FÉNIX

LOGOS Nº 26

JULHO - 2017

 
 

 

Luciene Freitas

 
 

A CORRESPONDÊNCIA
Por Luciene Freitas


Houve um tempo em que, por incrível que pareça, não existia internet. Tempo onde a comunicação, entre as distâncias, se fazia através do Correio Postal e com ele as cartas atravessavam o oceano, as montanhas, continentes.
As revistas, com maior circulação na época, Sétimo Céu, Capricho, Ilusão, Noturno, Manchete, O Cruzeiro... tinham um lugar reservado para divulgar endereços – O Clube dos Correspondentes, da Revista Sétimo Céu, foi uma das mais profícuas fontes. As outras preservavm o cantinho das cartas com outros títulos, mas com a mesma finalidade, a comunicação.
As pessoas, que desejassem se corresponder com alguém, procuravam entre os vários endereços e identificações um que se aproximasse dos seus desejos. Ali existiam correspondentes diversificados. Nome, endereço, dados pessoais, falava-se das coisas que se gostava, que colecionava e o motivo para querer corresponder-se.
Como exemplo cito os rapazes portugueses, que lutavam em Angola, Moçambique e queriam madrinhas de guerra, para aliviar a ausência da família, da pátria.
Muita gente entrava nessa onda, principalmente os jovens. Foi daí que, adolescente, me iniciei na correspondência internacional. Escolhi alguns rapazes e moças e escrevi.
As cartas traziam palavras de amizade, de desabafo, traziam comentários de fatos atuais. Também diziam da personalidade que se escondia através da missiva.
Quem escreve revela uma silhueta de si ou um perfil traçado em poucas linhas.
No ato solitário, ler e escrever, aprendi a ouvir, revelar-me. Situar-me como ser único, pensante, tornei-me mais humana. Saí do marasmo do cotidiano, troquei ideias, ampliei o pensamento.
As cartas que se seguem abriram portas para muitas outras, merecem registro por terem sido as primeiras.
 


Vitória de Santo Antão, 12 de julho de 1960
Prezado Ricardo
Num dos momentos em que lia o Clube dos Correspondentes, da Revista Sétimo Céu, parei no seu endereço, li, analisei os dados e alguma coisa me dizia que deveria escrever-lhe.
Em primeiro quero me apresentar, sou Maria Luciene Chaves de Freitas, tenho 15 anos, 1,70m de altura, morena clara de olhos e cabelos castanhos, claros. Gosto de ler, escrever, bordar, de música, sou católica e sonho com os recantos do mundo que nunca vi.
Poderíamos desenvolver uma amizade sincera, trocar postais, fotografias, falar de nossos costumes, de música, cinema, das particularidades dos nossos países, das coisas que gostamos, enfim falar de nós mesmos.
Sou do Nordeste do Brasil, meu estado é Pernambuco, cuja capital é a bela cidade do Recife, também chamada de A Veneza Brasileira.
Vou encerrar desejando sua resposta, em breve. Depois poderemos escrever longas cartas.
Um abraço amigo de Luciene

Maria Luciene Chaves de Freitas
Rua Cabo Graciliano, Número 224
Vitória de Santo Antão
Pernambuco – Brasil.

E eis a resposta.


Lages – Terceira – Açores, 11/9/1960
Prezada Luciene
A nostalgia, segundo diz o escritor Ferreira de Castro, deve ter nascido numa ilha e só numa ilha se pode conceber o verdadeiro significado da distância.
Para nós, jovens aviadores, o receber cartas é sempre agradável, tanto mais se essas cartas são de alguma mocinha bonita como penso que você é “Morena de olhos castanhos”pois que enquanto as lemos esquecemos a monotonia em que por vezes vivemos. Longe da família e da minha querida Lisboa, cidade maravilhosa das sete colinas debruçadas sobre o Tejo, plena de vida, cor e modernismo e onde impera o modernismo e bom gosto.
Mas afinal creio que já me estou a alongar demasiado e ainda nem sequer me apresentei dizendo-lhe quem sou.
Pois eu sou colega do Ricardo, aquele rapaz a quem você escreveu, não sei se ainda se lembra, mas como ele já tem muitas correspondentes perguntou-me se eu me queria corresponder com uma menina brasileira. Fiquei satisfeitíssimo, pois sempre me desejei escrever com uma brasileira.
Espero que iremos ser no futuro grandes amigos e camaradas, concorda?
E agora eis chegado o momento de lhe falar um pouco de mim. Como atrás já digo, sou aviador nas Forças Aérias Portuguesas. Sou branco, embora agora esteja um pouco bronzeado pelos ares da praia, tenho 18 anos, 1,66m de altura, cabelos pretos e olhos castanhos. Moralmente creio ser bom rapaz, embora seja um pouco orgulhoso ou melhor, tenho dignidade pessoal, não sou vaidoso e sou muito camarada, brincalhão e bastante romântico e sonhador.
Aprecio alguns esportes assim como a música e Literatura, nas quais encontro minhas distrações favoritas nos momentos de ócio, assim como na sétima arte, o cinema, que eu adoro imenso.
As minhas artistas preferidas são Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, a encantadora e fascinante Diana Dors, Milene Demongeot e Ava Gardner. E você Luciene, gosta de cinema?
Eu tenho visto imensos filmes. Há dias vi um filme brasileiro de que eu gostei imenso e que não sei se você já viu: Orfeu Negro. É um filme em tecnicolor, com cenários deslumbrantes e uma história de amor comovente que decorre durante o grande Carnaval do Rio. A música é admirável e as canções de Agostinho dos Santos são românticas e sonhadoras.
São 11 horas de uma manhã lindíssima em que o sol já brilha há muito no horizonte e estou-lhe a escrever deitado na areia da praia donde se contempla um panorama lindíssimo e verdadeiramente romântico de um mar azul, aqui e ali coberto por alvas manchas de branca espuma que num preguiçoso rolar vem beijar a areia quente e dourada e a que o sol magnífico arranca cintilações deslumbrantes, dando-lhe uma tonalidade linda e cheia de poesia.
O silencio neste momento é quase absoluto, apenas interrompido pelo som de uma melodia que adoro imenso “Anastásia” e que neste momento toca baixinho num rádio portátil, confundindo-se com o ruído constante das ondas batendo nos rochedos e até mim chega a brisa marítima que corre mansamente e me vem fustigar docemente o rosto e é assim, neste ambiente calmo e verdadeiramente romântico, que estou a lhe escrever.
E a propósito, você não quer ir skiar um pouco comigo? Olhe o mar, está muito calmo e apenas com uma ligeira ondulação. Se não gostar de skiar convido-a para um passeio no meu gasolina, aceita? Depois beberemos umas coca-colas geladas, sim? Desculpe Luciene tudo isto, porque claro é impossível, pois você está muito longe.
Se aqui estivesse com certeza que teria imenso prazer de lhe oferecer tudo isto. Assim vou acabar de lhe escrever e depois dar umas voltas no gasolina até fazer horas para o almoço. Depois, na parte da tarde, irei voar durante quatro horas.
Afinal esta minha carta já vai enormíssima e já me estou tornando maçador, não é verdade?
Vou pois terminar, mas antes porem quero-lhe pedir para me escrever logo que esta receber e mande a carta por avião, porque a que você mandou ao meu colega veio certamente por barco pois demorou mês e meio.
Também lhe quero pedir que me mande a sua fotografia. Depois lhe mandarei também uma minha fardado e outra à cívil. Está bem? Não se esqueça pois de me mandar a sua foto. Creio que irei gostar de si e que viremos a ser no futuro dois grandes amigos.
Uma vez mais lhe quero dizer que me escreva logo que esta receber, mas faça uma carta muito grande, como a minha, falando-me de si, da sua terra, que eu desejaria imenso conhecer.
Sabe porque é que eu lhe peço para escrever por avião e logo que esta receba? Porque em meados ou fins de outubro vou para uma nova base na minha querida Lisboa e gostava de ainda receber, enquanto aqui estou, carta sua.
Depois continuarei a escrever-lhe quando eu for para Lisboa. Já me esquecia de lhe dizer que simpatizei imenso consigo apesar de só ter lido a sua carta. É por esta razão que desejo ardentemente conhecê-la.
E pronto, finalmente cheguei ao fim. Receba cumprimentos e um abraço deste seu amigo. Carlos
A minha direção é a seguinte:

Manuel Carlos Vaz Serra e Santos
Clube de Especialistas
Base Aéria. Número 4
Lages – Terceira - Açores



Luciene Freitas
Vitória de Santo Antão - Brasil


Formação em Letras, com Pós Graduação em Língua Portuguesa. Além de cursos complementares na língua inglesa, no Brasil e na Universidade do Sul da Flórida.Com trabalhos publicados em jornais e revistas de Portugal, Argentina e Itália, está presente num expressivo número de antologias, livros, revistas, jornais, blogs, sites, em participações especiais e tem uma página no facebook – Meus Livros Publicados.Sócia da União Brasileira de Escritores – UBE/PE. Instituto Histórico e Geográfico da Vitória de Santo Antão /PE. Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro/ALANE. Academia Vitoriense de Letras Artes e Ciência – Vitória/PE. Presidente Fundadora da Academia de Letras do Brasil, Seccional/Pernambuco. Membro, correspondente, da International Writers and Artists Association, IWA, USA. Academia Irajaense de Letras e Artes – AILA - Irajá/RJ. Academia Momento Lítero Cultural - Porto Velho/RO. Accademia Internazionale Il Convivio. Sicilia/Italia. Além de Senadora-Conselheira Cultural Estadual/PE – Brasil pelo ?MOVIMENTO UNIÃO CULTURAL. Taubaté – SP.
Luciene Freitas é pernambucana, brasileira e reside entre duas cidades, Recife, capital do estado de Pernambuco e Vitória de Santo Antão.

 
 

 

Luísa Karlberg

 
 

AMOR ANTIGO
Luísa Karlberg,Prof Dr, IWA

O amor antigo vive de si mesmo,
Não de cultivo alheio ou de presença,
Nada exige, nada pede,
Vive preso na mesma crença,
Que um dia vem e outro vai,
Na vida plena de presença,
De dois unidos ninguém não sai.

Amor antigo nada espera,
Mas do destino vão nega a sentença,
Vive de lembranças e esperanças.
O amor antigo tem raízes fundas,
Feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
E por estas suplanta a natureza.

Amor antigo nunca tem pressa,
Sabe da hora certa de fazer promessa.
E se em toda parte o tempo desmorona,
Aquilo que foi grande e deslumbrante,
Cada dia fortalece a pessoa andante,
Que passa a vida olhando o semblante,
Do ser precioso igual diamante.

O antigo amor, porém, nunca fenece,
E a cada dia mais se enternece,
Fica mais ardente, mas fornido na esperança,
Nunca fica triste na dança.
Mais triste? – Não. Ele venceu a dor,
Resplandece no seu canto obscuro,
Tanto mais velho fica mais maduro.

Luísa Galvão Lessa Karlberg, IWA
Rio Branco - Acre - Brasil


Luísa Galvão Lessa Karlberg – É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense - UFF; Professora aposentada pela Universidade Federal do Acre - UFAC; Professora aposentada do Ex-Território Federal do Acre;Pesquisadora DCR/CNPq; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro perene da IWA; Coordenadora da Pós-Graduação, Campus Floresta/ UFAC; Presidente da Academia Acreana de Letras.

 
 

 

Luiz Bertini

 
 

LUZES DA CIDADE
Luiz Bertini


Sentado na escada da casa onde moro observo a cidade.
O sol agora já deixou para trás os seus últimos sinais.
O céu adquire um azul escuro, profundo. Mas no horizonte se ofusca e se perde, dominado pelas luzes da cidade.
Aviões, tão longe, cruzam os céus e fazem-me lembrar de uma noite de outrora, quando, subindo aos céus, deixava a cidade. Deixava-a para lá longe ir trabalhar.
Lembro-me de vê-la do alto, bela, com sua infinidade de luzes. Que como ondas iam ao longe até se perderem em meio as montanhas ou nos limites da orbe, distante...

Da escada da casa onde eu moro vejo as luzes da cidade, e em cada luz uma casa,
em cada casa pessoas,
em cada pessoa um sonho, uma emoção.

No firmamento estrelas aparecem, e uma leve brisa já se faz anunciar com seu frescor.

Carros passam aqui e ao longe.
Torres iluminadas se erguem aos céus.
Tão bonita e calma parece ela agora.
Como alguém que relaxa após o trabalho.

Quem me dera Deus ela fosse assim calma.
Qem me dera ela fosse:
mais santa,
mais bela, mais justa, com mais homens com mais amor.

Algumas nuvens branquinhas enfeitam o azul e a leve brisa volta a soprar...
Boa noite São Paulo.

Luiz Bertini
São Paulo - Brasil


Sou autor Técnico com diversos livros já editados nas áreas de Eletrônica, Elétrica e Microcontroladores.
Escrevo também livros de contos e poesias.
Minha base para os livros técnicos eu busco na formação em Eletrônica, concluída em 1985 na ETESG Guaracy Silveira e em cursos de aprimoramento. Também me serve de base os 17 anos de aprendizado, lecionando em escolas técnicas, como a ETESG Guaracy Silveira, e a Casa Transitória, por exemplo, além da leitura e desenvolvimento contínuo de artigos e projetos para atualizar minhas homepages e atender os pedidos dos internautas. hoje em dia elas estão off-line.
Atualmente trabalho na TV Cultura com Rádio Frequência e na TV Record com Áudio e Vídeo, além de prestar consultoria técnica, no desenvolvimento de projetos específicos.
O humilde conhecimento para escrever livros de contos, romances e poesia, provêm do fato de ser autodidata, ler e escrever muito e já ter participado de diversos concursos literários (conseguindo a primeira colocação do primeiro concurso de contos e poesias da ETESG Guaracy Silveira na década de 80) e chegando a ganhar uma menção honrosa da Prefeitura de São Paulo, por participar de um concurso de crônicas sobre o bairro de Pinheiros.
Sou um simples autor que busca compartilhar conhecimentos e ideias.

 
 

 

Luiz Carlos Rodrigues da Silva

 
 

ESPELHO QUEBRADO
Luiz Carlos Rodrigues da Silva, Prof Dr

Contemplando os cacos espalhados no chão do quarto
Depois que o espelho foi quebrado num ato de fúria
Devido a um ruído nos nossos sentimentos comprometidos pela monotonia
E pela falta de troca de olhares em dias nebulosos.
Em cada caco é possível ainda ver um pouco de você
Se desfazendo em pedaços multiplicados pela ação impensada no espelho
Que tanto, em tempos de amor intenso, reluziram rostos em um só rosto.
Há uns pedaços que teimam em se juntar novamente
Em cada canto do quarto
Repetido e teimosamente
Em cada caco
Há um pedaço de você desfigurada
No espelho quebrado
Mas, quebrar um espelho não dá azar?
Ou a fúria não foi o azar que nos colocou naquele quarto
Com aquele espelho que resplandecia
A nossa felicidade?
O que fazer com os cacos que restaram?
Quebrar em pedaços menores
Seria melhor para não repetir mais
O azar do ato de quebrar!

Luiz Carlos Rodrigues da Silva,
Prof Dr
Barra do Corda - Brasil


Possui graduação em Filosofia pela Faculdade Evangélica do Meio-Norte - FAEME, em História pela Universidade Estadual do Maranhão - UEMA, em Filosofia da Educação Religiosa pelo Instituto de Teologia e Filosofia Brasileiro - ITEFIB, Especialização em Docência do Ensino Superior pela Universidade Cândido Mendes - UCAM, Especialização em Mídias na Educação pela Universidade Federal do Maranhão - UFMA, Especialização em Psicopedagogia Clínico-Institucional pela Faculdade Evangélica do Meio-Norte, MBA em Gestão Escolar pela Universidade Virtual do Maranhão -UNIVIMA/ Grupo Ibmec, Mestrado em Ciências da Educação pela Universidad Politécnica y Artística del Paraguay - UPAP (2010). Doutorando pela Universidad Autónoma de Assunción. Publicou mais de uma dezena de artigos em periódicos especializados e trabalhos em anais de congressos, possui ainda livro e capítulos de livros publicados no Brasil. Professor concursado da rede estadual e municipal de ensino de Barra do Corda, Maranhão. Atua na linha de Educação e Tecnologias e Cultura. Membro da Academia Barra-Cordense de Letras/ Casa Maranhão Sobrinho. Membro do grupo de Estudos e Pesquisas em Tecnologias Digitais na Educação (GEP - TDE). Membro do Conselho Editorial da Revista da Academia Barra-Cordense de Letras e da Revista Internacional em Ciências da Educação - FIGEEA. Coordenador do Polo da Universidade Aberta do Brasil -UAB de Barra do Corda-MA. Membro da National Geographic Society desde 2006. Membro associado da Associação Nacional de História - ANPUH. Membro da Associação Nacional de Escritores - ANE. Membro da União Brasileira de Escritores – UBE. Membro da Associação Brasileira de Educação a Distância - ABED. Coordenador Geral do Fórum Municipal de Educação -FME de Barra do Corda-MA e Diretor-presidente da Fundação Educacional de Barra do Corda-MA.

 
 

 

Luiz Gilberto de Barros – Luiz Poeta

 
 

JARARACUÇU
Por Luiz Gilberto de Barros – Luiz Poeta


Hospital Souza Aguiar – Rio de Janeiro - Década de 70.


Os familiares disseram aos médicos, que o paciente havia ido pescar e, no retorno, deparou-se com uma temível jararacuçu - réptil que habita principalmente o serrado brasileiro, podendo atingir até três metros de comprimento, com presas de até três centímetros, cujo veneno, produz sintomas que vão desde o inchaço no local da picada, até a paralisação neurológica. Apesar disso tudo, e do aterrorizante tamanho do peçonhento animal, o irresponsável cidadão, trôpego e sem noção como estava, optou por desafiá-lo, mas o bicho foi naturalmente mais rápido, cravando-lhe as oleosas presas na extensa bota de borracha que usava, sem todavia atingir sua epiderme, enquanto o veneno escorria bota-abaixo, como um vermífugo das “pharmácias” ou “boticas “ da década de 50.
O desvairado transeunte ria às gargalhadas, ofendendo a serpentínica criatura, xingando-a com as mais venenosas obscenidades, dançando, pulando e se divertindo com aquela cena chocante e ao mesmo tempo esdrúxula. Quando o colubrino finalmente soltou-se, diversos chutes o atingiram, nocauteando-o. Não satisfeito, o homem apontou o indicador na direção da cabeça do réptil, que num suposto último estertor, cravou-lhe as presas, aparentemente sem veneno, no dorso da mão direita. Os palavrões multiplicaram-se, seguidos de mais alguns furiosos chutes e a cobra, a custo, foi colocada numa imensa sacola de plástico e ambos, desfalecidos, foram socorridos e encaminhados ao maior e melhor hospital da América Latina daquela época, distante a pelo menos uns 100 quilômetros daquele pedacinho de roça.
Não há estudos que informem sobre a possibilidade de uma ingestão alcoólica antes de algum acidente com um desses temíveis répteis tornar-se um antídoto natural, porém, milagre ou não, apesar das 12 horas ocorridas entre a picada, o atendimento e a aplicação do soro monovalente, o paciente recuperou-se após uma estada de sete dias na UTI do nosocômio em questão ( a propósito, não havia, naquela época, soros polivalentes, isto é, destinados a quaisquer tipos de répteis, por isso era preciso – literalmente – capturar e levar a cobra para que o médico soubesse que antiofídico utilizar ).
Depois da internação do paciente supracitado, algo inusitado aconteceu no pronto-socorro: a cobra estava ali mortinha dentro da sacola, até que um ilustre e novato acadêmico que parecia ter como especialidade a medicina veterinária, resolveu fazer uns testes no mínimo estranhos naquela paciente especial, pingando-lhe éter sulfúrico na escamosa cabecinha, que, num átimo, ressuscitou como uma naja e começou a desferir voadoras em todas as direções.
A sala de emergência virou um pandemônio. Naquele dia, os cardiopatas sobreviventes jamais enfartariam. Correu todo mundo: cirurgiões, enfermeiros, maqueiros, o pessoal do banco de sangue e dos Raios X e todo o tipo de paciente que ali estava atendido ou aguardando atendimento : foi uma alta geral sem prescrição médica !
De resto, após a fratura crânio-encefálica, que ninguém ousara diagnosticar, a pobre vipérea estava no Éden, sonhando encontrar uma jovem Eva moderna, para oferecer-lhe – carinhosamente – uma linda maçãzinha. Afinal, foi lá que ela começou a ganhar diabólica e metafórica notoriedade.

(Segundo Lugar no Concurso de Crônicas da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro – Prêmio Moacyr Sclyar)

Luiz Gilberto de Barros - Luiz Poeta
Rio de Janeiro - Brasil
www.luizpoeta.com.br


Luiz Poeta – o carioca e acadêmico Luiz Gilberto de Barros é Professor de Literatura Brasileira e Portuguesa, cronista, contista, ensaísta, revisor, prefaciador, poeta, trovador, aldravianista, produtor musical, compositor e artista plástico, possui uma extensa obra literária editada e publicada em línguas portuguesa, espanhola, italiana, inglesa e francesa, formatadas, editadas e impressas em livros, antologias, e-books, CDs, DVDs e afins, sendo detentor de diversos prêmios literários nacionais e internacionais como produtor de artes lusófonas e afins, sendo ainda Embaixador, Comendador, Chanceler, Delegado, Oficial, Honoris Causa, Acadêmico Efetivo, Fundador, Honorário e Correspondente de Diversas Entidades Acadêmicas nacionais e internacionais.

 
 
 
 

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