FÉNIX

 

LOGOS Nº 10

SETEMBRO 2014

PROSA

 

 

 

Emanuelle Tronco Bueno

 

A FLORA QUE AFLORA ESPERANÇA
Emanuelle Tronco Bueno


Flora teve um motivo maior de existir. Tanto a flora que pertence à linguagem dos botânicos, quanto Flora Ponso de Lima. Vó Flora, além de aflorar paixões e cultivar a flora e a fauna através de um belo jardim em sua casa, esbanja vitalidade em seu século de vida quase completo.
Se nada acontece por acaso, Flora também não nasceu no mês de novembro e no ano de 1912 por acaso. Já estava traçado em sua trajetória seu nascimento e sua personalidade doce, meiga e generosa. Ao lado da Filha Maria e de sua neta, que recebeu seu nome, Flora, vive cada dia como se fosse único, em sua casa, na zona sul de Porto Alegre. Sua casa grande, atípica nesta nova era, representa, em sua energia, a felicidade de sua moradora.
A meiguice de sua fala pode ser comparada as camélias do belo arbusto que se localiza nos fundos do lar. Flores tão delicadas quanto seus gestos e tão brancas quanto seus cabelos, afloram a vontade de Flora cantarolar: “Ô jardineira porque estás tão triste? O que foi que te aconteceu? Foi a Camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu...”. O som suave da música clássica que ultrapassa gerações faz sorrir Flora, e, junto a ela, seu belo jardim. Sua voz rouca sussurra palavras devagarzinho, e fornece aos ouvintes uma sensação inigualável de poder capturar um pouco de sua vasta experiência de vida.
O tempo fora tão generoso com Flora que para ela essa palavra parece não incomodar. Embora as marcas desse tempo insistam em aparecer em suas mãos, embora os dedos não consigam mais firmar a caneta como antes, embora a letra não seja mais tão desenhada, Flora continua seu hábito de escrever. As pessoas queridas e os diversos amigos recebem sempre seus cartões e recados. O texto, embora pequeno, mostra a vitalidade dessa grande mulher.
Suas pernas parecem pertencer a uma jovem. Sua saúde, inveja muitos adolescentes. E, sua memória, ainda elucida mínimos detalhes. Em meio a tanta virilidade, somente a aparência e o conhecimento entregam sua idade. Aos dezessete anos iniciou sua vida conjugal com Nelson José Moraes de Lima, com quem teve quatro filhos. Logo após o casamento foi morar às margens do rio Jacuí, em Passo de São Lourenço, município de Cachoeira do Sul.
Flora, nascida e criada em Porto Alegre, estranhou a nova vida do campo. Porém, sempre disposta, aprendeu todas as lidas da campanha. Fazia pães, doces, linguiça, e todo o tipo de tarefa de uma dona de casa, atendendo e organizando seu novo lar.
Italiana nata, Flora ensinou a todos a macarronada que aprendeu com sua mãe, Rosa. Seus “merenguinhos”, que mais parecem pingos de açúcar, são minuciosamente desenhados. Eles parecem feitos em série e deliciam todos que já o degustaram.
Vó Flora gosta da cidade que morou durante grande parte de sua vida, embora a volta da família para Porto Alegre não traga boas lembranças. Após muitas enchentes e várias superações, a enchente de 1941 foi a derrocada da família. Nessa enchente perderam toda criação de aves, suínos, gado, plantações e quase a própria vida.
Em meio a tanto desespero e medo, Flora nunca desanimou. Após o desastre foram para Porto Alegre, em um período em que a Segunda Guerra ainda provocava temor. Flora então convenceu o marido a deixá-la tentar um emprego na Prefeitura de Porto Alegre. A aprovação no concurso foi mais uma prova de sua persistência.
Quando é perguntado à Flora o que mudaria no passado (se fosse possível), ela diz que não alteraria nada e que tudo poderia ser igual, pois agradece por sua família, por sua saúde, e pela vida.
Apenas seu corpo envelheceu, pois sua mente está sempre aberta a mudanças. Vó Flora, sempre muito disposta, bate ponto quanto se fala em noticiário. Rádio, jornal e televisão. Todos passam, diariamente, pelo crivo da Vovó.
Embora a beleza da flora nativa se assemelhe muito a ela, a flora extinta dos ecossistemas brasileiros a caracterizam de forma fiel. Flora é abençoada e única. A grande flor Divina, que foi enviada a terra não por acaso. Seus ensinamentos permeiam. Sua alegria de vida enaltece os que estão a sua volta. Quiséramos nós poder desfrutar dessa saúde e dessa beleza interior.

Emanuelle Tronco Bueno
Restinga Seca - RS - Brasil

 

 

Faustino Vicente

 

REFORMAS ESTRUTURAIS
Faustino Vicente


Passadas as emoções da Copa do Mundo, os holofotes se voltaram para o campanha eleitoral, cujos primeiros passos já ganharam as ruas, a mídia e as grandes vedetes das eleições; os aplicativos das redes sociais.
O que realmente o Brasil precisa e o que o povo quer assistir, é tão somente, um debate (profundo) sobre as seguintes reformas: tributária, administrativa, trabalhista, politica e judiciária.
A classe política precisa se comprometer a detalhar cada projeto e como ele será apresentado, aprovado, regulamentado e implementado, dentro do próximo mandato.
Apesar do interesse pela Política, a nossa caminhada profissional foi pautada pela iniciativa privada (banco e empresa de grande porte), o que nos levou a recusar convites para assumir cargo comissionado, candidatura a vereador e filiação partidária.
Trabalhamos, durante muitos anos, em dias de eleições e em contagens de votos em Jundiaí e em Londrina (PR).
As primeiras “alfinetadas”, por parte de alguns políticos, parecem ditar o tom de eleições passadas, ou seja: discurso da situação – fizemos mais e melhor – afirmação da oposição: fizeram menos e pior.
Vem aí a mesmice, com raras exceções.
Somente “oxigenando” as estruturas vigentes, o país dará o indispensável salto de excelência, para que a sétima economia do planeta deixe de amargar, segundo o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - o nada honroso 79° lugar de IDH ( Índice de Desenvolvimento Humano).
O empreendedorismo na gestão pública, com participação popular, deve levar o nosso país a melhorar a qualidade de vida, facilitar a competitividade das empresas e reduzir o Custo Brasil, cuja elevadíssima carga tributária é incompatível com a baixa qualidade dos serviços públicos.
Os baixos índices de crescimento do PIB ( Produto Interno Bruto) destes últimos anos e a forte pressão inflacionária são fatores, mais do que evidentes, que uma “melhoria pontual” não nos levará aos patamares de países com elevados índices de qualidade de vida.
O excesso de burocracia, ineficaz contra a corrupção, é o “calcanhar-de-aquiles” do Estado brasileiro.
Somente com reformas estruturais poderemos reduzir essa cruel desigualdade existente entre a ilha de ricos e o oceano de pobres.

Faustino Vicente
Jundiaí (Terra da Uva) – São Paulo - Brasil

 

 

Felipe Aquino,Prof.

 

QUE TAL, MISSAS PARA PEDIR CHUVA?
Felipe Aquino,Prof


Nos meus 64 anos de vida nunca vi uma seca, uma estiagem, tão longa e dura como esta que estamos vivendo. O governo de São Paulo e de outros estados estão fazendo uma ginástica enorme para que as cidades não fiquem sem água. Os rios estão minguando e os reservatórios também. No entanto, ainda não vi uma notícia sequer sobre alguma celebração de Missa para pedir chuva a Deus. Já está na hora de implorar ao céu, como se fazia antigamente, com muita frequência.
Lembro-me que quando era criança, meu pai tinha um sítio, que hoje é a “Casa de Betânia”, do querido falecido Padre Léo, em Lorena/SP. Em frente ao sítio, no arraial, minha avó Ana construiu uma pequena igreja em honra a Santa Lucrécia, e trouxeram uma bela imagem dela da Europa. Está lá até hoje.
Pois bem, naquela época, quando havia uma grande estiagem, e os pastos secavam deixando o gado passando fome, o povo todo do bairro, com as famílias dos fazendeiros, traziam a imagem de Santa Lucrécia em procissão, por 10 km, até a Catedral de Lorena, onde o pároco celebrava uma Santa Missa pedindo chuva a Deus.
Meu pai contava que várias vezes ele presenciou que tão logo a Missa terminava começava a chover. Será que ainda acreditamos nisso?
Ora, o Missal Romano (Ed. Paulus, 6ª edição) traz o rito de várias Missas “em diversas circunstâncias da vida pública”: pode-se rezar a Missa pedindo para evitar guerra e calamidades, pela santificação do trabalho, para a sementeira, após a colheita, em tempo de fome, pelos refugiados e exilados, pelos prisioneiros, pelos doentes, agonizantes, em tempo de terremoto, para pedir bom tempo, para repelir as tempestades, para pedir chuva, em ação de graças e por qualquer necessidade” (p. 914 -929).
Inclusive, o Missal traz a oração do dia da Missa para pedir chuva:
“Ó Deus, em quem vivemos, nos movemos e somos, concedei-nos as chuvas necessárias , para que, auxiliados quanto aos bens da terra, desejemos com mais confiança os do céu. Por nosso Senhor Jesus Cristo , vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.
As Antífonas rezam:
“Coroais o ano todo com vossas bênçãos e a terra se enche de frutos” (Sl 64,12)
“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo, diz o Senhor” (Mt 28,20).
Além de todo o esforço gigantesco que os governantes estão fazendo para minimizar a seca, é preciso rezar. Não é à toa que a Igreja recomenda a Santa Missa por todas as necessidades humanas. É hora de olhar para o céu; a terra é boa, mas a chuva vem do céu.
Que tal retomarmos essas Missas e procissões?

Felipe Aquino,Prof
Brasil
http://blog.cancaonova.com

 

 

Francisco Luís Fontinha

 

A ORAÇÃO
Francisco Luís Fontinha

(texto de ficção)


Alguma coisa vai acontecer, pensava eu,
Descerro os cortinados da noite, abro cuidadosamente a janela, e nada, não aconteceu nada,
Alguma coisa vai acontecer, pensava eu, e todas as noites antes de adormecer poisava entre os lírios travestidos que passeavam na rua junto ao rio, e antes de adormecer, todas as noites antes de adormecer não acontecia nada,
O quarto descia a avenida e o espelho do guarda fato sorria-me,
- Amanhã vai acontecer,
E o candeeiro que acabava de se desviar do meu quarto que descia a avenida, e junto ao rio,
- Amanhã vai acontecer,
E hoje
E hoje quando acordo,
Nada,
Não aconteceu nada,
O dia de ontem uma fotocópia do dia de hoje,
- Amanhã vai acontecer, pensava ele enquanto descia a avenida junto ao rio e se desviava do candeeiro semeado no centro do passeio, pensava eu,
Que ignorante semeia candeeiros no centro de um passeio onde caminham quartos, salas de estar, cozinhas e corredores?
Para não falar nas varandas e nas casas de banho,
Alguma coisa vai acontecer, pensava eu,
- Amanhã vai acontecer,
O quarto acorda e uma mão cansada poisa no meu rosto,
- Bom dia filho,
E nada, hoje quando acordei não aconteceu nada,
- Bom dia meu filho dormiste bem?
E eu, e eu respondo-lhe,
- Sinceramente mãe se dormi bem? Descerrei os cortinados da noite, abri cuidadosamente a janela, e nada, não aconteceu nada,
E claro que não dormi bem,
Alguma coisa vai acontecer, pensava eu,
E repetidamente antes de adormecer como se fosse uma oração Alguma coisa vai acontecer Alguma coisa vai acontecer Alguma coisa vai acontecer Alguma coisa vai acontecer Alguma coisa vai acontecer,
Alguma coisa vai acontecer, pensava eu,
E nada,
Nada acontece.

Francisco Luís Fontinha
Alijó - Portugal

 

 

Gerci Oliveira Godoy

 

TRAVESSIA
Gerci Oliveira Godoy


Enquanto eu fazia aquela travessia escura e apertada, lá fora havia festa. O céu estava escuro, mas estrelado. A lua enfeitiçava a noite, e brilhava feito donzela crescente. As fogueiras crepitavam. Era noite de são João, e mamãe fazia um trabalho muito importante. Colocava-me no mundo. Não sei qual a característica mais importante em mim, quando pequena. Se o choro fácil, riso constante ou o canto que entoava insistentemente. Não cantava tão bem como o canário, tentava porém, imitar o quero-quero, demarcando com a voz o espaço à minha volta. Naquele tempo era fácil crescer, a gente só usava fita métrica. Multiplicando os sonhos, tive sempre um pé aqui, outro em mundos que imaginava. Na escola não só pintava e bordava, também escrevia e fazia versos que mesclavam minha fantasia com fatos reais.
Sinto saudade da velha mestra. Dona Yda Schirmer parecia se multiplicar como uma figueira frondosa. Pena que naquele tempo as manifestações de respeito suplantavam as de carinho, ou Dona Yda teria recebido muitos abraços.
Que saudade de meus velhos troncos! Alguns não resistiram a ação do tempo, outros ficaram para traz, não sei aonde.
Se naquele tempo eu soubesse o que estaria sentindo agora, beijaria minha mãe devagarinho, abraçaria meu pai com toda a força e olharia bem no fundo de seus olhos, assim os entenderia melhor.
À noite, o primo Manuel contava histórias
Então eu e meus irmãos sentávamos à sua volta. A luz fraca do candeeiro ia desenhando aos poucos, nas paredes nuas, os personagens de suas histórias de mares bravios, onde homens valentes enfrentavam a fúria das ondas, enquanto as amadas teciam redes à esperá-los.
Ninguém jamais contou tão belas histórias como primo Manuel. Pena que hoje os contadores de história sejam tão poucos!
Seu Cristino, um velhinho nosso amigo, vendia laranjas. O cavalo era seu transporte. A tardinha ele voltava para casa, sempre com os cestos, um de cada lado. Das vendas do dia sempre sobravam algumas para nos ofertar.
Um dia compreendi que ele, com sua bondade, guardava aquelas para nós. Cristino deve estar lá no meio dos pinheirais onde sempre morou. Gosto de imaginá-lo, descansando à sombra das velhas árvores.
Fui uma criança privilegiada, pois tive como amiga, uma menina sábia. Ela parecia uma índia, pela sua mão entrávamos na mata , saboreando os frutos que ela conhecia e aprendendo sobre todas as ervas. Ela também sabia onde estavam aqueles ninhos feitos de gravetos, mas cuidava para que ninguém os tocasse, porque se as cobras sentissem nosso cheiro, comeriam os filhotes. Nossa amiga identificava os pássaros, sem precisar vê-los, só pelo canto de cada um.
Quietos, junto dela, eu e meus irmãos ficávamos à escuta; Sabiá... Alma de Gato... João de Barro... Tesourinha...
E de repente, ante nossos olhos arregalados, beija-flores a planar bebericavam o néctar das flores. Havia também naquele paraíso uma figueira tão grande que nela fazíamos nossas casas de bonecas.
Fui crescendo e amando a vida, a natureza e os livros cada vez mais .O tempo passou, Santo Antônio me pegou direitinho, então se sobrasse tempo eu lia. Teatro? -Sim, fazia bem o papel de lavadeira, cozinheira, arrumadeira, professora... Aplausos? Só quando contava histórias para meus filhos, mas isto eu amava fazer.
Hoje se confundem na memória ramos verdes e tenros de minha infância com fortes galhos e raízes que me sustentaram. No meu tempo de agora as ideias se transformam em atitudes criadoras. Já não são apenas sonhos. E aquele caranguejo do mês de junho, que siga seu andar, meio de lado, meio sem jeito, mas que use todas as pernas se quiser me acompanhar. Conduzirei meu corpo para onde minha vontade me levar. E quando não mais conseguir suportar o peso de meus galhos, quero também continuar vivendo na lembrança das coisas boas e no coração das pessoas.

Gerci Oliveira Godoy
Porto Alegre - RS - Brasil

 

 

 

Livro de Visitas