvi-lo, se apercebeu do logro em que caíra.

Aida Viegas
Aveiro - Portugal


Aida Viegas no campo da escrita evidencia-se a sua colaboração desde muito nova em vários jornais e revistas.
Faz parte do Grupo Poético de Aveiro, pertenceu à Associação dos Jornalistas e Escritores da Bairrada, foi membro do Grupo de Estudos e Labor da Língua Portuguesa e frequenta a Academia de Saberes de Aveiro.
Recebeu vários prémios, na área da Poesia e do Conto. Da sua obra já editada consta:
Pensar Alto – poesia -1992; FIACOBA / 92 – em rima -1993;Oliveira do Bairro – Memórias de Um Século - prosa -1994;Lampejos – poesia -1996;O Tempo das Delícias – poesia -1999; Abandonar Angola – Um Olhar à Distância – prosa -2002;No Rodar dos Tempos – contos – 2005; Rios de Fogo e Madrugadas de Luz – poesia – 2009;Histórias de Bolso das Gentes de Aveiro - histórias – 2010; Santo António – a Freguesia e o Padroeiro - prosa 2011;Laura - Um Grito No Silêncio – romance 2012;DE MALA AVIADA – Com a aventura na alma e a poesia no coração – viagens 2014;Malhapão Rico - Confidências à Sombra do Sobreiro – prosa 2017.
Participou:I Antologia de poetas Lusófonos;II Antologia de Poetas Lusófonos

 
 

 

Alaíde Souza Costa

 
 

PREECHENDO UMA VIDA
Alaíde Souza Costa

Quer ser a razão de minha vida,
ele me perguntou, um dia.
O que você iria fazer comigo,
eu lhe respondi.
Ele disse que iria ver como,
a minha carência mataria.
E que a partir daquele momento,
eu seria feliz.
Prometeu que muitos beijos e carinhos,
me daria.
Que amor recheado de paixão,
a gente sempre faria.

Alaíde Souza Costa
Aracaju – Sergipe – Brasil
http://www.alaidescosta.recantodasletras.com.br

 
 

 

AlbertoCohen

 
 

BUSCADOR DE UM BEM PERDIDO
AlbertoCohen

Bem sei que ainda vou te procurar
por todos os caminhos que escondeste,
em todas as histórias que apagaste,
no riso que levaste e em meus desejos.
Inventarei teus passos nas calçadas
e com grafite escreverei teu nome
em paredes e muros que separam
o real do somente presumido.
E não me cansarei de ir perguntando,
através do silêncio, ou da galhofa,
onde perdeste o bem que me querias
e o que fazer do bem que ainda te quero?
Ai, meu amor, se eu te dissesse, agora,
como estou só, mais só do que era outrora,
quando meus sonhos vinham de tão antes,
nas ilusões que não te conheciam...
Eu era triste e só, porém sabia
que, estando só e triste, na poesia
quase existia o bem que me faltava.
Depois foi grande a confusão de temas,
e, tentando misturar-te com poemas,
não fui amante e me perdi poeta.
E o que me resta além de procurar-te
entre milhões de jeitos e perfumes,
abrindo portas com medo e ciúmes,
fechando versos com rimas pequenas?

Alberto Lisboa Cohen
Belém do Pará - Brasil


Poeta reconhecido e admirado por suas obras, Alberto Lisboa Cohen, é autor de vários livros premiados, entre eles:
“Poemas Sem Dono”: Vencedor do II Prêmio Literário Livraria Asabeça – Publicado pela Editora Scortecci - SP – 2003.
“Poemas de Amor, Desamor e Saudade”: Selecionado e editado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores - CBJE – Rio de Janeiro – RJ – 2004 (esgotado);“Daltônicos”: Selecionado e editado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores - CBJE - Rio de Janeiro – RJ – 2004. (esgotado);“Recados para Wendy”: Selecionado e editado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores - CBJE - Rio de Janeiro – RJ – 2005 (esgotado);“Caminhos de Não Chegar”: Vencedor do Prêmio de Literatura Instituto de Artes do Pará- IAP – Editado pelo Governo do Estado - PA - 2005. Vencedor da Láurea Cidade Poesia (Moderna) - Associação de Escritores de Bragança Paulista - ASES - SP - 2006;“Juntando Pegadas”: Vencedor do Prêmio Vespasiano Ramos - Academia Paraense de Letras - PA - 2006. Publicado pela Editora Paka-Tatu – Belém - PA ; “Cantigas que a Rua Canta”: Selecionado e publicado pela Editora Alcance - Porto Alegre- RS – 2009;“Álbum de Recordações”: Selecionado e publicado pela Editora Alcance - Porto Alegre-RS – 2009; “Menino das Samaúmas”: Selecionado e publicado pela Editora Alcance – Porto Alegre -RS - 2010 : “Catador de Momentos”: Selecionado e publicado pela Editora Alcance – Porto Alegre - RS – 2011; “Sobrevivente de Mim”: Selecionado e publicado pela Editora Alcance – Porto Alegre - RS – 2012 ; “Canto de um só”: Selecionado e publicado pela Editora Paka-Tatu – Belém – PA – 2013 ;Cativos sem desejos de alforria.

 
 

 

Alcione Sortica

 
 

PERDIDOS NA TOSCANA
Histórias de viagem
Por Alcione Sortica


Corria o mês de setembro de 2010. De Paris, após as visitas de praxe aos principais pontos turísticos – túmulo de Napoleão, Torre Eiffel, Louvre, Champs Elisées – viajávamos eu, a esposa Ivone e filho Eduardo, inicialmente com destino a Milão, ponto de partida do nosso roteiro pelo interior da Itália. O carro era um Citroën preto alugado, o filho seguia as instruções do GPS e uma voz feminina, nossa secretária eletrônica, indicava as direções previamente programadas. E as cidades iam desfilando e ficando para trás. Roma, o Vaticano e seus pontos, antes religiosos e hoje turísticos na maioria. Veneza, o Palácio dos Doges, a Ponte dos Suspiros, as pombas de São Marcos. Verona e o balcão de Julieta, foto obrigatória para as turistas. Logo, a pequena e medieval Bergamo, na Lombardia e Bolonha, famosa pelos seus vinhos. Noutro determinado dia, corríamos velozmente pelo interior italiano, na bela região da Toscana. Súbito, a voz feminina informava estar recalculando o trajeto e o filho concluiu que estávamos em lugar incerto, encostando o veículo para os devidos ajustes. Enquanto isso eu já preparava a máquina fotográfica para algumas fotos, pois a região da Toscana é lindíssima, um verdadeiro éden terrestre. Minha atenção estava na paisagem. Eu fotografava rolos de feno, comuns nos campos europeus, previsão para alimento do gado nos invernos rigorosos. O filho concentrado no GPS. E os olhos de minha mulher pregados num enorme cartaz, com foto de Andréa Bocelli, cantor italiano que, cego aos doze anos de idade, jogou para trás o infortúnio e tornou-se um vencedor através da música. Numa plaqueta os dizeres: “TEATRO DEL SILENZIO. PROPRIETÁ PRIVATA. DIVIETO DI ACCESSO. PRIVATE PROPRIETY. NO ENTRY.” Sim! Estávamos às portas de propriedade rural particular, ponto em que aquele magistral cantor italiano costuma reunir artistas em espetáculos imperdíveis. Um local ermo, em cima de um morro que, num momento mágico enche os ares de sons maviosos e vozes divinas E, apesar das proibições em maiúsculas, subimos a encosta, para uma visão rápida. E no terreno enorme armação metálica em forma de estrela, refletindo-se no lago adornado de juncos. Muros formados por pedras enormes, encimados por estátuas coloridas. E nós, que já tivéramos ocasião de assistir a um dos espetáculos de Bocelli, na magia do DVD, sentimos nossa imaginação povoar aquele local com artistas de todos os cantos do mundo, suas belas vozes, acompanhados de temas musicais inesquecíveis. E até hoje, agradecemos a pequena falha da nossa secretária eletrônica, nos proporcionando uma visita inesperada e que veio enriquecer sobremaneira nossos conhecimentos de viagens.

Alcione Sortica
Porto Alegre/Rs – Brasil
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alcione_Sortica
site - www.alcionesortica.com


ALCIONE SORTICA, escritor gaúcho. Contista, cronista, ensaísta e poeta. Contos, poesias, crônicas e frases de autoria publicados em Antologias, Coletâneas, Jornais, Revistas e sites da INTERNET. Diversos prêmios literários. Livros do autor: Cacos do tempo I e II edições, Peneirando Estrelas, Beira de Açude, Um Ponto no Tempo, Plenilúnio e De Pai para Filho, este com a coparticipação do filho Eduardo Almansa Sortica. – Lema: “Poesia – Grito de esperança por um mundo melhor”

 
 

 

Alessandro Borges

 
 

LEMBRANÇAS
Alessandro Borges

Sob o distante do azul-celeste,
surge um lampejo de luz...
ó alma desconhecida, difusa:
Matéria impalpável das lembranças!
Sobrou-me o sóbrio segredo,
A aguda percepção da existência não revelada
que a todo instante faz lacrimejar os olhos da memória,
Como rio inundante e espumoso.
Uma tênue atmosfera de emoção permeia meu corpo,
novamente as lembranças espalham coisas pelo chão;
Festeja lá fora a saudade dançando na chuva...
E o chão lavrado faz-me recordar e viver.
Ouvir meu nome ecoando através do vento,
Numa época em que a vida perdeu sentido,
E o chão batido se transformou em massa e concreto,
Ainda assim, eu me proponho a recordar...

Alessandro Borges
Rio Branco - Acre - Brasil


Alessandro Borges formou-se em Teologia, pela Faculdade de Teologia de Boa Vista-RR, e atualmente está cursando Pedagogia pela UNIP. É Membro efetivo da Academia dos Poetas Acreanos, É coordenador Adjunto da Academia Mirim de Letras Acreana (AJAL), Membro do Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Lisboa, Membro da Academia de Letras, Músicas e Artes de Salvador (A.L.M.A.S),Coordenador-Geral (AJAL) Academia Mirim de Letras Acriana, Membro da Delegação da ALAV-Academia de Artes e Letras de Valparaíso- CHILE, Membro correspondente do Círculo de Escritores da Espanha, ganhador do Prêmio Excelência (promovido pelo Círculo de Escritores Moçambicanos da Diáspora) e Membro do Conselho escolar. Tem seus textos publicados no Brasil e no exterior. É detentor de vários troféus, diplomas e certificados de mérito.

 
 
 
 

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