FÉNIX

LOGOS Nº 26

JULHO - 2017

 
 

 

Ana Dias

 
 

AS IRMÃS MIRABAL
Ana Dias

De Borboletas foram chamadas
As três graças da mesma família
Foram cruelmente assassinadas,
Depois de uma longa pervigília

Eram dominicanas de gema,
Gente moça e bonita, também.
Ousaram lutar contra o sistema,
Mesmo violentadas com o rebém

Roubadas suas posses e bens,
Alertaram para a ditadura,
Não deram a Trujillo os améns.
Só receberam dores e agrura.

Com os maridos no calabouço,
Irredutíveis, fortes e sós,
Soçobrou todo o seu arcabouço
À violência do seu algoz.

Pátria, Minerva Antónia Teresa
Implementaram a liberdade.
Estandartes da luta pela defesa
Do respeito e da civilidade

É o 25 de Novembro
Dia Internacional de Mulheres:
Não se violenta qualquer membro,
Mesmo que seja com malmequeres

Ana Maria Dias
Vale Vite - Vimeiro - Portugal


É professora do 3º Ciclo e Secundário. Tem vindo a participar em várias Antologias nacionais, brasileiras e lusófonas. Tem vários livros publicados, desde Contos Infanto-Juvenis e outros, crítica literária, ensaios, poesia, prosa-poética. Participou em crítica cinematográfica, promovida por Lauro António, em que obteve vários primeiros lugares. Vários prémios em Jogos Florais.

 
 

 

Ana Isabel Rosa

 
 

MURMÚRIO NO TEMPO
(ao encontro de Florbela Espanca)
Ana Isabel Rosa

Um dia murmuraste que a tua alma estava tão triste, tão vazia…

E nesta verdade escutada como um murmúrio que se derrama no tempo
Testemunhei quanta mágoa suportavas e interroguei-me…

Quem é esta FLOR que tanto murmura?

E num suspiro de dor, como se desenterrasses um vazio sem amor
Rezaste uma confissão.

- Uma parte de mim morreu no dia em que quis desaparecer.
Uma força enlouqueceu-me e aí observei que cada escuridão
Espancada no meu corpo era a morte que destapava e cada
Silêncio irrequieto era o toque do delírio descoberto…

- A minha vida terminou no dia em que decidi que o tempo
Para mim parou, alertou a minha alma agoniada na insignificância
De um olhar que seguiu a imensidade que fica para lá das sombras
Onde tive vontade de chegar…

- Hoje, sinto a terra gelada que congela sentimentos
E no meu corpo deitado são como palavras de tormenta
Nesta alma atormentada sinto que já não sou eu
Neste espírito recheado de nada, neste corpo que já morreu…

Ai Flor do Tempo!...

Que palavras tão magoadas, que levaste nesta alma tal mal-amada.

Repousa minha Flor, porque serás sempre evocada
Mesmo na caricia da noite serás iluminada.

És a mais bela Flor que adormece ao sabor de cada época
Não tenhas medo porque cada murmúrio no tempo será o nosso segredo!...

Ana Isabel Rosa
Ponta Delgada - Açores - Portugal

 
 

 

Ana Paula Costa Brasil

 
 

INTEIRO
Ana Paula Costa Brasil

sou assim... sou um terço
sou amor... mas só um quarto
um quarto vazio
todavia ainda sou metade
havia perdido as esperanças
era menos que a metade
corria
fugia
eu não era nada e não sabia
andei
encontrei-me
na tua luz
na tua metade
e entendi o que quer dizer inteiro
um quarto
outra metade
sou metade
e na tua luz serei o inteiro
e agora entendo
a mim e a vida

Ana Paula Costa Brasil
Richmond Hill - Ontário/Canadá

 
 

 

Ana Rosa

 
 

ESPECIARIAS
Ana Rosa

(...) Pessoas simples e belas
Que se desconhece a origem
Fazem-se sempre acompanhar
De essência indescritível
Caminhando com passos de lua cheia
Em caminhos de areia fina
Sussurrando ao nosso ouvido,
De que nem tudo está perdido!
Vêm com o som da chuva,
Acariciando a terra de ternura
Fazendo-a bater palmas de alegria!
Soltam-se odores maravilhosos
Erva-doce, alecrim, ou quem sabe
Talvez lúcia-lima ou baunilha!
Sentem-se passar como estrela cadente,
Rasgando o astro,
Deixando um rasto de incenso!
Por nós, as sentimos passar
Sem as tocarmos ou vistas ainda
São como almas de luz,
Surgindo entre ruinas!
Repletas de esplendoroso brilho
De alma tão pura
São verdadeira preciosidade eterna
Refrescam e condimentam nossa vida
Autênticas e delicadas especiarias
Vindas do outro lado do mundo!
São o som da tarde, tom cinza
Inclinando seu gemido vestido
Anunciando a chegada da noite
Em vénias de penumbra
Mansa semente, que no interior da terra
Em seu quente ventre germina
Cair da noite, céu plantado de searas de trigo
Ou luar, presenteando um odor fugitivo
Mostrando grandiosa e secreta plenitude
Deixando segredos de si
Em poemas aromatizados de fascínio escritos
Em extasiado murmurar
Passam deixando no ar
O verbo ficar, até ao infinito
Espalhando seu odor pelo mundo
Num inaudível e alvoraçado zumbido!
Presença aromática perdida no tempo
Eternizando-se na infinitude dos segundos!
No seio da terra, florescendo
Sem que plantadas tenham sido!
Pessoas que mais se parecem
Com o perfume duma flor
Vindas dum campo florido!
Nobreza tal, místico odor vestido
Enxertadas de ternura e simplicidade
Sem que vaidade alguma vez na vida
Em si tenha existido!
Estão sempre de chegada e entre nós
Sem que algum dia tenham partido! (...)

Ana Rosa
Arruda dos Vinhos - Portugal
https://www.facebook.com/universodopensamento?fref=ts
https://www.facebook.com/groups/poesiasopoesia61/?fref=ts
http://poesiasopoesia.blogspot.pt

 
 

 

Ana Rosenrot

 
 

DENTE-DE-LEÃO
Por Ana Rosenrot


Eu estava com muita pressa, tinha centenas de coisas para fazer, inúmeros clientes para visitar e pouquíssimo tempo, andava pelas ruas quase correndo, lutando para me movimentar rápido em meio ao enorme fluxo de pessoas, o coração acelerado e a cabeça doendo devido ao estresse – o grande mal da vida moderna -; quando o vento, que espelhava poeira por todos os lados, fez pousar em meus óculos algo muito interessante: sementes de dente-de-leão.
Peguei uma delas e ao ver aquela sementinha tão linda e aerodinâmica, a penugem branquinha e incrivelmente leve, recordei imediatamente de minha infância, quando colhia uma daquelas bolas brancas e um simples assopro desfazia-se em dezenas de paraquedas imaginários, prontos para viverem incríveis aventuras pelos quatro cantos da Terra.
Pensando bem, somos como as sementes de dente-de-leão, nascemos protegidos por nossa “planta” mãe e pouco a pouco vamos nos desenvolvendo, tentando sair do invólucro natural que nos mantém afastados das intempéries da vida, loucos para expor-se completamente à luz do sol e todos vão se preparando da melhor forma possível, até o grande momento de alçar voo e dar o máximo de si para pegar os melhores ventos e buscar um local adequado para germinar e crescer; muitas caem no asfalto duro, na terra infértil, sobre os arranha-céus, ficam grudados nas roupas – ou óculos – de alguém, podendo ser novamente levadas pelo vento se forem persistentes, ou simplesmente ficam presas nos desvãos da rua até secarem; poucas encontram o lugar e as condições ideais para desenvolver-se com plenitude.
Nós seres humanos, também somos assim, uns se esforçam e vencem na vida, outros não. O problema é que, ao contrário da semente de dente-de-leão, quando finalmente atingimos nossos objetivos, em vez de florescermos, parece fazer parte da natureza humana o oposto: vamos murchando, perdendo o interesse, ficando estagnados. Eu mesmo, que lutei tanto para alcançar o sucesso e agora vivo estressado por ter tantos clientes e não saber administrar bem meu tempo; estou sempre irritado, nervoso, vazio, sem coragem para tomar novas iniciativas. Mas estranhamente, as sementes que grudaram em meus óculos, reacenderam a chama, o desejo de ir mais longe, de recomeçar, de procurar novos caminhos.
Não é à toa que no Nordeste Brasileiro essa planta é chamada de “esperança” e deu origem a um sábio dito popular:
“Abre as janelas e deixa a “esperança” entrar na tua casa trazida pelo vento da tarde”.
Devemos deixar que essa semente germine em nossos corações e reinicie seu ciclo natural, para podermos alcançar voos cada vez mais longos, mais altos, infinitos, cheios de “esperança”.

Ana Rosenrot
Jacareí – SP – Brasil
https://www.facebook.com/anarosantanarosenrot
http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot
http://cultissimo.wixsite.com/revistaliteralivre


Ana Rosenrot de Jacareí é escritora, cineasta e ativista cultural, assinou por 4 anos a Coluna CULTíssimo, na Revista Suíça Varal do Brasil, já teve trabalhos expostos no Consulado Brasileiro da Suíça, participou de diversas antologias e recebeu vários prêmios literários; no cinema trabalha com produções independentes, longas e curtas-metragens onde também já recebeu prêmios. Criadora e editora da Revista LiteraLivre.

 
 
 
 

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