FÉNIX

LOGOS Nº 27

SETEMBRO - 2017

 

 

Laerte Sílvio Tavares

 
 

O TUBARÃO CACHORRO
Por Laerte Sílvio Tavares


A história que eu já conhecia e a confirmei, ocorrida em praia de pescadores artesanais do litoral catarinense, local em que fui criado, passou-se há muito tempo, mas muitas lembranças guardei do episódio. Os habitantes do lugar eram, na maioria, de descendência portuguesa com a predominância de pessoas vindas dos Açores, nos meados do século XVIII, que se estabeleceram, dedicando-se à faina pesqueira. Muitos deles viviam em função de uma armação baleeira, que na época, servia de base à extração do óleo da baleia, o qual era de utilidade na iluminação, e também exportado para outras finalidades.
Em razão de meu esquecimento dos detalhes, conferi alguns dados do causo em foco, com pescadores do lugar, onde possuo uma enormidade de amigos e também com meu primo, Cláudio Bersi de Souza, emérito conhecedor da história local.
O personagem do fato teria sido um tio-avô de Cláudio e meu, o senhor João Nepomuceno de Souza. Sabe-se, que tio João costumava ir à lida sem camarada, por gostar de pescar sozinho. Contava com a ajuda da força de um madrugador, e assim colocava sua canoa, feita de um só tronco de garapuvu, no mar, e lá ia ele à força do remo de pá ao encontro das presas acerca de quatro milhas da praia. Já levava iscado o seu espinhel fino de uns duzentos anzóis na balaia, o fundeava um pouco mais em terra e enquanto ficava no aguardo do que seria capturado naquele aparelho, remava mais para fora, onde pescava de linha e de caniço. Estava sempre munido com iscas adequadas às águas mais profundas, destinadas às presas maiores como mero, cherne, cação-mangona ou um cação-cambeva, considerado o mais saboroso e tenro tubarão. – Recordando o ditado popular, que: “cação é o tubarão que a gente come e tubarão é o cação que come a gente”.
Assim, passadas horas, Titio retornava ao porto com o pescado auferido, tanto com a pesca de linha quanto de espinhel. Como sempre viveu sozinho, ao chegar em casa, no horário próximo ao meio-dia, consertava o melhor peixe e preparava o almoço lauto, embora simples a ele.
Certa manhã de sol e brisa mansa, em mais uma pescaria, lançou o espinhel com um velador grande a poder enxergar de longe e remou em rumo de fora ao oceano aberto para tentar a sorte. Fundeou a embarcação com uma poita pequena, deixando o cabo bem curto, quase a prumo, e jogou o anzol grande munido de isca com metade de uma combreia (enguia). Muita demora houve sem qualquer beliscada, enquanto isso, João se distraia com algumas palombetas miúdas que ia desferrando do anzol pequeno de seu caniço curto.
Eis que repente, a linha trançada ao banco do meio tesou e por pouco não emborcou a canoa. Ele, imediatamente fez peso com o corpo no bordo contrário equilibrando a flutuação a dar estabilidade, guardou o caniço e deu mais fieira ao peixe que tentava arrastar pela popa, a embarcação fundeada com a amarra na proa. A luta se estendeu por mais de uma hora, entre o lobo do mar solitário e a enigmática presa que parecia enorme. Ora o tio João soltava corda de amarra ancorada na poita e colhia linha de pesca, ora a soltava mais, içando o cabo de amarra da âncora para cansar aquilo que havia ferrado, que parecia não ceder tão facilmente.
Com a luta contínua, as energias de ambos iam se esvaindo. Finalmente, a capitulação ou preito do vencido e a expectativa de triunfo do pescador cansado, que pôde recolher a poita e deixar a presa ir conduzindo a canoa a seu bel-prazer, que casualmente, era em direção a terra no mesmo sentido que levava ao velador do apetrecho de pesca fundeado. E pouco a pouco, João colhia a linha sem que o oponente sentisse. Já com poucas forças para o embate final, próximo à boia de fora do espinhel, o peixe estava perto, embora em maior profundidade da água turva causada pela lestada da semana anterior que provocou enormes marolas no mar. A cada onda que vinha, a nau pendia e por pouco não bebia água pela borda tracionada à força do enorme peso. A contrabalançar o adernamento, aquele marinheiro safo mantinha o contrapeso no bordo oposto, o que o cansava, deixando-o mais tenso ante o naufrágio iminente. A poucos metros da canoa, o tubarão surgiu, dando para ver o seu grande porte, a tempo de arquitetar o embarque.
João, homem de grande experiência, conhecedor das artimanhas, sabia que se fizesse o animal ter um segmento de ré, ele soltaria o estômago pela boca e morreria. Por essa razão, que a fim de liquidá-lo com maior facilidade, pescadores tentam laçar ou bucheirar o rabo do tubarão, tracionando-o para trás, na direção oposta ao seu deslocamento natural, já que o estômago é solto dento da barriga e qualquer movimento contrário à frente, pode fazê-lo o expelir pela boca. Outra forma usada para abate, seria golpeando-o na cabeça.
Tio João escolheu a técnica de bucheirá-lo pela boca. Apesar das poucas forças que lhe sobravam, trouxe-o à borda e enrolou o seio da linha na toleteira do lado oposto da embarcação.
Munido com o porrete de ipê caçaranha na mão direita e o bucheiro de cabo em madeira de lei amarrado por uma corda que a trançou ao banco da proa, passando-a pelo escovém, ele se preparou ao desfecho final do embate. Daquela forma, conseguiu cravar o robusto anzol do bucheiro no canto da boca do tubarão, mobilizando a cabeça junto à borda. Quando pôde, ver detalhes e analisar a espécie, reconhecendo ser uma mangona, excelente ao consumo humano.
Ao tencionar mais o cabo, tracionando-o pela corda, João colocou o foucinho do cação para o lado de dentro da canoa e desfechou várias bordoadas no crânio do animal, que depois de alguns minutos pareceu desfalecido. Mantendo a borda próxima ao nível da água, com muitíssimo sacrifício conseguiu embarcá-lo, estimando que pelo esforço feito, pesasse uns setenta quilos.
Semi-desfalecida, a mangona agonizava no fundo da embarcação, enquanto João pôs-se a remar até o espinhel. Remava em pé, junto ao rabo do peixe, por ter ciência que exemplares daquela espécie quando colocados sobre o convés de um barco, vivos ainda, são capazes de rastejar e atacar o que estiver pela frente, semelhante a um cachorro. Por isso o cuidado de ficar posicionado atrás da fera - não estando seguro da letargia do cão.
Não demorou muito, já perto do espinhel, o animal deu um pinote a quase cair ao mar, voltando-se em sentido contrário, a cento e oitenta graus da posição em que jazia ao fundo da canoa. Ato contínuo, abocanhou a perna do homem que não conseguia desvencilhar-se daquela bocarra, parecendo ter dado o último suspiro com os dentes cravados a ela. O velho lobo do mar, com toda a fleuma, grande característica do experiente pescador, soube esquecer todo material fundeado, para singrar calmamente até seu porto de origem, com a mangona agarrada em sua panturrilha esquerda, onde ao chegar, o socorreram.
Eu conheci o tio João, o João Mariquinha, como o chamavam, por ser filho da tia Mariquinha, já velho e solteirão, mancando, e lembro que quando ele arregaçava a calça até aos joelhos para entrar no mar, notava-se a falta da barriga de sua perna esquerda.

Laerte Sílvio Tavares
Florianópolis - SC - Brasil
http://silolirico.blogspot.com.br/

Nascido na praia catarinense de armação baleeira ( Armação do Itapocoróy) com tradição portuguesa que cultuava décimas do cancioneiro ibero-português (estilo literário empregado por poetas como Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda e Camões) e sendo neto de um poeta nato, sempre gostou de poesia. Graduou-se em engenharia civil, e debatendo-se com matérias áridas, nunca deixou de compor seus poemas, compondo-os até a presente data. Laerte não se diz poeta, mas um engenheiro construtor de versos e possui alguns livros editados.

 
 

 

Laureano Soares

 
 

ESPELHO
Laureano Soares

Espelho, es tu que me mostras a cada dia
estas rugas que o tempo esculpiu no meu rosto
desde o nascer do sol ou depois do sol posto
na linda embriaguez da vida que eu bebia.

Primavera e verão, ah! Era grande a alegria!
que o outono chegou com acidez sem gosto
não contendo a doçura ou o sabor do mosto
quando à primeira prova, outro me prometia.

O inverno se aproxima, há neve já nos montes
na encosta existem sempre aquelas duas fontes
que o espelho reflete a cada meu olhar.

Tudo o tempo mudou, meus cabelos de neve
são restos desses dias que partiram tão breves
que me quedo hoje aqui, triste e a meditar.

Laureano Soares - Portugal
em Québec - Canadá

Laureano Soares - Viu a luz do sol na Aldeia de Sobral de São Miguel, Covilhã, Portugal.
Muito cedo, ainda na sua juventude partiu rumo a Montréal, Québec, Canadá e aí se estabeleceu. Trabalhou durante 40 anos na companhia de produtos alimentares, Steinberg’s, na qual ocupou vários postos técnicos e de comando.
Em 1969, tomou como esposa Lise Tremblay. Da união nasceram Karine e Jessica, duas flores de todo o encanto.
Viuvou em 2001 e a partir desse momento dedicou-se ao que tanto amava desde a infância: á Cultura, às letras e à poesia.
Publicou: Rêves Orphelins (2006, francês). Raízes de Ardósia (2007, português). Imagens do coraçâo (2012 Trilingue,) francês, português, espanhol.
Participou, na Primeira Antologia de Autores Lusófonos do Canadá (2008).
Participou, na Antologia Memória (2013) An anthology of Potuguese Canadian Writers. Editora, Fidaldo Books, (USA)
Convidado pelo Congresso Brasileiro de Poesia, participou nas Antologias: Poeta Mostra a Tua Cara; Poesia do Brasil: 2011, 2012, 2013, 2014, 2015...
Representante no Canadá da Casa do Poeta Peruano, paricipou em (2009) no II Festival de Poesia José Guillermo Vargas: Ciudad de Bambamarca, Peru. Em (2012) no IV Encuentro Internacional de Poetas, Ciudad de Huari, (Ventana Cultural del Ande) Peru.
Através do «Cercle des Poètes de la Montérégie» participou : nas Antologias: De Sable et d’Eau Claire (2008, francês), L’Encre à Paroles (2010, francês).
É de salientar a sua participação en inúmeros recitais, tertúlias de poesia e outros eventos. Revue de poésie Carquois; Soirée Harpe et Poésie, Ville de Saint Basile-le-Grand; Agenda d’arts Plumes & Pinceaux.
Prémios e menções honrosas lhe têm sido outorgadas pelo seu trabalho e implicação no mundo Cultural. Membro de várias Associações Culturais, a sua poesia se encontra igualmente em certos sites da Internet.
Novas obras, em português e francês serão editadas em bréve.

 
 

 

Leandro Campos Alves

 
 

AS MÃOS QUE AFAGAM
Leandro Campos Alves

São minhas aquelas mãos.
As mãos que afagam o seu sono,
que segura e protege seu tombo.

São minhas aquelas mãos.
As mãos que apoiam seu caminho,
que acalenta seu coração,
que te dá o porto seguro,
mostrando qual é a sua direção.

Filho pequeno ou grande,
são minhas aquelas mãos.
Que te acolhe por onde você ande,
e se fecha em oração,
pedindo pra ti proteção.

São minhas aquelas mãos.
As mãos que lhe dá o pão,
são as mesmas que lhe dá correção.
Deixa-nos também na tristeza profunda,
por corrigir a nossa criação.

São minhas aquelas mãos.
Que a noite te abençoa,
no gesto de devoção;
pedindo a Deus criador,
sua vigília em proteção.

São minhas aquelas mãos.
Que se une a voz a trovar,
para entoar graças ao pai,
enquanto te ponho a ninar.
Agradecendo com muito amor,
por ser teu protetor.

São minhas aquelas mãos.
Pois se palavras um dia faltar,
são elas que vão lhe mostrar,
que por onde tu andares,
nunca vou deixa de ti amar.

São minhas aquelas mãos.
Que doa a ti toda segurança,
minha eterna criança.
São minhas aquelas mãos...

Leandro Campos Alves
Caxambu - MG - Brasil
http://escritor-leandro-campos-alves.com

Leandro Campos Alves é natural da cidade mineira de Liberdade, nasceu em 02 de julho de 1972.
Portador de uma deficiência conhecida por Dislexia, um transtorno genético de linguagem que, estima-se acometer até 17% da população do mundo, pois os disléxicos tem dificuldade de aprender a ler e a escrever porque confundem os sons de algumas letras, ele tratou de vencer estes obstáculos.
Tem vários livros publicados e participações, com várias menções honrosa acadêmicas

 
 

 

Leunira Batista

 
 

OLHOS ESPANTADOS
Leunira Batista

A fantasia exagera o olhar do bem-querer
Fica a imaginar as viagens de outrora
Retrocede sonhos movediços
Que o sono dispersou a história
É na fadiga que a vida escorrega
Para cair nos braços do amor que espera.

A vida pede licença...
Para levitar o seu compasso
Corre pulando obstáculo
Leva uma haste delgada
Com audácia faz o limite da estrada.
Vá! As curvas transformarão em retas
Se você andar sem pressa.

A benquerença habita
Nos fantásticos corações.
A malquerença tem astúcia
Que envenena a razão.
Mas o amor desintoxica
A vida com precisão.

Leunira Batista Santos Sousa
Nossa Senhora da Glória - Sergipe - Brasil

Leunira Batista Santos Sousa nasceu em Nossa da Glória, SE, Brasil, onde ainda hoje reside. Escritora, poetisa e jornalista. Graduada em letras Português/Espanhol. De Professora/Educadora a Auditora de Tributos da SEFAZ, aposentada. Coautora do livro Nossa Senhora Da Glória e Sua História (1978), marco dos 50 Anos de Emancipação Política. Autora do livro O Espelho da Felicidade, Integrante de 16 Antologias e de várias Revistas. Pioneira no quadro de Membro Efetivo da Academia Literária do Amplo Sertão Sergipano (ALAS), cadeira n° 3 patrono Marcelo Déda Chagas; Membro efetivo da Academia Gloriense de Letras (AGL), cadeira n° 16 Patrona Maria Helena de Andrade Pereira.

 
 
 
 

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