FÉNIX

LOGOS Nº 3

Julho 2013

 

 
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Fanny Costa

 

 

O MEU POEMA
Fanny Costa

 
O meu poema nasce na noite,
na alvorada dos sentidos
quando o coração remexe a memória
e murmura estrelas de oiro
que eu rabisco no papel do silêncio.

O meu poema
cresce dentro de mim, voluteia
na alma como pássaro de fogo
que incendeia o gelo dos sentidos
apagados.

O meu poema
arde no vazio dos murmúrios calados
e da ausência que me ata ao silêncio
da indolência.

O meu poema adormece
na carícia das brisas
e
morre na vertigem do instante…
de uma saudade que anoitece.

Fanny Costa
 

 

 

Fernando Reis Costa

 

 

A TI, MULHER!
Fernando Reis Costa

 
A ti, Mulher...
Que nasceste para amar e ser amada,
Criada para dar vida à própria vida;
E que és ainda tantas vezes maltratada
Nesta sociedade louca, corroída…

A ti, Mulher…
Que negados vês ainda alguns direitos
E te oprimem da suma liberdade,
Como se fosses serva fiel da sociedade
Neste mundo sujo em preconceitos…

A ti, Mulher…
Que pela natureza tu és bênção querida…
E em teu peito tens o leito e dás guarida
À ternura, ao carinho e ao amor…

A ti, Mulher…
Quero exaltar o teu real valor…
Não hoje simplesmente, aqui, agora!
Mas…que o Dia da Mulher – o seja sempre:
- Hoje, amanhã, e a toda a hora,
E te libertes das garras do furor
Desta sociedade incompetente e corrompida!

A ti, mulher…
Baixa, alta, branca, negra, magra, obesa…
Flor, fruto e semente que dás vida à própria vida;
Que és do carinho e do amor rainha de beleza
Obra-prima e divina da própria Natureza…
Mulher, filha, esposa, mãe ou avó querida…

A ti, Mulher…
E sem favor … Eu quero exaltar
Nos versos que declamo em teu louvor:
Curvo-me perante ti, Mulher, por seres quem és!
Deixo estes humildes versos a teus pés!
E neles… em cada palavra uma flor!

Fernando Reis Costa
 

 

 

Fernando Spanghero

 

 

FUGA
Fernando Spanghero

 
Cansado de colocar máscaras, que, com o tempo,
passam a compor a pele,
dispo-me de orgulhos e vaidades,
e tudo mais que revele,
que eu esteja, enfim, fugindo de mim,
tentando encontrar as minhas verdades.
Já cansado da busca dos grandes eventos,
procuro instantes que sejam apenas momentos.

Então, mergulho nas lembranças de nós dois,
para depois,
de visitar a nossa história,
vê-la acesa, como chama, na memória,
e, perceber que não me encontro mais comigo,
porque sou feito de ilusão,
e, se então ainda sigo
como quem procura abrigo,
só se explica uma razão.

Por ser feito de emoção,
corro a procura de mim mesmo
já que um dia me perdi.
Corro para não ficar a esmo
refém das coisas que sofri,
tentando no reencontro imprevisível
juntar forças e fazer o impossível.
Seguir em frente e conformar com a solidão !

Fernando Spanghero
2013
 

 

 

Floriano Martins

 

 

RELATO DUVIDOSO DO QUE SE PASSOU CERTO DIA DO QUAL NINGUÉM RECORDA UMA SÓ PALAVRA
Floriano Martins

 

A história foi toda escrita ao contrário.
Só assim resultaria permanentemente desacreditada.
O tempo se arrasta como um símbolo perdido.
Um pássaro aplicado à linguagem tentando descobrir uma função para o excesso de aspas.
Púlpitos são comprados em brechós.
A memória jamais deixou de ser abundante e perversa, como uma escada largada na garagem.
Aos que não vivem sem um oráculo, consultem a escada, consultem os brechós.
Há uma longa distância a atravessar entre o que vemos e o que não conseguimos tocar.
Querem mesmo saber o que houve naquele dia?
Tudo parecia despertar deslizando na matéria de nossa percepção.
As dádivas da perda se associando às lágrimas como um dragão dominado pela assimilação demoníaca.
Como nunca, eu desejei ser o abismo do mundo.
O que vi foi a minha filha expirada em mim, a minha vida tomada como uma alusão volátil, um rio de sangue e mais nada.
A eternidade nunca faz parte da cena.
A vida mói o espírito, o princípio e até mesmo os anjos não adaptados.
Eu teria me desfeito em sangue por ela.
Deus algum saberá até onde eu fui.
Nem importará sabê-lo, pois não importa o mais implacável de todos os destinos.
A minha filha se foi dentro de mim, consagrada ao vazio como uma espécie perdida.
Os dias felizes são tangíveis.

Floriano Martins
Fortaleza - CE - Brasil
www.revista.agulha.nom.br
http://agulhafloriano.wix.com/florianomartins

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

 

 

BORBOLETAS COM BOLINHAS PRATEADAS
Francisco Luís Fontinha

 

Conheci uma borboleta com bolinhas prateadas nas asas maleáveis de porcelana embriagada manhã, um dia, e quando já me tinha habituado à sua presença no parapeito da janela da biblioteca, percebi pela sua ausência sem qualquer explicação, que algo de muito grave tinha acontecido,
Um terramoto derrubando todas as árvores do meu jardim invisível? Ou.. também pensei na fraca probabilidade de ela ter morrido, pois diz o povo, que as más notícias são sempre as primeiras a saberem-se, entenda-se agora por más, má pessoa? Má vida? Má, ela? Nunca me apercebi de tal facto, sempre afável, meiga, terna, que às vezes até parecia que tinha chegado de um favo de mel,
E não era para mais, nos lábios de prata sempre a suspensa lágrima de açúcar, derradeira melodia dos primeiros sons do amanhecer, batia-me à janela, eu, quando a ouvia, porque muitas das vezes dormia tão profundamente que nem me dava conta que o edifício contiguo tinha desabado durante a noite, e todos os meus vizinhos desalojados, cerca de vinte famílias, tinham sido acolhidos na pensão da rua das traseiras, má, porque frequenta-se por homens de fraco calibre, mulheres petroleiro que quando se aportavam num cais com fundações suficientemente alicerçadas aos rochedos bem lá no fundo, nunca mais o abandonavam, chupavam-lhes tudo, inclusive as algibeiras,
Um terramoto?
As urtigas dormiam debaixo dos meus velhos lençóis
(canso-me deste vibrador sobre a minha secretária, canso-me, e provavelmente brevemente desligar-se-á, ou... também pensei na fraca probabilidade de ela ter morrido, mas felizmente que está vivo, de boa saúde e a atrofiar-me a cabeça; claro que me refiro ao meu telemóvel... Que pensavam vocês, seus malandrecos?)
E quando por lapso me encostava a elas, sentia-as na minha pele fina e sedosa, aleatórias madrugadas ausentada de ti, recordava os teus lábios com lágrimas de açúcar, recordava as estranhas janelas que sempre prontas me abrias, eu entrava-te e tu depois, olhavas-me, sorrias-me... e dizias-me na tua voz maliciosa e poética
Amo-te minha querida,
Às palavras, todas as caixas perdidamente empilhadas sobre os telhados zincados dos veludos musseques esquecidos nos pequenos charcos que a chuva depois de partir deixava sobre a terra agreste, seca, recheada de fendas como a pela das mesmas mulheres, as de má... que frequentavam a pensão das traseiras, tocava-te nas pernas, poisava-me lá, e tu, indiferente, indecisa
Não sei se quero,
E tu desentendida
Não percebi filho,
E tu
Perdida no silêncio... dizias-me que as fotografias são esqueletos de papel prensados, e tal como as tostas-mistas, de preferência, comem-se quentes, porque são saborosas, porque tu inventavas borboletas como quem inventa palavras, e que eu saiba
Mas tu não sabes nada,
Não existem borboletas com bolinhas prateadas nas asas maleáveis de porcelana embriagada manhã, não existem janelas com parapeito em granito, e nem sequer tu dormias em casa quando o edifício contíguo ruiu e desalojou os meus, repito, os meus vizinhos, porque nem isso tu conseguiste... viver comigo, e transformares-te em urtigas, patife, enquanto ela diz “FUI” eu escrevo “VOU” e se me perguntarem para onde... bom, ainda me sinto indefinido, sem saber realmente para onde, local, se possa existir um local a esta hora para aportar; nos braços de alguém? Na jangada (não a de pedra) mas, numa outra jangada... em formato normalizado, de nome cama, com uma almofada achatada, sem bolinhas nem desenhos nem bordados, enquanto ela diz “FUI” eu escrevo “VOU”...
Talvez um porto longínquo com alicerces de braços espere pelo regresso da minha barcaça, duzentos e seis ossos, e uma vela de linho, olhos verdes... e cabelo com pinceladas de amanhecer e mergulhada no cacimbo; entre o claro e o incenso amargo da loucura, e do prazer...
Enquanto ela diz “FUI”... eu... escrevo... “VOU”.

Francisco Luís Fontinha
Alijó

 

 

 

Francisco Mellão Laraya

 

 

O FRIO
Francisco Mellão Laraya

 

Este tempo frio e úmido me enregela os ossos, mas deixa-me feliz e contente. Vivo na expectativa do amanhã, do porvir...
Medito muito, penso mais ainda sobre a expectativa de vida. Queria, muitas vezes, que as pessoas dessem um tempo na sua vida para pensar, para raciocinar sobre o quotidiano, ao invés de viver por espasmos e em um frenesi alucinante a mercê dos acontecimentos.
Quem assim atua, desrespeita o livre arbítrio, que é o maior dom que Deus nos deu. Despreza o direito de escolher entre o certo e o errado, não tem consciência do ato, e culpa ao desenrolar dos acontecimentos às derrotas da vida.
O andar da carruagem se resume assim: se tudo dá certo, é conseqüência da enorme capacidade do indivíduo, no contrário, foi Deus quem quis.
Como se o viver fosse uma enorme prova que Deus dá, e os méritos coubessem apenas ao homem!
Não é bem assim! Se existe uma força maior que age no universo, e ela é justiça e amor, sua intenção é que todos sejam felizes.
A busca da felicidade é a grande prova que cada um tem que passar. Não a felicidade transitória de alguns momentos, mas de algo mais profundo que a própria existência, e na solução desta se resume a razão de viver.
Se pensarmos assim, concluiremos que céu ou inferno se resume a um estado de espírito, e o iluminar-se é preencher os vazios da alma, levando-a e a sua existência ao ápice da felicidade.
Muitas vezes há dúvidas sobre o caminho a seguir, sobre qual a escolha a fazer, e está aí a importância do livre arbítrio. Pois o estado de graça é o contato íntimo com a divindade de amor, de justiça e de paz, já a desolação é o viver na ausência da divindade, caminhando na aridez do deserto.

De Francisco Mellão Laraya

 

 

 

 

 

Livro de Visitas