FÉNIX

 

 

Ketely Temper Almela

 
 

BRASA, NÃO QUEIMAR
Ketely Temper Almela

Não queimar o meu cabelo
Não queimar o meu corpo
Não queimar o meu brinquedo
Não queimar a minha idade
Brasa, não queimar,
Não queimar meus pés
Não queimar minhas mãos
Não queimar o brinquedo
Que resgato tirando de dentro da lareira
Não queimar eu
Não queimar meu único brinquedo
Não queimar minha única companhia
Não queimar meu único ter
Brasa, não queimar,
Não queimar meu ar
Não queimar minha única roupa
Não queimar meu único vestido
Não queimar meu único sapato
Brasa, não queimar,
Não, não jogue o meu brinquedo,
Entre as chamas mais desesperadas
Do que o meu próprio medo
Não, Brasa, não queimar,
Não me faça ser a boneca incendiada
Jogada adentro de uma lareira,
Chaminé, pois não quero morrer,
Queimada, antes de brincar com,
A minha única boneca chamada Brasa.

Ketely Temper Almela
São José do Rio Preto - SP - Brasil
esoponovagao.blogspot.com
osoprodelufada.blogspot.com


Ketely Temper Almela nasceu em 19 de Abril de 1995 e vive no interior de São Paulo, em São José do Rio Preto. Ingressou-se em Pedagogia na FACMIL no ano de 2013. Escritora, blogueira e pedagoga que pode acompanhá-la em algumas redes autorais.

 
 
 
 

Laerte Sílvio Tavares

 
 

O PADRE QUE NÃO CONHECIA DEUS
Por Laerte Sílvio Tavares


Ele era um jovem recém-ordenado sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana, designado como professor de Ciências Naturais, a um colégio da minha cidade. Empolgou-se tanto pela beleza e natureza da mesma, a bela ilha catarinense, que se tornou como paleontólogo, um grande investigador dos mais remotos sítios locais, a coletar fósseis. Circulava em um jipe adaptado com molas reforçadas que elevavam a carroceria do veículo em relação ao rodado, dando certa altivez ao carro que se compatibilizava à altura avantajada e robustez do padre Müller, alemão de origem suíça.
As inúmeras investigações e coletas de materiais agigantaram-se tanto, ao longo de uns trinta anos, que ele criou um museu anexo ao colégio no qual trabalhava. Além do material científico que procurava, encontrava em suas andanças, magníficas orquídeas, que as catalogava, reunindo-as em coleção enorme.
Conheci o religioso como orquidófilo, por eu também ser um admirador de orquídeas e possuir algumas, já que o clima da ilha é propício ao cultivo da espécie, pois pouco cuidado exige. Basta deixá-la em local sombreado de alguma umidade, como ambiente necessário e suficiente para eternizar existência e reprodução dessas plantas, que o padre mantinha em enorme orquidário sob frondosas árvores seculares nas dependências do estabelecimento de ensino, onde seguidas vezes as fui visitar.
O tempo passou, Müller adoeceu, e por grande zelo tido às suas plantas, dificilmente sedia qualquer muda que fosse. Eu fascinava-me por diversos exemplares de suas raras espécies vistas apenas em seu orquidário, das quais, por insistência, ele prometeu-me ceder uma ou outra, à época do replantio.
Num fim de tarde, padre Baron, diretor do colégio e primo sanguíneo de Müller, telefonou-me avisando ter chegado o tempo do replantio de orquídeas; que eu fosse lá, a pedido do orquidófilo, pegar certas mudas que ele as me havia reservado; e à noitinha fui me haver com o padre Müller.
Bati à porta de seus aposentos e veio ele atender-me. Sem vê-lo há bastante tempo, estranhei a decrepitude de seu estado físico. O homem forte, comparado a um touro selvagem ali esquálido, era um terneiro desmamado e trôpego. Como se fosse um balão inflado à plenitude e estourasse, agora remanescia apenas em arcabouço de suas formas. Ele constituía-se em uma sombra magra curvada, portando a mão esquerda sobre o alto-ventre ou levemente abaixo do abdome superior, que me estendia a mão direita retirada vagarosamente da maçaneta da porta, cumprimentando-me com voz plangente e rouca de cansaço. Imediatamente, perguntei-lhe o que o havia acontecido. Ele respondeu estar com câncer, e sua existência, quase em estado terminal; deixando-me chocado...
Ao entrar no quarto, senti um inconfundível cheiro de álcool, e conhecendo o professor como abstêmio, imaginei ser a imersão de algum pequeno animal em conservação aos seus estudos. Mas ele explicou-me estar a inalar vapor de álcool para aplacar sua intensa dor, obtido pelo auxílio de uma toalha embebida à saturação total de etanol. Logo percebi ter de desistir de minha segunda intenção, além da busca por mudas de orquídeas – que seria uma confissão superficial de meus pecados, tendo em vista que meu filho faria em breve a Primeira Eucaristia, e eu que há tempo não confessava, precisando tomar a hóstia consagrada junto a ele, pensei aproveitar aquela oportunidade a ver-me livre da obrigação cristã relegada. Já disposto a abandonar o segundo propósito, um impulso veio-me ao intento. Falei a ele querer confessar, mas não em confissão ortodoxa, e sim, numa simples conversa entre dois amigos. Em sua retidão prussiana respondeu-me que se eu quisesse confessar, apanharia a estola para o Sacramento, o que fez em um passo de mágica, alcançando, de algum lugar, uma faixa de cor gasta pelo tempo, em tecido brilhoso já carcomido, ostentando uma cruz em cada uma das extremidades que se tornavam um pouco mais largas, a qual trançou por detrás do pescoço. Em ato a se pôr de joelhos, eu o paralisei com uma negação.
E voltamos à conversa descontraída entre bons amigos que éramos, confidenciando a ele, que eu não me achava digno de confessar e tomar a Eucaristia por estar, depois de longo tempo na trilha de devoto cristão fervoroso, meio descrente de tudo, visto que até mesmo, chegava a duvidar da real existência Divina. Porque Deus, na minha visão, seria uma espécie de mão grande, um todo poderoso alienígena como um espírito feito de antimatéria, ou supostamente um grande general que após vencer todas as guerras do universo, reinava absoluto e soberano, já sem vontade para subjugar os vencidos, dada extraordinária superioridade diante dos medíocres ou míseros outros elementos das diversas galáxias, e dócil, procurava apenas ajudar os fracos, por isso seria a hora dele, quem sabe, agarrar-se a esse suposto deus.
Dito aquilo, o padre Müller emocionado profundamente, confessou-me ser padre há quarenta e tantos anos, mas desde menino procurava por uma visualização de Deus, para ilustrar a sua crença, sem conseguiu vislumbrar algo relativo ao que buscava. E que eu teria sido a ele, um Anjo, que veio e o apresentou um Deus concebido, pronto e acabado não em forma, porém conforme a alma que eu tinha, sendo a minha fé inabalável e extraordinária.
Sem querer, já sentados, segurei a mão esquerda do padre, beijei-a com ternura e choramos juntos. Terminada a forte emoção, nós nos ajoelhamos frontalmente. Ele persignou-se, beijou uma das pontas da estola e em seguida eu proferi, ao benzer-me: Padre dê-me a vossa bênção porque pequei. Os meus pecados são...
Duas semanas depois, de volta de uma viagem habitual de serviço, tive a notícia que o padre Müller tinha falecido e fui, na capela do colégio, à missa de sétimo dia, rezar por sua alma onde me senti junto de Deus e dele pela última vez, mas com uma das suas orquídeas (a mais rara), ainda converso de vez em quando, convencendo-a a florir maravilhosamente e ela sempre me atende, em dezembro, para encanto meu, da família e de amigos.

Laerte Sílvio Tavares
Florianópolis - SC - Brasil
http://silolirico.blogspot.com.br/


Nascido na praia catarinense de armação baleeira ( Armação do Itapocoróy) com tradição portuguesa que cultuava décimas do cancioneiro ibero-português (estilo literário empregado por poetas como Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda e Camões) e sendo neto de um poeta nato, sempre gostou de poesia. Graduou-se em engenharia civil, e debatendo-se com matérias áridas, nunca deixou de compor seus poemas, compondo-os até a presente data. Laerte não se diz poeta, mas um engenheiro construtor de versos e possui alguns livros editados.

 
 
 
 

Larissa Bender Cardoso

 
 

ELE...
Larissa Bender Cardoso

Quando ele voltar;
a dor não existirá,
o amor irá curar.

Quando ele voltar;
a luz chegará
para o dia melhorar.

Quando ele voltar;
o caos acabará
para a paz reinar.

Quando ele voltar...

Larissa Bender Cardoso
Porto Alegre - RS - Brasil

 
 
 
 

Leandro Martins de Jesus

 
 

COTIDIANO EM ALGUM LUGAR
Leandro Martins de Jesus

Brisa que traz a rima
Como a folha seca ao vento
Canto que é lamento
Pra tristeza espantar.

Onda que desencanta
Espuma que faz brilhar
Imensidão sem fim...
Somente o azul do mar.

Areia aos montes
Dunas e montanhas
Deserto: miragem em alto mar.

A jangada vem chegando
Ao sabor da corrente
O sol já se põe...
Para amanhã recomeçar.

Leandro Martins de Jesus
Itapetinga - BA - Brasil
https://www.recantodasletras.com.br/autores/leandromj


Leandro Martins de Jesus, natural de Itapetinga – BA, Pedagogo (UESB/BA), casado, é funcionário público estadual. Tem poesias publicadas no jornal alternativo Só Poesias (1999 – 2000), Letras Santiaguenses, Antologia Poética – 50 anos de Itapetinga (2002), Antologia Poética – 60 anos de Itapetinga (2012), Antologia Poética Sarau Nacional (Literarte, 2014), V Prêmio Literário “Escritor Marcelo de Oliveira Souza”, diversas revistas literárias como Gente de Palavra, Cabeça Ativa, Varal do Brasil e LiteraLivre. Publicou as seguintes obras: Devaneios Insólitos, (Clube de Autores, 2009), Reflexões Doutrinárias: artigos e respostas (Virtual Books, 2010), 130 Poesias e o infinito de emoções... (Virtual Books,2014), Conspiração (Clube de Autores, 2012) e Instantes Poéticos (Virtual Books,2017). É verbete no Dicionário de Autores Baianos (S.C.T.,2006). Possui página no Recanto das Letras

 
 
 
 
 

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