FÉNIX

LOGOS Nº 3

Julho 2013

 

 
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Jandira Zanchi

 

 

O FUNDO DA SOMBRA
Jandira Zanchi

 
quais peso e medida
são o vintém
de uma alma?

Se as correntes das águas,
tão morosas e sinceras,
sabiam-se destinadas
a serem supridas
por de aço e ouro
avenidas
coladas em turbilhões
de luxo e lixo
vaidades de náusea
enfim
se à direita e à nascente
da luz dadivosa
escorregaríamos nossos corpos
primários em suas primevas
pois se enfim...

aquele homem que
se alimenta de lixo
a quanto peso se pesa
a sua desdita?

Nenhuma luz apaga
o fundo da sombra
antes, nela submerge,
até arrancar da nódoa
de pouca esperança
alguma aventurança.

Mas, se espreito
o espaço e seu vôo
a alma e seus nódulos
a marcha e seus traçados

em que leveza me levo
Se de mim extraio o cerne
E do mundo vislumbro
Os ditames dos limites ?

Pois são ambos
ambivalentes
e necessários
rasgados ao esquadro
do arquiteto celeste
enamorados de
suaves e empinadas
linhas ascendentes
airosas arvoradas
ao longo infinitude.

Por que ao homem
a alma
fundo e chão
percorrendo o martírio
em seu coração de Ave?

Jandira Zanchi
Balão de Ensaio (Ed. Protexto – 2007)
 

 

 

 

Jandyra Adami

 

 

POR QUE NÃO FUI??????
(Como disse o poeta: “tenho vergonha de ser honesto” eu também digo: valeu a pena ser honesta?)
Jandyra Adami

 

Como todos sabem, passei a mocidade envolvida com desfiles, representando minha cidade e as cidades onde morei.
Era uma Top Model dos Anos 60, os ANOS DOURADOS.
Em todos os lugares que eu morava o pessoal da cidade, os visitantes, me achavam linda, maravilhosa. Jamais acreditei e não me achava, porque tinha espelho em casa e nunca me deixei levar por palavras de amigos que, carinhosamente me elevavam à um pedestal que não merecia. Tinha sim, um corpo bem feito e, por esta razão participava de desfiles, na maioria beneficentes, em todo sul de Minas.
Em 1958 participei de um desfile em Lambari e ganhei o título de EMBAIXATRIZ DO TURISMO devendo ir representar a cidade num evento em Poços de Caldas, em outubro do mesmo ano. Lá estariam 63 moças dos Estados de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro. Ficamos hospedadas num hotel de luxo e tivemos todas as regalias que hoje vemos com as misses pela tv. Consegui ficar entre as 10 finalistas, o que me causou surpresa, pois eram lindas demais para ficarem de fora. No momento em que eu desfilava, um Deputado presente ao júri, pegou o microfone e brincou:
“Lambari??Esta moça é um peixão”. Isto depois de ser convidada a entrar na passarela, chamada por MISS LAMBARI.
No ano seguinte,o Presidente Juscelino foi a Cambuquira, numa festa a ele dedicada e os anfitriões convidaram todas as misses da redondeza para dançar a valsa com o nosso PÉ DE VALSA, tão adorado por mim. Fiquei entusiasmada com a possibilidade de conhecer o meu ídolo, o meu sonho, o maior brasileiro que eu achava, mesmo antes de construir Brasília. Estava de malas prontas para tal festa e, na última hora desisti.Minha mãe, que adorava festa, insistiu comigo para que fossemos mas eu resolvi não ir. Tinha medo de que Juscelino me apertasse em seus braços ou simplesmente apertasse minhas mãos. Se todo mundo me achava bonita, ele deveria achar também e ficar interessado. Eu tinha uma pintinha acima dos lábios que me dava um "it" especial. (Como da Marisa, da mini série, interpretada pela Letícia Sabatela)...
Resisti a todos os desejos e não fui. Perdi a grande chance de ter em meus braços ou estar nos braços do homem mais amado por todos os brasileiros, naquela época. Meu medo, minha honestidade excessiva, me tirou este prazer e hoje me arrependo tremendamente por não ter ido ao baile. Que eu perdesse a idolatria que tinha por ele mas, talvez hoje,estivesse na mini série como uma possível “namorada” de J.K. ainda viva, com os repórteres em minha porta a fazer perguntas. Digo namorada porque sei que, nada mais poderia ser em vista da criação que tive, aquele ranço que veio de nossos avós, da mulher perfeita, digna, honesta. (Também porque minha mãe, minha eterna companheira, sempre ao meu lado, não permitiria, mesmo que eu tivesse um ataque de loucura, ela estaria por perto me amparando e colocando as coisas nos devidos lugares.) Que deveria se guardar para o marido, primeiro e único, senhor de todos os poderes sobre o corpo infantil daquela quase mulher... Deveria ter ido, sentir todas as emoções que as misses sentiram, as que compareceram. Valsar com JK, conversar com ele, como sempre fiz com outras personalidades que conheci, como Tancredo Neves, outro ídolo que permanecerá em meu coração até que eu parta desta vida.
Outro dia, vendo Letícia Sabatela, timidamente chegar até JK e entregar um bouquet de flores, eu me senti a própria. Eu viajei no tempo e compareci ao baile de Cambuquira. Era ali, daquele jeito que eu dancei com Juscelino, olhando olhos nos olhos, tendo sua mão entre as minhas, seu sorriso de encontro ao meu.
De que valeu minha honestidade? Meu medo que ele me apertasse? De que valeu o que não fiz e fiquei levando a vida sem ter o que recordar agora? Nenhum amigo ou conhecido fez ou sentiu qualquer coisa com este meu ato de PUREZA... Ninguém notou que me castrei naquele dia e hoje amargo a desilusão de não ter ido àquele baile. Ninguém pagou minha comida, ninguém me deu roupas para vestir. Tudo que tive e tenho devo ao meu trabalho e a ajuda de Deus.
Somente Ele poderá dar o valor ao meu ato, somente Ele vai reconhecer, um dia, que minha honestidade valeu a pena, seguindo Seus Mandamentos. Mas isto, só quando eu já tiver atravessado os PORTÕES DOURADOS e ninguém mais se lembrar de mim como pessoa. Mas hoje... como me arrependo de ter sido honesta, meu Deus....
09- fevereiro de 2006
Jandyra Adami

 

 

 

Janete Sales Dany

 

 

O HOMEM TRISTE SORRIU!
Janete Sales Dany

 
Um homem caminhava pelas ruas ensolaradas
Ele carregava um semblante triste e desolador
A sensação era de que ele não conhecia a palavra amor

E nas ruas ele não observava a ternura das crianças
Elas brincavam e estavam a sorrir
Nem mesmo o sorriso delas conseguia lhe distrair!

Ele passava por lugares floridos
Não percebia que às vezes pisava numa linda flor
No mundo dele não havia nitidez e cor!

Insensível também a dor alheia
Olhava com ódio se alguém lhe estendesse a mão
Carregava um coração endurecido,
sem nenhuma emoção!

Nem mesmo um arco Iris possuía beleza
Ele só enxergava nuvens escuras
Estava vivendo momentos de loucura!

Ele padecia ao ver imagens que surgiam do passado
Ele destruía o presente com lamúrias de outrora
E fatalmente assassinava o futuro a toda hora!

Nem mesmo um lago parado conseguia lhe acalmar
Neste desenho ele enxergava ondas imensas
E o que era sublime ele tratava com indiferença!

Ele não olhava a claridade das estrelas
Não observava a chuva umedecendo a terra
A sensação é que ele estava a caminho da guerra!

Introspectivo, ele andava num terreno só dele
Onde habitavam os monstros do passado
Preso por algo sem conserto, num mundo perdido e alienado!

Ele dava as costas para o sol
E rejeitava o que era belo
Ele pressentia que estava ficando cego!

Ele rezava todas as noites à procura de socorro
E ao rezar o raciocínio dele caminhava para a escuridão
Ele se entregava as mágoas que lhe habitavam o coração!

Certa noite ele dormiu rezando
Sonhou que a morte havia chegado
E que tinha perdido tudo e que estava sendo enterrado!

No desespero ele quis ver o sol nascer de novo
E desejou enxergar o sorriso de uma criança
Ironia do destino,
pois o fim reacendeu-lhe a esperança!

E no sonho ele clamou com receio da morte lhe abraçar
Ele se viu sucumbindo nas profundezas do adeus
E nesta hora ele implorou por Deus!

Já era de manhã quando ele finalmente despertou de um sonho desvairado
Ele abriu a janela do quarto e observou um pássaro voando no céu de anil
E aconteceu um milagre; o homem triste sorriu!

Janete Sales Dany
 

 

 

Jesusa Perez Estevez

 

 

LÁ NO CANTINHO
Jesusa Perez Estevez

 
Levanto-me de madrugada
Olho as estrelas,
Ouço os grilos, os sapos,
Os cães que ladram.
O galo canta lá na vizinha!
Olho o despertador
Que se encolhe no cantinho...
De certo ainda é cedo
Para despertar de um novo dia.
O silêncio é maravilhoso!
Nele a natureza se manifesta
Devagarzinho...
Nesse momento se sente o paraíso!
O sereno sacia
E no frescor dele
As plantas se revitalizam...
A dama da noite exala o perfume
E devagar se sente na brisa.
Depois do prazer de ver e sentir
Vou me encolhendo.
E aos pouquinhos me junto a você
Lá no cantinho.

Jesusa Perez Estevez
www.jesusaperezestevez.com
 

 

 

João Bosco Soares dos Santos

 

 

MEUS CANTARES.
João Bosco Soares dos Santos

 
Vão... vão... e vão, ó Cantares,
Em deslumbres exemplares
Com magias salutares
As tristezas abater.

Espalhem por todas as gentes
De culturas diferentes
A alegria de viver.

Vão construir novos sonhos
Traçar trilhas de esperança
E transformar em criança
Os pobres viventes bisonhos.

Vão, pérolas vagantes,
Pelos espaços avoantes,
Em missão de luz e paz.

Vão...
Em vôos de estímulos à vida,
Curando toda ferida
Que a tristeza teceu.

Vão...
Pelos espaços infinitos,
Despertando e sendo grito
De afeto, ternura e amor.

Tragam as gotas de perdão esquecidas pelo mundo
Escondidas em roldão pela estúpida ambição.
Busquem a complacência e o amor
O afeto encantador
Que a felicidade guardou
Em bilhões de corações.

E colham de toda estrela
A luz, a fé e a esperança
- que a mente humana alcança -
Isentas de toda dor.

E coloquem em todo ser
A força do bem-querer
Como centelha e flor.

João Bosco Soares dos Santos
 

 

 

Joaquim Marques

 

 

DESTINO CRUEL
Joaquim Marques

 
Para onde te querem levar, Portugal?
Diz, com lágrimas nos olhos, o povão
Que, sem fé e com enorme desilusão,
Já não consegue destrinçar o bem do mal.

Que destino cruel o teu, nobre Nação!
Que vozes são estas que chegam até nós?
Talvez sejam de nossos egrégios avós,
Vindas nas ondas do mar em evolução…

Delas, transparece em sua espuma,
O desdouro que entristece muitas almas
Que viveram no passado dando as mãos.

Acolho em meu peito mágoa imensa
Porque deste nobre País, sou pertença
E sofro, com o carpir de meus irmãos.

Joaquim Marques
Porto-PORTUGAL
15-05-2013
 
 

 

 

 

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