FÉNIX

LOGOS Nº 3

Julho 2013

 

 
Pág 18 de 34 págs
 

Isabel C S Vargas

 

 

BRAÇO FORTE
Isabel C S Vargas

 

Madrugada. Ele acorda em sobressalto. Olha no relógio. Não passaram mais de trinta minutos desde que olhara o relógio pela última vez. Tem sido assim nos últimos tempos.
Passa os dias na rua tentando vender algo. Está difícil. Faz anúncios, divulga, de boca a boca, os produtos que tem, quando pensa que irá vender, alguém desiste. Está complicado para todo mundo. O mercado se encolhe.
À noite, tenta se distrair, não pensar nos obstáculos enfrentados durante o dia, mas, não tem como não pensar... Recebe ajuda de familiares. Não consegue se sustentar. Ainda bem que tem uma casa, disposição para trabalhar. Não completou os estudos em tempo hábil, apesar de ter estudado em escola particular. Estudou até o antigo ginásio. Só agora, depois de completar cinquenta e cinco anos fez o exame que o habilitou à conclusão do Ensino Médio. Conseguiu até uma oportunidade para frequentar um curso superior, mas tinha que ter recursos para pagar a outra parte que não era custeada pela bolsa. Então, não foi possível entrar na universidade. Não iria sobrecarregar ainda mais os familiares que já o ajudam pagando suas despesas. Seu filho mora em outra cidade, tem três filhos e algumas dificuldades, também. Enfim, não vê saída. Pessoas com dois cursos superiores, mais novas estão desempregadas. E, ele, com cinquenta e oito anos, sem nenhum, só com a cara e a coragem e, suas experiências pessoais, algumas bem sucedidas, outras não. Cheio de sonhos que ainda pretende realizar mesmo estando próximo dos sessenta anos.
Em um país que já foi de jovens e que hoje, se encaminha para o envelhecimento, não há lugar para um quase idoso voltar ao mercado de trabalho formal.
A insônia prossegue. Levanta. Abre a janela. Olha para o alto como a procurar ajuda.
“No céu risonho e límpido, resplandece o Cruzeiro do Sul”. Anima-se. Sente uma ponta de esperança. Talvez as coisas melhorem. Não fugirá à luta.
O sol de um novo dia logo irá despontar e, com ele a vontade de mudar, de não arrefecer, de encontrar seu lugar no mundo.

Isabel C S Vargas

 

 

 

Ivo Darci Mahlke

 

 

NACOS DE SAUDADE
Ivo Darci Mahlke

 
Quando homens se perdem na cidade
Buscando um mundo que é pura ilusão
Não soube a vida que teve lá fora
E hoje amarga sua solidão.

Alegrias e tristezas vividas
Tudo agora já ficou pra traz
Vivendo num mundo distante
O que era importante já não é mais.

Mas quando voltares ao campo
Nem que seja de cruzada
Ainda ouvira um buenas tarde
De um tropeiro passando na estrada.

Saudades das noites galponeiras
Do calor de um fogo de chão
Do abraço sincero da prenda
Do churrasco e do chimarrão.

De sua terra agora distante
É mais um errante no mundo a vagar
Mesmo tendo que dar a partida
O importante é sempre retornar.

Ivo Darci Mahlke - Restinga Sêca - RS - Brasil
 

 

 

Ivone Boechat

 

 

SOU APAIXONADA
Ivone Boechat

 
Sou apaixonada pela vida,
não tenho motivos pra
desanimar,
a natureza me ensinou
a podar pensamentos
e renovar...
o otimismo colocou no meu
caminho de apertos
primaveras florindo
no meio do gelo e do frio;
no meu pedido de prece,
brota um rio
de fé e de perdão,
Deus me fez crer
no desencontro,
me ensinou a fazer
pactos de felicidade
nos desacertos
da contra mão.

Ivone Boechat
 

 

 

Ivone Vebber

 

 

IGUALDADE RACIAL
Ivone Vebber

Maria Divina da Luz

 
tem olhos verdes ,lábios carnudos...
é comunista pós marxista,
pós todo mundo...
professora de filosofia
da puc,
ensaísta, poetisa,
libertária
nada punk...

abomina o consumismo
ao marrom frenético das mulatas.
sou chata, reconhece,
mas sou a massa fria
desse fogo nosso
de cada dia.....

Ivone Vebber
Caxias do Sul/RS
 

 

 

Izabel Eri Camargo

 

 

SEGREDOS DO CORAÇÃO
Izabel Eri Camargo

 
No pericárdio do meu coração
Está escrito o segredo do amor
Escuto palavras de emoção
Avisto no ar o fio condutor.

Meus olhos pintam telas com paixão
Todo cenário muda de sabor
Amo a vida em cada estação
Sinto nas tintas perfume de flor.

Vozes poéticas cantam oração
Palavras pintam fibra por fibra
Vida iluminada com louvor.

Ouvidos abraçam som da canção
No mapa do mundo passeia amor
Teias enrolam fios de ilusão.

Izabel Eri Camargo

Porto Alegre - RS - Brasil

 

 

 

Izabella Zanchi

 

 

SALMO VII
Izabella Zanchi

 
Última estátua de cera, sou Maria
E flutuo sobre o abismo –
Uma estátua enorme.

Sobrevoei o paraíso, vi seus vulcões
Misteriosos e seus lagos borbulhantes;
Seu calor queima como um homem.

Nua, embrulhinho gordo e suave,
Gosto de gravitar ao redor da lua obscena
Uma maria-mole e cheia de nádegas.

Odeio essa luz, quero as sombras –
Minha pele se derrete como manteiga!

Será que o dia vai trazer o meu amor
Será que ele me pregará na cruz

Sorrindo com suas açucenas?

Acabou-se a vida e o mundo se desfez.
Bolha ácida e fria.

Amo esta paz dos sepulcros
Porém seus anestésicos me excitam –

Quero voar nas naves sublunares.

Amor azul, partiste, tuas asas inflaram
Como uma maré misteriosa!

E eu estou aqui, guardando as torturas.

Izabella Zanchi
(Cântico dos Cânticos/1999)
 

 

 

 

 

Livro de Visitas