FÉNIX

 

 

Maura Soares

 
 

O SOM DO CORAÇÃO
Por Maura Soares

 


O alto-falante do Complexo tocava Noite Feliz. Alguns gritavam para parar com aquilo; outros choravam; alguns riam nas suas loucuras; outros colocavam os travesseiros sobre a cabeça para não ouvir.
Encolhido em seu catre em posição fetal, Osvaldo chorava baixinho para não incomodar seu colega de cela, pois sabia que com Julião ninguém brincava e se o visse chorando era capaz de lhe bater. Por qualquer coisa Julião batia.
Osvaldo já estava bem marcado. Não queria apanhar. Não naquela noite.
Preso há dois anos, seu processo se arrastava. Uma fatalidade estar no lugar errado na hora errada. Uma briga num bar, um homem morto, ele com a arma na mão, uma garrafa que havia sido quebrada, cujas pontas havia enterrado em seu desafeto.
E a música no alto-falante repetia Noite Feliz, Noite Feliz.
O silêncio na sua cela, com Julião dormindo, fazia com que o som penetrasse em seus ouvidos.
Noite Feliz – foi quando ele e Eloisa tiveram seu bebê, Débora, já com 4 anos.
Fora numa noite feliz que ele pegara aquela criaturinha no colo.
Uma noite feliz em que ele com um bom emprego, recebera na véspera a notícia de uma promoção no e aumento de salário, que estava aguardando há tempos.
Osvaldo lembrava de sua mulher tendo que arcar com tudo, com seu emprego que mal dava para se manter, obtendo ajuda dos pais. Perdera o emprego depois da prisão. Quando saísse dali teria que começar do zero.
Quem daria emprego a um ex-condenado? Só pessoas de bom coração que acreditam na redenção do ser humano.
E ele ali, naquela cela. Jamais transgredira em sua vida. Trabalhava desde jovem como menor aprendiz, para ajudar sua mãe viúva, ele e os dois irmãos mais velhos.
Formara-se em um curso e logo obtivera um emprego quando fez 18 anos.
Não servira as forças armadas porque seus irmãos já eram casados e ele ficara como arrimo de família.
Até que ele casou também. A mãe morava com eles e, quando o bebê nasceu, ela cuidava da criança com todo zelo para os pais poderem trabalhar.
A noite de natal parecia não ter fim. Eloisa viera visitá-lo pela manhã, trouxera chocolate, mostrara a foto de Débora que estava bem crescida e falante.
Eloisa contara que havia encontrado com seu antigo chefe e que este lhe dissera que talvez o empregasse novamente.
Quando a mulher se despediu, não aguentou o choro por estar naquela situação.
Osvaldo emocionou-se com isso, mas não criou expectativa, pois o processo, apesar de o advogado dizer que estava batalhando para sua soltura, se arrastava.
Na prisão tudo que lhe ordenavam ele fazia, tentava desempenhar com zelo, pois sabia e sentia os castigos ao primeiro olhar nos olhos de seus carcereiros.
Os presos com bom comportamento eram colocados nas oficinas.
Em suas divagações enquanto Noite Feliz tocava, Osvaldo lembrou-se do primeiro ano de Débora com a família reunida, na festa dupla de natal e aniversário.
Como a vida lhe sorria, o trabalho na empresa, o proprietário, uma pessoa maravilhosa, mas contava entre seus funcionários com um que não trabalhava tanto quanto ele, com dedicação, sempre recebendo elogios do chefe, e o ciúme e rancor de Anísio, funcionário há mais tempo mas sem receber promoção devido ao seu parco esforço.
E na véspera de Natal, antes de ir comemorar o aniversário de 3 anos da filha, a festinha da firma em um bar. Alguns beberam mais da conta. E, cabeça cheia de ódio, Anísio começou a provocar Osvaldo que também já havia bebido mais de duas garrafas. Palavras de provocação e de rancor com o cérebro alterado pela a bebida, a briga entre os dois.
Na luta corporal, Osvaldo pegou uma garrafa e a quebrou, se defendendo das investidas de Anísio. Os outros funcionários tentaram separá-los, mas Osvaldo, mais ágil, desferiu uma garrafada no desafeto e a ponta da mesma em seu peito foi fatal.
Anisio morreu ali mesmo.
Fim de uma festa de confraternização que deveria ser alegre.
Osvaldo caiu em si do horror, do crime que cometera. Embora de passado ilibado, Osvaldo, um ser trabalhador, agora era um assassino.
Não esboçou reação quando a polícia veio, solicitada pelo dono do estabelecimento.
Pensamentos tristes naquela noite de Natal.
Preso nestes sentimentos de dor e saudade, Osvaldo adormeceu.
O tempo passou.
Osvaldo depois de 8 meses à espera da revisão do processo, recebeu notícia do advogado que sua soltura estava chegando a termo.
Mais alguns meses e seria libertado.
No início do terceiro ano de sua prisão, Osvaldo compareceu às audiências para sua liberdade.
Finalmente as preces de Eloisa foram ouvidas e Osvaldo foi solto na véspera de Natal. Eloisa, Débora, sua mãe e os sogros o aguardavam na sala de visitas.
Forte emoção no encontro da família.
Débora receosa em ir para o seu colo, logo aquiesceu e Osvaldo chorava e beijava a filha ao mesmo tempo. A menina abraçou o pai e ele encostou sua cabeça em seu peito, fechando os olhos.
-O que foi, papai?
Ele disse:
-É que quero ouvir o som do seu coração.

Maura Soares - Grupo de Poetas Livres
Florianópolis - SC - Brasil
http://lachascona.blogspot.com/


Maura Soares nasceu em 7 de janeiro de 1943, em Florianópolis, SC. Filha de João Auta Soares e Odete Machado Soares. Mãe de João Guilherme Machado Soares, formado em Cinema e Vídeo (UNISUL). Licenciada em Letras, Português-Inglês(UFSC) e Pedagogia-Habilitação Supervisão Escolar(UDESC). Exerceu várias atividades administrativas em Secretarias do Estado e, no Conselho Estadual de Cultura, ficou por oito anos. Presidiu a Associação dos Supervisores Escolares de Santa Catarina em duas gestões(89-90 e 91-92). Autora teatral com cerca de 40 peças entre infantis e adultas. Participa de várias antologias (19 pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores) publica poemas em jornais e revistas no Brasil e na Argentina, além das Revistas Virtuais Logos, da Fénix e eisFluências (sob a direção de Carmo Vasconcelos e Henrique Ramalho) e do Portal CEN- Cá Estamos Nós, de Carlos Leite Ribeiro. Autora de “A Biblioteca e seus Patronos” e “7 Dias de Julho”, ambas pela Editora Papa-Livro. Pelo Clube de Autores,as obras: “Sobre o travesseiro”; “Uma rua chamada Pedreira”; “Um amor para lembrar”; “Cambada de invejosos”; “Velhos Guardados”; “Vida bandida”; “O teatro de Maura” e “Em poucas palavras”. Obras editadas artesanalmente: “Retalhos-poesias, contos e crônicas”(alguns poemas e crônicas já inseridos nas obras citadas acima); “Não intica co´a bucica”; “Caminho na areia”; “Geléia”(conto infantil); “Poemas para Maiores”. Novelas(editadas artesanalmente): “A Catedral”, “A vida secreta de Marilu”, “Maria das Dores”, “O violão do Amarildo”. Membro do Grupo de Poetas Livres desde 1998 e Presidente de 2000 a 2014. Edita a Revista Ventos do Sul, do GPL. Membro da Academia Desterrense de Letras, cadeira n. 33, cuja patrona é a poetisa Maura de Senna Pereira (prepara obra sobre ela com publicação de panegírico acrescido de poemas); Membro Emérito do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Possui alguns troféus “Bastidores”, por sua participação teatral; Comenda Francisco Dias Velho (Prefeitura Municipal); Troféu da Câmara Municipal de Florianópolis pela dramaturgia; Troféu Maricota de Literatura-2004 (Federação das Academias Catarinenses de Letras) e Juca Ruivo(CTG Juca Ruivo - Maravilha,SC),2008; Troféu de 1º Lugar no Concurso Nacional Geraldo Luz de Poesia (pela Academia de Letras de Blumenau, SC); Troféu Garapuvu (pelo Grupo de Poetas Livres); Placas de Prata pelo trabalho literário, Diploma de Acadêmica Honorária da Academia Alcantarense de Letras, de São Pedro de Alcântara, SC e outras honrarias. Edita a Revista Ventos do Sul, do Grupo de Poetas Livres.

 
 
 
 

Meire Pérola Santos

 
 

SEM PRESSA
Meire Pérola Santos

Porque tanta pressa pra chegar?
Não tenho essa pressa vou devagar.
Nesta vida corri atraz de muitas coisas.
E por ter tanta pressa eu sofri demais.

Hoje vou devagar e sem pressa
A pressa me levou a chorar e sofrer.
Então pedi forças a Deus pra sobreviver.

O sorriso pairou no meu rosto
E assim eu vou chegar até o fim.
Vivo o desabrochar de uma flor.
Com este sorriso constante
Vou driblando a dor a tristeza.
Assim vou sentindo a felicidade
Chegar até a mim.

E quem me olhar vai ter a certeza
Que sou feliz.
Sofri chorei e aprendi ser feliz.
Pressa jamais vou devagar
Sorrindo cantando ou chorando
E assim a felicidade viverá em mim.

Meire Pérola Santos
Ferraz de Vasconcelos - SP - Brasil


Alagoana residente em São Paulo. Tenho uma comunidade Coisas de Vida. Participo do Recanto das letras
Acadêmico: Meire Pérola Santos, Patrono: Stephane Mallarmé, Cadeira: 76

 
 
 
 

Mercêdes Pordeus

 
 

MEUS LIMITES
Mercêdes Pordeus

Ultrapassei as fronteiras físicas
Transpus meus limites emocionais
Descobri a saudade além do físico
Deixando para trás terras nacionais.

Transpus meus limites emocionais
Sem pretender ver diferenças sociais
Em frente fui pisando o solo guiano
E só a saudade me acompanhando.

Descobri a saudade além do físico
Aos poucos no coração se alojando
E os meus pés naquela terra pisando
As características locais visualizando.

Deixando para trás terras nacionais
Ampliava conhecimentos interpessoais
Adaptando-me as diferenças ambientais
Foi assim que vivi as experiências locais.

(Lethem/Guiana Inglesa, em 18/02/2007)

Lethem é a maior cidade do sul da Guiana, capital do estado de Upper Takutu-Upper Essequibo. Região de extrativismo mineral e vegetal. Sua população é estimada em cerca de 2.600 pessoas (2002). Um rodeio anual no fim de semana de páscoa é o principal acontecimento da localidade.

Mercêdes Pordeus
Recife - Pr - Brasil


Mercêdes Pordeus nasceu na cidade de Olinda e vive em Recife/PE/Brasil, possui formação em Pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco. Casada com o poeta português Victor Jerónimo iniciou a escrever poesia incentivada por ele, apesar apreciar a literatura desde muito cedo. Participação em diversas Antologias e Concursos Literários.Tem vários prémios e menções honrosas.

 
 
 
 

Mhario Lincoln

 
 

PIÕES E TEARES
Mhario Lincoln

Amanheci rodando piões vazios,
soltos por barbantes sem teares.
O tempo ainda dormia quando decidi sair de casa.

E até hoje sonha com meu voltar...

Amanheci rodando piões de vento,
soltos por amantes do tempo,
dormindo nos sonhos de não voltar ao mar.

Teares lúdicos do meu chorar...

Amanheci mar, sem piões de sonhos,
dormindo nas calçadas do tempo,
Sem medo de construir casas nas nuvens.

Nem nos arredores do barbante,
que roda o pião do ontem
e me conecta à volta do meu mundo de sonhos.

Hoje, amanheci ontem!..

Mhario Lincoln
Curitiba - Brasil
www.mhariolincolndobrasil.com
www.acervum.com.br


Mhario Lincoln é jornalista, poeta e presidente da Academia Poética Brasileira.Editor-sênior da Revista Poética Brasileira e do Suplemento Nacional de Literatura e Artes, ACERVUM. Embaixador da Paz/Brasil.
Tem dois livros de Direito, dois livros de poesia, um de reportagem-romance e um romance épico no prelo, chamado "O Maria Celeste".
É maranhense de origem, mas mora atualmente em Curitiba-Paraná.

 
 
 
 
 

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